Caso Marta Isabelle: Cárcere Privado e Tortura
Entenda o caso Marta Isabelle, adolescente encontrada morta em Porto Velho (RO), a retirada da escola registrada pela Seduc e o que as investigações apontam sobre cárcere, maus-tratos e tortura, além das falhas que permitem que uma criança “desapareça” dentro de casa.
Caso Marta Isabelle – A capital de Rondônia, Porto Velho, tornou-se o centro de um debate nacional sobre a vulnerabilidade de menores e a instrumentalização da fé após os eventos registrados na noite de 24 de fevereiro de 2026. A descoberta do corpo de Marta Isabelle dos Santos, uma adolescente de 16 anos, em um cenário de privação extrema e violência física, revelou uma estrutura de opressão doméstica que operava sob a fachada de uma liderança religiosa local.
O caso não apenas chocou a opinião pública pela brutalidade dos detalhes forenses, mas também por expor lacunas críticas nos mecanismos de vigilância escolar e social que deveriam ter protegido a jovem ao longo dos últimos três anos.
O cenário encontrado pelas autoridades no setor chacareiro da cidade contrastava de forma absoluta com a imagem projetada pelos responsáveis pela adolescente em plataformas digitais. Callebe José da Silva e Ivanice Farias de Souza, conhecidos como Pastor Callebe e Pastora Nice, mantinham uma vida pública ativa no Ministério Profético Apocalipse, onde pregavam sobre restauração familiar e intervenção divina.
No entanto, a realidade intramuros, conforme detalhado nos laudos periciais e nas confissões iniciais, apontava para um regime de cárcere privado e suplício físico que resultou na morte da jovem.
Caso Marta Isabelle – Perícia e o Cenário do Crime
A intervenção da Polícia Militar na residência da família foi motivada pela constatação do óbito de Marta Isabelle. Ao entrarem no local, os agentes depararam-se com a adolescente deitada em uma cama, coberta por um lençol e utilizando fraldas descartáveis.
A utilização deste item de higiene em uma jovem de 16 anos, sem histórico prévio de doenças incapacitantes, foi o primeiro indício de que sua mobilidade fora severamente cerceada por métodos artificiais. O exame preliminar do Instituto Médico Legal (IML) revelou um quadro de desnutrição severa, onde a estrutura óssea da vítima era visível em diversas partes do corpo, um indicativo de privação alimentar prolongada.
A gravidade da situação tornou-se ainda mais evidente com a identificação de ferimentos abertos que continham larvas, sugerindo que a jovem sofria de lesões não tratadas há dias ou semanas. Marcas nos pulsos e tornozelos corroboraram a suspeita de imobilização forçada.
Durante o interrogatório, o próprio pai da adolescente, Callebe José da Silva, admitiu que mantinha a filha amarrada com fios elétricos durante o período noturno e que ela permanecia trancada dentro da residência ao longo do dia. Tal confissão estabeleceu a materialidade do cárcere privado e da tortura sistemática aplicada sob o pretexto de controle doméstico.
| Indicador Físico | Constatação Pericial (IML) | Implicação Clínica |
| Estado Nutricional | Desnutrição severa com ossos expostos | Inanição prolongada e falência metabólica |
| Mobilidade | Sinais de imobilização e atrofia muscular | Cárcere privado com uso de restrições físicas |
| Integridade Cutânea | Ferimentos com presença de larvas | Negligência extrema e falta de assepsia |
| Higiene | Uso forçado de fraldas descartáveis | Incontinência induzida por incapacidade de locomoção |
A tentativa de ocultação de evidências foi outro fator que agravou a situação jurídica dos envolvidos. Nos fundos da casa, a polícia localizou uma fogueira onde restos de roupas e fraldas da vítima haviam sido parcialmente incinerados.
Esse ato sugere uma tentativa deliberada de remover vestígios da condição degradante em que Marta Isabelle era mantida antes da chegada das autoridades. A presença da avó paterna, Benedita Maria da Silva, no local do crime também resultou em sua prisão, uma vez que sua omissão diante do estado terminal da neta foi considerada fator determinante para o desfecho fatal.
O Papel da Liderança Religiosa e a Fachada Digital
O Ministério Profético Apocalipse servia como o palco principal para a atuação pública de Callebe e Ivanice. Nas redes sociais, o casal compartilhava rotineiramente vídeos de pregações e momentos de adoração que atraíam fiéis em busca de amparo espiritual. Uma prática recorrente era a subida ao que chamavam de “monte”, um local de vegetação onde realizavam orações e intercessões pelas famílias de seus seguidores, abordando temas como conflitos conjugais e problemas financeiros.
Essa projeção de santidade e cuidado com o próximo criou uma blindagem social que, por muito tempo, impediu que a comunidade externa suspeitasse do que ocorria dentro da casa dos pastores.
A retórica utilizada pela Pastora Nice em suas pregações online incluía advertências severas contra o uso inadequado de tecnologias. Em um vídeo registrado dias antes do crime, ela classificou o celular como um instrumento capaz de levar os fiéis à condenação eterna se utilizado para fins não evangelísticos.
Essa postura moralista reflete o controle informacional imposto à vítima, que teve seu celular e acesso às redes sociais totalmente confiscados pelos responsáveis. Ao isolar Marta Isabelle do mundo digital, o casal eliminou uma das poucas vias que a adolescente possuía para buscar ajuda ou denunciar os abusos que sofria.
| Atividade Pública | Discurso Religioso | Realidade Investigada |
| Pregações no “Monte” | Intercessão pela cura das famílias | Prática de tortura contra a própria filha |
| Vídeos de Louvor | Exibição da vítima cantando em cultos | Manutenção da vítima amarrada em fios |
| Condenação do Celular | Vigilância contra a “perdição espiritual” | Isolamento social e corte de comunicação |
| Ações de Caridade | Promoção de bem-estar comunitário | Omissão de socorro básico e nutrição |
A trajetória de Marta Isabelle na estrutura religiosa foi marcada por uma transição abrupta. Familiares relataram que a jovem, em períodos anteriores, participava ativamente dos cultos e gostava de cantar para a congregação. No entanto, esse engajamento foi progressivamente substituído por um isolamento absoluto, justificado pelos pastores como uma necessidade de recolhimento espiritual ou disciplina doméstica.
O contraste entre a adolescente que cantava nos vídeos antigos e a jovem encontrada em estado de decomposição física parcial exemplifica a erosão da dignidade humana operada sob o pretexto de uma autoridade pastoral inquestionável.
Falhas no Sistema de Proteção e Evasão Escolar
Um dos aspectos mais alarmantes revelados pelo caso foi o hiato educacional de quase três anos. De acordo com informações da Secretaria de Estado da Educação de Rondônia (SEDUC), Marta Isabelle foi retirada da escola pelo pai há aproximadamente 36 meses e nunca mais foi matriculada em nenhuma outra unidade de ensino.
A escola, que deveria atuar como o primeiro elo de detecção de vulnerabilidades, foi neutralizada pela ação direta do responsável legal, que aproveitou lacunas no sistema de Busca Ativa Escolar para manter a filha fora do radar das autoridades.
Em condições normais, a evasão escolar prolongada deveria disparar alertas automáticos para os Conselhos Tutelares e para os órgãos de assistência social. No entanto, no contexto de Porto Velho, especialmente em setores chacareiros onde o distanciamento geográfico favorece o anonimato, o monitoramento torna-se mais complexo.
A ausência de Marta Isabelle das salas de aula foi o ponto de partida para o seu silenciamento total. Sem o contato com professores e colegas, ela perdeu a rede de apoio que frequentemente identifica sinais de desnutrição, hematomas ou mudanças bruscas de comportamento em menores de idade.
A análise da legislação brasileira, especificamente o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estabelece que é dever do Estado, da família e da sociedade garantir, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde e à educação.
No caso de Marta, houve uma falha tripla. A família tornou-se o agente agressor; a sociedade, representada pelos vizinhos que relataram ouvir gritos e ver punições como o corte forçado de cabelo, não formalizou denúncias a tempo; e o Estado não conseguiu rastrear o paradeiro de uma adolescente que simplesmente deixou de frequentar o sistema de ensino básico.
Aspectos Jurídicos e a Progressão do Inquérito
O desdobramento jurídico do crime resultou na autuação dos três envolvidos por uma série de tipos penais graves. Callebe José da Silva e Ivanice Farias de Souza enfrentam acusações de tortura com resultado morte, cárcere privado qualificado, maus-tratos e omissão de socorro. A avó da vítima, Benedita Maria da Silva, também foi detida sob a suspeita de conivência e omissão perante o sofrimento da neta. Em audiência de custódia realizada no dia 26 de fevereiro, o Poder Judiciário de Rondônia converteu as prisões em flagrante em prisões preventivas, fundamentando a decisão na necessidade de garantir a ordem pública e impedir a destruição de provas.
A tipificação de tortura com resultado morte, prevista na Lei 9.455/1997, é um dos crimes mais severos do ordenamento jurídico brasileiro, sendo equiparado a crime hediondo. A aplicação de castigo pessoal por meio de sofrimento físico e mental, associada à confissão de imobilização com fios elétricos, enquadra-se perfeitamente na descrição legal do delito. A pena prevista pode chegar a 16 anos de reclusão, sem prejuízo das penas somadas pelos outros crimes, como o cárcere privado e a fraude processual pela queima de evidências no local do crime.
| Nome do Acusado | Vínculo | Tipificação Penal Sugerida | Status Jurídico |
| Callebe José da Silva | Pai | Tortura com resultado morte, Cárcere privado | Prisão Preventiva |
| Ivanice Farias de Souza | Madrasta | Tortura com resultado morte, Maus-tratos | Prisão Preventiva |
| Benedita Maria da Silva | Avó | Omissão de socorro, Conivência com tortura | Prisão Preventiva |
A investigação conduzida pela Polícia Civil de Rondônia busca agora esclarecer se outros membros da congregação ou da comunidade tinham conhecimento da gravidade do estado de Marta Isabelle. O depoimento de vizinhos indica que o casal impunha punições públicas à jovem, como o corte forçado de seus cabelos, o que sugere que a violência não era apenas física, mas também simbólica e psicológica.
Esse tipo de castigo, muitas vezes utilizado em contextos de fanatismo religioso para humilhar o indivíduo perante o grupo, reforça a tese de que a fé era utilizada como ferramenta de opressão sistemática.
Família Materna
A mãe de Marta Isabelle e outros parentes biológicos residem na Paraíba, o que dificultava o acompanhamento direto da rotina da adolescente em Porto Velho. Segundo relatos, o contato entre a jovem e sua família no Nordeste era monitorado e, por fim, proibido pelos pastores. Esse isolamento é um elemento comum em casos de abuso doméstico, onde o agressor busca afastar a vítima de qualquer pessoa que possa oferecer uma perspectiva externa ou proteção efetiva.
O velório de Marta Isabelle, realizado na Igreja Assembleia de Deus no bairro Mariana, foi marcado por revolta e profunda tristeza. O corpo foi sepultado no Cemitério Santo Antônio em 26 de fevereiro, encerrando um ciclo de sofrimento que durou anos sob o teto da própria família. A repercussão do caso gerou um movimento de cobrança por maior fiscalização sobre pequenas congregações religiosas que operam de forma independente, muitas vezes sem qualquer vínculo institucional que possa auditar a conduta de seus líderes.
A Dinâmica do Isolamento e a Manipulação da Fé
A estrutura do Ministério Profético Apocalipse, embora pequena em escala institucional, exercia um poder absoluto sobre a vida privada dos envolvidos. A utilização do termo “Apocalipse” no nome da congregação sugere uma inclinação escatológica, frequentemente associada a movimentos que enfatizam o controle rígido do comportamento individual como preparação para eventos divinos iminentes.
Nesse contexto, a disciplina física de Marta Isabelle pode ter sido vendida aos poucos observadores como um ato de “salvação” ou de “purificação”, uma distorção perversa dos preceitos religiosos de cuidado e amor ao próximo.
A prática de subir o “monte” para orar é um elemento tradicional em certas vertentes do pentecostalismo brasileiro, simbolizando o afastamento do mundo profano para um encontro direto com o sagrado. No entanto, no caso de Callebe e Ivanice, essa prática parece ter servido como um contraponto cínico à atrocidade cometida em casa.
Enquanto gravavam vídeos rogando pela restauração de famílias alheias, mantinham a própria filha em um estado de degradação humana que remete a períodos pré-civilizatórios. A desnutrição severa e a presença de larvas indicam que a adolescente foi deixada para morrer lentamente, em um processo de definhamento que exigiu uma insensibilidade profunda por parte de quem deveria protegê-la.
A ausência de socorro médico, mesmo quando Marta Isabelle já não conseguia mais se locomover ou realizar higiene básica, demonstra que o objetivo dos agressores não era apenas o castigo, mas a aceitação da morte como um desfecho inevitável do regime de tortura.
O uso de fraldas descartáveis não foi um ato de cuidado, mas uma medida pragmática para lidar com a imobilidade forçada da vítima. Cada detalhe pericial aponta para uma premeditação do sofrimento, onde o tempo agia como um aliado do definhamento físico da jovem.
Proteção da Infância e Adolescência
O caso em Porto Velho é um alerta urgente para a revisão das políticas de monitoramento de menores que saem do sistema escolar. A SEDUC confirmou que o pai retirou a menina da escola há três anos, mas o que aconteceu nesse intervalo permanece como uma lacuna administrativa que custou uma vida. Se houvesse uma integração real entre a secretaria de educação, o conselho tutelar e o sistema de saúde, a ausência prolongada de Marta em qualquer desses serviços teria gerado um alerta de busca ativa.
A nível comunitário, o silêncio dos vizinhos é um fator que merece análise sociológica. Relatos posteriores indicam que os gritos da jovem e as humilhações públicas eram conhecidos no setor chacareiro. A omissão coletiva muitas vezes baseia-se no princípio distorcido de não intervenção em assuntos familiares, agravado pela figura de autoridade que os suspeitos ostentavam como pastores.
É necessário fortalecer os canais de denúncia anônima e promover uma cultura de responsabilidade compartilhada, onde o bem-estar da criança prevaleça sobre o status social ou religioso do agressor.
O processo judicial que agora avança em Rondônia servirá como uma medida de justiça para Marta Isabelle, mas não poderá desfazer os danos causados por anos de isolamento e dor. A condenação dos responsáveis deve ser acompanhada de uma reflexão institucional sobre como evitar que outras crianças e adolescentes desapareçam dentro de suas próprias casas, sob o olhar indiferente de sistemas de proteção burocratizados e de comunidades intimidadas por falsos profetas.
A história de Marta Isabelle dos Santos não deve ser esquecida como apenas mais um número nas estatísticas de violência doméstica. Ela representa o fracasso de múltiplas redes de segurança e a capacidade humana de utilizar o que há de mais sagrado para mascarar o que há de mais cruel. A elucidação completa dos fatos e a punição rigorosa dos envolvidos são passos fundamentais, mas a verdadeira mudança virá da consciência de que o silêncio e a indiferença são os maiores cúmplices da barbárie.
A investigação continua a reunir elementos que reforçam a tese de tortura sistemática. Novas testemunhas estão sendo ouvidas, e a análise de dados dos celulares apreendidos pode revelar a extensão do controle exercido sobre a jovem e se havia outros cúmplices ou pessoas cientes do cárcere. O Ministério Profético Apocalipse, agora sob escrutínio policial, deixa de ser uma igreja para se tornar o epicentro de uma cena de crime que Porto Velho e o Brasil não poderão ignorar.
O sepultamento de Marta no Cemitério Santo Antônio encerra sua trajetória física, mas o debate sobre as falhas que levaram à sua morte está apenas começando. A justiça de Rondônia tem em mãos um dos casos mais graves de violação de direitos humanos dos últimos anos, e a resposta dada será um indicativo da intolerância da sociedade brasileira frente àqueles que, sob o manto da fé, destroem vidas inocentes.
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