Tráfico de PessoasEm Destaque

Policial Federal explica sobre o Tráfico de Crianças

Tráfico de crianças no Brasil e no mundo: como o crime ocorre, por que permanece invisível, falhas do Estado, riscos digitais e caminhos reais de prevenção

O tráfico de crianças é uma das violações de direitos humanos mais graves e persistentes do século XXI. Apesar da existência de tratados internacionais, legislações nacionais e estruturas institucionais de proteção, milhões de crianças continuam sendo exploradas todos os anos em diferentes partes do mundo. O crime ocorre de forma silenciosa, adaptável e altamente lucrativa, explorando fragilidades sociais, econômicas, emocionais e institucionais.

O tráfico de pessoas, uma forma contemporânea de escravidão, não apenas persiste, mas evolui, adaptando-se a novas tecnologias e explorando as vulnerabilidades criadas por crises globais. O Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas de 2024, publicado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), oferece uma análise detalhada e preocupante deste fenômeno, revelando um aumento significativo no número de vítimas detectadas e uma mudança nos padrões de exploração em todo o mundo. Este artigo aprofunda os dados apresentados, com um foco especial na situação do Brasil, para compreender a magnitude do desafio e a urgência de uma resposta coordenada e eficaz.

No debate público, o tema ainda aparece de forma fragmentada e frequentemente reduzido a imagens estereotipadas que não refletem a complexidade do fenômeno. Essa abordagem limitada contribui para a subnotificação, para a dificuldade de identificação das vítimas e para a manutenção de uma cultura de impunidade que favorece a continuidade das redes criminosas.

Os dados indicam um crescimento contínuo e uma diversificação das formas de exploração, que vão muito além da exploração sexual, a mais comumente associada ao tema. O trabalho análogo à escravidão e a criminalidade forçada, incluindo fraudes online, estão em ascensão, demonstrando a capacidade das redes criminosas de se adaptarem e inovarem.

Crianças, em particular, estão se tornando alvos cada vez mais frequentes, uma tendência que exige uma atenção redobrada por parte de governos e da sociedade civil. No Brasil, o cenário é agravado por desafios sistêmicos no sistema de justiça, que resultam em uma cultura de impunidade que perpetua o ciclo de exploração. A análise que se segue busca iluminar as principais conclusões do relatório, contextualizando os números e explorando as suas implicações para o futuro do combate a este crime atroz.

A reportagem do Direito Aos Fatos conversou uma agente da Polícia Federal que trabalha no combate ao tráfico de pessoas nas fronteiras da região norte do país. A agente, por precaução, prefere manter o anonimato.

Esta reportagem apresenta uma análise aprofundada do tráfico de crianças a partir de dados oficiais, pesquisas internacionais, relatórios de organismos multilaterais e o relato de uma agente da Polícia Federal que atua diretamente no enfrentamento do crime.

O sigilo da fonte é um direito fundamental previsto na Constituição Federal de 1988, especificamente no artigo 5º, inciso XIV, que assegura o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional. Essa proteção não se limita a jornalistas, abrangendo outras profissões que dependem do anonimato de suas fontes para funcionar, e visa garantir o livre fluxo de informações e a liberdade de imprensa. 


Um Panorama Global da Exploração

O relatório do UNODC desenha um quadro preocupante da situação atual do tráfico de pessoas. A análise dos dados globais revela não apenas um aumento no número de vítimas, mas também uma complexa teia de fatores que contribuem para a sua vulnerabilidade. A seguir, detalhamos as principais tendências identificadas no relatório, que servem como um alerta para a comunidade internacional.

O Crescimento Alarmante no Número de Vítimas

Um dos dados mais impactantes do relatório é o aumento de 25% no número geral de vítimas detectadas entre 2019 e 2022. Este crescimento expressivo, no entanto, esconde nuances importantes. O aumento mais acentuado, de 47%, foi observado nos casos de trabalho análogo à escravidão. Esta estatística sugere uma mudança significativa nos padrões de exploração, com uma crescente demanda por mão de obra barata e descartável em diversos setores da economia global, desde a agricultura até a construção civil e o trabalho doméstico. A pandemia de COVID-19, com o seu impacto socioeconômico devastador, exacerbou as vulnerabilidades de milhões de pessoas, tornando-as presas fáceis para redes de traficantes.

O relatório também destaca um aumento de 31% no número de crianças vítimas de tráfico. Este dado é particularmente preocupante, pois demonstra a crueldade e a falta de escrúpulos dos traficantes, que se aproveitam da inocência e da fragilidade infantil. O aumento de 38% no número de meninas vítimas, em comparação com o de meninos, indica que a exploração sexual continua a ser uma das principais finalidades do tráfico de crianças, embora outras formas de exploração, como o trabalho forçado e a mendicidade, também sejam prevalentes.

A Persistente Disparidade de Gênero

A análise de gênero das vítimas de tráfico de pessoas revela uma realidade persistente: mulheres e meninas continuam a ser as mais afetadas. Elas representam 61% de todas as vítimas detectadas, enquanto homens e meninos correspondem a 39%. Esta disparidade reflete a prevalência da exploração sexual como a forma predominante de tráfico para o sexo feminino. A demanda por serviços sexuais, alimentada por uma cultura de objetificação e violência contra as mulheres, cria um mercado lucrativo para os traficantes, que exploram a vulnerabilidade social e econômica de suas vítimas.

No entanto, é crucial notar que homens e meninos também são vítimas de tráfico, embora muitas vezes para finalidades diferentes. O trabalho forçado, a exploração em atividades criminosas e o recrutamento para conflitos armados são algumas das formas de exploração a que estão mais expostos. A falta de conscientização sobre o tráfico de homens e meninos, bem como o estigma associado à vitimização masculina, muitas vezes dificulta a identificação e a assistência a estas vítimas.



O Que Caracteriza Tecnicamente o Tráfico de Crianças

Do ponto de vista jurídico e técnico, o tráfico de pessoas é definido pelo Protocolo de Palermo, instrumento suplementar à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional. A definição baseia-se em três elementos centrais: o ato, o meio e a finalidade.

O ato compreende o recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas. O meio envolve ameaça, uso da força, coação, fraude, engano, abuso de poder ou de situação de vulnerabilidade. A finalidade é sempre a exploração, que pode assumir diversas formas, como exploração sexual, trabalho forçado, escravidão, servidão, mendicância forçada, criminalidade forçada ou remoção de órgãos.

“A definição de tráfico de pessoas é estabelecida pelo Protocolo de Palermo, suplementar à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional. Essa definição é amplamente adotada e se baseia em três elementos essenciais: o ato, o meio e a finalidade”, explica a agente.

No caso específico de crianças e adolescentes — qualquer pessoa com menos de 18 anos — a definição é ainda mais rigorosa. O elemento do meio é juridicamente irrelevante. Isso significa que não é necessário comprovar violência, fraude ou coação. O simples ato de recrutar, transportar, abrigar ou receber uma criança para fins de exploração já configura tráfico, independentemente de consentimento.

“No caso específico de crianças e adolescentes (qualquer pessoa com menos de 18 anos), a definição é ainda mais rigorosa. O elemento do “meio” (força, fraude ou coação) é irrelevante. O simples recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de uma criança ou adolescente para fins de exploração é considerado tráfico de pessoas, mesmo que a vítima tenha consentido”, ressalta a policial.

Essa distinção é fundamental, pois desmonta narrativas que tentam relativizar o crime ao alegar concordância da vítima ou suposta voluntariedade.

Modalidade de ExploraçãoPrevalência Global (Vítimas Detectadas)
Exploração SexualContinua sendo a forma mais detectada, especialmente para mulheres e meninas. Cerca de 60% das meninas vítimas de tráfico são para fins de exploração sexual.
Trabalho ForçadoEm forte ascensão, com um aumento de 47% entre 2019 e 2022. É a principal finalidade para o tráfico de meninos (45% dos casos).
Criminalidade ForçadaUma modalidade crescente, que saltou de 1% do total de vítimas em 2016 para 8% em 2022. Inclui forçar vítimas a cometer fraudes online e outros crimes.
Outras FormasIncluem mendicância forçada, casamentos servis e remoção de órgãos.

Modalidades De Exploração Mais Recorrentes

Dados do Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas do UNODC (2024) indicam que o tráfico infantil apresenta múltiplas finalidades, variando conforme gênero, região e contexto socioeconômico.

A exploração sexual continua sendo a modalidade mais detectada entre meninas, representando cerca de 60% dos casos identificados globalmente. Já entre meninos, o cenário é distinto: o trabalho forçado responde por aproximadamente 45% das ocorrências, seguido por outras formas de exploração, como criminalidade forçada e mendicância.

Nos últimos anos, uma tendência particularmente preocupante tem sido o crescimento da criminalidade forçada, que inclui o uso de crianças em fraudes digitais, golpes financeiros, transporte de drogas e outras atividades ilícitas. Essa modalidade passou de 1% das vítimas detectadas em 2016 para 8% em 2022, evidenciando a adaptação das redes criminosas ao ambiente digital.

No Brasil, o trabalho análogo à escravidão permanece como a forma mais prevalente de tráfico de pessoas, incluindo crianças e adolescentes, especialmente em áreas rurais, atividades extrativistas e setores com baixa fiscalização.


A Diversificação das Finalidades de Exploração

O relatório do UNODC evidencia uma preocupante diversificação nas finalidades da exploração. Embora a exploração sexual continue a ser a forma mais detectada, especialmente para mulheres e meninas, o trabalho forçado e a criminalidade forçada estão em franca ascensão. Para as meninas, a exploração sexual é a finalidade dominante, representando 60% dos casos. Já para os meninos, o trabalho forçado (45%) e outras formas de exploração, incluindo a criminalidade forçada (20%), são mais prevalentes.

Esta distinção é fundamental para o desenvolvimento de políticas de prevenção e proteção eficazes, que devem ser adaptadas às necessidades específicas de cada grupo. A crescente exploração de crianças em atividades criminosas, como o tráfico de drogas e a participação em gangues, é uma tendência particularmente alarmante, que exige uma resposta coordenada por parte das autoridades de segurança pública e dos sistemas de proteção à infância.


Por Que Crianças São o Grupo Mais Vulnerável

A vulnerabilidade infantil ao tráfico não é resultado de um único fator, mas da convergência de elementos estruturais, psicológicos e institucionais. As crianças representam agora 38% de todas as vítimas detectadas globalmente, uma proporção que continua a crescer, especialmente em regiões como a África Subsaariana. A pobreza, a falta de acesso à educação, a instabilidade familiar e os conflitos armados são alguns dos fatores que tornam as crianças particularmente suscetíveis ao tráfico.

De acordo com a policial ouvida, a “vulnerabilidade de crianças ao tráfico humano é um fenômeno complexo que persiste apesar da existência de um arcabouço legal protetivo, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no Brasil e convenções internacionais”.

Do ponto de vista do desenvolvimento, crianças possuem menor capacidade de avaliação de risco, maior propensão à confiança em adultos e dependência emocional e material. Isso as torna mais suscetíveis à manipulação, especialmente quando o aliciador ocupa uma posição de autoridade ou proximidade.

Fatores socioeconômicos exercem papel central. Pobreza extrema, insegurança alimentar, ausência de acesso à educação de qualidade e desemprego estrutural criam ambientes onde promessas de trabalho, estudo ou melhoria de vida tornam-se altamente persuasivas, inclusive para os próprios responsáveis legais.

“A exploração de crianças assume diversas formas, desde a exploração sexual e o trabalho forçado até à mendicidade, ao casamento forçado e ao recrutamento para grupos armados. As consequências para as vítimas são devastadoras, incluindo traumas físicos e psicológicos profundos, problemas de saúde, estigmatização social e a perda de oportunidades de desenvolvimento.”, destaca a agente.

O combate ao tráfico de crianças exige uma abordagem integrada, que envolva a prevenção, a proteção e a reabilitação das vítimas, bem como a punição rigorosa dos traficantes.

Há ainda a chamada lacuna de implementação das leis. Embora países como o Brasil possuam legislação específica, a aplicação efetiva é limitada. O Relatório sobre Tráfico de Pessoas de 2025 do Departamento de Estado dos Estados Unidos aponta que o país nunca obteve uma condenação final sob a Lei nº 13.344/2016, o que compromete o efeito dissuasório do sistema penal.

EsferaFatores de Risco Principais
SocioeconômicaPobreza e Desigualdade Social: A falta de recursos básicos e a percepção de ausência de futuro são os principais impulsionadores. Desemprego Estrutural: A falta de oportunidades de trabalho para os pais ou responsáveis aumenta a pressão econômica sobre a família. Baixo Acesso à Educação: Crianças fora da escola ou em sistemas de ensino precários são alvos mais fáceis, pois o ambiente escolar é um importante fator de proteção. Insegurança Alimentar e Habitacional: A instabilidade básica de vida torna as promessas dos traficantes mais atraentes.
FamiliarNegligência e Abandono: A ausência de cuidado e supervisão parental deixa a criança desprotegida. Violência Doméstica: Um ambiente familiar violento pode levar a criança a fugir de casa ou a confiar em estranhos que oferecem uma falsa sensação de segurança. Histórico de Abuso: Crianças que já sofreram abuso (físico, psicológico ou sexual) são mais suscetíveis à manipulação. Desestruturação Familiar: Conflitos familiares, separações conturbadas ou a ausência de figuras parentais estáveis aumentam a vulnerabilidade. Envolvimento dos Pais com Atividades Ilícitas: Em alguns casos, os próprios pais ou responsáveis estão envolvidos no tráfico ou facilitam a exploração dos filhos.
InstitucionalFragilidade do Sistema de Proteção: Conselhos tutelares, escolas e postos de saúde com poucos recursos e profissionais sobrecarregados e sem formação específica. Falta de Coordenação Intersetorial: A comunicação deficiente entre saúde, educação, segurança pública e assistência social impede uma resposta integrada e eficaz. Corrupção: A corrupção de agentes públicos pode facilitar a ação de redes de tráfico e garantir a impunidade. Crises Humanitárias e Deslocamento: Crianças em zonas de conflito, desastres naturais ou em situação de refúgio e migração estão particularmente expostas, muitas vezes separadas de suas famílias e sem documentos.

Existe Um Tipo De Exploração Predominante no Tráfico De Crianças?

O fenômeno do tráfico de crianças é, de fato, muito mais diversificado do que a representação midiática, que tende a focar quase exclusivamente na exploração sexual. Embora a exploração sexual seja uma realidade trágica e prevalente, especialmente para meninas (60% das vítimas detectadas globalmente), ela está longe de ser a única finalidade do tráfico infantil.

O Relatório Global do UNODC (2024) revela uma diversidade de formas de exploração, com prevalências distintas por gênero:

  • Meninas: A exploração sexual é a finalidade predominante (60% dos casos detectados).
  • Meninos: O cenário é mais variado, com 45% sendo traficados para trabalho forçado e 47% para outras formas de exploração, como criminalidade forçada (ex: participação em fraudes online, transporte de drogas) e mendicância forçada [3].

Além dessas, outras modalidades incluem:

  • Casamento Servil: Crianças, majoritariamente meninas, forçadas a casar.
  • Adoção Ilegal: Bebês e crianças pequenas traficados para fins de adoção fraudulenta.
  • Remoção de Órgãos: Embora mais rara e de difícil comprovação, é uma finalidade citada nos instrumentos internacionais.

Ao ser questionada qual modalidade é mais utilziada no Brasil, a agente explica que no país, “a exploração para o trabalho análogo à escravidão é uma modalidade com grande número de vítimas, incluindo crianças e adolescentes, especialmente em setores como a agricultura, a pecuária, a mineração e a construção civil”, lamenta. “Portanto, reduzir o tráfico infantil apenas à exploração sexual é ignorar uma grande parcela das vítimas e das dinâmicas do crime, dificultando o desenvolvimento de políticas públicas abrangentes e eficazes”, explica a policial.


O Perfil das Vítimas de Tráfico Internacional no Brasil

No que diz respeito ao tráfico internacional de pessoas, os dados do relatório revelam um perfil bem definido das vítimas detectadas no Brasil. As mulheres representam a esmagadora maioria, com 96,36% dos casos, enquanto as meninas correspondem a apenas 3,64%. Esta estatística pode refletir tanto a prevalência do tráfico de mulheres adultas para fins de exploração sexual em outros países, como também a dificuldade em identificar e registrar os casos de tráfico de crianças e adolescentes.

A invisibilidade do tráfico de crianças e adolescentes é um problema grave, que exige uma atenção especial por parte das autoridades. A falta de denúncias, o medo de represálias e a dificuldade em reconhecer os sinais de exploração são alguns dos fatores que contribuem para a subnotificação destes casos. É fundamental fortalecer os mecanismos de proteção à infância e à adolescência, bem como capacitar os profissionais que atuam na linha de frente para identificar e acolher as vítimas de tráfico.


A Ascensão da Criminalidade Forçada na Era Digital

Uma das tendências mais recentes e preocupantes destacadas no relatório é o crescimento exponencial do tráfico para fins de criminalidade forçada, especialmente através da internet. As fraudes online, operadas a partir de centros de controle em vários países, tornaram-se uma nova e lucrativa fronteira para as redes de tráfico. As vítimas, muitas vezes atraídas por falsas promessas de emprego, são forçadas a trabalhar em condições análogas à escravidão, enganando outras pessoas em esquemas de investimento fraudulentos e outras atividades ilícitas.

O relatório revela que o tráfico para criminalidade forçada cresceu de apenas 1% do total de vítimas em 2016 para 8% em 2022. Este aumento reflete a capacidade das redes criminosas de se adaptarem rapidamente às novas tecnologias, utilizando a internet como uma ferramenta para recrutar, controlar e explorar as suas vítimas. A natureza transnacional destes crimes, aliada à dificuldade de rastrear os perpetradores no ciberespaço, representa um desafio significativo para as autoridades policiais e judiciais em todo o mundo.


Fatores Familiares e Institucionais Que Ampliam o Risco

No ambiente familiar, situações de negligência, violência doméstica, abuso prévio, dependência química e desestruturação aumentam significativamente a exposição ao tráfico. Em parte relevante dos casos de exploração sexual infantil, o aliciador é alguém do círculo de confiança da vítima, incluindo familiares.

Institucionalmente, a fragilidade da rede de proteção é um fator determinante. Conselhos tutelares sobrecarregados, escolas sem capacitação específica, serviços de saúde despreparados e ausência de integração entre os setores comprometem a identificação precoce e o encaminhamento adequado dos casos.

A corrupção e a falta de fiscalização também favorecem a atuação das redes criminosas, especialmente em regiões de fronteira, áreas rurais isoladas e contextos de migração forçada.


Invisibilidade e Subnotificação: O Grande Obstáculo

A invisibilidade do tráfico infantil é um dos maiores obstáculos para o seu combate. Mesmo em países com sistemas de proteção aparentemente robustos, uma parcela significativa dos casos nunca chega às estatísticas oficiais. Isso ocorre por uma confluência de fatores complexos:

  • Natureza Clandestina do Crime: O tráfico ocorre nas sombras, muitas vezes disfarçado de outras atividades (como migração para trabalho ou oportunidades de estudo). Os traficantes são hábeis em ocultar suas operações e as vítimas.
  • Manipulação e Controle da Vítima: As vítimas são frequentemente controladas por meio de violência psicológica, ameaças (contra elas ou suas famílias), dívidas fraudulentas e isolamento. Elas podem não se reconhecer como vítimas ou ter demasiado medo para pedir ajuda. O vínculo de dependência emocional criado pelo aliciador (grooming) é uma poderosa ferramenta de silenciamento [8].
  • Vergonha e Estigma: Vítimas de exploração, especialmente sexual, sentem profunda vergonha e medo do julgamento da sociedade e de suas próprias famílias, o que as impede de denunciar o crime.
  • Despreparo dos Profissionais da Linha de Frente: Muitos profissionais de saúde, educação e assistência social não possuem treinamento específico para identificar os sinais sutis do tráfico de pessoas. Uma criança pode passar por um posto de saúde ou uma escola sem que sua situação seja reconhecida [5].
  • Complexidade da Identificação: Diferenciar um caso de tráfico de outras violações de direitos, como trabalho infantil ou migração irregular, pode ser difícil sem uma investigação aprofundada. A falta de um entendimento claro e uniforme sobre o que constitui o tráfico, mesmo entre agentes da lei, contribui para a subnotificação [4].
  • Dados Fragmentados: A coleta de dados sobre o tráfico de pessoas é um desafio global. As informações são frequentemente descentralizadas e não há um sistema unificado para compilar e analisar os casos, resultando em um “apagão estatístico” que mascara a real dimensão do problema.

De acordo com a policial ouvida, “a maior parte dos casos de tráfico infantil permanece invisível. O crime é clandestino por natureza, frequentemente disfarçado como migração, trabalho informal ou relações afetivas.”,explica. “As vítimas são submetidas a controle psicológico, ameaças, chantagem emocional e isolamento, o que dificulta a denúncia. Muitas não se reconhecem como vítimas ou temem represálias contra si e suas famílias”, complementa.

Profissionais da linha de frente, como professores, médicos e assistentes sociais, muitas vezes não possuem formação suficiente para identificar sinais sutis do tráfico. Isso contribui para um apagão estatístico que impede diagnósticos precisos e políticas públicas eficazes.


Fronteiras Físicas e o Avanço Do Ambiente Digital

As regiões de fronteira continuam a ser corredores críticos para o tráfico de pessoas, incluindo crianças, especialmente para o tráfico transnacional. Essas áreas são caracterizadas por um grande fluxo de pessoas, menor presença do Estado e, muitas vezes, pela existência de redes criminosas estabelecidas que se aproveitam da vulnerabilidade de migrantes e populações locais. No Brasil, estados como Roraima e Mato Grosso do Sul são exemplos de áreas de fronteira com alta incidência de tráfico [4].

No entanto, não se trata de um deslocamento, mas de uma expansão e diversificação do fenômeno para o ambiente digital. A internet e as redes sociais tornaram-se um dos principais espaços para o aliciamento de crianças. Os traficantes não precisam mais de presença física para iniciar o contato com as vítimas. Eles podem criar perfis falsos, infiltrar-se em grupos de jogos online e usar aplicativos de mensagens para se aproximar, construir uma relação de confiança e, eventualmente, marcar encontros ou coagir as vítimas a produzir material de exploração sexual online.

O ambiente digital oferece aos traficantes vantagens significativas:

  • Anonimato: A capacidade de ocultar a verdadeira identidade.
  • Alcance Global: Acesso a um número virtualmente ilimitado de potenciais vítimas.
  • Baixo Custo: O aliciamento online requer menos recursos do que o recrutamento físico.
  • Produção de Material de Exploração: A internet facilita a criação e distribuição de imagens e vídeos de abuso sexual infantil (CSAM), uma forma de exploração que pode ocorrer inteiramente online.

A agente explica que o “tráfico infantil hoje opera em uma dupla frente: os corredores físicos, como as fronteiras, continuam sendo vitais para o transporte e a exploração em locais físicos, enquanto o ambiente digital se consolidou como o principal vetor para o recrutamento e o aliciamento, ampliando drasticamente o alcance e a escala do crime.”

As regiões de fronteira continuam sendo corredores importantes para o tráfico transnacional. No entanto, o fenômeno se expandiu de forma significativa para o ambiente digital. Redes sociais, jogos online e aplicativos de mensagens tornaram-se espaços privilegiados para o aliciamento. O processo de grooming envolve identificação de vulnerabilidades, construção de confiança, isolamento da vítima e posterior coerção.

O uso de inteligência artificial para a criação de material de abuso sexual infantil representa uma ameaça emergente, ampliando a escala do crime e dificultando a responsabilização dos autores.


O Papel Das Redes Sociais, Jogos Online e Plataformas Digitais no Aliciamento de Crianças Para Fins de Tráfico

A agente explica que as plataformas digitais desempenham um papel central e cada vez mais preocupante no aliciamento de crianças para o tráfico. “Traficantes exploram a arquitetura e a cultura desses espaços para identificar, contatar e manipular suas vítimas”, explica. O processo, conhecido como grooming online, segue etapas bem definidas:

  1. Identificação do Alvo: Os aliciadores monitoram perfis de crianças e adolescentes em redes sociais como Instagram, TikTok e Facebook, buscando sinais de vulnerabilidade, como baixa autoestima, problemas familiares ou solidão, expressos em postagens e comentários.
  2. Estabelecimento de Contato e Confiança: O contato inicial é feito de forma amigável, muitas vezes em chats de jogos online ou por mensagens diretas. O aliciador se apresenta como alguém com interesses em comum, oferece apoio emocional, elogios e presentes virtuais, construindo gradualmente uma relação de confiança e dependência.
  3. Isolamento da Vítima: O aliciador persuade a criança a migrar a conversa para aplicativos de mensagens privadas (como WhatsApp ou Telegram), longe da supervisão de pais ou da moderação das plataformas. Eles criam um “mundo secreto” compartilhado apenas entre os dois.
  4. Normalização de Conteúdo Sexual e Coerção: Uma vez estabelecida a confiança, o aliciador começa a introduzir conversas de teor sexual, solicitar fotos ou vídeos íntimos (sextorsão) ou marcar encontros presenciais. Se a criança hesita, o aliciador pode recorrer à chantagem, ameaçando expor as conversas ou imagens para a família e amigos da vítima.

Dados da SaferNet Brasil e de relatórios internacionais mostram um aumento alarmante nos crimes online contra crianças. O uso de Inteligência Artificial generativa para criar material de abuso sexual infantil (CSAM) a partir de imagens roubadas de perfis de redes sociais é uma nova e crescente ameaça. As plataformas digitais, portanto, não são apenas um local de aliciamento, mas também um meio para a própria exploração.


A família Como Proteção ou Facilitadora

A família desempenha um papel paradoxal no contexto do tráfico infantil, podendo atuar tanto como a principal barreira de proteção quanto como uma facilitadora do crime. A direção que essa balança pende depende criticamente da estrutura, do ambiente e das condições socioeconômicas do núcleo familiar.

Como Barreira de Proteção: Uma família estruturada, com laços afetivos sólidos, comunicação aberta e que provê supervisão e apoio emocional, é o mais importante fator de proteção para uma criança.

Como Facilitadora: Infelizmente, em um número significativo de casos, a família está diretamente ou indiretamente implicada na exploração. Isso pode ocorrer de várias formas:

  • Negligência: A falta de supervisão e cuidado deixa a criança vulnerável a aliciadores externos.
  • Violência Doméstica: Um ambiente abusivo pode levar a criança a fugir e cair nas mãos de traficantes ou a confiar em qualquer um que lhe ofereça uma saída.
  • Exploração Direta (Tráfico Familiar): Em casos mais graves, os próprios pais ou parentes vendem ou exploram a criança em troca de dinheiro ou bens. Um estudo citado pelo Departamento de Estado dos EUA estima que o traficante é um membro da família em cerca de 31% dos casos de tráfico sexual infantil. Isso pode ser motivado por pobreza extrema, dependência química ou pelo próprio envolvimento dos pais em redes criminosas.

“Não há uma resposta única”, destaca a agente. “Enquanto a família é, idealmente, a primeira linha de defesa, a desestruturação familiar e a vulnerabilidade socioeconômica podem corromper esse papel, transformando-a em um agente facilitador do tráfico”, finaliza.


A Discrepância entre Investigações e Condenações

Os dados apresentados no relatório sobre o Brasil são um balde de água fria para quem acredita que o aumento do número de investigações se traduz, necessariamente, em mais justiça para as vítimas. Embora tenha havido um aumento nas investigações federais sobre tráfico de pessoas entre 2023 e 2024 (de 10 para 17), o número de prosecuções, tanto a nível federal quanto estadual, diminuiu. As prosecuções federais caíram de 41 para 29, e as estaduais de 81 para 62.

Esta redução no número de processos judiciais, apesar do aumento das investigações, sugere uma série de dificuldades na tradução do trabalho policial em ações penais consistentes. A falta de provas robustas, a dificuldade em caracterizar o crime de tráfico de pessoas e a complexidade das redes criminosas são alguns dos fatores que podem explicar esta discrepância. O resultado é um sentimento de frustração por parte das forças de segurança e uma mensagem de impunidade para os traficantes.

O número de condenações iniciais em 2024 é ainda mais desanimador. Foram registadas apenas uma condenação federal por tráfico sexual, quatro por trabalho forçado e seis estaduais por tráfico sexual. Estes números são irrisórios quando comparados com a prevalência estimada do crime no país. A baixa taxa de condenação revela as fragilidades do sistema de justiça criminal brasileiro, que muitas vezes não consegue garantir a responsabilização dos culpados e a reparação dos danos causados às vítimas.

O baixo índice de condenações é um dos principais motores da continuidade do tráfico infantil. A impunidade tem um efeito corrosivo sobre todo o sistema de enfrentamento ao crime e contribui de formas diretas e indiretas para a sua perpetuação.

Formas de Contribuição:

  1. Cálculo Racional do Criminoso: O tráfico de pessoas é um negócio. Os traficantes, como quaisquer outros empresários do crime, fazem um cálculo de risco versus recompensa. Quando o risco de ser pego, processado e condenado a uma pena severa é baixo, o crime torna-se extremamente atrativo. A impunidade sinaliza que o tráfico é uma atividade de baixo risco e altíssimo lucro.
  2. Falta de Dissuasão (Deterrence): A punição tem um efeito dissuasório tanto para o criminoso condenado (dissuasão específica) quanto para a sociedade em geral (dissuasão geral). Quando as condenações são raras ou as penas são brandas, a mensagem enviada é que o Estado não trata esse crime com a seriedade devida, o que não desencoraja novos criminosos de entrarem na atividade.
  3. Descrédito no Sistema de Justiça: A impunidade gera uma profunda desconfiança das vítimas e da sociedade no sistema de justiça. As vítimas sentem que não vale a pena passar pelo processo traumático de uma denúncia se o resultado provável é a absolvição do agressor. Isso alimenta o ciclo de subnotificação.
  4. Permanência das Redes Criminosas: A falta de condenações, especialmente de líderes de organizações criminosas, permite que essas redes continuem a operar livremente, aprimorando seus métodos e recrutando novas vítimas sem qualquer impedimento significativo por parte do Estado.

O caso do Brasil é emblemático. A ausência de uma única condenação final sob a principal lei de combate ao tráfico desde 2016 é uma demonstração clara de falha sistêmica na responsabilização, o que, na prática, dá um sinal verde para que os traficantes continuem a explorar crianças e adolescentes com um risco mínimo de consequências legais.


Os Pilares da Impunidade: Tempo, Absolvição e a Lei que Não se Aplica

O relatório aponta para três dos principais desafios sistêmicos que sustentam a cultura de impunidade no Brasil.

O primeiro pilar é o tempo médio de tramitação de um processo de tráfico de pessoas, que pode chegar a impressionantes 10 anos. Esta morosidade da justiça não só prolonga o sofrimento das vítimas, que precisam reviver o trauma do crime a cada etapa do processo, como também aumenta a probabilidade de prescrição dos crimes e a perda de provas importantes.

O segundo pilar da impunidade é a alta taxa de absolvição, que chega a aproximadamente 70%. Este dado revela a dificuldade do Ministério Público em provar a materialidade e a autoria do crime de tráfico de pessoas, muitas vezes por falta de provas técnicas e pela dependência excessiva do depoimento da vítima. A complexidade do crime, que envolve elementos como o engano, a coação e a exploração da vulnerabilidade, torna a sua comprovação um desafio para os operadores do direito.

O terceiro pilar e mais alarmante dado apresentado no relatório é o fato de que nunca houve uma condenação final com base na Lei 13.344 de 2016, a principal lei de combate ao tráfico de pessoas no Brasil. Esta lei, que representou um avanço significativo na legislação brasileira, tipificando o crime de tráfico de pessoas de forma mais abrangente e estabelecendo medidas de prevenção e assistência às vítimas, ainda não produziu os resultados esperados. A falta de condenações finais com base nesta lei é um sintoma grave da ineficácia do sistema de justiça criminal e um obstáculo para a efetiva proteção das vítimas.


Tráfico Interno: A Forma Mais Comum

Contrariamente à percepção popular, que frequentemente associa o tráfico a grandes deslocamentos internacionais, o tráfico interno (doméstico) ainda é a forma mais comum, tanto para adultos quanto para crianças, esclarece a agente. “A maioria das vítimas é traficada dentro de seu próprio país e, muitas vezes, dentro de sua própria região ou estado”.

Relatórios da Organização Internacional para as Migrações (OIM) e do UNODC consistentemente apontam para essa realidade. Um relatório da OIM em parceria com a Universidade de Harvard, por exemplo, indicou que mais da metade das crianças vítimas de tráfico são traficadas dentro de seus próprios países.

O tráfico interno apresenta “vantagens” para os criminosos:

  • Menor Risco: Evita a necessidade de cruzar fronteiras internacionais, o que reduz a fiscalização e os riscos de detecção.
  • Menor Custo: A logística de transporte é mais simples e barata.
  • Barreiras Culturais e Linguísticas Inexistentes: Facilita o controle e a manipulação da vítima.

Isso não diminui a gravidade do tráfico transnacional, que continua a ser uma realidade, especialmente envolvendo fluxos de países mais pobres para países mais ricos. Vítimas africanas, por exemplo, são detectadas em 128 países de destino diferentes.

“No entanto, em termos de volume, a maior parte do crime ocorre localmente, explorando vulnerabilidades socioeconômicas regionais, como o deslocamento de pessoas de áreas rurais pobres para grandes centros urbanos com a promessa de emprego”, alerta a agente.


Onde o Estado Mais Falha

A falha estatal é sistêmica e ocorre na prevenção, identificação e responsabilização. No entanto, a impunidade é o elemento mais crítico.

Processos judiciais excessivamente longos, baixíssimas taxas de condenação, penas desproporcionais e falta de desarticulação das redes criminosas criam um ambiente onde o tráfico se torna um negócio de baixo risco e alto retorno financeiro.

Área da FalhaManifestações da Falha
Prevenção– Políticas públicas insuficientes para combater as causas estruturais (pobreza, falta de educação). Campanhas de conscientização limitadas e de baixo alcance. Falta de programas robustos de apoio a famílias vulneráveis.
Identificação– Profissionais da linha de frente (saúde, educação, assistência) despreparados para reconhecer os sinais do tráfico. Ausência de protocolos claros e unificados para identificação e encaminhamento. Medo e desconfiança das vítimas nas instituições estatais. Subnotificação crônica que gera um “apagão estatístico”.
Responsabilização– Baixíssimas taxas de condenação. No Brasil, nunca houve uma condenação final sob a lei de 2016. Processos judiciais excessivamente longos (mais de uma década em média). Penas brandas ou não cumpridas, que não refletem a gravidade do crime. Investigação e persecução penal focadas em crimes menores, sem desarticular as redes criminosas. Cultura de impunidade que sinaliza aos criminosos que o risco de punição é baixo.

A falha na responsabilização é o elo mais fraco da corrente. “Sem a certeza da punição, o tráfico de pessoas continua a ser um negócio de baixo risco e altíssimo lucro. A impunidade desmoraliza os esforços de prevenção e desencoraja as vítimas a denunciarem, pois elas não acreditam que a justiça será feita.”, disse a policial.

Portanto, embora as falhas na prevenção e identificação sejam graves, é a incapacidade do sistema de justiça criminal de punir os traficantes que, em última análise, garante a sobrevivência e a prosperidade dessa indústria criminosa.


Revitimização Institucional

Crianças que conseguem romper o silêncio frequentemente enfrentam novos traumas ao entrar em contato com o sistema de justiça e de acolhimento.

A repetição de depoimentos, ambientes intimidadores, questionamentos inadequados e demora processual agravam o sofrimento. No sistema de acolhimento, a perda de vínculos, a institucionalização massificada e a ausência de apoio especializado comprometem a recuperação emocional.


O Apagão Estatístico

Os dados oficiais representam apenas uma fração da realidade. A subnotificação, a classificação inadequada dos crimes e a falta de sistemas integrados de informação impedem uma visão precisa da dimensão do problema.

O número de “vítimas detectadas” divulgado por órgãos como o UNODC refere-se apenas aos casos que, de alguma forma, chegaram ao conhecimento das autoridades. A cifra oculta (o número real de vítimas) é estimada como sendo muitas vezes maior. As razões para este apagão estatístico são as mesmas que causam a invisibilidade do crime:

  • Subnotificação massiva por parte das vítimas e suas famílias.
  • Falhas na identificação por parte dos serviços públicos.
  • Dificuldades de classificação do crime, que pode ser registrado como outra violação (ex: sequestro, abuso sexual, trabalho infantil).
  • Falta de sistemas de dados centralizados e integrados que permitam uma visão consolidada do problema em nível nacional e internacional.

O próprio Relatório do Departamento de Estado dos EUA sobre o Brasil aponta a dificuldade em obter dados abrangentes e desagregados, criticando a falta de comunicação efetiva de informações entre as autoridades federais e estaduais.

Essa deficiência de dados confiáveis é um obstáculo fundamental, pois sem um diagnóstico preciso da dimensão, das características e da localização do problema, é impossível formular políticas públicas de prevenção, proteção e repressão que sejam verdadeiramente eficazes.

“Sem dados confiáveis, políticas públicas tornam-se reativas, fragmentadas e ineficazes”, enfatiza a agente.


Perfil Dos Traficantes

Não existe um perfil único e universal de traficante de pessoas. A ideia de um “monstro” desconhecido e facilmente identificável é um mito perigoso. Os traficantes podem ser de qualquer gênero, idade, nacionalidade ou classe social. No entanto, a pesquisa e os dados de casos revelam alguns padrões e tipologias recorrentes:

  • Membros da Família ou Círculo Próximo: Como já mencionado, uma parcela significativa dos traficantes são parentes ou pessoas do convívio da vítima (vizinhos, amigos da família). Eles abusam da confiança e da posição de autoridade para explorar a criança [6].
  • Pequenos Recrutadores (Aliciadores): São indivíduos que atuam na ponta da rede, responsáveis por identificar e aliciar as vítimas. Podem ser jovens que usam redes sociais, motoristas de táxi ou transporte por aplicativo, ou mesmo ex-vítimas que são forçadas a recrutar outras pessoas.
  • Líderes de Redes Criminosas: São os “empresários” do crime, que gerenciam a logística, as finanças e a operação em larga escala. Geralmente não têm contato direto com as vítimas e são os mais difíceis de identificar e responsabilizar.
  • Oportunistas: Indivíduos que se aproveitam de uma situação de vulnerabilidade específica (ex: uma criança em situação de rua, um migrante perdido) para uma exploração pontual.

Em termos de características psicológicas, muitos traficantes exibem traços de psicopatia ou sociopatia, como falta de empatia, capacidade de manipulação, egocentrismo e uma visão das outras pessoas como meros objetos para a obtenção de lucro ou satisfação pessoal. “Eles são frequentemente carismáticos e persuasivos, o que facilita o processo de aliciamento. Não tem aparência de monstro”, alerta a policial.

Socialmente, os perfis são variados. Podem ser desde pequenos criminosos locais até empresários aparentemente legítimos que usam seus negócios como fachada para a exploração. É crucial entender que qualquer pessoa pode ser um traficante, e o foco deve estar nos atos e métodos utilizados, e não em um estereótipo preconcebido.


Tráfico e Classe Social

Embora a pobreza seja o principal fator de risco, o tráfico também ocorre em contextos de classe média e alta. Nesses casos, a vulnerabilidade é emocional, relacionada à negligência afetiva, solidão, conflitos familiares e exposição excessiva ao ambiente digital.


Tráfico de Órgãos

Ao ser questionada se existe tráfico de pessoas para a retirada de órgãos, a agente é categorica ao afirmar que existe. “Sim, o tráfico de pessoas para fins de remoção de órgãos existe e é reconhecido como uma das modalidades de exploração pelo Protocolo de Palermo da ONU. No entanto, é considerado uma das formas mais raras e de mais difícil comprovação do tráfico de pessoas.”

A remoção de órgãos é reconhecida internacionalmente como uma forma de tráfico, embora seja menos frequente e de difícil comprovação. O padrão mais comum envolve engano e coação de pessoas vulneráveis para a “venda” de órgãos em condições precárias.


Identificação de Vítimas de Exploração Sexual

Identificar uma vítima de tráfico para exploração sexual (prostituição forçada) pode ser desafiador, pois os traficantes frequentemente controlam todos os aspectos da vida da vítima.

Sobre os sinais, a policial explica que eles podem ser sutis e, por isso, o treinamento para reconhecimento é indispensável. “Os sinais podem ser sutis e são semelhantes aos de outras formas de tráfico, mas com algumas especificidades. É importante procurar por um conjunto de indicadores, e não apenas um sinal isolado”, explica.

Indicadores Físicos e de Aparência:

  • Sinais de abuso físico (hematomas, cortes, queimaduras).
  • Aparência de desnutrição, exaustão ou falta de higiene.
  • Infecções sexualmente transmissíveis não tratadas.
  • Tatuagens ou marcas que possam indicar “propriedade” do traficante.
  • Vestuário inadequado para o clima ou a situação.

Indicadores Comportamentais e Psicológicos:

  • Comportamento medroso, ansioso, submisso ou paranoico.
  • Evita contato visual e parece ser instruída sobre o que dizer.
  • Mostra sinais de estresse pós-traumático, como dissociação ou “olhar vazio”.
  • Parece estar sob o controle de outra pessoa; não fala por si mesma ou constantemente olha para outra pessoa antes de responder.
  • Não tem controle sobre seu próprio dinheiro ou documentos de identificação.

Indicadores de Controle e Isolamento:

  • Apresenta uma história ensaiada ou inconsistente sobre sua vida.
  • Não tem liberdade de movimento; é sempre acompanhada por alguém.
  • Não sabe onde está ou qual é o endereço.
  • Trabalha em horários excessivos e parece não ter dias de folga.
  • Vive no mesmo local onde trabalha ou em condições de superlotação.
  • Possui um celular, mas as chamadas e mensagens parecem ser monitoradas.

O Papel Das Escolas Na Prevenção

As escolas são espaços estratégicos para a prevenção. Ações eficazes incluem educação para segurança digital, desenvolvimento socioemocional, capacitação de profissionais, criação de ambientes de confiança e articulação com a rede de proteção.


Formação Especializada

Educação, saúde, assistência social, conselhos tutelares, segurança pública, sistema de justiça e setor de turismo necessitam de formação contínua e especializada. O enfrentamento do tráfico infantil exige conhecimento técnico, protocolos claros e atuação integrada.


Sociedade Civil, Imprensa e ONGs

Organizações da sociedade civil, imprensa e ONGs desempenham papel fundamental ao oferecer atendimento às vítimas, produzir dados, realizar advocacy e pressionar o poder público. Apesar disso, sua atuação não substitui a responsabilidade estatal.


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