Abuso em escola de MS: ‘Carimbo do Beijo’ e Abuso Sexual Infantil em Campo Grande
Um elaborado jogo de confiança, batizado cinicamente de 'carimbo do beijo', é a peça central de uma denúncia de abuso sexual que abalou uma escola de alto padrão em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, levantando suspeitas sobre uma possível rede de pedofilia e a conivência da instituição
Abuso em escola de MS – O caso, que envolve uma auxiliar de professora e crianças de apenas cinco anos, expõe não apenas a vulnerabilidade infantil em ambientes que deveriam ser de máxima proteção, mas também as profundas e duradouras alterações que o trauma inflige no cérebro e no comportamento de uma criança.
A investigação, que corre na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA), une-se a um laudo psicológico detalhado e ao depoimento corajoso de mães para compor o retrato de uma violência que reverbera em múltiplos níveis, desde o terror noturno povoado por ‘monstros’ até as dificuldades concretas de aprendizado na sala de aula.
O Direto Aos Fatos conversou com testemunhas e envolvidos no caso. O sigilo de fonte é garantido por lei e será mantido.
Abuso em escola de MS – Denúncia
A confiança depositada durante cinco anos em uma instituição de ensino ruiu em uma única noite. Para uma das mães, que teve sua identidade preservada, a escola era uma extensão do lar, um lugar escolhido com cuidado e carinho. “Nós confiávamos plenamente nesse lugar. Deixávamos lá o que a gente entende de mais importante na nossa vida, de mais valioso”, relatou em um depoimento contundente para o documentário investigativo “A Voz dos Inocentes”.
Essa confiança foi quebrada em 26 de setembro de 2024. Ao chegar em casa, durante a rotina do banho, Carla (nome fictício para preservar a identidade da mãe) notou que sua filha de cinco anos, Fernanda (nome fictício para presercar a identidade da criança), apresentava inchaço e vermelhidão na região genital. A menina chorava de dor e resistia à higiene.
A reação imediata da mãe, ao questionar a filha, trouxe à tona uma verdade estarrecedora. Fernanda relatou que a professora auxiliar, identificada como Milena, havia “limpado sua pepeca com a boca”. O choque foi imediato e paralisante. “Quando você cai a ficha, quando você percebe o que está acontecendo, é muito difícil”, desabafou a mãe. A criança, sentindo a desorientação da mãe, também se desregulou, com quadros de vômito e diarreia, impedindo a ida imediata à delegacia.
O relato, formalizado em boletim de ocorrência na DEPCA dias depois, foi o estopim de uma investigação que revelaria métodos de manipulação e abuso de sofisticação perturbadora. Em depoimento especial — um procedimento legalmente amparado pela Lei nº 13.431/2017, desenhado especificamente para proteger a criança da revitimização —, Fernanda deu mais detalhes sobre a dinâmica do abuso.
A auxiliar de sala havia instituído um ‘jogo’ chamado ‘carimbo do beijo’, um método que combina manipulação emocional com abuso sexual. Começava com beijos no rosto e nos braços, uma forma de ‘ganhar a confiança’ das crianças, e culminava com o abuso, também chamado de ‘carimbo do beijo’, praticado durante o banho, único local da unidade escolar sem câmeras de segurança.
As informações obtidas pelo Jornal Midiamax aprofundam a denúncia de forma alarmante, indicando que a auxiliar também praticava terrorismo psicológico sistemático. Mostrava vídeos de monstros às crianças, ameaçando que os bichos ‘iriam comer suas pernas e braços’ caso contassem algo aos pais. Agressões físicas, como tapas nas pernas, também fariam parte do repertório de violência da funcionária.
A escola, cuja mensalidade gira em torno de R$ 1,8 mil, inicialmente negou que a auxiliar fizesse parte de seu quadro de funcionários, uma informação contestada por outras mães que a viram trabalhando no local mesmo após o início das denúncias. Segundo relatos, outras crianças também teriam sido abusadas pela mesma profissional, sugerindo um padrão de comportamento predatório.
Abuso Infantil e a Suspeita de uma Rede Organizada
O caso de Fernanda não é um incidente isolado. O abuso sexual infantil é um problema de saúde pública que afeta milhões de crianças em todo o mundo. No Brasil, as estatísticas são preocupantes. Dados de órgãos públicos e organismos internacionais apontam que grande parte dos casos não chega ao conhecimento das autoridades, permanecendo no silêncio que protege os agressores e perpetua o sofrimento das vítimas.
O que torna o caso de Campo Grande particularmente relevante é que ele ocorreu em um ambiente que deveria ser de máxima proteção: uma escola de alto padrão. A crença comum é que o abuso sexual infantil ocorre principalmente em ambientes de pobreza ou negligência. No entanto, a realidade é mais complexa.
O abuso transcende barreiras socioeconômicas e ocorre em escolas particulares, instituições religiosas, clubes, e em círculos familiares de todas as classes sociais. A escola em questão, com sua mensalidade elevada, representa um segmento que atrai famílias com poder aquisitivo, o que pode criar uma falsa sensação de segurança.
A conduta da instituição após a denúncia, no entanto, transformou a suspeita sobre uma funcionária em uma acusação contra a própria escola. A mãe de Fernanda afirma que a denúncia inicial foi objetiva, focada na auxiliar. “
A condução da escola foi totalmente oposta ao que nós estávamos esperando”, declarou. Em vez de acolher a criança e apoiar os pais, a instituição adotou uma postura defensiva e de acobertamento. “O que a gente viu foi uma conduta totalmente oposta. Eles entraram em um ato desesperado para ocultar muitas provas”. As declarações foram dadas para o documentário “A Voz dos Inocentes” da Pro X Produtora.
As evidências dessa suposta tentativa de acobertamento são graves. A escola negou o acesso às câmeras de segurança após a denúncia, uma ação que obstruiu a investigação desde o início. Celulares de funcionários foram resetados antes de serem entregues à polícia, e, em um ato de afronta, a auxiliar acusada, que segundo o inquérito não possuía sequer o ensino fundamental completo, foi promovida.
A escola, ao invés de defender a criança, optou por defender a acusada. Essa postura levou a mãe a uma conclusão ainda mais grave: “Isso é um motivo muito forte que a gente tem para acusar a escola como uma rede de pedofilia ou uma organização criminosa”.
A suspeita se adensa com um relato posterior da criança, feito após dezenas de sessões de terapia. Fernandadescreveu que um grupo de crianças, incluindo bebês, era removido de dentro da escola em um “mini-ônibus” e levado para um local externo onde havia “recreações”. Nesse lugar, com bichinhos, brinquedos e comidas, os abusos ocorreriam. Essa informação, se confirmada, aponta para uma operação organizada e deliberada, muito além da ação isolada de uma única pessoa.
As Marcas Invisíveis
O que a menina experimentou vai muito além de um evento assustador; trata-se de um estresse tóxico, a forma mais severa de estresse infantil. Este ocorre quando uma criança enfrenta adversidades intensas, frequentes e prolongadas — como o abuso continuado — sem o suporte de um adulto que a proteja e conforte. O resultado é uma cascata de reações bioquímicas que danificam fisicamente o cérebro em desenvolvimento.
O estresse tóxico desencadeia uma produção excessiva de radicais livres, gerando o que se chama de estresse oxidativo, que por sua vez leva a inflamações crônicas e danos celulares. Em uma criança, cujo cérebro está em plena formação, esse ataque tem consequências devastadoras e afeta diretamente a arquitetura neural.
Nos primeiros cinco anos de vida, o cérebro forma conexões neurais a uma taxa impressionante, criando a base para toda a aprendizagem, comportamento e regulação emocional futura. Quando o trauma interrompe esse processo crítico, as consequências podem ser duradouras.
Três áreas principais do cérebro são particularmente vulneráveis ao impacto do trauma:
A Amígdala: O Centro do Medo
Conhecida como o centro do medo no cérebro, a amígdala é responsável por detectar perigos e disparar o alarme. Em uma criança submetida a trauma, a amígdala torna-se hiperativa. Ela passa a funcionar em estado de alerta máximo e constante, interpretando até mesmo situações seguras como ameaçadoras. É o cérebro de Fernanda gritando ‘perigo’ quando ela se lembra dos ‘monstros’ mencionados pela agressora. Essa hiperatividade é uma das bases do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), gerando ansiedade e fobias crônicas que podem persistir por anos se não forem adequadamente tratadas.
O Córtex Pré-Frontal: O Freio do Cérebro
Esta é a sede do pensamento racional, do planejamento e da regulação emocional. Funciona como o ‘freio’ do cérebro, controlando os impulsos gerados pela amígdala. Sob o bombardeio de cortisol — o hormônio do estresse — liberado durante o trauma, a atividade do córtex pré-frontal é inibida. A criança perde a capacidade de raciocinar com clareza, de se concentrar e de controlar suas emoções. As dificuldades de foco e a inquietação comportamental de Fernanda, descritas no laudo psicológico, são uma manifestação direta desse desequilíbrio. A amígdala está com o ‘acelerador’ no máximo, enquanto o ‘freio’ do córtex pré-frontal está falhando.
O Hipocampo: A Memória em Risco
Essencial para a formação de memórias e para o aprendizado, o hipocampo também é severamente afetado pelo estresse tóxico. O excesso de cortisol pode reduzir seu volume e prejudicar a formação de novas conexões neurais. Isso explica por que crianças traumatizadas, como Fernanda, apresentam dificuldades de aprendizagem e queda no rendimento escolar. O cérebro, ocupado em sobreviver à ameaça constante, não consegue alocar recursos para aprender e memorizar novos conteúdos.
O trauma, portanto, não é uma ‘memória ruim’. É uma alteração física e funcional do cérebro. A criança não está ‘lembrando’ do medo; ela o está revivendo fisiologicamente a cada gatilho, a cada pesadelo, a cada desenho de um monstro que precisa ser queimado e jogado no vaso sanitário, como Fernanda passou a fazer.
A Linguagem do Sofrimento
O laudo psicológico de Fernanda é um documento que traduz o sofrimento neurológico em sinais observáveis e mensuráveis. O diagnóstico mais comum em crianças que sofrem abusos dessa natureza é o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Diferente dos adultos, as crianças nem sempre verbalizam o trauma de forma clara. Elas o expressam através de outros meios, uma linguagem que os pais e educadores precisam aprender a decodificar.
Um detalhe retrospectivo, fornecido pela mãe, adiciona uma camada ainda mais sinistra à história. Aos três anos, Fernanda tinha um “amigo imaginário” chamado Mauro. A mãe acreditava ser uma fantasia infantil comum, mas agora, juntando as peças, percebe que “Mauro” era, na verdade, o pai da dona da escola.
Quando a mãe, na época, questionou a escola sobre esse “amigo”, a instituição agiu de forma a silenciar a questão. “Elas deram um jeito de ‘matar’ o Mauro. Mentiram para a Fernanda que o Mauro sofreu um acidente de carro e morreu”, revela a mãe. Este incidente, visto sob a luz das denúncias atuais, sugere um padrão de manipulação psicológica e acobertamento que pode ter começado muito antes do que se imaginava.
Comportamentos Regressivos: Voltar a ter comportamentos de fases anteriores do desenvolvimento, como fazer xixi na cama, é um sinal comum em crianças traumatizadas. O cérebro, sobrecarregado, regride a um estágio onde se sentia mais seguro.
Brincadeiras e Desenhos Repetitivos: Fernanda desenha línguas, beijos e monstros. Esta é a sua forma de processar o incompreensível. A repetição não é voluntária; é uma tentativa do cérebro de dar sentido ao caos. O pedido para queimar os desenhos revela o desejo de aniquilar a memória dolorosa.
Outra mãe, que também denunciou abuso em uma creche na mesma cidade, relatou que sua filha começou a trazer palavras sexualizadas e a querer tirar fotos de partes íntimas. A criança, após meses de mudanças comportamentais, nominou o abusador com um apelido, um codinome de um objeto. Essa forma indireta de nomear o agressor é um mecanismo de defesa, uma maneira de falar sobre o ocorrido sem se expor diretamente ao terror da memória.












Sintomas Físicos e Psicossomáticos: Dores de cabeça, problemas digestivos, alterações no sono e no apetite são manifestações físicas do sofrimento psíquico. O corpo fala quando a boca é forçada a calar.
Mudanças de Humor e Agressividade: A agressividade de Fernanda com o irmão mais novo não é maldade. É o extravasamento de uma angústia e de uma raiva que ela não consegue direcionar à sua fonte original. É um reflexo da perda de controle do córtex pré-frontal sobre os impulsos da amígdala.
O tratamento de escolha para esses casos é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) Focada no Trauma. Essa abordagem terapêutica não busca apagar a memória, mas sim dessensibilizá-la, ajudando a criança a construir uma nova narrativa sobre o evento, uma onde ela não é a culpada, mas a sobrevivente.
O Papel da Família e a Falha da Rede de Proteção
Um fator que não pode ser subestimado no prognóstico de Fernanda é a resposta de sua mãe. Carla não apenas acreditou na filha, mas agiu imediatamente. Essa atitude é um fator de proteção fundamental. Contudo, a família se viu diante de um sistema que, segundo elas, falhou em protegê-las. “A gente fica vulnerável de um sistema que deveria ser de proteção, mas não protege. É mais preocupado com a imagem do abusador do que com a qualidade de vida daquela criança”, lamenta a mãe de Fernanda.
O sentimento de desamparo é agravado quando o caso é arquivado, como aconteceu com o de Fernanda. “Eu confio que no Ministério Público tem pessoas boas também, sérias, que vão analisar o recurso. Vão analisar as provas que gritam”, diz a mãe, com esperança. Ela cita um “caderno de ocorrência nojento” da própria escola, anexado ao inquérito pelo delegado, que conteria relatos diários indicando que os abusos eram coletivos e não individuais. “Isso não pode ser descartado!”, clama.
O processo de denúncia é extremamente doloroso. “Ninguém quer passar por esse processo. Quem me conhece sabe que eu sempre amei os meus filhos incondicionalmente. Eu jamais me imaginei passando por uma situação dessa”, afirma a mãe, que se sente esmagada e desprotegida. A luta por justiça se torna uma batalha contra a descrença, a burocracia e a sensação de impotência.
Protegendo Crianças
O caso de Fernanda é um alerta para pais, educadores e para a sociedade como um todo. A cura é um processo longo, mas possível, e depende de uma rede de proteção coesa, informada e comprometida.
Para Pais e Cuidadores: A primeira e mais importante atitude é acreditar na criança. Dúvidas ou descrença podem ser tão danosos quanto o abuso original. Pais devem estar atentos a mudanças súbitas de comportamento e criar um ambiente seguro para o diálogo, ensinando sobre o corpo e a importância de não guardar segredos desconfortáveis.
Para as Escolas: O processo de contratação deve ser rigoroso, com verificação de antecedentes. Todos os funcionários devem ser treinados para identificar sinais de abuso. Em caso de denúncia, a postura deve ser de total transparência e colaboração com as autoridades. Tentar abafar um caso apenas agrava a situação.
Para a Sociedade: É preciso reconhecer o abuso infantil como um problema estrutural. A Lei nº 13.431/2017 é um avanço, mas a mudança cultural é fundamental. Precisamos de sistemas de denúncia eficientes e de um judiciário que priorize a proteção da vítima.
A história de Fernanda continua. Continua na terapia, na escola e em casa, com uma família que luta por ela. O caso do ‘carimbo do beijo’ exige uma resposta firme das autoridades e uma reflexão profunda da sociedade sobre como estamos, de fato, protegendo nossas crianças. A voz dos inocentes precisa ser ouvida, e seu silêncio, quebrado pela justiça.
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