O Perigo das Redes Sociais

A Fábrica de Monstros: O Discurso Misógino Alimenta o Feminicídio no Brasil

Como os discursos misóginos propagados nas redes aumentaram o feminicidio

Discurso Misógino – Em algum lugar do Brasil, neste exato momento, uma mulher está sendo assassinada. A estatística fria, que aponta para uma morte a cada 44 minutos, não captura o terror do instante final, nem a história que o precedeu. Em 2025, o país atingiu a marca histórica e desoladora de 1.518 feminicídios, o maior número já registrado desde a tipificação da lei em 2015.

Este não é um aumento aleatório. É o sintoma de uma sociedade doente, cuja infecção se propaga em alta velocidade pelos cabos de fibra óptica e pelas telas de smartphones, em um ecossistema digital que se tornou uma verdadeira fábrica de agressores.

Para compreender a crise atual, é preciso ir além da cena do crime. É necessário entrar nos quartos escuros e nos fóruns anônimos onde a violência é gestada. A correlação entre a escalada do feminicídio e a popularização desses discursos misóginos é mais do que uma suspeita; é uma evidência que emerge da análise de dados, de estudos acadêmicos e de alertas de organizações globais como a ONU.

A violência que ceifa a vida de mulheres no mundo físico é, cada vez mais, a manifestação final de um processo de radicalização que começa com um clique. Entender a mente desses homens, os gatilhos que os movem e a ideologia que os absolve é fundamental para diagnosticar a doença social que está matando as mulheres brasileiras em uma escala sem precedentes.

Discurso Misógino e a Escalada Paralela: Feminicídio e Discurso Redpill Crescem Juntos

Um dos dados mais perturbadores que emerge da análise de pesquisas acadêmicas é a correlação temporal quase perfeita entre o aumento do feminicídio no Brasil e a disseminação massiva de conteúdo redpill e incel nas plataformas digitais. Não se trata de coincidência, mas de uma relação causal que pode ser visualizada e quantificada.

Enquanto o Brasil registrava 535 feminicídios em 2015, ano da tipificação do crime, as comunidades redpill começavam a ganhar visibilidade online. Uma década depois, em 2025, o país atingiu 1.518 feminicídios, um aumento de 184%, enquanto o conteúdo redpill publicado em plataformas como YouTube, Telegram e fóruns especializados cresceu de forma exponencial.

O gráfico acima ilustra essa escalada paralela de forma inequívoca. Entre 2015 e 2025, enquanto os feminicídios subiam gradualmente, a disseminação de conteúdo redpill e incel acelerava em ritmo vertiginoso. Em 2019, quando o YouTube começou a ser monitorado sistematicamente para conteúdo misógino, já havia centenas de canais dedicados a ensinar homens como “despertar” para a suposta verdade de que as mulheres são inimigas.

Dez anos depois, em 2025, pesquisadores identificaram 137 canais misóginos no YouTube com mais de 3,9 bilhões de visualizações. Simultaneamente, o Brasil registrava seu recorde de feminicídios.

A pesquisa coordenada pela USP revelou que entre 2015 e 2025, comunidades redpill brasileiras publicaram 5,4 milhões de conteúdos, enquanto comunidades anti-woke e antigênero publicaram 1,9 milhões de conteúdos apenas no Brasil, parte de um total de 3,6 milhões na América Latina e Caribe. Cada um desses conteúdos representa uma oportunidade de radicalização, uma porta de entrada para o funil que transforma frustração em ódio e ódio em violência.

A cronologia é reveladora. Em 2015, quando a lei de feminicídio foi criada, havia esperança de que a tipificação do crime pudesse servir como um mecanismo de dissuasão. Mas simultaneamente, a internet brasileira começava a se preencher com discursos que negavam a própria validade dessa lei, argumentando que ela era parte de uma “conspiração feminista”. Enquanto as mulheres ganhavam proteção legal, os homens radicalizados ganhavam uma narrativa que os posicionava como vítimas de uma “guerra de gênero” orquestrada por mulheres e seus aliados no governo.

O Perfil Psicológico do Incel: Entre a Autocomiseração e o Desejo de Aniquilação

O termo “incel”, abreviação de “celibatário involuntário”, designa homens que se sentem incapazes de estabelecer relações afetivas e sexuais com mulheres. No entanto, o que poderia ser uma questão de dificuldade social ou baixa autoestima se metamorfoseia, dentro de suas comunidades online, em uma complexa estrutura ideológica de ódio. O perfil psicológico de um incel é um intrincado nó de depressão, ansiedade, distorções cognitivas e um profundo ressentimento que elege a mulher como a causa de todo o seu sofrimento.

Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Swansea, no Reino Unido, com 151 incels, revelou um quadro de saúde mental alarmante. Os participantes do estudo apresentavam níveis extraordinariamente altos de depressão severa, ansiedade e pensamentos suicidas. Além disso, uma proporção significativa relatou diagnósticos ou sintomas de autismo, sugerindo que dificuldades preexistentes de interação social podem torná-los particularmente vulneráveis à cooptação por essas comunidades.

O professor Andrew Thomas, coautor do estudo, destaca que esses indivíduos parecem ter “erros de pensamento específicos sobre os relacionamentos sexuais que podem afetar seus relacionamentos interpessoais”.

Esses “erros de pensamento”, ou distorções cognitivas, são a base da ideologia incel. Eles constroem uma visão de mundo determinista e cruel, onde a genética é destino. Nesse sistema, existem os “Chads”, homens alfa, geneticamente superiores e desejados por todas as mulheres, e as “Stacys”, mulheres atraentes e superficiais que os desejam.

O incel se vê como biologicamente inferior, fadado ao fracasso romântico. Essa crença, embora autodestrutiva, cumpre uma função psicológica importante: ela externaliza a culpa. A responsabilidade por sua solidão e infelicidade não é sua, nem de suas possíveis dificuldades sociais; é das mulheres, que são inerentemente cruéis e superficiais, e de um sistema social “ginocêntrico” que as favorece.

Essa externalização da culpa é um mecanismo de defesa que protege um ego extremamente frágil. Contudo, ela vem com um preço altíssimo: a desumanização completa da mulher. Ela deixa de ser um indivíduo com desejos e autonomia e se torna um mero objeto de desejo que lhe foi injustamente negado. A partir daí, o ressentimento fermenta e se transforma em ódio.

A comunidade online atua como uma câmara de eco, onde essa visão de mundo é constantemente validada e reforçada. Qualquer experiência negativa com uma mulher é interpretada como mais uma prova da validade da ideologia. A cientista política Bruna Camilo, que monitorou grupos de incels brasileiros, explica que “estes são grupos organizados, que entendem que a mulher é o grande problema da sociedade”.

Do ponto de vista psiquiátrico, o comportamento incel pode ser analisado à luz de transtornos de personalidade, embora não seja um diagnóstico em si. Traços de personalidade paranoide, com sua desconfiança e suspeita generalizada, e de personalidade esquiva, com seu medo da rejeição e inibição social, são frequentemente observados. A ideologia incel oferece uma estrutura para essas predisposições, dando-lhes um nome, uma causa e, mais perigosamente, um inimigo.

A violência, nesse contexto, emerge como uma fantasia de vingança. É a tentativa desesperada de inverter a dinâmica de poder percebida, de forçar o mundo a reconhecer sua dor através da aniquilação da fonte de sua frustração. O massacre de Isla Vista em 2014, onde um jovem deixou um manifesto misógino antes de matar seis pessoas, foi o primeiro grande alerta de que essa fantasia poderia, e iria, transbordar para a realidade.

O Cenário do Feminicídio no Brasil: Uma Emergência Nacional

Os dados sobre violência de gênero no Brasil revelam uma tendência de crescimento contínuo e acentuado. A tipificação do crime de feminicídio em 2015 permitiu uma melhor mensuração do problema, e os números desde então são um sinal de alerta para a sociedade. O país atingiu recordes históricos de feminicídios, contrariando inclusive tendências de queda em outros tipos de homicídios e posicionando-se como o quinto país mais perigoso para mulheres no mundo.

A professora Silvana Mariano, coordenadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), afirma que “a tendência de alta em tantos estados revela que o feminicídio continua sendo um problema estrutural no Brasil”.

A tabela abaixo ilustra a evolução recente dos casos de feminicídio, evidenciando a gravidade da situação.

PeríodoNúmero de Vítimas de FeminicídioFonte(s)
2015535G1
2022-2023Crescimento de 2,5%ANDES
20241.459CNN Brasil
20251.518 (recorde histórico)Agência Brasil
1º semestre de 2025718 (média de 4 por dia)Senado Notícias

Esses números são agravados por um contexto de violência generalizada, incluindo 33.999 casos de estupro registrados apenas no primeiro semestre de 2025. A maioria das vítimas de feminicídio são mulheres negras e jovens, e cerca de 60% dos crimes são cometidos por parceiros ou ex-parceiros íntimos, frequentemente dentro da própria casa da vítima.

A Psique Redpill: Narcisismo, Controle e a Mercantilização da Misoginia

Se o universo incel é marcado pela autocomiseração e pelo desespero, o mundo redpill se apresenta sob uma fachada de autoconfiança, sucesso e conhecimento superior. O termo, emprestado do filme “Matrix”, simboliza o ato de “despertar” para uma suposta verdade oculta: a de que a sociedade moderna é uma conspiração feminista projetada para oprimir os homens.

O adepto da redpill não se vê como uma vítima da genética, como o incel, mas como um homem que foi enganado e que agora, de posse da “pílula vermelha”, pode finalmente entender as regras do jogo e virá-lo a seu favor.

O perfil psicológico predominante na comunidade redpill está fortemente associado a traços de narcisismo. Há uma grandiosidade na crença de que eles são os únicos a enxergar a “verdade”. Há uma necessidade constante de admiração, que é buscada através da demonstração de domínio sobre as mulheres. E, crucialmente, há uma profunda falta de empatia.

As mulheres não são vistas como parceiras, mas como adversárias em um jogo a ser vencido, ou como recursos a serem explorados. A ideologia redpill fornece um manual de instruções para essa exploração, repleto de regras sobre como se relacionar, o que esperar e como controlar o comportamento feminino.

Influenciadores como Thiago Schutz, o “coach do Campari”, exemplificam a mercantilização dessa ideologia no Brasil. Seus conselhos, que incluem relacionar-se apenas com mulheres mais jovens e sem filhos, são apresentados como estratégias para que os homens “se deem valor”.

Essa retórica de autoajuda é um disfarce para uma misoginia profunda. Ela ensina os homens a verem as mulheres não por suas qualidades individuais, mas como um conjunto de características a serem avaliadas em um mercado de relacionamentos. A mulher ideal é jovem, submissa e sem um passado que possa “desvalorizá-la”. Qualquer mulher que desafie esse padrão, como mulheres independentes ou feministas, é demonizada.

Do ponto de vista psiquiátrico, a ideologia redpill pode ser vista como um sistema de crenças que valida e reforça comportamentos antissociais e narcisistas. A necessidade de controle é um tema central. A rejeição não é uma possibilidade aceitável, pois fere o ego grandioso. A reação à rejeição, portanto, pode ser desproporcional e violenta. A ameaça de “processo ou bala” feita por Schutz a uma atriz que o satirizou é um exemplo claro dessa dinâmica. A crítica não foi vista como uma opinião, mas como um ataque intolerável à sua autoridade e visão de mundo, que demandava uma resposta de dominação.

Enquanto os incels se unem pela dor compartilhada, os redpills se unem por um senso de superioridade compartilhada. Eles são os “alphas”, os homens que entenderam o sistema. Essa identidade coletiva é construída em oposição direta ao feminismo, que é retratado como o grande inimigo a ser combatido.

Um estudo da cidade de Leipzig, na Alemanha, apontou que um quarto da sociedade alemã tem uma visão de mundo consistentemente antifeminista, e que tais atitudes formam uma ponte para o extremismo. A redpill oferece essa ponte, conectando a insatisfação pessoal com uma ideologia política de extrema-direita que promete restaurar uma ordem patriarcal perdida.

O Perfilamento Criminal: Da Radicalização Online ao Ato Violento

A transição do discurso de ódio para o ato violento não é um salto, mas uma descida por uma escada de radicalização. O perfil criminal do agressor que emerge da manosfera é o de um indivíduo que passou por um processo de doutrinação que neutralizou suas inibições morais e lhe forneceu uma justificativa para a violência.

O pesquisador Ergon Cugler, da USP, descreve como as plataformas digitais criam um “sistema integrado e escalonado de circulação de convites” . Um jovem que começa assistindo a vídeos de humor no TikTok pode ser algoritmicamente guiado para canais de influenciadores redpill no YouTube e, de lá, ser convidado para grupos fechados e mais extremos no Telegram.

Em cada etapa, o nível de misoginia e a aceitação da violência aumentam. Dentro desses grupos, o anonimato e a ausência de vozes dissidentes criam um ambiente onde as fantasias mais violentas podem ser expressas e, pior, validadas pelo grupo.

Do ponto de vista da criminologia, a ideologia incel/redpill funciona como uma poderosa “técnica de neutralização”. Esse conceito, desenvolvido pelos sociólogos Gresham Sykes e David Matza, descreve as justificativas que os indivíduos usam para racionalizar seu comportamento desviante. A ideologia da manosfera oferece várias dessas neutralizações:

A primeira delas é a negação da vítima. A mulher não é uma vítima inocente, mas uma provocadora, uma manipuladora ou um ser inferior que “mereceu” a violência. A culpa é transferida do agressor para a agredida.

A segunda é o apelo a lealdades superiores. O agressor não está cometendo um crime, mas servindo a uma causa maior: a restauração da masculinidade, a luta contra o feminismo ou a vingança em nome de todos os homens “oprimidos”.

A terceira é a condenação dos condenadores. As leis, a polícia e o sistema de justiça são vistos como parte da conspiração feminista. Portanto, suas regras não se aplicam, e suas condenações são ilegítimas.

Quando um indivíduo internaliza essas crenças, a barreira psicológica que impede a violência física é corroída. A ONU foi explícita em seu alerta de 2025: “a violência que começa no digital pode transformar-se em violência física”. O relatório aponta que 38% das mulheres já sofreram violência online, um precursor comum da violência física. O agressor, imerso em uma realidade onde a mulher é o inimigo, pode começar com assédio online, progredir para perseguição (stalking) e, finalmente, cometer a agressão física ou o feminicídio, sentindo-se plenamente justificado em seus atos.

O perfil criminal é, portanto, o de um extremista ideológico. Ele pode não pertencer a uma organização terrorista tradicional, mas compartilha a mesma lógica. Ele acredita que a violência é uma ferramenta legítima para alcançar um objetivo político ou social. Seu alvo não é apenas a mulher individual que ele ataca, mas tudo o que ela representa: a autonomia feminina, a igualdade de gênero e a modernidade que ele rejeita. Cada feminicídio cometido por um homem radicalizado por essas ideologias é, em sua essência, um ato de terrorismo misógino.

A “Manosfera”

Paralelamente à escalada da violência física, o ambiente digital brasileiro foi inundado por ideologias misóginas que compõem a chamada “manosfera”. Os movimentos incel e redpill são seus expoentes mais proeminentes e perigosos. Embora possuam particularidades, ambos compartilham uma base de ressentimento, ódio contra mulheres e uma narrativa de vitimização masculina.

Segundo a cientista política Bruna Camilo, que se infiltrou nessas comunidades, seus membros usam o termo “estar redpilado” para descrever o momento em que um homem “acorda para a realidade”. Para eles, essa realidade é uma em que “as mulheres são as grandes vilãs da sociedade, atrás de direitos privilegiadas, interesseiras, aproveitadoras”.

CaracterísticaIncel (Celibatários Involuntários)Redpill (Pílula Vermelha)
Crença CentralCulpam as mulheres por seu insucesso sexual e romântico, atribuindo-o a uma suposta inferioridade biológica ou à superficialidade feminina.Acreditam que a sociedade é “ginocêntrica” e manipulada por mulheres, e que os homens precisam “despertar” para essa realidade.
Visão sobre MulheresVistas como seres irracionais e cruéis (“Stacys”) que só se interessam por homens geneticamente superiores (“Chads”).Consideradas interesseiras, manipuladoras e hipergâmicas, que devem ser controladas e submetidas para o bem da sociedade.
ObjetivoVaria de um desejo de aceitação forçada a um anseio por vingança violenta contra a sociedade, especialmente contra mulheres.Resgatar uma suposta masculinidade perdida através da dominação e do controle sobre as mulheres, restabelecendo uma ordem patriarcal.
RetóricaLinguagem de desespero, autoaversão, ódio explícito e justificação da violência como uma resposta inevitável à sua condição.Disfarçada de autoajuda, desenvolvimento pessoal e “verdades inconvenientes”, frequentemente monetizada através de cursos e consultorias.

Esses discursos não são apenas opiniões isoladas. Um estudo da UFRJ em parceria com o Ministério das Mulheres identificou, entre 2018 e 2024, 137 canais no YouTube que pregam a misoginia, acumulando 3,9 bilhões de visualizações. Outro levantamento, coordenado pelo pesquisador Ergon Cugler na USP, revelou que comunidades redpill brasileiras no Telegram publicaram 5,4 milhões de conteúdos entre 2015 e 2025 .

A Monetização do Ódio: O Incentivo Econômico para a Misoginia

Um aspecto frequentemente negligenciado na análise da disseminação de conteúdo misógino é o fator econômico. As plataformas digitais, particularmente o YouTube, têm permitido que influenciadores lucrem diretamente com a produção de conteúdo de ódio.

Um estudo da UFRJ em parceria com o Ministério das Mulheres revelou que 80% dos 137 canais misóginos identificados no YouTube utilizam estratégias de monetização, gerando receita através de publicidade, memberships e vendas de cursos.

Essa monetização cria um incentivo perverso. Quanto mais extremo o conteúdo, mais engajamento ele gera. Quanto mais engajamento, mais receita é gerada. Os algoritmos das plataformas, projetados para maximizar o tempo de permanência do usuário, recompensam o conteúdo mais provocativo e polarizador. Um influenciador redpill que começa com conselhos sobre relacionamentos pode rapidamente evoluir para discursos cada vez mais misóginos, sabendo que cada escalada gerará mais visualizações e, consequentemente, mais dinheiro. A misoginia se torna um produto, e as mulheres, o mercado a ser explorado.

O Mecanismo de Radicalização: Do Meme à Violência

A transição de um jovem frustrado para um extremista violento é um processo gradual e metodicamente orquestrado pelas arquiteturas das plataformas digitais e pela ação de influenciadores. A pesquisa de Ergon Cugler detalha este funil de radicalização:

  1. Entrada e Captura: O processo começa com conteúdos de aparência inofensiva, como memes, vídeos de humor corrosivo ou conselhos de autoajuda em plataformas como TikTok e YouTube.
  2. Imersão e Doutrinação: Os algoritmos, que recompensam conteúdo provocativo, guiam o usuário para influenciadores que misturam dicas de desenvolvimento pessoal com teorias conspiratórias e masculinidade tóxica.
  3. Isolamento e Confirmação: Através de links de convite, o usuário é levado para comunidades fechadas no Telegram e Discord, onde suas crenças são constantemente reforçadas e visões dissidentes são eliminadas, criando uma bolha ideológica.
  4. Desumanização e Justificação: Dentro desses grupos, a mulher é sistematicamente desumanizada e transformada em um inimigo. A violência deixa de ser um tabu e passa a ser discutida como uma solução legítima e, por vezes, necessária.

Este ecossistema é altamente interconectado. Canais antivacina levam a grupos da “manosfera”, que por sua vez direcionam para comunidades de terraplanismo ou revisionismo histórico, criando uma rede coesa de desconfiança nas instituições e na ciência.

Fatores de Vulnerabilidade: Quem Está em Risco de Radicalização?

Nem todos os homens que acessam conteúdo redpill ou incel se tornam agressores. Existem fatores de vulnerabilidade específicos que aumentam o risco de radicalização. A pesquisa da Universidade de Swansea identificou que indivíduos com depressão severa, ansiedade, pensamentos suicidas e isolamento social extremo são particularmente vulneráveis. Além disso, a falta de educação de gênero nas escolas e a influência dos algoritmos de plataformas digitais amplificam esse risco.

A ausência de um debate honesto sobre masculinidade nas escolas brasileiras deixou uma lacuna que foi preenchida por influenciadores misóginos. Meninos crescem sem modelos de masculinidade saudável, sem ferramentas para lidar com rejeição ou fracasso amoroso de forma construtiva. Quando encontram comunidades online que oferecem respostas simples para suas frustrações complexas, eles são facilmente capturados.

A ideologia redpill/incel oferece uma narrativa coerente, uma comunidade de pertencimento e uma explicação para seu sofrimento que não demanda autorreflexão ou mudança pessoal, apenas ódio direcionado para um inimigo externo: as mulheres.

A Correlação Explícita: Do Ódio Digital ao Feminicídio

A conexão entre o discurso de ódio online e a violência física é direta e foi confirmada por múltiplas fontes. A Organização das Nações Unidas (ONU), em seu alerta de 25 de novembro de 2025, foi categórica ao afirmar que “a violência que começa no digital pode transformar-se em violência física”, abrangendo desde perseguição e chantagem até agressões e femicídio.

O discurso misógino funciona como um lubrificante para a violência de gênero por vários motivos:

  • Normalização da Violência: Ao apresentar mulheres como seres inferiores, manipuladores ou inerentemente maus, a violência contra elas passa a ser vista como uma forma de disciplina ou justiça, e não como um crime.
  • Criação de uma Inimigo Comum: A ideologia fornece um alvo claro para as frustrações masculinas, canalizando a raiva individual para um ódio coletivo direcionado às mulheres.
  • Erosão da Empatia: A desumanização constante impede que os homens vejam as mulheres como seres humanos plenos, com direitos e sentimentos, facilitando a perpetração de atos cruéis.
  • Senso de Comunidade e Permissão: Os grupos online oferecem um senso de pertencimento e validação. Ao ver centenas ou milhares de outros homens compartilhando as mesmas visões, um indivíduo pode se sentir autorizado a agir de forma violenta.

Casos como o do coach redpill Thiago Schutz, que ameaçou de morte uma atriz que satirizou seus discursos, ilustram como a retórica online rapidamente transborda para ameaças reais no mundo físico. A violência não é um efeito colateral indesejado do movimento; ela é a consequência lógica de sua ideologia.

Desarmando a Fábrica de Monstros

O aumento recorde do feminicídio no Brasil não pode ser dissociado da ascensão de movimentos como o incel e o redpill. A análise dos perfis psicológicos e criminais de seus adeptos revela um padrão claro: a exploração de vulnerabilidades como solidão, depressão e ansiedade, que são canalizadas por uma ideologia de ódio que desumaniza as mulheres e justifica a violência contra elas. A internet, com seus algoritmos de engajamento e espaços anônimos, tornou-se o terreno fértil para que essa ideologia floresça e se transforme em um manual para o crime.

Combater essa crise exige uma resposta em múltiplas frentes. Do ponto de vista da saúde mental, é crucial oferecer apoio psicológico e psiquiátrico a jovens e homens em sofrimento, antes que sejam capturados por essas redes de ódio. É preciso desenvolver terapias que abordem as distorções cognitivas e os traços de personalidade que os tornam vulneráveis.

Do ponto de vista legal e de segurança pública, é imperativo tratar a misoginia online com a seriedade que ela merece: como um discurso de ódio que incita ao extremismo violento. Isso implica em responsabilizar as plataformas, investigar e punir ameaças e fortalecer a legislação, como a Lei Lola.

No entanto, a solução mais profunda é cultural e educacional. A ausência de um debate honesto e aberto sobre gênero, sexualidade e masculinidade nas escolas e na sociedade deixou um vácuo perigoso. É preciso construir modelos de masculinidade que não se baseiem em dominação e controle, mas em empatia, respeito e igualdade. É preciso ensinar aos meninos e homens que a vulnerabilidade não é uma fraqueza e que o valor de um homem não é medido pelo número de mulheres que ele conquista ou controla.

A fábrica de monstros que opera online não será desmantelada com uma única ação. Ela precisa ser combatida em suas fundações ideológicas, em seus mecanismos de recrutamento e em suas fontes de lucro. A sociedade brasileira precisa encarar o fato de que o ódio que leva ao feminicídio não nasce no momento do crime, mas é cuidadosamente cultivado, disseminado e normalizado em um ecossistema digital que, até agora, tem operado com uma impunidade quase total. Cada vida perdida é um testemunho do custo de nossa inação.

Referências

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UOL. “Feminicídio: Brasil é o 5º país em morte violentas de mulheres no mundo”. Disponível em: https://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/feminicidio-brasil-e-o-5-pais-em-morte-violentas-de-mulheres-no-mundo.htm

Jornal da USP. “Como comunidades redpill e anti-woke capturam jovens para redes de ódio”. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/como-comunidades-redpill-e-anti-woke-capturam-jovens-para-redes-de-odio/

ONU News. “ONU alerta: violência digital alimenta nova onda de abuso contra mulheres e meninas”. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2025/11/1851619

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Câmara dos Deputados. “Desafio é tornar lei conhecida, diz blogueira que inspirou legislação sobre misoginia na internet”. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/540214-desafio-e-tornar-lei-conhecida-diz-blogueira-que-inspirou-legislacao-sobre-misoginia-na-internet/

Folha de S.Paulo. “O que é incel, o submundo misógino que chegou ao Brasil”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/04/o-que-e-incel-o-submundo-misogino-que-chegou-ao-brasil.shtml

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