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24 – Bullying e Cyberbullying: Como Proteger Seu Filho

Bullying e cyberbullying deixaram de ser “brincadeira”. Entenda como a violência escolar evoluiu, quando vira crime, o papel da polícia, das escolas e das famílias na proteção de crianças e adolescentes

Bullying e Cyberbullying – Durante décadas, o bullying foi tratado como um problema menor, quase um rito de passagem da infância. Apelidos ofensivos, humilhações repetidas e exclusões sociais eram frequentemente relativizados por adultos como “coisas de criança”. Essa leitura simplista, no entanto, não se sustenta diante do aumento exponencial de casos de violência escolar, automutilação, abuso sexual entre menores e indução ao suicídio associados a práticas persistentes de intimidação física, emocional e digital.

Hoje, o bullying e o cyberbullying deixaram de ser apenas um desafio pedagógico para se tornarem uma questão de segurança pública, saúde mental e proteção integral da infância e da adolescência. A Polícia Civil, o Ministério Público e o Judiciário passaram a lidar com ocorrências que extrapolam conflitos interpessoais e se enquadram claramente como crimes, inclusive dentro do ambiente escolar.

Em entrevista concedida ao Direto Aos Fatos, o Policial Civil Rodrigo Alessandro Ferreira, da Polícia Civil do Estado de Santa Catarina analisa o fenômeno sob a ótica policial e legal, explica como essas violências se estruturam, por que se intensificaram nos últimos anos e quais são as consequências reais quando famílias, escolas e plataformas digitais falham na proteção dos menores.

De acordo com o policial, “o bullying é uma violência intencional, repetitiva e baseada em desequilíbrio de poder, que causa danos físicos, emocionais ou morais, com base na literatura especializada (p.ex. Ana Beatriz Barbosa Silva; Cléo Fante)”, destacada.

Ferreira também podera que “do ponto de vista policial, ele é analisado como conduta capaz de configurar diversos crimes, mesmo quando praticado dentro da escola. Cyberbullying é a mesma dinâmica, mas ampliada no ambiente digital — onde o dano é multiplicado pela exposição contínua e permanência das ofensas. Ambos exigem registro, apuração e preservação de provas.”.

A violência sempre existiu, mas hoje ela se expressa com mais intensidade porque os ambientes de convivência tornaram-se mais complexos, competitivos e agressivos. A falta de empatia social e quebra de barreiras morais. No cyberbullying há ainda a falta de resposta direta, ou seja, o agressor não vê a reação imediata da vítima, o que desumaniza o alvo e reduz a noção do dano causado. E ainda, a ausência de habilidades socioemocionais, combinada à influência de modelos violentos, inclusive digitais, faz com que agressões físicas e emocionais se tornem mais explícitas e graves, diz o policial.


A Mente do Agressor: Um Perfil Psicológico Detalhado

Para compreender a dinâmica do bullying, é fundamental analisar a estrutura psicológica daquele que o perpetra. Especialistas em psicologia e comportamento humano apontam para um conjunto de traços e características que, embora não sejam universais, aparecem com frequência nos agressores. Uma das características centrais é uma acentuada necessidade de domínio e controle sobre os outros. Esse desejo de poder muitas vezes mascara profundas inseguranças e uma baixa autoestima. Ao diminuir o outro, o agressor busca uma forma disfuncional de se sentir superior e de validar a si mesmo perante o grupo.

Segundo o Policial Civil Rodrigo Alessandro Ferreira, são multiplos os fatores que levam os agressores tão jovens a desenvolverem comportamentos tão violentos. “A imaturidade emocional, necessidade de afirmação social, reprodução de modelos familiares ou comunitários agressivos, influência de pares e exposição precoce a conteúdos violentos, extremistas. Soma-se a isso ausência de limites e falha na mediação adulta.”, explica Ferreira.

O temperamento do agressor é frequentemente marcado pela impulsividade e por uma reatividade explosiva. Eles demonstram uma notável dificuldade em gerenciar a raiva e outras emoções negativas, recorrendo à agressão como principal ferramenta para lidar com frustrações. Essa agressividade não é seletiva; ela tende a se manifestar de forma generalizada em diferentes contextos de sua vida. Aliado a isso, um dos traços mais preocupantes é a ausência ou o baixo nível de empatia.

O agressor demonstra uma incapacidade de se colocar no lugar da vítima e de compreender a dimensão do sofrimento que suas ações causam. Em muitos casos, há uma atitude positiva em relação à violência, vista como um meio legítimo e eficaz para resolver conflitos ou alcançar objetivos.

Fatores familiares e ambientais também desempenham um papel crucial na formação do agressor. Muitos agressores vêm de lares onde a comunicação é falha, a disciplina é inconsistente ou excessivamente punitiva, e a violência, seja ela física ou verbal, é um comportamento normalizado. A exposição a um ambiente familiar desestruturado ou a desavenças constantes pode contribuir para o desenvolvimento de comportamentos agressivos como forma de expressão e sobrevivência emocional.

A Teoria da Aprendizagem Social, proposta por Albert Bandura, é particularmente relevante para entender essas origens. Ela postula que o comportamento agressivo é, em grande parte, aprendido através da observação e imitação. Crianças que testemunham agressão em casa – seja entre os pais ou direcionada a elas – ou que são expostas a modelos agressivos na mídia ou em seu círculo social, aprendem que a violência é uma forma aceitável e eficaz de interagir com o mundo. O agressor, nesse contexto, está replicando um roteiro comportamental que lhe foi ensinado, direta ou indiretamente.

A Teoria do Apego, de John Bowlby, oferece outra perspectiva importante. Um apego inseguro ou desorganizado com os cuidadores primários na primeira infância pode levar a dificuldades no desenvolvimento da empatia e da regulação emocional. Uma criança que não experimenta um vínculo seguro e afetuoso pode desenvolver uma visão de mundo onde as relações são baseadas em poder e controle, em vez de confiança e reciprocidade. Essa falha fundamental na capacidade de se conectar emocionalmente com os outros é um terreno fértil para o desenvolvimento de comportamentos de bullying.

Os agressores frequentemente empregam uma série de distorções cognitivas para justificar suas ações e mitigar qualquer sentimento de culpa. Eles podem culpar a vítima (“ele provocou”), minimizar os danos (“era só uma brincadeira”), ou desumanizar o alvo, tratando-o como um objeto indigno de respeito. Esses mecanismos de autojustificação são essenciais para que o agressor possa manter uma autoimagem positiva enquanto se engaja em comportamentos prejudiciais. O grupo de pares também exerce uma influência imensa, podendo reforçar e validar o comportamento agressivo, conferindo status e popularidade ao agressor.


O Cérebro Sob Ataque: A Neurociência da Vitimização por Bullying

As consequências do bullying para a vítima vão muito além do sofrimento emocional visível. Pesquisas recentes no campo da neurociência têm revelado que a exposição contínua a esse tipo de estresse crônico provoca alterações significativas na química e na estrutura cerebral. Um estudo de grande relevância, publicado na revista Molecular Psychiatry e divulgado por veículos como O GLOBO, demonstrou que adolescentes que sofrem bullying apresentam níveis mais baixos de um neurotransmissor essencial, o glutamato, em uma área específica do cérebro: o córtex cingulado anterior. [1]

Esta região é fundamental para a regulação das emoções, para o processo de tomada de decisões e para o controle cognitivo. O glutamato, por sua vez, é o neurotransmissor excitatório mais abundante no sistema nervoso, desempenhando um papel vital na aprendizagem, na memória e na regulação do humor. A diminuição dos níveis de glutamato nessa área crítica está associada a um maior risco de desenvolvimento de experiências psicóticas subclínicas, que incluem sintomas como paranoia, alucinações auditivas ou visuais e alterações radicais no pensamento. Essas experiências, embora não configurem um diagnóstico completo de um transtorno psicótico como a esquizofrenia, representam um fator de risco considerável para o desenvolvimento de doenças mentais mais graves no futuro.

Além das alterações no sistema glutamatérgico, o cérebro da vítima de bullying é inundado por altos níveis de cortisol, o hormônio do estresse. A exposição prolongada ao cortisol tem um efeito tóxico sobre o cérebro, sobrecarregando estruturas como o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, controle de impulsos e modulação do comportamento social. O medo e o estresse constantes podem levar a uma hiperativação da amígdala, o centro de processamento do medo no cérebro, tornando a vítima mais reativa a ameaças e perpetuando um estado de ansiedade e hipervigilância.

O tratamento do estresse crônico envolve o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), que é ativado repetidamente em vítimas de bullying. A consequência direta é a produção excessiva de cortisol. Em níveis agudos, o cortisol é adaptativo, mas sua presença crônica no cérebro tem efeitos deletérios. Ele pode danificar neurônios no hipocampo, uma estrutura vital para a formação de memórias e para a regulação do eixo HPA. Um hipocampo danificado tem mais dificuldade em “desligar” a resposta ao estresse, criando um ciclo vicioso de ansiedade e reatividade.

O impacto no córtex pré-frontal merece uma análise mais detalhada. O CPF é o “centro executivo” do cérebro, responsável por funções executivas como o controle de impulsos, o planejamento de longo prazo, a tomada de decisões complexas e a modulação do comportamento social. O estresse crônico prejudica a conectividade e o funcionamento do CPF. Isso explica por que vítimas de bullying podem apresentar dificuldades de concentração, queda no desempenho acadêmico e problemas para controlar suas próprias reações emocionais. A comunicação entre o CPF e a amígdala, que deveria ser de regulação, torna-se deficiente. O resultado é uma amígdala hiperativa que percebe ameaças em toda parte.


Do Pátio da Escola ao Banco dos Réus: Perfilamento Criminal e Implicações Legais

Rodrigo Ferreira explica que não há diferença entre escola pública e privada se tratando de bullying e cyberbullying. “É importante lembrar também agremiações e ambientes esportivos (escolinhas de futebol, clubes de tênis de mesa, projetos sociais), onde há convivência de crianças/adolescentes sem supervisão adequada.”, explica o Rodrigo.

A análise do comportamento agressivo no bullying sob a perspectiva da psicologia forense e do perfilamento criminal revela uma continuidade preocupante entre a agressão na juventude e a criminalidade na vida adulta. O perfil do agressor de bullying compartilha muitas características com diagnósticos psiquiátricos associados a comportamentos criminosos, mais notavelmente o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS).

O TPAS, conforme descrito nos manuais de diagnóstico como o DSM-5, é caracterizado por um padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros. Indivíduos com TPAS frequentemente demonstram incapacidade de se conformar às normas sociais, propensão a enganar, impulsividade, irritabilidade, agressividade e uma notável falta de remorso.

Muitos desses traços são versões intensificadas dos comportamentos observados em agressores de bullying. A prática de intimidar, humilhar e agredir os outros na infância e na adolescência pode ser vista como um campo de treinamento para comportamentos antissociais mais graves.

Dentro do espectro do TPAS, encontramos os conceitos de psicopatia e sociopatia. Embora não sejam diagnósticos formais no DSM-5, são construtos clínicos e forenses utilizados para descrever subtipos de personalidade antissocial. O psicopata, em particular, é caracterizado por uma ausência total de empatia e por um charme superficial que utiliza para manipular os outros. O comportamento de bullying, especialmente em suas formas mais calculistas e manipuladoras, pode ser um indicador precoce de traços psicopáticos.

O perfilador criminal, ao analisar um crime, busca entender a motivação e o comportamento do agressor. Um histórico de bullying é frequentemente um dado relevante que ajuda a compor o quadro de um indivíduo com tendências à violência e à violação de regras.

A relação entre bullying na juventude e criminalidade na vida adulta não é uma mera correlação, mas sim uma trajetória de desenvolvimento bem documentada na literatura criminológica. O que começa com insultos e agressões físicas no pátio da escola pode evoluir para vandalismo, furto, abuso de substâncias e, eventualmente, crimes violentos.

O diagnóstico de Transtorno de Conduta na infância ou adolescência é um forte preditor de um diagnóstico de Transtorno de Personalidade Antissocial na idade adulta. O Transtorno de Conduta é caracterizado por um padrão persistente de comportamento no qual os direitos básicos dos outros ou as principais normas sociais são violados. Isso inclui agressão a pessoas e animais, destruição de propriedade, fraude ou roubo. O bullying é, por definição, um sintoma central deste transtorno.


Características e Impactos do Cyberbullying

O advento da internet e das redes sociais transportou a dinâmica do bullying para uma nova arena, dando origem ao cyberbullying. Esta modalidade de agressão possui características que a tornam, em muitos aspectos, ainda mais danosa que a sua contraparte tradicional. A principal diferença reside na sua natureza pervasiva. Enquanto o bullying tradicional estava, em grande parte, confinado ao espaço físico da escola, o cyberbullying invade a vida da vítima 24 horas por dia, 7 dias por semana. O refúgio do lar deixa de existir, pois a agressão chega através do celular, do computador, a qualquer momento.

Outro fator que intensifica o impacto do cyberbullying é o potencial de anonimato que a internet oferece. O agressor pode se esconder atrás de perfis falsos, o que o encoraja a ser ainda mais cruel, uma vez que a percepção de impunidade é maior. Além disso, o alcance da humilhação é exponencialmente maior. Uma foto, um vídeo ou um boato podem ser compartilhados com centenas ou milhares de pessoas em questão de minutos, criando uma audiência massiva para o sofrimento da vítima e tornando o sentimento de vergonha e exposição quase insuportável.

O cyberbullying não é uma entidade monolítica. Ele se manifesta de várias formas, cada uma com seu próprio grau de sofisticação e potencial de dano. O “flaming” refere-se a trocas de mensagens raivosas e vulgares em ambientes online. A “perseguição” (stalking) envolve o envio repetido de mensagens ameaçadoras ou assediadoras. A “difamação” consiste em espalhar boatos ou informações falsas sobre alguém para prejudicar sua reputação. Uma das formas mais cruéis é a “exclusão”, onde a vítima é intencionalmente deixada de fora de grupos online.

O “outing” ou “trickery” envolve enganar alguém para que revele informações sensíveis ou embaraçosas e depois compartilhar essas informações publicamente. A “impersonificação” ocorre quando o agressor se passa pela vítima, criando perfis falsos ou invadindo suas contas para postar conteúdo prejudicial em seu nome. O fenômeno do “doxing”, a prática de pesquisar e divulgar publicamente informações de identificação pessoal sobre um indivíduo, leva a ameaça do mundo virtual para o mundo real, colocando a segurança física da vítima em risco.

Ao ser questionado pela reportagem sobre quais são as consequências emocionais e psicológicas que o bullying e cyberbullying causam nas vítimas, Ferreira é categorico ao explicar que, embora ele atue na Policia Civil de Santa Catarina, com base na sua experiência, os efeitos mais relatos são: ansiedade, depressão, isolamento, queda do rendimento escolar, automutilação e ideação suicida.

“Sou bacharel em Direito e atuo na Polícia Civil do Estado de Santa Catarina, não sou psicólogo, mas, com base em estudos e na prática policial, os efeitos mais relatados por especialistas incluem: ansiedade, depressão, isolamento, queda do rendimento escolar, automutilação e ideação suicida. Esses efeitos estão bem documentados na literatura sobre impactos psicológicos do bullying e cyberbullying.”

As consequências psicológicas do cyberbullying são devastadoras. Estudos, como os revisados em publicações da área de psicologia clínica, indicam que as vítimas de cyberbullying apresentam taxas significativamente mais altas de depressão, ansiedade, isolamento social e ideação suicida. [2] A natureza incessante e pública da agressão online pode levar a um sentimento de desesperança e aprisionamento, contribuindo para o desenvolvimento de transtornos mentais graves.


A Psicologia por Trás da Crueldade Online

A psicologia por trás dessa crueldade online é frequentemente explicada pelo “efeito de desinibição online”. A combinação de anonimato (não saber quem eu sou), assincronia (não ter que lidar com a reação imediata da pessoa) e distância física (não ver a dor que estou causando) cria uma tempestade perfeita que remove muitas das barreiras sociais e psicológicas que normalmente inibem o comportamento agressivo.

Pessoas que jamais seriam abertamente cruéis na vida real podem se transformar em agressores no ambiente digital, sentindo-se dissociadas de suas ações e de suas consequências.

O policial acredita que a normalização dos discursos extremos e a banalização do ódio nas redes sociais têm contribuído para o aumento dos casos: “A normalização de discursos extremos, o acesso a conteúdo radicalizante e a facilidade de difusão reduzem inibições e podem favorecer a reprodução de ódio e violência entre jovens — fenômeno já discutido em nossos chats e na literatura sobre radicalização online.”

O perfil do agressor no cyberbullying pode incluir, além dos traços já mencionados, indivíduos que talvez não tivessem a coragem de agredir face a face, mas que se sentem fortalecidos pela distância e pelo anonimato do meio digital. Esses indivíduos podem apresentar problemas de agressividade, hiperatividade ou impulsividade, bem como abuso de substâncias.

Além disso, aqueles com características de personalidade que lembram a “tétrade negra” do narcisismo e psicopatia podem estar em risco de cyberbullying. Esses indivíduos tendem a ter um baixo nível de empatia por outras pessoas e podem intimidar outras pessoas como forma de aumentar seu senso de poder ou valor.


A Visão da Psiquiatria

Do ponto de vista psiquiátrico, tanto o bullying quanto o cyberbullying são considerados fatores de risco ambientais graves para o desenvolvimento de uma ampla gama de transtornos mentais. Para a vítima, a experiência traumática da agressão contínua pode ser o gatilho para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), fobia social, episódios depressivos maiores e transtornos alimentares.

O diagnóstico preciso é o primeiro passo para uma intervenção eficaz. O tratamento para as vítimas geralmente envolve uma abordagem multimodal, que pode incluir psicoterapia, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), para ajudar a reestruturar pensamentos negativos e desenvolver estratégias de enfrentamento. Em casos onde os sintomas são mais severos, a intervenção farmacológica com antidepressivos ou ansiolíticos pode ser necessária para estabilizar o humor e reduzir a ansiedade, permitindo que o paciente se engaje de forma mais eficaz na psicoterapia.

Terapias focadas no trauma, como o EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), podem ser extremamente eficazes para processar memórias traumáticas e reduzir a reatividade emocional. O treinamento em habilidades sociais e assertividade também é fundamental para que a vítima aprenda a estabelecer limites e a se defender de forma saudável.

Para o agressor, a intervenção também é crucial. É um erro vê-lo apenas como um vilão; muitas vezes, ele também é um indivíduo em sofrimento, com suas próprias vulnerabilidades e problemas de saúde mental. A avaliação psiquiátrica pode identificar transtornos subjacentes, como o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) ou o Transtorno de Conduta, que são precursores comuns do Transtorno de Personalidade Antissocial. A intervenção pode envolver terapia familiar sistêmica, treinamento de habilidades sociais e de controle da raiva, e o tratamento de quaisquer comorbidades psiquiátricas.

A terapia familiar sistêmica é muitas vezes indicada, pois o comportamento do agressor raramente ocorre em um vácuo; ele está frequentemente inserido em uma dinâmica familiar disfuncional. Trabalhar com a família inteira pode ajudar a corrigir padrões de comunicação e disciplina que contribuem para a agressão. Programas de treinamento de controle da raiva e, crucialmente, de desenvolvimento da empatia são componentes centrais do tratamento. Atividades que incentivam a tomada de perspectiva podem, gradualmente, ajudar a construir as conexões neurais para a empatia que estão subdesenvolvidas.


Prevenção e Construção de Uma Cultura de Respeito

A prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz. Programas escolares que promovem a educação socioemocional, ensinando habilidades como autoconsciência, autogestão, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisão responsável, têm se mostrado promissores na redução da incidência de bullying. Criar uma cultura escolar onde a gentileza e o respeito são valorizados e onde a agressão não é tolerada, nem pelos adultos nem pelos próprios alunos, é o antídoto mais efetivo contra essa forma de violência.

É preciso investir em programas de prevenção que promovam a empatia e a inteligência emocional desde a primeira infância. É imperativo criar canais seguros para que as vítimas possam denunciar as agressões sem medo de retaliação e receber o apoio psicológico e psiquiátrico de que necessitam. As escolas devem implementar políticas claras de tolerância zero ao bullying, com consequências consistentes para os agressores e apoio contínuo para as vítimas.


Confira os Melhores Trechos da Entrevista

1. Quais sinais comportamentais costumam indicar que uma criança ou adolescente está sendo vítima de bullying ou violência digital?

Isolamento social, queda no rendimento escolar, evasão ou medo de ir à escola, alterações bruscas de humor, distúrbios do sono, vergonha de falar sobre o celular, mudanças no padrão de uso da internet e uso de roupas compridas para esconder sinais de automutilação.

A análise do bullying e do cyberbullying revela um cenário complexo e preocupante, que transcende a ideia de simples conflitos interpessoais. Estamos diante de um problema de saúde pública com profundas raízes psicológicas e graves consequências neurobiológicas e sociais. O perfil do agressor, com sua necessidade de domínio, falta de empatia e impulsividade, muitas vezes sinaliza um caminho que pode levar a transtornos de personalidade e a uma vida de criminalidade. Para a vítima, o impacto é igualmente severo, com o estresse crônico alterando a própria arquitetura de seu cérebro e abrindo as portas para uma vida de sofrimento psíquico.

2. Existe um “perfil” mais comum entre vítimas e autores de bullying?

Há padrões, mas não “um único perfil” na minha ótica. Vítimas costumam ser aquelas percebidas como diferentes ou vulneráveis; autores frequentemente mostram baixa regulação emocional e buscam poder ou status no grupo. Há, ainda, uma distinção útil entre liderança (capacidade de influenciar positivamente, com aceitação) e poder (capacidade de impor, controlar ou coagir) e confundir liderança com poder pode levar a interpretações erradas sobre quem exerce influência no grupo e como a dinâmica de bullying se organiza.

Encarar esse desafio exige uma resposta coordenada da sociedade, envolvendo pais, educadores, profissionais de saúde e o sistema de justiça. É essencial intervir junto aos agressores, não apenas com medidas punitivas, mas com uma abordagem terapêutica que vise tratar as causas de seu comportamento, quebrando um ciclo de violência que, se não for interrompido, continuará a gerar dor e a comprometer o futuro de nossas crianças e adolescentes.

3. Uma menina de 11 anos foi morta por colegas dentro do banheiro da escola porque não quis namorar um menino da mesma idade. O que se dá esse aumento da violência escolar e a falta de compreensão sobre consentimento e respeito ao limite do outro?

Entendo que trata-se de falha coletiva, em que a ausência de educação sobre consentimento, incapacidade de lidar com frustração, supervisão insuficiente, e reprodução de modelos de poder e violência observados no convívio (doméstico, midiático e digital). A combinação de ignorância sobre limites, erotização precoce e cultura de impunidade facilita escaladas trágicas. E ainda, o componente de misoginia, eis que muitos meninos crescem acreditando ter direito ao corpo ou à atenção das meninas, interpretando a recusa como ofensa pessoal. Esse padrão reforça comportamentos de controle e agressividade e contribui diretamente para episódios de violência motivados pela negativa da vítima.

4. Os autistas e outros neurodivergentes são as vítimas preferenciais? Por que esse aumento da intolerância contra os diferentes?

Sim, autistas e pessoas com TDAH, dislexia e outras neurodivergências são frequentemente alvo por se diferenciarem no comportamento ou na comunicação. Neurodivergência não é doença. A resposta passa por capacitação docente, campanhas de conscientização e protocolos de proteção que abordem inclusão e combate à intolerância.

5. Há alguns meses vimos um menino autista de 07 anos foi estuprado por um aluno da mesma idade se utilizando de um lápis. Como é possível alguém tão novo pensar e fazer um ato tão perverso.

Tal crueldade emerge de conjunções perigosas, como: ausência de supervisão, exposição a material sexualizado/violento do agressor, imitação de comportamentos que a criança não compreende e falta de ensinamento sobre limites corporais. Mesmo sem plena consciência, crianças reproduzem atos que viram ou sofreram, por isso a responsabilização da rede adulta é central e urgente.

6. O senhor acredita que se tivéssemos salas especiais, os alunos que possuem algum tipo de deficiência estariam mais protegidos?

Não, a segregação tende a estigmatizar e a reduzir oportunidades de sociabilidade segura. A solução eficaz é inclusão com proteção: escolas inclusivas, equipes capacitadas, protocolos ativos e intervenção imediata. Salas “especiais” não substituem políticas de proteção universal e não ensinam empatia.

7. O Discord é um dos responsáveis pelo cyberbullying?

Plataformas não “responsabilizam” por si; porém o Discord, por oferecer canais fechados, anonimato e chats persistentes, pode ser palco de cyberbullying e persividade. O ECA Digital, recém aprovado, deve ampliar a proteção estatal e a “cooperação” com plataformas.

8. Nas investigações, quais plataformas e redes sociais aparecem com maior frequência como palco de cyberbullying?

Não há rol taxativo, entendo que a dinâmica muda com rapidez e conforme as investigações e a publicidade. Atualmente aparecem com frequência: Instagram, TikTok, WhatsApp, Discord, Telegram e jogos online (Roblox que é um metaverso) com chat. A lista é indicativa, não exaustiva e estajamos atendos para aplicativos estranhos poucos usados no Brasil, neste caso o alerta é máximo tendo em vista que o menor já pode estar sendo vítima de Gromming.

9. Como os pais podem identificar que o filho está sendo alvo de ataques virtuais, já que muitas vítimas escondem a situação?

Sinais como mudanças de humor, medo de notificações, isolamento, evasão escolar, insônia, resistência em mostrar o celular, roupas compridas (para ocultar lesões e automultilação) e pedidos exagerados de PIXs (mesmo valores pequenos) que podem indicar chantagem ou extorsão digital e estejam atento às Bets.

10. Que tipo de prova digital a polícia considera essencial para iniciar uma investigação de cyberbullying?

Prints completos, com datas e contexto, links e URLs, vídeos, áudios, identificação de perfis e logs. É extremamente importante não excluir o conteúdo; preservar metadados quando possível; e solicitar à plataforma a preservação formal (tombamento/preservação judicial). Além disso, não excluir o conteúdo possibilita a cadeia de custódia.


EXTRAS

Aspectos Legais e Responsabilidade Criminal

A legislação em diversos países tem evoluído para reconhecer o bullying e o cyberbullying como condutas passíveis de responsabilização legal. No Brasil, a Lei nº 13.185/2015 institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying), estabelecendo diretrizes para a prevenção e o combate ao fenômeno. O cyberbullying, por sua vez, pode ser enquadrado em diversas tipificações penais, como injúria, difamação, calúnia, ameaça e, em casos mais graves, crimes contra a honra ou até mesmo crimes de natureza sexual quando envolver exploração de imagens íntimas.

A responsabilidade criminal dos agressores menores de idade é um tema complexo. Embora a imputabilidade penal no Brasil comece aos 18 anos, adolescentes entre 12 e 18 anos podem ser responsabilizados por atos infracionais. As medidas socioeducativas aplicadas a adolescentes agressores variam desde advertência e obrigação de reparar o dano até internação em instituição educacional. O objetivo dessas medidas é não apenas punir, mas também reeducar e reintegrar o adolescente à sociedade.

Para os agressores maiores de idade, as penas podem ser mais severas, incluindo multas e até prisão, dependendo da gravidade dos atos. A jurisprudência tem reconhecido que o cyberbullying pode causar danos morais significativos, levando a condenações em ações civis de indenização. Esses precedentes legais são importantes, pois sinalizam que a agressão online não é sem consequências e que as vítimas têm direito a reparação pelos danos sofridos.

O Papel das Redes Sociais e Plataformas Digitais

As plataformas de redes sociais e aplicativos de mensagem têm um papel crucial na disseminação do cyberbullying. Embora essas plataformas ofereçam ferramentas para denunciar conteúdo abusivo, muitas vezes a resposta é lenta ou inadequada. A responsabilidade das plataformas em moderar conteúdo e proteger seus usuários tem sido objeto de intenso debate legal e ético. Algumas jurisdições têm implementado legislação que responsabiliza as plataformas por conteúdo prejudicial, incentivando-as a investir em sistemas de moderação mais eficazes.

A inteligência artificial e o aprendizado de máquina estão sendo cada vez mais utilizados para detectar e remover conteúdo de cyberbullying. No entanto, esses sistemas não são perfeitos e frequentemente falham em captar o contexto nuançado de certas formas de agressão. A combinação de moderação automatizada com revisão humana é considerada a abordagem mais eficaz. Além disso, as plataformas estão implementando recursos como a filtragem de comentários ofensivos em tempo real e a possibilidade de os usuários controlarem quem pode comentar em suas postagens.

Impacto Socioeconômico e Saúde Pública

O bullying e o cyberbullying têm impactos significativos na saúde pública e na economia. O absenteísmo escolar relacionado ao bullying resulta em perda de dias de aula e queda no desempenho acadêmico. A longo prazo, isso pode levar a menores oportunidades educacionais e profissionais para as vítimas. Os custos associados ao tratamento de transtornos mentais resultantes do bullying, incluindo psicoterapia, medicação e hospitalizações, representam um ônus considerável para os sistemas de saúde.

Além disso, há custos indiretos relacionados à perda de produtividade no trabalho quando adultos que foram vítimas de bullying na infância enfrentam dificuldades de saúde mental. Estudos epidemiológicos têm documentado que indivíduos que sofreram bullying têm taxas mais altas de desemprego e de dependência de benefícios sociais. A prevenção do bullying, portanto, não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas também de saúde pública e desenvolvimento econômico.

A Importância da Educação Emocional e Resiliência

A educação emocional é fundamental para prevenir o bullying e para ajudar as vítimas a desenvolver resiliência. Programas que ensinam crianças a reconhecer e gerenciar suas emoções, a empatizar com os outros e a resolver conflitos de forma construtiva têm se mostrado eficazes na redução da agressão. A resiliência, a capacidade de se recuperar de adversidades, é uma habilidade que pode ser desenvolvida e fortalecida através de intervenções específicas.

Mentores e figuras de apoio também desempenham um papel crucial. Adultos confiáveis – sejam pais, professores, conselheiros ou treinadores – que oferecem apoio emocional e orientação podem fazer uma diferença significativa na vida de uma criança que está sendo vítima de bullying. Esses relacionamentos de apoio ajudam a mitigar os efeitos negativos do bullying e a promover a resiliência.

Perspectivas Futuras e Inovações em Prevenção

O futuro da prevenção do bullying e cyberbullying provavelmente envolverá abordagens cada vez mais sofisticadas e personalizadas. A neurociência cognitiva está fornecendo insights sobre como o cérebro se desenvolve e como as intervenções podem ser otimizadas para diferentes faixas etárias. A realidade virtual está sendo explorada como uma ferramenta para treinar habilidades sociais e empatia de forma imersiva.

Aplicativos móveis estão sendo desenvolvidos para fornecer apoio em tempo real para vítimas de cyberbullying, incluindo recursos de autoajuda, conexão com profissionais de saúde mental e ferramentas para documentar e denunciar abusos. A gamificação de programas de prevenção está tornando a educação sobre bullying mais envolvente e eficaz para crianças e adolescentes.

A pesquisa contínua sobre as causas e consequências do bullying é essencial para refinar nossas estratégias de prevenção e intervenção. Estudos longitudinais que acompanham indivíduos ao longo do tempo estão fornecendo uma compreensão mais profunda de como o bullying na infância afeta a trajetória de vida. Essa base de conhecimento crescente está informando políticas públicas e práticas educacionais em todo o mundo.

O bullying e o cyberbullying não são problemas que podem ser resolvidos isoladamente. Exigem um compromisso coletivo de pais, educadores, profissionais de saúde, legisladores e da própria sociedade. Cada um tem um papel a desempenhar na criação de ambientes onde a agressão não é tolerada e onde cada indivíduo é valorizado e respeitado.

Para as vítimas, é importante saber que o sofrimento que experimentam é real e válido, e que há ajuda disponível. Procurar apoio profissional não é um sinal de fraqueza, mas um passo corajoso em direção à recuperação. Para os agressores, há esperança de mudança. Com intervenção apropriada e apoio terapêutico, muitos podem aprender a controlar sua agressividade e a desenvolver empatia.

Para a sociedade como um todo, o desafio é criar uma cultura onde a gentileza, o respeito e a inclusão são valores centrais. Isso começa na infância, com a educação socioemocional nas escolas, e continua ao longo da vida, através de mensagens positivas na mídia e de modelos de comportamento saudável. Somente através de um esforço coordenado e sustentado podemos esperar reduzir significativamente a incidência de bullying e cyberbullying e criar um futuro mais seguro e compassivo para nossas crianças e adolescentes.


Referências

[1] O GLOBO. (2024, 6 de fevereiro). Cérebros de adolescentes vítimas de bullying têm mudanças químicas ligadas à psicose; entenda. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2024/02/06/cerebros-de-adolescentes-vitimas-de-bullying-tem-mudancas-quimicas-ligadas-a-psicose-entenda.ghtml

[2] Wendt, G. W., & Lisboa, C. S. M. (2013). Agressão entre pares no espaço virtual: definições, impactos e desafios do cyberbullying. Psicologia Clínica, 25(1), 73-87. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652013000100005

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2 Comentários

  1. Meu agradecimento à Camila Abdo e ao Direto aos Fatos por abrir espaço para um tema essencial: a proteção de crianças e adolescentes.
    Combater o bullying e o cyberbullying é compromisso com segurança, cuidado e responsabilidade de todos.

    @rafcyber

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