Tráfico de PessoasEm Destaque

6 – Tráfico Humano em Foz do Iguaçu

Investigação revela como o tráfico humano atua na tríplice fronteira em Foz do Iguaçu, expondo exploração sexual, trabalho infantil e desafios no combate ao crime

Tráfico Humano em Foz do Iguaçu – Sob a aparente normalidade do intenso fluxo de pessoas e mercadorias que caracteriza a tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, uma realidade alarmante se desenvolve, muitas vezes longe dos olhos da sociedade e das estatísticas oficiais.

O tráfico de pessoas, um crime que viola os direitos humanos mais fundamentais, encontra nesta região um terreno fértil para suas operações. Uma entrevista exclusiva com um servidor local, que atua na linha de frente do combate a essa prática na Ponte Internacional da Amizade, revela os mecanismos de uma rede criminosa sofisticada e as dificuldades enfrentadas pelas autoridades para proteger as vítimas.

O servidor, que terá sua identidade preservada por razões de segurança, descreve um cenário onde a exploração humana é uma ocorrência frequente. “É muito comum o tráfico de pessoas. Muito comum”, afirma. A partir de seu relato e de dados compilados de diversas fontes, é possível traçar um panorama detalhado desta atividade criminosa e das iniciativas que buscam contê-la.

Nota importante: a reportagem a seguir baseia-se nos testemunhos exclusivos e detalhados de fontes do alto escalão do sistema de Justiça e outras pessoas que atuam na região. Por razões de segurança, suas identidades serão mantidas em absoluto sigilo.

O sigilo da fonte é um direito fundamental previsto na Constituição Federal de 1988, especificamente no artigo 5º, inciso XIV, que assegura o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional. Essa proteção não se limita a jornalistas, abrangendo outras profissões que dependem do anonimato de suas fontes para funcionar, e visa garantir o livre fluxo de informações e a liberdade de imprensa. 


Tráfico Humano em Foz do Iguaçu – Um Caldo de Cultura para a Exploração

A Tríplice Fronteira, onde se encontram as cidades de Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina), é uma das regiões mais dinâmicas da América do Sul. O fluxo diário de pessoas e veículos é colossal. Dados de 2019, anteriores à pandemia, já apontavam uma média de mais de 37 mil veículos cruzando a Ponte da Amizade todos os dias [6]. Essa movimentação intensa, somada às disparidades econômicas e sociais entre os países, cria um ambiente complexo e propício para a atuação de redes criminosas.

Foz do Iguaçu, um município com uma população multicultural, com mais de 80 etnias registradas, funciona como um polo de atração para pessoas em busca de oportunidades. No entanto, essa mesma diversidade e o anonimato proporcionado pelo grande fluxo de transeuntes servem de camuflagem para atividades ilícitas. Um estudo acadêmico aponta que Foz do Iguaçu apresenta indicativos de ocorrências de quatro das cinco finalidades de tráfico de pessoas previstas no Código Penal brasileiro, consolidando sua posição como um ponto nevrálgico nesta rota criminosa [6].

A região também é caracterizada por profundas desigualdades econômicas. Enquanto o Brasil e a Argentina possuem economias mais desenvolvidas, o Paraguai enfrenta desafios significativos em termos de desenvolvimento econômico e oportunidades de emprego.

Essa disparidade econômica é um dos fatores que alimenta o aliciamento de vítimas, particularmente de mulheres jovens que buscam melhorar suas condições de vida. A renda per capita no Paraguai é significativamente menor do que a do Brasil, criando um incentivo poderoso para que pessoas se submetam a propostas de trabalho no exterior, mesmo que envolvam riscos.


O Aliciamento: A Promessa de uma Vida Melhor

O método de aliciamento das vítimas, em sua maioria jovens mulheres paraguaias, é consistentemente baseado no engano e na manipulação de seus sonhos e vulnerabilidades. A operação começa a centenas de quilômetros da fronteira, em comunidades rurais do interior do Paraguai, onde as oportunidades são escassas e a esperança de uma vida melhor é um forte atrativo.

Os criminosos utilizam uma figura-chave: a “aliciadora”. Frequentemente, essa pessoa é alguém da própria comunidade da vítima, ou até mesmo um familiar, que retorna à sua cidade de origem ostentando um suposto sucesso financeiro alcançado no Brasil. Com a confiança de seus vizinhos e parentes, a aliciadora oferece propostas de emprego bem remunerado e condições de vida superiores, pintando um quadro de prosperidade que se mostra irresistível para muitas jovens.

“No Paraguai, vizinho não é vizinho. Vizinho é da família. Então quando essa aliciadora volta para a comunidade dela, é muito fácil ela aliciar jovens. E essas jovens, então, elas têm plena confiança na iliciadora”, explica o entrevistado.

As vítimas, muitas das quais falam apenas o guarani e têm pouco ou nenhum conhecimento do português ou mesmo do espanhol, embarcam em uma viagem para o Brasil com a esperança de encontrar trabalho e ajudar suas famílias. No entanto, ao cruzarem a fronteira, o sonho rapidamente se transforma em um pesadelo. Seus documentos e telefones celulares são confiscados, e elas são submetidas a um processo de manipulação psicológica, sendo convencidas de que são as culpadas por sua situação e que não têm outra escolha a não ser se submeter às exigências dos traficantes.

Perfil das Vítimas

CaracterísticaDescrição
GêneroA maioria das vítimas de tráfico internacional são mulheres (96,36%) [4]. No entanto, no Brasil, o perfil geral das vítimas detectadas inclui uma maioria masculina [1].
IdadeA faixa etária mais comum entre as vítimas é de 18 a 29 anos [1].
Raça/EtniaA maioria das vítimas identificadas no Brasil é da raça negra [1]. Vítimas indígenas, no entanto, permanecem em grande parte invisíveis para as estatísticas.
NacionalidadeNa tríplice fronteira, a maioria das vítimas é de nacionalidade paraguaia, seguida por venezuelana e boliviana [1].
IdiomaMuitas vítimas, especialmente as de origem paraguaia, falam apenas guarani, com pouco ou nenhum conhecimento de espanhol ou português.
VulnerabilidadesAs vítimas geralmente vêm de comunidades pobres, com poucas oportunidades de educação e emprego. A falta de informação e a confiança em pessoas conhecidas são fatores-chave para o aliciamento.

A Exploração: As Faces de um Crime

O Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas, divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) em 2024, aponta que a exploração laboral é a principal finalidade do tráfico de pessoas identificada no Brasil [1]. Na região da tríplice fronteira, essa exploração assume diversas formas, desde o trabalho análogo à escravidão em áreas rurais e urbanas até a exploração sexual, que vitimiza majoritariamente mulheres e meninas.

Um das fontes ouvidas, do sistema judiciário local, relata que todos os seus colegas e também Policiais Federais que atuam na região já se depararam com casos de exploração sexual. As jovens são levadas para locais onde são forçadas à prostituição, vivendo em condições degradantes e sob constante ameaça e controle dos criminosos.

Além da exploração sexual, o tráfico na região também está ligado a outras atividades ilícitas, como o transporte de drogas e a participação em fraudes financeiras. Uma modalidade que tem ganhado destaque é a exploração para o cometimento de delitos, onde as vítimas são forçadas a participar de esquemas criminosos, tornando-se ainda mais vulneráveis perante a lei.


O Tráfico de Crianças e Bebês: Uma Realidade Cruel e Silenciosa

Uma dos aspectos mais alarmantes e silenciosas do tráfico humano na fronteira é a que vitimiza crianças e bebês. Embora não existam dados oficiais consolidados sobre essa prática, uma das fontes confirma que a existência do crime é de conhecimento de diversas autoridades. “Isso aqui acontece mesmo”, ele afirma, reproduzindo a confirmação de uma fonte paraguaia.

Jacob Schaafsma, diretor da ONG Gebed en Zending from the Netherlands e especialista holandês que tratua na linha de frente da batalha contra a exploração infantil no Paraguai, através de seu projeto, também foi ouvido pela reportagem. Segundo o ativista, um dos pontos mais alarmantes e que revela a profunda fratura social do Paraguai é o elevado número de crianças sem registro de nascimento. Jacob estima que existam atualmente 2.200 crianças oficialmente desaparecidas no país, um número que ele considera alarmante para uma nação de dimensões modestas.

No entanto, a realidade pode ser ainda mais grave, pois esse número não inclui as crianças que nunca existiram aos olhos do Estado. A ausência de um registro oficial de nascimento as torna efetivamente invisíveis, fantasmas sociais que podem ser explorados, abusados e traficados sem que o sistema sequer note sua ausência. Elas não entram nas estatísticas de desaparecidos, dificultando imensamente qualquer tentativa de localização ou resgate.

“Muitas famílias indígenas não registram seus filhos”, explica Jacob. “Então, elas não são contadas como desaparecidas.”

Essa falha estrutural, que Jacob descreve, é um reflexo direto da ausência crônica do Estado paraguaio em suas áreas mais sensíveis. Não se trata de uma simples ineficiência burocrática, mas de um abandono institucionalizado.

Casos noticiados em outras partes do Brasil indicam que um bebê pode ser vendido por valores que giram em torno de R$ 3 mil, uma quantia irrisória que reflete a total desumanização das vítimas [2].

O Esquema de Arlete Hilú: O Tráfico de Bebês nos Anos Oitenta

Foz do Iguaçu foi palco de um dos maiores esquemas de tráfico de bebês documentados no Brasil, liderado por Arlete Honorina Vitor Hilú. Este esquema operava principalmente na década de oitenta, com Curitiba como centro de operações e Foz do Iguaçu funcionando como porta de saída para o Paraguai e, posteriormente, para o exterior.

Arlete Hilú trabalhou inicialmente na Penitenciária Estadual do Paraná, de onde foi demitida em mil novecentos e oitenta e um. Posteriormente, em mil novecentos e oitenta e três, tornou-se curadora especial de menores, uma atividade ligada à Justiça do Paraná, posição que lhe permitiu envolver-se no tráfico de crianças. Ela foi condenada por tráfico de crianças, falsidade ideológica, formação de quadrilha e por retirar crianças do Brasil ilegalmente. Arlete faleceu em dezembro de 2023 e três, aos 78 anos, em uma casa de repouso em Porto Feliz, São Paulo.

Como Funcionava o Esquema

O esquema funcionava através de múltiplas estratégias criminosas. A quadrilha assediava mães grávidas a partir do segundo ou terceiro mês de gestação, oferecendo pressão constante para que entregassem seus filhos ao nascer. Além disso, cooptava famílias pobres oferecendo valores irrisórios em troca de seus filhos. O grupo também sequestrava bebês diretamente de maternidades, utilizando falsas babás e outros artifícios para levar as crianças.

As crianças traficadas eram vendidas principalmente para Israel e Europa por dezenas de milhares de dólares. Os preços variavam conforme as características físicas das crianças, com bebês brasileiros sendo vendidos por até dez mil dólares americanos, ou vinte mil dólares ou mais, dependendo de características como a cor dos olhos. Estimativas da época indicam que a quadrilha traficou aproximadamente doze mil crianças brasileiras, embora não existam dados oficiais precisos sobre este número.

As Investigações e Prisões

As investigações começaram quando um juiz estranhou o crescimento anormal de adoções de crianças brasileiras por casais estrangeiros. José Roberto Jordão, delegado-chefe da Polícia Civil em Foz do Iguaçu, liderou as investigações que desmantelaram o esquema. Jordão relatou que a polícia chegou a Arlete através de uma mulher que oferecia crianças por valores específicos, discriminando o preço conforme a cor dos olhos. Durante uma operação encoberta, os investigadores foram levados a uma casa onde encontraram entre cinco e seis crianças.

Arlete foi presa em duas ocasiões: em mil novecentos e oitenta e oito e novamente em mil novecentos e noventa e dois. Trinta e sete pessoas da quadrilha foram presas durante as investigações. Arlete também foi presa em Israel em abril de mil novecentos e oitenta e seis por portar passaporte falso e documentos de viagem em branco. Naquela ocasião, dezenas de casais adotivos a esperavam no tribunal para oferecer apoio. Ela foi expulsa de Israel e presa ao retornar ao Brasil.

O Caso de Bruna: Um Exemplo da Tragédia

Um caso particularmente emblemático foi o de Bruna, uma menina de apenas quatro meses sequestrada em Curitiba em mil novecentos e oitenta e seis. Uma falsa babá a raptou da casa em que vivia e a entregou para a quadrilha. A criança foi levada ao Paraguai e depois a Israel, onde foi adotada pela família Turgeman, que lhe deu o nome de Caroline. A menina foi vendida por trinta mil dólares americanos.

Após a prisão da falsa babá, dois dias depois do sequestro, a polícia chegou a outro integrante da quadrilha, que foi preso em mil novecentos e oitenta e sete. Este membro denunciou o esquema e confirmou que Bruna havia sido vendida pelo valor mencionado.

A mãe biológica de Bruna, Rosilda, enfrentou uma longa batalha legal, primeiro no Brasil para descobrir o paradeiro da criança, e depois em Israel para conseguir recuperar a filha. Com o patrocínio de um canal de televisão britânico, Rosilda foi até Israel e entrou na Justiça para reaver a menina. Em mil novecentos e oitenta e oito, a Suprema Corte de Israel decidiu pelo retorno da menina para Curitiba.

Legado e Busca por Respostas

Crianças adotadas nos anos oitenta pelo esquema de Arlete Hilú, hoje com idades entre trinta e cinco e quarenta anos, continuam buscando respostas sobre suas famílias biológicas. Lior Vilk, um israelense de trinta e nove anos que aprendeu português e começou uma busca incessante, encontrou enfim a mãe biológica, então com sessenta e três anos, em Blumenau, Santa Catarina.

O reencontro ocorreu em novembro do ano anterior. Vilk foi sequestrado e todos os seus documentos eram falsos. Quando reencontrou a mãe através do cruzamento de DNA, o rapaz relatou que “a única verdade na minha história era a minha data de nascimento”.

Nem todos os casos têm desfechos tão felizes. Na maioria dos casos, os jovens que vêm ao Brasil atrás de respostas voltam para casa sem saber mais do que sabiam quando chegaram. Chen Levy Gavillon, que veio ao Brasil no início dos anos dois mil e dez para tentar achar a mãe biológica, só tinha o nome de um hospital de Bom Retiro, Santa Catarina, onde teria nascido.

Depois de visitar a cidade, a cento e quarenta quilômetros de Florianópolis, Chen chegou a um beco sem saída e não descobriu mais nada sobre os pais biológicos. Chen e Vilk ficaram conhecidos no Brasil quando apareceram na novela Salve Jorge, exibida entre dois mil e doze e dois mil e treze na TV Globo, dando visibilidade ao tema do tráfico internacional de bebês.


A Situação Atual em Foz do Iguaçu

Foz do Iguaçu continua sendo uma área vulnerável ao tráfico de pessoas e exploração infantil na atualidade. Pesquisas acadêmicas recentes indicam que a cidade apresenta ocorrências de quatro das cinco finalidades do tráfico de pessoas definidas no Código Penal brasileiro, embora muitos casos não sejam registrados pelos órgãos oficiais. A região enfrenta desafios específicos relacionados à exploração infantil que persistem até os dias atuais.

Trabalho Infantil e Exploração

Foz do Iguaçu é o terceiro município do Paraná com maior índice de trabalho infantil, apresentando elevadas taxas de evasão escolar. O comércio informal representa uma forma comum de exploração, com crianças sendo forçadas a pedir esmola, especialmente crianças paraguaias que trabalham em jornadas extenuantes em Foz do Iguaçu. Estas crianças atravessam a Ponte da Amizade e enfrentam condições de trabalho precárias, vendendo produtos em ziguezague pela ponte que conecta Brasil e Paraguai.

A exploração sexual de crianças e adolescentes também constitui um grave problema na região. Redes de prostituição envolvem adolescentes menores de idade, com prostíbulos operando ao longo das rodovias. Há casos documentados de caminhoneiros que transportam e exploram sexualmente adolescentes e crianças. A Polícia Federal também registra casos de pornografia infantil na região.

Vulnerabilidades Estruturais

A localização geográfica de Foz do Iguaçu na tríplice fronteira Brasil-Argentina-Paraguai cria condições particularmente vulneráveis ao tráfico. As legislações distintas entre os três países dificultam ações coordenadas de proteção. Além disso, existem fragilidades nas políticas públicas de proteção à infância, com insuficiência de conselheiros tutelares e agentes de proteção aos direitos da infância e adolescência.

A situação econômica da região agrava ainda mais os riscos. Quarenta e três por cento da população está envolvida no comércio irregular, refletindo elevados índices de pobreza e desigualdade. Esta vulnerabilidade econômica das famílias torna as crianças especialmente suscetíveis ao recrutamento para trabalho infantil, exploração sexual e tráfico.

Ações de Combate e Resposta Institucional

Autoridades brasileiras e paraguaias têm implementado operações de combate ao tráfico e exploração infantil. Em fevereiro de 2024, uma operação conjunta na Ponte da Amizade envolvendo Polícia Federal e autoridades do Paraguai resultou na prisão de uma pessoa, abordagem de noventa e seis veículos e devolução de trinta e dois menores às autoridades paraguaias.

Além disso, foi lançado o Programa Aduana Cidadã em Foz do Iguaçu em fevereiro de 2024. Esta iniciativa reúne a Justiça Federal, Polícia Federal, Força Nacional, Ordem dos Advogados do Brasil, Consulado do Paraguai e Governo do Paraná em ações coordenadas para enfrentar o tráfico de pessoas e exploração infantil na região.

O tráfico de bebês em Foz do Iguaçu representa uma realidade histórica e contemporânea que reflete as vulnerabilidades estruturais da região fronteiriça. O esquema de Arlete Hilú nos anos oitenta revelou a capacidade de redes criminosas sofisticadas operarem em larga escala, traficando milhares de crianças brasileiras para o exterior. Embora este esquema específico tenha sido desmantelado, a região continua enfrentando desafios significativos relacionados ao trabalho infantil, exploração sexual e tráfico de pessoas.

A persistência destes problemas está relacionada à localização geográfica estratégica de Foz do Iguaçu, às diferenças legislativas entre os países fronteiriços, às fragilidades nas políticas públicas de proteção à infância e às condições econômicas precárias que tornam as crianças vulneráveis. Apesar dos esforços de combate implementados por autoridades brasileiras e paraguaias, a questão permanece como um desafio significativo que requer atenção contínua, investimento em políticas públicas de proteção e cooperação internacional efetiva.

Adoção Ilegal e o Papel das Redes Sociais

A reportagem da revista Piauí, de julho de 2024, revela que, nos últimos cinco anos, a Polícia Federal instaurou apenas 120 inquéritos para apurar casos de tráfico de bebês em todo o país, um número considerado baixo por especialistas, que apontam para uma forte subnotificação [7]. A prática da “adoção à brasileira”, onde o registro de nascimento é feito diretamente em nome dos pais não biológicos, é um dos principais mecanismos para a concretização desse crime, facilitado pela legislação frouxa e pela vulnerabilidade social das mães.

As redes sociais, como o Facebook, tornaram-se um mercado para a negociação de crianças. Grupos com milhares de membros, como o “Quero ser barriga de aluguel/solidária”, são utilizados para aliciar grávidas em situação de extrema vulnerabilidade socioeconômica, que oferecem seus filhos em troca de dinheiro [7]. A facilidade de comunicação e o anonimato proporcionado pela internet criam um ambiente propício para a atuação dessas redes criminosas, que se aproveitam da falta de informação e do desespero de muitas mulheres.


O Sistema de “Criaditas” no Paraguai: Uma Porta de Entrada para o Tráfico

Uma prática culturalmente enraizada no Paraguai, conhecida como “criadazgo”, contribui significativamente para a vulnerabilidade de crianças e adolescentes ao tráfico. Meninas, em sua maioria, são entregues por suas famílias para trabalhar em casas de família em troca de moradia, alimentação e, supostamente, educação.

No entanto, a realidade é que muitas dessas “criaditas” são submetidas a jornadas de trabalho exaustivas, abusos físicos e psicológicos, e exploração sexual. Essa prática, embora ilegal, é socialmente aceita em muitas comunidades e serve como uma porta de entrada para o tráfico de pessoas, uma vez que as crianças já se encontram em uma situação de extrema vulnerabilidade e dependência [8].

Estima-se que existam cerca de 47 mil crianças e adolescentes em situação de “criadazgo” no Paraguai [11]. A UNICEF e outras organizações de direitos humanos têm pressionado o governo paraguaio a erradicar essa prática, que é considerada uma forma de escravidão moderna. A falta de fiscalização e a aceitação cultural do “criadazgo” dificultam o combate a essa violação dos direitos infantis. A naturalização dessa forma de exploração torna ainda mais difícil a identificação e o resgate das vítimas, que muitas vezes não se reconhecem como tal.

Trabalho Infantil e Exploração Sexual na Fronteira

Na Ponte da Amizade, a exploração infantil é uma cena cotidiana e chocante. Crianças paraguaias, muitas com menos de 10 anos, cruzam a fronteira diariamente para vender doces, amendoim ou pedir esmolas entre os carros. Essa é uma das piores formas de trabalho infantil, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), pois expõe as crianças a riscos de acidentes, violência e exploração [8].

Além do trabalho infantil, a exploração sexual de crianças e adolescentes é uma realidade alarmante na tríplice fronteira. A região é considerada uma das mais vulneráveis do país para esse tipo de crime. Em Foz do Iguaçu, são registrados, em média, três casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes por semana [9]. A proximidade com o Paraguai e a Argentina, somada à grande circulação de turistas, cria um ambiente propício para a exploração sexual comercial. As vítimas, em sua maioria meninas, são aliciadas com promessas de uma vida melhor e acabam presas em um ciclo de violência e exploração do qual é muito difícil escapar.


As Estatísticas do Tráfico Humano

A compilação de dados sobre o tráfico de pessoas é um desafio, dada a alta taxa de subnotificação do crime. Medo, vergonha, desconhecimento da condição de vítima e a falta de informação sobre os canais de denúncia são alguns dos fatores que contribuem para que a grande maioria dos casos nunca chegue ao conhecimento das autoridades. No entanto, os dados disponíveis já são suficientes para demonstrar a gravidade do problema.

IndicadorDados
Aumento Global de VítimasO número de vítimas de tráfico humano aumentou 25% em 2024 [3].
Vítimas de Tráfico Internacional96,36% são mulheres [4].
Vítimas por Gênero e Idade (Disque 100)Crianças, adolescentes e mulheres representam 75% das vítimas [1].
Nacionalidades Resgatadas (2021-2023)1. Paraguaia, 2. Venezuelana, 3. Boliviana [1].
Fluxo na Ponte da Amizade (2019)Média de 37.104 veículos por dia [6].
Operação na Ponte (Fev/2024)96 veículos abordados, 32 menores devolvidos às autoridades paraguaias [5].

Os Desafios no Combate ao Tráfico

A luta contra o tráfico de pessoas na fronteira é marcada por uma série de obstáculos complexos. Um dos principais, segundo o entrevistado, é a dificuldade de qualificar legalmente o crime. Muitas vezes, as vítimas, por medo ou por estarem sob o efeito da manipulação dos criminosos, não se reconhecem como tal e declaram que estão cruzando a fronteira por vontade própria. Isso cria um impasse para as autoridades, que se veem de mãos atadas para intervir.

“É muito difícil de qualificar o tráfico humano. Por exemplo, você pega um caso de tráfico humano, é muito difícil você dizer legalmente que se trata de um caso de tráfico humano”, lamenta o servidor.


Obstáculos Institucionais e Operacionais

Os desafios enfrentados pelas autoridades vão além da questão legal. Existem também problemas estruturais e operacionais que dificultam o combate efetivo ao tráfico. A falta de recursos financeiros e humanos é um fator limitante. Muitas delegacias não possuem pessoal especializado em investigações de tráfico humano, o que resulta em investigações lentas e ineficazes.

A comunicação entre as diferentes agências também é um problema. A Polícia Federal, a Receita Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as polícias estaduais não sempre trabalham de forma coordenada. Essa falta de integração permite que criminosos explorem as brechas do sistema.

Além disso, existe uma questão cultural e de priorização. Historicamente, o tráfico de pessoas não foi considerado uma prioridade pelas autoridades brasileiras. Enquanto crimes como tráfico de drogas e roubo recebem atenção significativa, o tráfico humano permanece relativamente invisível nas estatísticas e nas políticas públicas.


A Tecnologia

O Relatório Nacional do MJSP destaca uma mudança central no modus operandi dos traficantes: o uso crescente de ferramentas tecnológicas. A internet e as redes sociais ampliaram significativamente as possibilidades de aliciamento, permitindo que os criminosos alcancem um número maior de potenciais vítimas com um custo e risco reduzidos. Falsos perfis, anúncios de emprego fraudulentos e o contato direto através de aplicativos de mensagens são algumas das táticas utilizadas.

Além do aliciamento, a tecnologia também é usada para controlar as vítimas. Através de monitoramento constante, ameaças virtuais e a exposição de informações íntimas, os traficantes mantêm um domínio psicológico sobre as pessoas exploradas, dificultando ainda mais qualquer tentativa de fuga ou denúncia.

Por outro lado, a tecnologia também pode ser uma aliada no combate a esse crime. O servidor entrevistado menciona a intenção de usar influenciadores digitais para disseminar informações preventivas no Paraguai. A análise de dados e o monitoramento de atividades suspeitas na internet são outras ferramentas que podem ser empregadas pelas forças de segurança para identificar e desmantelar redes de tráfico.


Novas Estratégias: Prevenção e Conscientização

Diante desse cenário desafiador, a Receita Federal, em parceria com outras entidades, decidiu adotar uma abordagem inovadora, focada na prevenção e na conscientização das potenciais vítimas. A principal iniciativa é a criação de uma sala de acolhimento na aduana da Ponte da Amizade, um espaço projetado para ser acolhedor e seguro.

Quando uma pessoa com perfil de potencial vítima de tráfico é identificada, ela é convidada a aguardar nesta sala. Lá, de forma sutil, são exibidos vídeos informativos sobre o tráfico humano, narrados em guarani por uma sobrevivente paraguaia que conta sua própria história de exploração. A expectativa é que, ao se identificar com o relato, a própria vítima desista de prosseguir com a viagem.

“A intenção é que a própria mulher pudesse se identificar e ela mesma desistir”, explica o idealizador do projeto. A sala tem previsão de inauguração em fevereiro do próximo ano.

Além dessa ação direta na fronteira, o projeto prevê um forte trabalho de prevenção no Paraguai. A ideia é levar informação para as comunidades do interior, utilizando parcerias com influenciadores digitais e realizando campanhas de conscientização. O objetivo é que as mulheres nem cheguem a ser aliciadas.

Componentes da Estratégia de Prevenção

A estratégia de prevenção adotada pela Receita Federal é composta por vários componentes integrados:

  1. Sala de Acolhimento na Fronteira: Um espaço seguro onde potenciais vítimas podem ser informadas sobre os riscos do tráfico humano, sem pressão ou coerção.
  1. Campanhas de Conscientização no Paraguai: Trabalho direto nas comunidades de origem das vítimas, informando sobre os perigos do aliciamento e as falsas promessas dos traficantes.
  1. Parcerias com Influenciadores Digitais: Utilização de personalidades conhecidas nas redes sociais para amplificar mensagens de prevenção, alcançando um público mais amplo e jovem.
  1. Envolvimento do Judiciário e das Polícias: Alinhamento institucional para que o tráfico humano seja tratado com a seriedade que merece, similar ao que ocorreu com a violência doméstica.
  1. Congresso Regional sobre Tráfico Humano: Um grande evento em Ciudad del Este para reunir autoridades, especialistas e ativistas, com o objetivo de trazer visibilidade e pressionar por ações mais contundentes.

Acolhimento e Reabilitação das Vítimas

Um aspecto fundamental no combate ao tráfico humano é o acolhimento e a reabilitação das vítimas. Muitas vítimas resgatadas enfrentam dificuldades significativas para se reintegrar à sociedade. O trauma psicológico, a falta de documentação adequada e a estigmatização social são alguns dos obstáculos que enfrentam.

O Brasil possui uma rede de acolhimento para vítimas de tráfico, que inclui casas de abrigo, atendimento psicológico e assistência legal. No entanto, essa rede ainda é insuficiente para atender a demanda. Muitas vítimas, particularmente aquelas que retornam ao Paraguai, não recebem o apoio adequado para se recuperar.

A reabilitação das vítimas não é apenas uma questão de humanidade; é também uma estratégia eficaz de prevenção. Vítimas que recebem apoio adequado e conseguem se reintegrar à sociedade podem se tornar embaixadoras contra o tráfico, alertando outras mulheres sobre os perigos da exploração.


A Busca por Cooperação Internacional

Uma das fontes ouvinda reconhece a importância da cooperação internacional para o sucesso do combate ao tráfico na tríplice fronteira. Ele revela que estava buscando contatos com organizações internacionais. A conexão com especialistas e ativistas de outros países pode trazer novas técnicas, recursos e visibilidade para a causa.

A cooperação internacional é fundamental porque o tráfico de pessoas é um crime transnacional. As redes criminosas operam através de fronteiras, e as autoridades de um único país não conseguem combatê-las de forma efetiva. Tratados internacionais, acordos bilaterais e a troca de informações entre países são essenciais para desmantelar essas redes.


Marcos Legais e Legislação

O Brasil possui legislação específica para combater o tráfico de pessoas. O Código Penal brasileiro, em seus artigos 149-A e 149-B, define o crime de tráfico de pessoas e estabelece penas de 3 a 8 anos de prisão. Além disso, o país é signatário de vários tratados internacionais relacionados ao combate do tráfico humano, incluindo o Protocolo de Palermo.

No entanto, a aplicação dessas leis ainda enfrenta desafios significativos. A dificuldade em qualificar legalmente o crime, como mencionado pelo entrevistado, é um obstáculo importante. Além disso, muitos casos nunca chegam ao judiciário, ficando apenas nas mãos das polícias.


Uma Luta Contínua

A realidade do tráfico de pessoas em Foz do Iguaçu é um problema complexo e profundamente enraizado nas desigualdades sociais e econômicas da região. A luta contra essa prática criminosa exige mais do que apenas a repressão policial; demanda um esforço conjunto e coordenado de prevenção, conscientização, acolhimento às vítimas e, acima de tudo, um compromisso firme das autoridades de ambos os lados da fronteira.

As iniciativas lideradas pela Receita Federal representam um novo capítulo nessa batalha, trazendo esperança de que, com estratégias inovadoras e o envolvimento da sociedade, seja possível proteger os mais vulneráveis e desmantelar as redes que lucram com a exploração de seres humanos. A fronteira, que hoje é um corredor para o crime, pode e deve se transformar em uma barreira contra a violação dos direitos humanos.

O trabalho realizado pelo servidor entrevistado e seus colegas demonstra que é possível fazer a diferença, mesmo diante de obstáculos significativos. Sua dedicação e sua visão inovadora são exemplos de que o combate ao tráfico humano é possível e necessário. Resta agora que as autoridades de todos os níveis se unam para apoiar essas iniciativas e ampliar o escopo do combate a esse crime que afeta milhares de pessoas todos os anos.

A esperança reside no fato de que, cada vez mais, a sociedade brasileira e internacional está acordando para a realidade do tráfico humano. Organizações não governamentais, ativistas, acadêmicos e autoridades estão se unindo para enfrentar esse desafio. O caminho é longo e difícil, mas com perseverança e determinação, é possível construir um futuro onde ninguém seja explorado ou traficado.


Referências

[1] Ministério da Justiça e Segurança Pública. (2024). Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas: Dados 2021 a 2023. Brasília, DF. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/relatorio-nacional-divulga-dados-sobre-trafico-de-pessoas-de-2021-a-2023

[2] Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. (2018). Qual o preço de uma criança?. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://www.tjdft.jus.br/informacoes/infancia-e-juventude/publicacoes-textos-e-artigos/textos-e-artigos/2018/qual-o-preco-de-uma-crianca

[3] Agência Brasil. (2024). Número de vítimas de tráfico humano aumenta 25% e mulheres são maioria. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-12/numero-de-vitimas-de-trafico-humano-aumenta-25-e-mulheres-sao-maioria

[4] Conselho Nacional de Justiça. (2022). Mulheres correspondem a 96,36% das vítimas de tráfico internacional de pessoas. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://www.cnj.jus.br/mulheres-correspondem-a-9636-das-vitimas-de-trafico-internacional-de-pessoas/

[5] Ministério da Justiça e Segurança Pública. (2024). Polícia Federal e autoridades de Brasil e Paraguai fazem operação de combate ao trabalho infantil e tráfico de pessoas na Ponte da Amizade. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/policia-federal-e-autoridades-de-brasil-e-paraguai-fazem-operacao-de-combate-ao-trabalho-infantil-e-trafico-de-pessoas-na-ponte-da-amizade

[6] Amadori, R., & Cury, M. J. F. (2025). Tráfico de pessoas: estudo de ocorrências na tríplice fronteira Brasil-Argentina-Paraguai. RELACult – Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, 11(1). Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://periodicos.claec.org/index.php/relacult/article/view/2777

[7] Abreu, A. (2024, 10 de julho). Tráfico de bebês prospera no país. Revista Piauí. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://piaui.folha.uol.com.br/trafico-de-bebes-brasil/

[8] Garcia, C. (2016, 23 de setembro). Trabalho infantil e exploração sexual: a fragilidade nas regiões de fronteira. Cidade Escola Aprendiz. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://livredetrabalhoinfantil.org.br/noticias/reportagens/trabalho-infantil-e-exploracao-sexual-a-fragilidade-nas-regioes-fronteiricas/

[9] Gdia. (2025, 10 de setembro). Foz registra cerca de três casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes por semana. Gdia. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://gdia.com.br/noticia/529/foz-registra-cerca-de-tres-casos-de-abuso-sexual-contra-criancas-e-adolescentes-por-semana

[10] ANDI. (2025, 25 de maio). Mais de 90 mil desaparecimentos de crianças e adolescentes foram registrados no Brasil nos últimos 5 anos. ANDI – Comunicação e Direitos. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://andi.org.br/infancia_midia/mais-de-90-mil-desaparecimentos-de-criancas-e-adolescentes-foram-registrados-no-brasil-nos-ultimos-5-anos/

[11] UNICEF. (2017, 18 de janeiro). UNICEF insta a erradicar el criadazgo en Paraguay. Acessado em 20 de dezembro de 2025, de https://www.unicef.org/paraguay/comunicados-prensa/unicef-insta-erradicar-el-criadazgo-en-paraguay

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