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Aumento de 195% nas Denúncias de Abuso Infantil no Brasil

umento de 195% nas denúncias de abuso infantil no Brasil revela mais conscientização, tecnologia e quebra do silêncio. Análise profunda dos dados do Disque 100 entre 2020 e 2024.

Aumento de 195% nas Denúncias de Abuso Infantil no Brasil – No tecido social de uma nação, certos números transcendem a mera estatística. Eles não são apenas pontos em um gráfico; são ecos, reverberações de realidades complexas que demandam uma escuta atenta. O aumento de 195% nas denúncias de abuso e exploração sexual infantil no Brasil, registrado entre 2020 e 2024, é um desses números.

Divulgado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o salto de 6.380 para 18.826 queixas formais através do canal Disque 100 é um fenômeno que convida à reflexão, muito além do alarme inicial [1].

Interpretar esse dado como um simples indicador de que a violência contra crianças e adolescentes quase triplicou em quatro anos seria uma leitura superficial e, possivelmente, equivocada. Embora a prevalência desses crimes continue a ser uma ferida aberta na sociedade brasileira, o crescimento exponencial das denúncias aponta para uma transformação mais profunda: a gradual erosão do silêncio.

Este artigo propõe uma análise desse fenômeno, investigando as forças sociais, tecnológicas e psicológicas que permitiram que milhares de vozes, antes sufocadas pelo medo e pela vergonha, finalmente encontrassem um canal para ecoar.

Aumento de 195% nas Denúncias de Abuso Infantil no Brasil

Antes de qualquer análise qualitativa, a integridade do dado quantitativo deve ser estabelecida. A informação, amplamente veiculada por veículos de imprensa como o G1 em maio de 2025, tem como fonte primária a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, órgão do MDHC responsável pelo Disque 100 [1]. A verificação matemática confirma a precisão do percentual: partindo de 6.380 denúncias em 2020 e chegando a 18.826 em 2024, o cálculo de crescimento ((18.826 – 6.380) / 6.380) × 100 resulta em 194,8%, validando o arredondamento para 195%.

IndicadorDetalheFonte Primária
Período Analisado2020 – 2024MDHC / Disque 100 [1]
Denúncias em 20206.380MDHC / Disque 100 [1]
Denúncias em 202418.826MDHC / Disque 100 [1]
Crescimento Percentual194,8% (≈195%)Cálculo baseado em dados oficiais

O Disque 100 não é apenas um receptor de queixas; é a porta de entrada para a complexa Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente. Cada denúncia validada é metodicamente encaminhada para os órgãos competentes, como Conselhos Tutelares, Polícias Civil e Militar, e o Ministério Público, de acordo com a natureza da violação e a localidade. Portanto, o aumento no volume de denúncias representa uma pressão direta e crescente sobre toda essa infraestrutura institucional.

É crucial contextualizar o ponto de partida, o ano de 2020. Marcado pelo início da pandemia de COVID-19, o isolamento social gerou uma apreensão generalizada entre especialistas. A lógica era sombria: com as escolas fechadas e o convívio social restrito, as crianças estariam mais tempo confinadas com potenciais agressores, longe dos olhos de professores e outros agentes que historicamente identificam sinais de violência.

De fato, relatórios iniciais daquele período indicaram uma queda nas notificações, um silêncio que não significava paz, mas sim a ausência de observadores [4]. O crescimento subsequente, portanto, não foi apenas um aumento, mas uma reversão dramática, sugerindo que mecanismos compensatórios de visibilidade e denúncia emergiram com força nos anos seguintes.

Quando o Privado se Torna Público

O aumento das denúncias pode ser analisado como um fenômeno de visibilidade social. Crimes que ocorrem na esfera privada, especialmente dentro da família, dependem do silêncio e da cumplicidade, seja ela ativa ou passiva. A transformação de um problema privado em uma questão de interesse público é um processo lento, alimentado por movimentos sociais, cobertura da mídia e, crucialmente, por políticas públicas que validam a importância do tema.

A fala de Karina Figueiredo, secretária-executiva do Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, é central para essa compreensão. Ao afirmar que o aumento das denúncias se deve mais à conscientização do que a um aumento absoluto dos crimes, ela aponta para um amadurecimento da sociedade [1].

Campanhas como o “Maio Laranja” são a ponta mais visível desse esforço. Elas funcionam como rituais cívicos que, ano após ano, inserem o tema na agenda pública, forçando conversas em escolas, empresas e na mídia. Essa repetição é pedagógica; ela ensina a sociedade a reconhecer, nomear e, finalmente, a agir contra a violência.

Esse processo de publicização tem um efeito cascata. Ele legitima a dor da vítima, sinalizando que sua experiência é real e inaceitável. Ao mesmo tempo, ele impõe uma responsabilidade sobre a comunidade. O vizinho que ouve gritos, o professor que nota uma mudança de comportamento, o médico que identifica lesões inexplicáveis — todos são informados de que sua inação é uma forma de conivência. O Disque 100 se torna o catalisador que transforma a preocupação individual em uma ação cívica, um ato de corresponsabilidade pela proteção da infância.

A Neurobiologia do Trauma

Para entender a magnitude do que significa um aumento de 195% nas denúncias, é imperativo ir além da sociologia e adentrar a complexa esfera da psicologia e da neurociência do trauma. O ato de uma criança ou adolescente revelar um abuso é um dos mais difíceis e corajosos que um ser humano pode realizar. O silêncio da vítima não é uma escolha passiva, mas uma estratégia de sobrevivência forjada em um ambiente de medo extremo e manipulação psicológica.

O cérebro, especialmente em seus anos de formação, é profundamente maleável. A exposição contínua a situações de estresse extremo, como o abuso sexual, ativa cronicamente o sistema de resposta à ameaça do corpo (o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal). Isso pode levar a alterações estruturais e funcionais em áreas cerebrais críticas.

O hipocampo, essencial para a formação de memórias contextuais, pode ter seu volume reduzido, resultando em memórias fragmentadas e desorganizadas do trauma. O córtex pré-frontal, responsável pelo controle executivo, regulação emocional e tomada de decisões, pode ter seu desenvolvimento prejudicado, dificultando a capacidade da vítima de planejar e executar a complexa tarefa de pedir ajuda.

Psicologicamente, o agressor, que em mais de 80% dos casos é alguém do círculo de confiança da vítima, constrói uma teia de manipulação. O grooming envolve a criação de um vínculo afetivo distorcido, presentes, segredos e uma inversão de culpa. A criança é levada a acreditar que é especial, que o que acontece é uma forma de afeto, ou que, se contar, será a causadora da destruição de sua família. Essa ambivalência — sentir afeto e medo pela mesma pessoa — gera uma dissonância cognitiva paralisante. A vergonha tóxica e a culpa se instalam, fazendo com que a vítima se sinta suja, danificada e cúmplice do próprio abuso.

Nesse contexto, as campanhas de conscientização e a visibilidade dos canais de denúncia funcionam como uma intervenção externa que pode quebrar esse ciclo. Ao ouvir de fontes externas e confiáveis (escola, mídia, governo) que a culpa não é sua e que o segredo não precisa ser mantido, a vítima recebe uma permissão social para reinterpretar sua experiência. O Disque 100, ao garantir o anonimato, oferece um passo intermediário de baixo risco. A possibilidade de uma terceira pessoa (um vizinho, um professor) denunciar em seu nome também é um mecanismo de proteção fundamental, que contorna a paralisia da vítima.

O aumento das denúncias, sob essa ótica, é um indicador de que a narrativa pública de apoio está começando a sobrepujar a narrativa privada de medo e vergonha imposta pelo agressor. Cada denúncia representa uma vitória da coragem sobre o trauma, um ato de resistência neuropsicológica.

A Ambivalência Tecnológica: Novos Riscos, Novos Escudos

A era digital, que se consolidou no período de 2020 a 2024, introduziu uma complexidade adicional. A tecnologia é um campo de batalha onde se travam novas lutas pela segurança infantil. Por um lado, a internet e as redes sociais se tornaram territórios de caça para predadores. A SaferNet Brasil, organização referência no combate a crimes cibernéticos, aponta para o uso crescente de plataformas como o Discord para a prática de crimes como sextorsão, estupro virtual e a disseminação de CSAM [3].

A inteligência artificial generativa, com sua capacidade de criar imagens e vídeos sintéticos, representa uma nova fronteira de risco, dificultando a distinção entre o real e o fabricado e potencializando a produção de material de abuso.

No entanto, a mesma tecnologia oferece ferramentas de defesa sem precedentes. A modernização do Disque 100 é um exemplo paradigmático. A inclusão de canais de denúncia via WhatsApp e Telegram alinha o serviço à forma como a população, especialmente os mais jovens, se comunica. A simplicidade de enviar uma mensagem de texto, uma foto ou um link de uma conversa suspeita reduz drasticamente a barreira para a denúncia. A implementação de videochamadas em Libras é um marco de acessibilidade, garantindo que pessoas com deficiência auditiva não sejam excluídas do sistema de proteção.

Essa facilidade de uso pode explicar uma parte significativa do aumento das denúncias. Um adolescente que testemunha o abuso de um amigo pode não se sentir confortável fazendo uma ligação, mas pode facilmente enviar uma mensagem detalhada. A tecnologia, nesse sentido, não apenas facilita a denúncia, mas também a diversifica, permitindo que mais pessoas na rede de convívio da vítima se tornem agentes de proteção. O crescimento das denúncias é, também, um reflexo da adaptação bem-sucedida das políticas públicas à nova ecologia da comunicação digital.

O Gargalo Pós-Denúncia

Se o aumento das denúncias é um sinal de progresso na conscientização e no acesso, ele também expõe as fragilidades e os gargalos do sistema que vem depois. Uma denúncia é uma semente. Para que ela germine em proteção efetiva, justiça e reparação, ela precisa de um solo fértil, composto por instituições ágeis, bem equipadas e com pessoal qualificado.

O Conselho Tutelar é, frequentemente, a primeira instituição a agir após uma denúncia do Disque 100. No entanto, muitos conselhos no Brasil operam em condições precárias, com falta de estrutura física, de equipamentos (carros, computadores) e de capacitação contínua para seus membros. A sobrecarga de trabalho, agora amplificada pelo aumento de 195% nas denúncias, pode levar ao esgotamento profissional (burnout) e a uma incapacidade de dar a devida atenção a cada caso.

O sistema de justiça também enfrenta seus próprios desafios. A produção de provas em casos de abuso sexual, especialmente quando não há violência física evidente, é notoriamente complexa. A palavra da vítima, especialmente de uma criança, é frequentemente questionada. A escuta especializada e o depoimento especial, técnicas desenvolvidas para colher o testemunho de crianças de forma a minimizar a revitimização, ainda não são uma realidade em todas as comarcas do país. Processos que se arrastam por anos podem retraumatizar a vítima e levar à impunidade do agressor.

Finalmente, a rede de saúde e assistência social precisa estar preparada para oferecer o suporte de longo prazo. O tratamento do trauma psicológico exige psicólogos e psiquiatras especializados em infância e adolescência, profissionais em falta no Sistema Único de Saúde (SUS) em muitas regiões. Os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) são fundamentais para o acompanhamento da família e a reestruturação do ambiente protetivo, mas também sofrem com a sobrecarga e a falta de recursos.

O aumento das denúncias, portanto, funciona como um teste de estresse para toda a Rede de Proteção. Ele revela que a porta de entrada está se tornando mais larga e acessível, mas evidencia a urgência de se alargar também o corredor que leva à justiça e à cura. Sem um investimento maciço na qualificação e estruturação dessas instituições, corremos o risco de transformar a esperança da denúncia na frustração de um sistema que não consegue responder.

Exigimos Resposta

O aumento de 195% nas denúncias de abuso e exploração sexual infantil no Brasil não é um número para ser apenas lamentado. É um fenômeno complexo que reflete, simultaneamente, a persistência de uma violência atroz e o avanço de uma consciência coletiva. Ele representa a coragem de milhares de vítimas e testemunhas que, amparadas por campanhas de conscientização e por canais de denúncia mais acessíveis, decidiram quebrar o ciclo do silêncio.

Entender essa estatística é entender que a batalha pela proteção infantil se trava em múltiplas frentes: na educação que previne, na psicologia que encoraja, na tecnologia que conecta e na política pública que estrutura a resposta.

O eco das 18.826 denúncias de 2024 é responsabilidade do Congresso que amarga em leis fracas e benevolentes em prol dos abusadores. O aumento das denúncias mostra que a sociedade está fazendo sua parte, está mais vigilante e disposta a agir. Agora, cabe ao Estado garantir que cada voz que ecoa através do Disque 100 seja ouvida, acolhida e, acima de tudo, respondida com a força, a agilidade e a compaixão que a defesa da infância exige. O silêncio foi rompido. O desafio, agora, é construir a justiça que esse novo som demanda.

Referências

[1] G1. (2025, 18 de maio). Denúncias de abuso e exploração sexual infantil crescem 195% nos últimos 4 anos. Acessado em 31 de janeiro de 2026, de https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/05/18/denuncias-de-abuso-e-exploracao-sexual-infantil-crescem-195percent-nos-ultimos-4-anos.ghtml

[2] Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. (2025, 6 de janeiro). Disque 100 registra 657,2 mil denúncias em 2024 e crescimento de 22,6% em 2024. Acessado em 31 de janeiro de 2026, de https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2025/janeiro/disque-100-registra-657-2-mil-denuncias-em-2024-e-crescimento-de-22-6-em-2024

[3] SaferNet Brasil. (2025, 20 de agosto). SaferNet Brasil alerta que 64% das denúncias recebidas em 2025 são de abuso e exploração. Acessado em 31 de janeiro de 2026, de https://new.safernet.org.br/content/safernet-brasil-alerta-que-64-das-denuncias-recebidas-em-2025-sao-de-abuso-e-exploracao

[4] Gênero e Número. (2021, 21 de maio). Denúncias de violência sexual infantil no Disque 100 caem em 2020. Acessado em 31 de janeiro de 2026, de https://www.generonumero.media/reportagens/violencia-sexual-infantil/

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