O Silêncio Rompido: A Luta de Marisa por Justiça e a Realidade do Abuso Infantil no Brasil
O relato de Marisa sobre sentir-se "suja" e ser julgada pela comunidade em Santo Estêvão devido às sequelas físicas do abuso (como o modo de caminhar) demonstra como o estigma social amplifica a dor individual.
A Luta de Marisa – A dor de uma criança que teve sua inocência roubada é uma ferida que o tempo, por si só, não consegue curar. Quando o trauma ocorre dentro do próprio círculo familiar ou de convivência próxima, o impacto se multiplica, criando cicatrizes profundas na psique e no desenvolvimento emocional. A história de Marisa Costa Alves é um retrato contundente dessa realidade. Aos sete ou oito anos de idade, ela foi vítima de abuso sexual por parte de um familiar próximo, um adolescente dez anos mais velho.
“Eu fico me perguntando: até quando a vítima vai viver assim? Enquanto o agressor vive como se nada tivesse acontecido peço justiça por todas nós” – Marisa, vítima de estupro
Hoje, adulta e mãe, Marisa decidiu romper o silêncio que a aprisionou por décadas, buscando não apenas a punição do culpado, mas também a recuperação de sua própria identidade e paz interior. Seu relato é um testemunho corajoso que expõe as fraturas de um sistema que deveria proteger, mas que frequentemente abandona as vítimas à própria sorte.
A história, que teve início em entre 2009 e 2010 no interior da Bahia e se estende até as delegacias de São Paulo em 2026, expõe as feridas de uma trajetória marcada pela negligência familiar, pela ausência do Estado e pela persistência de um trauma que se recusa a cicatrizar sem o devido processo legal.1 Hoje, Marisa tem 24 anos.
A análise dos fatos narrados pela vítima permite compreender como a dinâmica do crime, a influência do ambiente doméstico e a evolução legislativa brasileira se cruzam em uma busca por reparação que levou décadas para ser formalizada. Ao observar o percurso de Marisa, nota-se que o abuso original foi apenas o início de uma sucessão de violações que envolveram a omissão de cuidadores, a pressão social para o silêncio e o reencontro com o agressor em ambientes urbanos densos.1
A Luta de Marisa – O Estupro e o Início da Omissão Institucional
O relato de Marisa expõe as falhas de uma rede de proteção que deveria acolher, mas que frequentemente silencia as vítimas. No dia do crime, ocorrido no bairro Mutirão, em Santo Estevão, na Bahia, ela estava brincando na rua quando foi atraída para trás da porta da casa da mãe do agressor. O que se seguiu foi um ato de extrema violência física e psicológica.
A criança, sangrando e em choque, buscou refúgio na mãe, mas encontrou um ambiente familiar desestruturado pelo alcoolismo e pela negação. A mãe do agressor, em vez de proteger a vítima, a chamou de mentirosa, desencorajando qualquer denúncia. Esse padrão de acobertamento familiar é tragicamente comum em casos de abuso infantil, perpetuando o ciclo de violência e impunidade. Quando a proteção deveria vir de quem é mais próximo, a vítima se vê duplamente traída.
Marisa tinha entre sete e oito anos de idade, enquanto o agressor, seu primo de segundo grau, possuía aproximadamente 17 ou 18 anos.1 O crime ocorreu em um contexto de vulnerabilidade acentuada pela ausência de supervisão direta. De acordo com o relato da vítima, ela foi chamada por ele para brincar de dominó na frente da porta da mãe dele.
O uso de uma atividade lúdica como isca é uma estratégia recorrente de aliciadores que buscam estabelecer um falso vínculo de confiança com a criança. Aí, como a rua estava em silêncio, ele a arrastou para trás da porta da sala, fechou a porta e cometeu o abuso com extrema brutalidade.
A descrição da violência inclui o uso de um pano introduzido na boca da vítima para silenciar seus gritos por socorro, o que demonstra a intenção deliberada do agressor de suprimir qualquer possibilidade de defesa.1 A agressão resultou em danos físicos severos e hemorragia intensa.
Após o ato, o agressor tentou ocultar o crime, limpando-se rapidamente e jogando a criança por cima de um muro que dava acesso a um pasto vizinho, local por onde ela conseguiu retornar para perto de sua mãe.1 A dor física era tamanha que a criança defecou involuntariamente, um sinal clínico de trauma extremo e relaxamento esfincteriano causado por choque ou dor insuportável.1
Apesar do estado deplorável da vítima, que apresentava sangramento visível e sinais claros de violência, a resposta familiar imediata foi pautada pela negação e pela negligência.1
A Dinâmica Familiar e o Silenciamento Coercitivo
Um elemento central na trajetória de impunidade relatada por Marisa é a condição de sua rede de apoio imediata. Sua mãe, na época do crime, sofria de dependência grave de álcool, mantendo-se sob efeito da substância de forma quase ininterrupta.1 Esse estado de vulnerabilidade materna facilitou a ação da família do abusador, que utilizou táticas de intimidação para silenciar a denúncia. A mãe do agressor acusou Marisa de mentira e coagiu a mãe da vítima a não levar o caso adiante.1
Esse padrão de comportamento é identificado pela psicologia analítico-comportamental como gaslighting familiar, onde o agressor e seu entorno manipulam a percepção da vítima e de seus cuidadores para invalidar o relato da violência sofrida.12
A ausência de apoio imediato e de cuidados médicos adequados agravou o sofrimento de Marisa. Ela relata ter sofrido inflamações severas e dores insuportáveis, sem receber o atendimento hospitalar necessário. A negligência física foi acompanhada por um abandono emocional devastador. A criança que ela era foi forçada a carregar um fardo de culpa e vergonha que não lhe pertencia, enquanto o agressor continuou sua vida sem enfrentar as consequências de seus atos.
A impunidade, nesse contexto, atua como um segundo trauma, reforçando a sensação de desamparo e injustiça. Marisa descreve com dor a realidade de ter sido deixada sem cuidados médicos, sem acolhimento emocional e sem proteção legal, enfrentando sozinha as consequências de um crime que não cometeu.
O impacto da adicção na estrutura familiar é um fator de risco documentado para o abuso sexual infantil, uma vez que a vigilância sobre a criança é relaxada e a capacidade de resposta dos pais é neutralizada.13 No caso de Marisa, a negligência foi tão profunda que ela não foi levada a um hospital para tratar as lesões decorrentes do estupro.1
A ausência de atendimento médico resultou em inflamações e em um estado de degradação física que a vítima descreve com crueza: ela passou dias “cheirando a podre” devido à falta de higiene e cuidados médicos adequados.1 O odor, um marcador sensorial do trauma, persistiu como uma lembrança da omissão de quem deveria protegê-la.
A inversão de culpa é outra estratégia de silenciamento operada pela família do agressor. Décadas depois, a esposa do abusador alegou, em mensagens enviadas a Marisa, que a própria vítima, aos oito anos de idade, teria “querido se deitar” com o agressor.1 Essa afirmação ignora a impossibilidade jurídica e biológica de consentimento por parte de uma criança e reflete a cultura de culpabilização da vítima que ainda persiste em muitos estratos sociais.2
A pressão social para que o crime não fosse revelado manteve Marisa em um estado de isolamento psicológico, forçando-a a conviver com o agressor em reuniões familiares e eventos comunitários como se nada tivesse ocorrido.1
Do Interior da Bahia ao Extremo Sul de São Paulo
O agressor mudou-se para São Paulo em meados de 2011. A migração de Marisa para o estado de São Paulo ocorreu anos depois, em 2021, na tentativa de reconstruir sua vida. Ela não sabia que ele morava na região sul de São Paulo, e a proximidade geográfica, descoberta posteriormente, voltou a ser uma fonte de sofrimento constante.1 Marisa estabeleceu-se em regiões periféricas da Zona Sul de São Paulo, especificamente no Jardim Veracruz, uma área adjacente ao Jardim Ângela.
Historicamente, o Jardim Ângela foi marcado por altos índices de violência, chegando a ser classificado pela ONU no ano 2000 como a região mais violenta do mundo devido às taxas recordes de homicídios.16 Embora tenha ocorrido uma melhora nos indicadores de segurança nas últimas décadas, a região ainda enfrenta desafios profundos de vulnerabilidade social e precariedade de infraestrutura.17
A vida de Marisa em São Paulo foi marcada pelo medo de reencontros fortuitos. Em 2019, o agressor tentou uma aproximação com a filha de Marisa, que na época tinha apenas dois anos de idade, tentando carregá-la no colo em uma reunião na casa de um irmão da vítima.1
Essa tentativa de contato com a geração seguinte da família é um comportamento típico de agressores que não foram responsabilizados e que buscam perpetuar o ciclo de poder e intimidação.14 Para Marisa, ver sua filha nos braços do homem que destruiu sua infância foi um gatilho para novas crises de ansiedade, reforçando a percepção de que o agressor representava uma ameaça contínua e não resolvida.1
A geografia urbana do extremo sul de São Paulo, com suas vias de acesso congestionadas como a Estrada do M’Boi Mirim e a dependência de serviços públicos saturados, contribui para um sentimento de confinamento.17 Para uma sobrevivente de abuso sexual, a impossibilidade de evitar o trânsito ou locais públicos onde o agressor possa estar presente gera um estado de hipervigilância constante.14 O percurso entre o Jardim Veracruz e outras áreas da cidade torna-se uma fonte de estresse emocional, onde cada rosto desconhecido na rua pode ser interpretado como uma ameaça latente.
Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)
A psiquiatria classifica essas manifestações como sintomas clássicos do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) complexo, frequentemente associado a abusos prolongados ou severos na infância. As vítimas muitas vezes experimentam dissociação, flashbacks intrusivos e uma profunda desregulação emocional. A fala de Marisa, de que a menina abusada “está presa dentro de mim, cobrando o motivo de tanta crueldade”, ilustra de forma vívida a fragmentação da identidade causada pelo trauma.
A recuperação exige intervenções terapêuticas especializadas e, muitas vezes, suporte farmacológico, como a própria Marisa menciona ao relatar que vive “à base de remédios”. O TEPT complexo é particularmente devastador porque combina sintomas de reexperimentação do trauma com alterações profundas na autopercepção e na capacidade de confiar nos outros.
A Coragem de Denunciar: Quando a Vítima Busca Justiça
A decisão de buscar justiça, anos após o crime, é um passo crucial no processo de cura, mas também traz novos desafios. Ao expor sua história nas redes sociais e formalizar a denúncia através do Disque 100 e, posteriormente, em uma delegacia, Marisa enfrentou retaliações. A família do agressor, em vez de reconhecer a gravidade dos fatos, passou a ameaçá-la e a culpabilizá-la.
A mãe do abusador chegou a afirmar que Marisa, aos oito anos, teria “querido” a relação, uma distorção perversa e inaceitável da realidade, que ignora a total incapacidade de consentimento de uma criança. Essa inversão de culpa é uma forma de violência secundária que agrava o trauma original e demonstra a falta de compreensão sobre a dinâmica do abuso sexual infantil.
O Assédio Contínuo: Quando a Vítima Não Encontra Paz
O assédio continuou com tentativas de aproximação do agressor, que hoje reside em São Paulo, assim como Marisa. Encontros casuais em locais públicos, como uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), desencadearam novas crises de ansiedade na vítima, evidenciando o terror constante de reviver o trauma. A audácia do agressor em se aproximar da filha de Marisa demonstra a periculosidade e a falta de arrependimento, reforçando a urgência de medidas protetivas e de responsabilização legal. O fato de o agressor tentar se aproximar de sua filha revela um padrão comportamental preocupante e a necessidade urgente de proteção legal para a vítima e sua família.
A Fragilidade Institucional no Atendimento à Saúde e a Revitimização
Um episódio emblemático da luta de Marisa ocorreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Vera Cruz, em São Paulo. Em um momento de busca por atendimento médico em 2023 ou 2024, a vítima encontrou o agressor sentado ao seu lado na sala de espera.1 A presença do abusador em um local de atendimento público, agindo com naturalidade, desencadeou em Marisa uma crise aguda de ansiedade.1 O relato destaca que a médica que a atendeu, ao perceber seu estado emocional, questionou por que ela não gritou ou chamou a segurança para mobilizar o indivíduo.1
Esse questionamento, embora comum em contextos de atendimento imediato, revela um desconhecimento sobre o fenômeno da paralisia traumática, onde a vítima de abuso sexual infantil, ao ser confrontada com o agressor na vida adulta, pode entrar em um estado de congelamento (freezing), tornando-se incapaz de reagir verbal ou fisicamente.13
Perfil Técnico e de Atendimento da UPA Vera Cruz (SP)
| Característica | Dados da Unidade |
| Endereço | Avenida dos Funcionários Públicos, 379, Jardim Veracruz.21 |
| Gestão | Administrada pela Organização Social de Saúde CEJAM.21 |
| Capacidade | Ampliada de 13 mil para 40 mil atendimentos mensais em 2023.23 |
| Infraestrutura | 32 leitos; laboratório próprio (“minilab”); atendimento 24 horas.23 |
| Profissionais | Quadro de 460 colaboradores, incluindo médicos, enfermeiros e dentistas.24 |
| Investimento | Reforma de R$ 5 milhões para ampliação de 275 m² para 1.424 m².23 |
Embora a UPA Vera Cruz tenha passado por melhorias significativas em sua estrutura física e capacidade de atendimento, o caso de Marisa evidencia que o acolhimento humanizado deve ir além da infraestrutura.24 A falta de protocolos específicos para identificar e proteger vítimas de violência que se deparam com seus agressores dentro de equipamentos de saúde é uma lacuna grave. A revitimização ocorre quando o sistema exige da vítima uma força hercúlea para denunciar no momento exato da crise, ignorando que o trauma é uma condição debilitante que afeta a autonomia do indivíduo.14
A sensação de desamparo relatada por Marisa nesse ambiente de saúde reforça a necessidade de treinamento especializado para profissionais da linha de frente sobre os impactos psíquicos da violência sexual de longa duração.
Panorama Estatístico Nacional: O Retrato de uma Emergência Social
Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 confirmam que a história de Marisa Costa Alves é o reflexo de uma epidemia silenciosa. Em 2024, o Brasil registrou 87.545 estupros, o maior número da série histórica, o que equivale a um caso a cada seis minutos.2
A vulnerabilidade é a marca principal desse crime: 76,8% das ocorrências envolvem vítimas menores de 14 anos, configurando estupro de vulnerável.2 A prevalência de crianças e pré-adolescentes no topo das estatísticas demonstra que a proteção à infância no país ainda é falha e insuficiente.
O ambiente doméstico continua sendo o local mais perigoso para as crianças brasileiras. Cerca de 68% de todos os estupros ocorrem dentro de residências, e em 63% dos casos, o agressor é um familiar ou conhecido próximo da vítima.27
Esses números desconstroem o mito do “estranho no parque” e colocam a responsabilidade sobre a estrutura familiar e as redes de confiança. No caso de Marisa, o agressor ser um primo de segundo grau que frequentava livremente sua casa corrobora as estatísticas de que a violência sexual infantil é, predominantemente, um crime de oportunidade dentro do círculo familiar.1
Estatísticas de Violência Sexual no Brasil (2024-2025)
| Indicador | Dado Estatístico (Anuário 2025) |
| Total de Estupros em 2024 | 87.545 ocorrências.2 |
| Percentual de Vítimas até 14 anos | 76,8% do total registrado.2 |
| Taxa de Estupros em Roraima | 137 casos por 100 mil habitantes (maior do país).2 |
| Casos Ocorridos em Residências | 68,2% das ocorrências totais.2 |
| Vínculo: Agressores Familiares | 45,5% dos casos registrados.2 |
| Vínculo: Parceiros ou Ex-parceiros | 20,3% dos casos registrados.2 |
| Perfil Racial das Vítimas | 55,6% são mulheres negras.2 |
A análise racial dos dados também é fundamental para compreender a desigualdade na proteção. Mulheres e meninas negras representam a maioria absoluta das vítimas (55,6%), o que indica que a vulnerabilidade socioeconômica e o racismo estrutural potencializam a exposição à violência sexual.2
Marisa, inserida em um contexto de pobreza no interior da Bahia e posteriormente nas periferias de São Paulo, faz parte dessa demografia que o Estado muitas vezes falha em enxergar com a urgência necessária. Além disso, o aumento de 14,1% nos registros de distribuição de material de abuso sexual infantil na internet em 2024 mostra que a violência física agora é acompanhada por uma dimensão digital igualmente devastadora.27
Evolução do Ordenamento Jurídico Brasileiro e a Luta pela Imprescritibilidade
A busca por justiça de Marisa Costa Alves em 2026 é amparada por uma série de avanços legislativos que visam corrigir injustiças históricas. O principal marco é a Lei 12.650/2012, batizada de Lei Joanna Maranhão.29 Antes dessa norma, o prazo de prescrição para crimes sexuais contra crianças começava a contar na data do crime.
Como muitas vítimas só conseguiam processar o trauma e denunciar na vida adulta, era comum que o direito de punir do Estado já tivesse se esgotado.30 A Lei Joanna Maranhão alterou o Código Penal para determinar que a prescrição só comece a correr no dia em que a vítima completar 18 anos.32
Para o crime de estupro de vulnerável, a pena máxima é de 15 anos de reclusão, e o prazo prescricional é de 20 anos.32 Assim, com a lei de 2012, uma vítima tem até os 38 anos de idade para formalizar a denúncia e buscar a condenação do agressor.
Marisa, ao fazer o Boletim de Ocorrência em março de 2026, utiliza esse espaço legal para garantir que seu algoz não seja beneficiado pelo tempo de silêncio forçado.1 Além disso, a Lei 15.160/2025 trouxe novas restrições, vedando a redução do prazo de prescrição ou a aplicação de atenuantes de idade (como ser menor de 21 anos na data do crime) em casos de violência sexual contra a mulher, reforçando o rigor punitivo.35
Comparativo de Legislações de Proteção à Dignidade Sexual
| Lei | Principais Mudanças e Impactos |
| Lei 12.650/2012 (Joanna Maranhão) | Prescrição conta a partir dos 18 anos da vítima.32 |
| Lei 13.431/2017 | Estabelece o Depoimento Especial e Escuta Protegida.26 |
| Lei 15.160/2025 | Veda atenuantes de idade para agressores sexuais.35 |
| Lei 15.353/2026 | Presunção absoluta de vulnerabilidade do menor de 14 anos.3 |
| PL 4186/21 (Em tramitação) | Aumento da prescrição civil de 3 para 20 anos.38 |
Em março de 2026, foi sancionada a Lei 15.353/2026, que põe fim a qualquer tentativa de relativização da vulnerabilidade de menores de 14 anos.3 Esta lei é uma resposta a decisões judiciais que absolviam agressores sob o argumento de que a criança já teria “experiência sexual prévia” ou manteria um “vínculo afetivo” com o abusador.40
A nova norma estabelece que a proteção é incondicional e absoluta, independentemente do comportamento ou histórico da vítima.37 Para Marisa, essa segurança jurídica é fundamental, pois neutraliza os argumentos da família do agressor que tentam culpá-la pelo abuso sofrido aos oito anos de idade.1 O Estado brasileiro reafirma, assim, que a maturidade biológica e psíquica é o único critério para a validade do consentimento, protegendo a infância contra distorções morais no tribunal.
O Papel das Redes Sociais e as Novas Formas de Violência e Denúncia
O Instagram foi o palco onde Marisa Costa Alves decidiu romper o silêncio publicamente. Ao postar sua história e o perfil do agressor, ela utilizou a rede social como um mecanismo de denúncia alternativa, o que gerou uma onda de apoio e a revelação de outras possíveis vítimas.1 Esse fenômeno de denúncia coletiva digital é uma tendência observada em movimentos como o “Maio Laranja”, que buscam tirar a violência sexual da invisibilidade através do compartilhamento de relatos.41 A rede social, nesse sentido, atua como uma comunidade verbal de reforço, onde a vítima encontra validação que lhe foi negada no círculo familiar original.12
No entanto, a exposição digital também abriu caminho para novas agressões. Marisa relata que passou a sofrer ameaças diretas da família do abusador após a publicação.1 A mãe do agressor e sua esposa entraram em contato para culpá-la por problemas de saúde e pela instabilidade de uma gravidez em curso, utilizando táticas de chantagem emocional para que a denúncia fosse retirada.1
O agressor chegou a pedir o contato de Marisa para ameaçá-la pessoalmente em sua porta.1 Esse cenário reflete os dados da SaferNet Brasil, que apontam um crescimento de 28,4% nas denúncias de crimes cibernéticos em 2025, com a misoginia e a violência contra a mulher figurando no topo das queixas.28
O uso de redes sociais para a denúncia de crimes antigos é um campo complexo. Se por um lado encoraja outras vítimas a falarem, por outro expõe a sobrevivente a uma nova rodada de ataques digitais e físicos. As estatísticas indicam que o vídeo “Adultização”, do influenciador Felca, em 2024, gerou um recorde histórico de denúncias no Canal Nacional de Crimes Cibernéticos, demonstrando como o debate público digital pode influenciar o comportamento das vítimas e das autoridades.27 No caso de Marisa, a repercussão de sua postagem foi o que a impulsionou a procurar a delegacia para formalizar o BO em 2026, transformando a indignação digital em ação institucional.1
Consequências Psicológicas de Longo Prazo e a Necessidade de Acolhimento
A dor psíquica de Marisa é descrita como uma morte interna. Ela relata que o abuso “abortou todos os seus sonhos e planos”, deixando-a em um mundo “preto e branco”.1 Esses sentimentos são sintomas clássicos do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e de depressão profunda, condições frequentes em adultos que sofreram violência sexual na infância.13
A sensação de que a menina abusada ainda vive dentro da mulher adulta, cobrando justiça, exemplifica a cristalização do trauma na psique do sobrevivente.1 Sem intervenção terapêutica adequada, o trauma infantil torna-se um fardo que afeta a autoimagem, os relacionamentos interpessoais e a capacidade produtiva na fase adulta.19
Marisa menciona o uso constante de medicação e a necessidade de terapia para conseguir “colocar uma máscara” e cuidar de seus filhos.1 A tentativa de suicídio, mencionada pela vítima como uma busca por “descanso para a alma”, é um sinal crítico da gravidade do impacto emocional.1
Estudos indicam que traumas interpessoais intencionais e crônicos na infância estão associados a maiores taxas de ideação suicida e comportamentos de autoflagelo.13 A psicoterapia, especialmente técnicas como a Dessensibilização e Reprocessamento por Meio de Movimentos Oculares (EMDR), é recomendada para ajudar a reduzir a carga emocional das memórias traumáticas e permitir a integração saudável do passado à identidade atual da vítima.20
Tabela 5: Impactos Psicológicos do Abuso Sexual na Vida Adulta
| Categoria | Sintomas e Manifestações Observadas |
| Transtornos Psiquiátricos | TEPT, depressão maior, ansiedade generalizada, pânico.13 |
| Comportamentos de Risco | Ideação suicida, tentativas de autoextermínio, autoflagelo.15 |
| Danos à Autoimagem | Baixa autoestima, sentimento persistente de culpa e vergonha.12 |
| Impacto Social | Dificuldade em estabelecer vínculos afetivos, isolamento.14 |
| Manifestações Psicossomáticas | Dores crônicas sem causa médica, distúrbios do sono e apetite.19 |
A falta de acolhimento familiar no momento do crime é um agravante para o desenvolvimento dessas sequelas. Quando a criança não é validada em seu sofrimento, ela internaliza a agressão como uma falha pessoal, o que perpetua o ciclo de autocrítica e depressão.12
O relato de Marisa sobre sentir-se “suja” e ser julgada pela comunidade em Santo Estêvão devido às sequelas físicas do abuso (como o modo de caminhar) demonstra como o estigma social amplifica a dor individual.1 A superação do trauma depende de um esforço conjunto entre justiça penal e assistência psicológica contínua, garantindo que a vítima possa, finalmente, despir a “máscara” de sofrimento.
O Fortalecimento da Rede de Proteção
A trajetória de Marisa Costa Alves revela a face mais cruel da negligência brasileira: a demora do Estado e da família em reconhecer a dor de uma criança. No entanto, sua decisão de buscar justiça em 2026, amparada pelas novas leis que protegem a dignidade sexual, representa um ponto de inflexão. O caso demonstra que a prescrição não deve ser uma barreira para a verdade e que a responsabilidade penal deve perseguir o agressor, independentemente do tempo decorrido.
Para que histórias como a de Marisa não se repitam, é imperativo fortalecer a rede de proteção desde a base municipal. Em cidades como Santo Estêvão, a presença de conselhos tutelares ativos e de serviços de saúde sensíveis ao trauma é vital.45 Em metrópoles como São Paulo, o atendimento humanizado em UPAs e hospitais deve incluir protocolos de segurança e suporte psíquico para sobreviventes em crise.24 A luta contra o abuso sexual infantil exige o fim do silenciamento familiar e o combate ao gaslighting, garantindo que a voz da criança seja soberana e protegida.
O sistema de justiça brasileiro, ao sancionar leis que impedem a relativização da vulnerabilidade, deu um passo civilizatório importante.3 Contudo, a efetividade dessas normas depende da coragem de vítimas como Marisa em denunciar e da capacidade das instituições em acolher esses relatos sem preconceitos.
A reparação para Marisa Costa Alves passa pela condenação de seu agressor, mas também pelo reconhecimento social de que sua dor é real, que sua história importa e que o fardo da culpa, finalmente, foi transferido para quem de fato cometeu o crime. A busca por justiça em 2026 é, acima de tudo, um ato de libertação da menina que foi silenciada atrás de uma porta no interior da Bahia, permitindo que ela, enfim, possa crescer em paz.
Referências citadas
- caso Marisa.docx
- Brasil registrou mais de 87 mil estupros e 1.492 feminicídios em 2024: Até quando? – sinpaf, acessado em março 23, 2026, https://sinpaf.org.br/violencia-mulher-anuario-2025/
- Entenda como nova lei põe fim a atenuantes para estupro de vulnerável – Agência Brasil, acessado em março 23, 2026, https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-03/entenda-como-nova-lei-poe-fim-atenuantes-para-estupro-de-vulneravel
- Santo Estêvão/BA – Área de Atuação – RODOMIDIA.COM, acessado em março 23, 2026, https://rodomidia.com.br/area-de-atuacao/santo-estevao-116
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- M’Boi Mirim, onde a população decidiu reduzir a violência – Subprefeitura, acessado em março 23, 2026, https://prefeitura.sp.gov.br/web/m_boi_mirim/w/noticias/6026
- O bairro mais perigoso do mundo. Os habitantes do Jardim Ângela ainda… | by Flávio Camargo | Medium, acessado em março 23, 2026, https://medium.com/@f.camargo/o-bairro-mais-perigoso-do-mundo-5a72f5b5997d
- VULNERABILIDADE SOCIAL E SOLIDARIEDADE ENTRE JOVENS: JARDIM ÂNGELA E JARDIM SÃO LUÍS VULNERABILIDADE SOCIAL E SOLIDARIEDADE ENTRE JOVENS – SciELO, acessado em março 23, 2026, https://www.scielo.br/j/psoc/a/kpSdfZx7XX4z3qTNYwgwKcx/
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- Prefeitura amplia capacidade de atendimento da UPA Vera Cruz, no Jardim Ângela, em mais de 200% – Prefeitura de São Paulo, acessado em março 23, 2026, https://prefeitura.sp.gov.br/w/noticia/prefeitura-amplia-capacidade-de-atendimento-da-upa-vera-cruz-no-jardim-angela-em-mais-de-200
- Prefeitura amplia a capacidade de atendimento da UPA Vera Cruz …, acessado em março 23, 2026, https://prefeitura.sp.gov.br/web/saude/w/noticias/359692
- UPA Vera Cruz inaugura “minilab” – YouTube, acessado em março 23, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=ptp_4BLy_aU
- Depoimento Sem Dano e as Inovações Trazidas Pela Lei Nº 13.431/20171 – MPCE, acessado em março 23, 2026, https://mpce.mp.br/wp-content/uploads/2018/05/01-Depoimento-Sem-Dano-e-as-Inova%C3%A7%C3%B5es-Trazidas-Pela-Lei-N-13.4312017.pdf
- Denúncias de violências contra crianças e adolescentes crescem no Brasil – Canal Futura, acessado em março 23, 2026, https://futura.frm.org.br/conteudo/mobilizacao-social/noticia/denuncias-de-violencias-contra-criancas-e-adolescentes-crescem
- SaferNet Brasil alerta que 64% das denúncias recebidas em 2025 são de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes na internet, acessado em março 23, 2026, https://new.safernet.org.br/content/safernet-brasil-alerta-que-64-das-denuncias-recebidas-em-2025-sao-de-abuso-e-exploracao
- Lei nº 12.650/2012, de 17 de maio de 2012 – Lei Joanna Maranhão | Ministério Público do Estado do Paraná, acessado em março 23, 2026, https://mppr.mp.br/Noticia/Lei-no-126502012-de-17-de-maio-de-2012-Lei-Joanna-Maranhao
- Legislação mais rigorosa e campanhas educacionais … – TJRS, acessado em março 23, 2026, https://www.tjrs.jus.br/novo/noticia/legislacao-mais-rigorosa-e-campanhas-educacionais-reforcam-combate-a-violencia-sexual-contra-criancas-e-adolescentes/
- 10 anos da lei contra abusadores sexuais: uma interseção a partir de Rubem Alves, acessado em março 23, 2026, https://www.migalhas.com.br/depeso/359287/10-anos-da-lei-contra-abusadores-sexuais
- CNJ Serviço: Prescrição de crime sexual contra criança foi ampliada, acessado em março 23, 2026, https://www.cnj.jus.br/cnj-servico-prescricao-de-crime-sexual-contra-crianca-foi-ampliada/
- Artigo – Acervos – Escola Paulista da Magistratura – Tribunal de Justiça, acessado em março 23, 2026, https://epm.tjsp.jus.br/Artigo/Acervo/14781?pagina=8
- L12650 – Planalto, acessado em março 23, 2026, https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12650.htm
- Crimes sexuais contra mulheres não terão mais prescrição reduzida e nem atenuantes de idade, acessado em março 23, 2026, https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/noticias/2025/julho/crimes-sexuais-contra-mulheres-nao-terao-mais-prescricao-reduzida-e-nem-atenuantes-de-idade
- Depoimento especial – direito da criança, adolescente vítima ou testemunha de violência — Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios – TJDFT, acessado em março 23, 2026, https://www.tjdft.jus.br/consultas/jurisprudencia/jurisprudencia-em-temas/direito-da-crianca-e-do-adolescente-na-visao-do-tjdft/dos-procedimentos/depoimento-especial
- Lei que dá fim à relativização de estupro de vulneráveis entra em vigor – Senado Federal, acessado em março 23, 2026, https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/03/09/lei-que-da-fim-a-relativizacao-de-estupro-de-vulneraveis-entra-em-vigor
- Câmara aprova aumento de 3 para 20 anos no prazo de prescrição de crimes sexuais contra crianças – Notícias, acessado em março 23, 2026, https://www.camara.leg.br/noticias/1023683-CAMARA-APROVA-AUMENTO-DE-3-PARA-20-ANOS-NO-PRAZO-DE-PRESCRICAO-DE-CRIMES-SEXUAIS-CONTRA-CRIANCAS
- Senado aprova PL que acaba com a relativização de estupro de vulnerável – Migalhas, acessado em março 23, 2026, https://www.migalhas.com.br/quentes/450662/senado-aprova-pl-que-acaba-com-relativizacao-de-estupro-de-vulneravel
- Com apoio do MDHC, Senado aprova projeto para garantir a presunção absoluta de vulnerabilidade da vítima em casos de estupro de vulnerável – Governo Federal, acessado em março 23, 2026, https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2026/fevereiro/com-apoio-do-mdhc-senado-aprova-projeto-para-garantir-a-presuncao-absoluta-de-vulnerabilidade-da-vitima-em-casos-de-estupro-de-vulneravel
- abuso sexual contra crianças e adolescentes – abordagem de casos concretos em uma perspectiva, acessado em março 23, 2026, https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2020-2/maio/cartilhamaiolaranja.pdf
- ‘Infância despedaçada’: veja todas as reportagens da série – G1 – Globo, acessado em março 23, 2026, https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2024/05/14/infancia-despedacada-veja-todas-as-reportagens-da-serie.ghtml
- Denúncias de crimes cibernéticos crescem 28% em 2025, mostra Safernet – Agência Brasil, acessado em março 23, 2026, https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-02/denuncias-de-crimes-ciberneticos-crescem-28-em-2025-mostra-safernet
- APOIANDO SEU FILHO APÓS O ABUSO SEXUAL, acessado em março 23, 2026, https://www.suffolkcac.org/uploads/pages/img/Supporting-Your-Child_Portuguese.pdf
- Caravana Santo Estevão – YouTube, acessado em março 23, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=dZels6YomPU
- Childhood Brasil apoia projetos em prol de uma infância livre de abuso e exploração sexual, acessado em março 23, 2026, https://www.childhood.org.br/acoes-e-iniciativas/childhood-brasil-apoia-projetos-em-prol-de-uma-infancia-livre-de-abuso-e-exploracao-sexual/
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