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Caso Bernardo – Quando o Corporativismo Mata

Bernardo entrou no Hospital Amazônia andando e saiu, horas depois, em um caixão. A história de um erro médico que expõe falhas sistêmicas, negligência e a perigosa mercantilização da medicina.

Quando o Corporativismo Mata – Em agosto de 2023, a vida de Bernardo Almeida Cavaleiro de Macedo, um estudante de 23 anos de Ciências da Computação em Belém, Pará, foi abruptamente interrompida. O que começou como um tratamento para uma condição respiratória diagnosticada como tuberculose pleural culminou em uma tragédia que, segundo o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), foi resultado de uma sequência de falhas médicas, de uma suposta fraude para burlar protocolos hospitalares e de um grave conflito de interesses que colocou ganhos financeiros acima da vida de um paciente.

Entenda o caso que levou à denúncia de dois médicos por homicídio culposo, com base em documentos do processo, laudos periciais, depoimentos de familiares e registros hospitalares que pintam um quadro alarmante da mercantilização da medicina.

O caso, que tramita na 9ª Vara Criminal de Belém sob o número de processo 0826327-06.2024.8.14.0401, representa um exemplo significativo de como falhas na comunicação médica, negligência em protocolos de segurança, falta de consentimento informado adequado e conflitos de interesse podem resultar em consequências fatais.

A denúncia foi oferecida em 26 de novembro de 2025, mais de dois anos após a morte de Bernardo, refletindo a complexidade das investigações em casos de erro médico. De forma contundente e rara, o Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM/PA) aceitou por unanimidade a denúncia contra os médicos, abrindo um Processo Ético-Profissional que pode levar à cassação de seus registros profissionais.

Bernardo – Um Jovem Com o Futuro Interrompido

Bernardo era um jovem no auge de sua vida, um estudante dedicado com um futuro promissor pela frente. Nascido em 1º de janeiro de 2000, Bernardo Almeida Cavaleiro de Macedo era um rapaz saudável, cheio de sonhos e determinação. Descrito pela família como alguém responsável e dedicado aos estudos, sua morte prematura deixou um rastro de dor incalculável e um clamor por justiça que ecoaria por toda a comunidade médica e jurídica de Belém. A família, que inclui profissionais da área médica, tem sido incansável na busca por respostas, questionando cada passo do atendimento que Bernardo recebeu.

Como estudante de Ciências da Computação, Bernardo representava uma geração de profissionais preparados para contribuir significativamente para o desenvolvimento tecnológico do país. Sua morte não apenas ceifou uma vida jovem, mas também interrompeu um projeto de vida que poderia ter beneficiado muitas pessoas.

A confiança que a família depositava no sistema de saúde foi profundamente abalada pelos eventos que se desenrolariam. Bernardo era um paciente ideal, jovem, saudável, vacinado contra COVID-19 com três doses, sem comorbidades e sem alergias conhecidas. Nenhuma característica de seu perfil justificaria os riscos aos quais seria posteriormente submetido.

O Início dos Sintomas e o Diagnóstico

Tudo começou no final de julho de 2023, quando Bernardo apresentou tosse seca e febre persistentes. Esses sintomas, que inicialmente poderiam parecer simples, levaram a família a procurar atendimento médico no Hospital Unimed Prime. Após uma tomografia de tórax realizada em 29 de julho de 2023 revelar um extenso derrame pleural (acúmulo de líquido no espaço entre os pulmões e a parede torácica), ficou claro que algo mais sério estava acontecendo.

O derrame pleural é uma condição que pode ter várias causas, incluindo infecções, malignidades e outras doenças pulmonares. A descoberta de um derrame pleural extenso em um jovem de apenas 23 anos era preocupante e exigia investigação imediata.

Bernardo foi submetido a uma toracocentese, um procedimento para drenar o líquido, realizada pelo cirurgião torácico Dr. Augusto César da Costa Sales. Uma biópsia da pleura foi coletada durante o mesmo procedimento. A toracocentese resultou na drenagem de aproximadamente 2.500 mililitros de líquido, o que trouxe algum alívio imediato. O paciente foi liberado para aguardar o resultado da biópsia e realizar uma radiografia de tórax de acompanhamento alguns dias depois.

Em 2 de agosto de 2023, uma nova radiografia de tórax foi realizada, mostrando um novo acúmulo de líquido pleural. O Dr. Augusto Sales orientou que Bernardo fosse à urgência do Hospital Amazônia para uma nova drenagem. Nessa ocasião, foram drenados 1.200 mililitros de líquido. Quando os resultados da biópsia chegaram, em 4 de agosto de 2023, o diagnóstico foi confirmado: tuberculose pleural. Com o diagnóstico em mãos, o Dr. Augusto Sales orientou o início do tratamento medicamentoso padrão (esquema RHZE com 5 comprimidos pela manhã em jejum), que Bernardo começou a tomar em 5 de agosto de 2023.

Segundo o Sr. Roberto, pai de Bernardo, após o diagnóstico de tuberculose pleural, ele foi imediatamente incluído no protocolo de tratamento do SUS e já havia iniciado o uso da medicação. Bernardo estava estável e em tratamento na consulta em que foi agendada a pleuroscopia.

A Consulta Ambulatorial e a Indicação da Pleuroscopia

Em 7 de agosto de 2023, Bernardo compareceu a uma consulta ambulatorial no Centro Integrado de Oncologia (CION) com sua mãe, Giowana Nauar de Almeida. Nesta consulta, o Dr. Augusto Sales informou que seria necessária a realização de uma pleuroscopia a vídeo para remover possíveis lojas pleurais (acúmulos de líquido loculado) que poderiam estar se formando.

O procedimento foi agendado para o dia 9 de agosto, no período vespertino. Quando questionado sobre a anestesia, o Dr. Sales informou que seria utilizada anestesia peridural com sedação, descrevendo-a como “peridural com cheirinho”, um termo coloquial que minimizava a seriedade do procedimento e criava a impressão de um procedimento simples e de baixo risco.

Quando questionado sobre a necessidade de exames pré-operatórios ou avaliação pré-cirúrgica, o Dr. Sales respondeu que não haveria necessidade devido à idade de Bernardo e seu bom estado de saúde. A família, convencida pela explicação do médico e pela promessa de uma anestesia menos invasiva, aceitou a ausência de exames pré-operatórios. Este seria um dos primeiros passos em uma série de decisões que colocariam a vida de Bernardo em risco.

Segundo o pai de Bernardo, Roberto, a família jamais teria autorizado um procedimento com intubação sem a realização de exames prévios, avaliação de risco cirúrgico ou avaliação anestésica. Ele afirma que os familiares aceitaram a justificativa para a ausência de exames pré-operatórios pelo fato de Bernardo ser jovem e saudável, pois foram convencidos de que a anestesia utilizada seria peridural, com “cheirinho” — termo empregado pelo médico.

No entanto, segundo o pai, essa informação não correspondia à realidade: o procedimento exigia anestesia geral. Para ele, o médico sempre soube que seria necessária anestesia geral, que não haveria exames prévios e, ainda assim, não se importou em expor Bernardo a risco.

A Fraude Administrativa: De Eletivo a Urgente

Um dos pontos centrais da acusação do Ministério Público é a maneira como o procedimento de Bernardo foi classificado administrativamente. Embora a pleuroscopia tivesse sido agendada durante uma consulta ambulatorial no dia 7 de agosto para ser realizada no dia 9 de agosto, o Dr. Augusto Sales preencheu a solicitação para o plano de saúde UNIMED como um procedimento de urgência. Além disso, orientou a família a dar entrada no Hospital Amazônia pelo setor de urgência, em vez de seguir os protocolos normais para procedimentos eletivos.

Segundo o parecer médico pericial particular, solicitado pela família e assinado pela Dra. Thais Feitosa Camacho, especialista em Medicina Legal e Perícias Médicas, essa manobra teria como objetivo “ludibriar a burocracia documental exigida em procedimentos eletivos”.

Procedimentos eletivos (agendados) requerem uma série de protocolos de segurança, como a realização de exames pré-operatórios, avaliação de risco cirúrgico e uma avaliação pré-anestésica detalhada. Ao classificar a cirurgia como de urgência, esses passos cruciais teriam sido dispensados, criando um risco significativo para o paciente.

A Resolução CFM nº 1451/1995 define claramente os conceitos de urgência e emergência. Segundo essa resolução, urgência é “a ocorrência imprevista de agravo à saúde com ou sem risco potencial de vida, cujo portador necessita de assistência médica imediata”. Emergência é “a constatação médica de condições de agravo à saúde que impliquem em risco iminente de vida ou sofrimento intenso, exigindo portanto, tratamento médico imediato”. Tudo o que não se encaixa nessas definições é considerado eletivo.

O parecer pericial ressalta que a própria classificação de triagem de Bernardo na entrada do hospital foi “verde” na escala de Manchester, indicando um quadro de baixa prioridade, o que contradiz fundamentalmente a alegação de urgência. A escala de Manchester é um sistema de triagem padronizado internacionalmente que classifica os pacientes em cinco níveis de prioridade.

Uma classificação “verde” significa que o paciente pode aguardar por mais tempo o atendimento. Além disso, a técnica de enfermagem anotou no prontuário que “após café da manhã 6hs, entrou de jejum para procedimento as 14hs pleuroscopia”, indicando que a orientação de jejum foi dada previamente à admissão hospitalar, descaracterizando completamente o dito atendimento emergencial.

O Conflito de Interesses: O Equipamento do Cirurgião

Uma revelação crucial veio à tona durante a investigação: o Dr. Augusto César da Costa Sales era o proprietário do equipamento de vídeo cirúrgico utilizado no Hospital Amazônia. Ao transferir o procedimento de Bernardo do Hospital Unimed Prime, onde ele vinha sendo tratado, para o Hospital Amazônia, o médico não apenas acelerava o processo, evitando a burocracia dos exames pré-operatórios, mas também aumentava significativamente seus ganhos financeiros.

Ao classificar o procedimento como de urgência, o Dr. Sales recebia honorários médicos, taxa de urgência e a taxa pelo uso de seu próprio equipamento, tornando o procedimento muito mais lucrativo.

A família foi informada que o Hospital Amazônia seria “melhor equipado” para realizar o procedimento. No entanto, essa justificativa foi desmentida pelos fatos. O verdadeiro motivo era financeiro. Esta prática, conhecida pela família como “urgencialização”, era, segundo seus relatos, utilizada rotineiramente no hospital para esses procedimentos, representando um padrão sistemático de fraude administrativa que colocava ganhos financeiros acima da segurança do paciente.

A Mudança na Anestesia: Violação do Consentimento Informado

No dia 9 de agosto de 2023, Bernardo foi levado ao Hospital Amazônia e entrou pelo setor de urgência como orientado. No período vespertino, foi submetido a um procedimento cirúrgico. No entanto, a anestesia aplicada não foi a peridural com sedação prometida, mas sim uma anestesia geral com intubação seletiva, muito mais complexa e invasiva, realizada pelo Dr. Cesar Collyer Carvalho. A anestesia geral é um procedimento que requer cuidados especiais, monitoramento intenso e uma avaliação pré-anestésica adequada.

A família nega veementemente ter autorizado tal mudança, da qual só tomou conhecimento após a cirurgia, quando o quadro de Bernardo já se agravava. O Dr. Cesar Collyer alegou ter informado o paciente sobre a anestesia geral, mas a família nega ter autorizado. Esta violação do consentimento informado é uma das pedras angulares da denúncia do Ministério Público. O Código de Ética Médica é claro em seus artigos 22, 31 e 34 sobre a necessidade de obter o consentimento do paciente ou de seu representante legal após o devido esclarecimento sobre os procedimentos, seus riscos e objetivos.

Adicionalmente, o anestesista classificou Bernardo como um paciente “ASA 1”, que corresponde a um paciente saudável, sem comorbidades. Essa classificação foi feita sem a devida avaliação pré-anestésica, que é fundamental para garantir a segurança do paciente durante a cirurgia. A avaliação pré-anestésica é um processo sistemático que envolve a revisão do histórico médico do paciente, exame físico, revisão de exames laboratoriais e outras investigações quando apropriado.

A Cirurgia Prolongada e o Encaminhamento para a UTI

O procedimento, inicialmente previsto para durar cerca de uma hora, estendeu-se por aproximadamente quatro horas. Essa duração prolongada é significativa e pode indicar complicações durante o procedimento. Após a cirurgia, a equipe relatou que tudo transcorreu sem intercorrências, sem fístulas, fugas aéreas ou sangramento anormal. No entanto, para a surpresa da família, que esperava que Bernardo retornasse para um leito de apartamento conforme havia sido informado, ele foi encaminhado diretamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

A justificativa dada pelos médicos foi que se tratava de um “protocolo conservador”. Essa explicação não satisfez a família, que questionava por que um procedimento descrito como simples e de baixo risco resultaria na necessidade de internação em UTI.

Um fato que agrava significativamente a situação é que os médicos responsáveis pela cirurgia, Dr. Sales e Dr. Carvalho, não acompanharam o paciente até a UTI para fazer a passagem do caso para a equipe plantonista. Eles desligaram seus celulares e foram para casa, deixando a equipe da UTI sem informações vitais sobre o procedimento realizado, o tipo de anestesia utilizado e qualquer complicação que pudesse ter ocorrido.

A Admissão na UTI

Bernardo foi admitido na UTI por volta das 17h30, consciente e estável. A médica que o recebeu foi a Dra. Natalia Noemi Dias da Silva. Registrado no prontuário de admissão está um fato crucial: a Dra. Noemi perguntou a Bernardo por que ele estava sendo levado para a UTI, e ele respondeu que não sabia. Ela anotou isso no prontuário, documentando que havia recebido um paciente sem informações adequadas sobre seu procedimento ou condição.

Segundo os depoimentos, a Dra. Noemi tentou contato com o Dr. Cesar para obter informações, mas não teve sucesso. A equipe da UTI recebeu um paciente sem informações essenciais, sem conhecer o tipo de anestesia utilizado, sem saber se havia complicações durante o procedimento. Essa falha de comunicação deixou a equipe no escuro, dificultando o monitoramento e o cuidado apropriado. A Dra. Noemi estava irritada com a situação.

Ela esperava receber um paciente da UTI com aviso prévio, com informações completas sobre o procedimento realizado. Em vez disso, um maqueiro bateu na porta e disse que estava trazendo um paciente, sem nenhum aviso ou comunicação prévia. A Dra. Noemi precisava fazer perguntas básicas ao paciente para entender sua condição, perguntas que deveriam ter sido respondidas pelos médicos responsáveis pelo procedimento. Essa falha de comunicação entre as equipes é uma violação grave dos protocolos hospitalares e representa um risco significativo para a segurança do paciente.

Um exame de raio-x foi realizado na admissão da UTI. Este exame já mostrava sinais de pneumomediastino (ar no espaço entre os pulmões), uma complicação grave que sugere lesão nas vias aéreas. O pneumomediastino é uma complicação séria que pode resultar de trauma durante intubação ou de ruptura de estruturas pulmonares.

Segundo os depoimentos da família, a equipe da UTI não interpretou corretamente este achado inicial, falhando em reconhecer a gravidade do que estava acontecendo. Quando um segundo raio-x foi realizado posteriormente, mostrou o agravamento grave do pneumomediastino. Uma junta médica da Sociedade Paraense de Radiologia confirmou a presença do pneumomediastino em ambos os exames, reafirmando que o primeiro exame já mostrava sinais claros da complicação. O fato de que o segundo exame mostrou agravamento grave indica que a complicação estava progredindo sem intervenção adequada. Os depoimentos sugerem que a equipe da UTI não soube ler corretamente os exames, perdendo a oportunidade de intervir mais cedo e potencialmente alterar o curso dos eventos.

A Rápida Deterioração: Complicações Graves e Óbito

Durante a madrugada de 10 de agosto, o quadro de Bernardo se agravou rapidamente. O pneumomediastino evoluiu para uma complicação grave. O médico plantonista, Dr. Eduardo Carvalho Belizário, observou secreção sanguinolenta e edema nas vias aéreas de Bernardo, indicando trauma significativo.

A presença de sangue nas vias aéreas é particularmente preocupante, pois indica que houve lesão tecidual durante o procedimento anterior. Tomou a decisão de reintubar o paciente para preservar sua vida, acreditando que isso protegeria as vias aéreas. No entanto, o paciente já apresentava deficiência grave de ventilação e perfusão, indicando embolia pulmonar.

Por volta das 4h30 da manhã, Bernardo sofreu uma parada cardiorrespiratória. As manobras de ressuscitação cardiopulmonar e desfibrilação foram realizadas, mas não foram suficientes. O óbito foi declarado às 05h15 de 10 de agosto de 2023. Bernardo chegou ao Instituto Médico Legal (IML) irreconhecível, com o corpo inteiro inchado devido ao enfisema subcutâneo (ar embaixo da pele, da cabeça aos pés). O serviço póstumo responsável pelo enterro cobrou taxa extra por causa do inchaço. Essa apresentação física era consistente com uma lesão grave das vias aéreas durante o procedimento cirúrgico.

Quando o Corporativismo Mata – A Controvérsia do Laudo e o Conflito de Interesses da Perita

A controvérsia se aprofundou com o laudo do Instituto Médico Legal (IML). A perita, Dra. Ocilene Mota, uma anestesista contratada como perita pelo IML, inicialmente declarou à família que a morte era suspeita. Ela afirmou ter encontrado lacerações nas vias respiratórias e perfuração no pulmão, achados consistentes com trauma durante a intubação. Ela informou à família que havia tirado “mais de mil fotos” para documentar os achados e ofereceu-se para ajudar em futuras ações judiciais, enquanto consolava a família pela perda.

Contradizendo tudo o que havia dito, em seu laudo oficial, a Dra. Ocilene atribuiu a causa da morte a uma “insuficiência ventricular direita, por trombose intracardíaca, na vigência de infecção por COVID-19”, e afirmou não ter feito nenhum registro fotográfico. Posteriormente, descobriu-se que a Dra. Ocilene Mota era amiga pessoal e sócia do anestesista do caso, Dr. Cesar Collyer. Este flagrante conflito de interesses levou a família a impugnar o laudo.

A impugnação foi aceita pela autoridade policial. O próprio Ministério Público desconsiderou o laudo em sua denúncia, baseando-se nas demais provas materiais, como os exames de imagem confirmados por uma junta médica da Sociedade Paraense de Radiologia, os registros dos médicos da UTI e o parecer pericial particular contratado pela família. O Hospital Amazônia foi posteriormente condenado por litigância de má-fé por tentar esconder os exames de imagem.

A Denúncia do Ministério Público

Com base em todas as evidências, o MPPA denunciou os médicos Augusto Cézar da Costa Sales e Cesar Collyer Carvalho por homicídio culposo majorado pela inobservância de regra técnica de profissão. A denúncia destaca a negligência, a imprudência, o abandono do paciente e a busca por lucro como fatores que levaram à morte de Bernardo. O Ministério Público argumenta que os denunciados agiram com negligência ao se omitirem no dever de cuidado e informação referente ao real quadro clínico da vítima, e com imprudência ao dispensarem os exames pré-operatórios e aplicarem uma anestesia diversa daquela considerada menos invasiva.

De forma contundente e rara, o Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM/PA) aceitou por unanimidade a denúncia contra os médicos, abrindo um Processo Ético-Profissional que pode levar à cassação de seus registros profissionais. A unanimidade é particularmente significativa, pois denúncias de erro médico raramente alcançam tal consenso.

A Resposta da Família e a Busca por Justiça

A família de Bernardo não aceitou passivamente a morte de seu filho. Contrataram peritos independentes, analisaram todos os documentos médicos, ouviram depoimentos e construíram um caso sólido contra os médicos responsáveis. Os depoimentos da família revelam a frustração com o sistema que permitiu que tais falhas ocorressem. Segundo relatos, a família questionou repetidamente por que o procedimento precisava ser realizado com urgência, por que a anestesia foi mudada sem consentimento, por que os médicos não acompanharam o paciente até a UTI e por que a perita do IML mudou sua avaliação inicial.

A luta pela justiça não foi fácil. O corporativismo na profissão médica é forte, e a tendência de proteger colegas é uma realidade bem documentada. No entanto, a determinação da família e as evidências sólidas conseguiram romper essa barreira. O Ministério Público reconheceu a gravidade dos fatos e ofereceu a denúncia. O CRM/PA, de forma rara e unânime, apoiou a ação penal. Esses passos representam um reconhecimento de que o caso não era um simples erro médico, mas uma série de violações graves dos direitos do paciente e dos protocolos de segurança.

A Mercantilização da Medicina e Seus Perigos

O caso de Bernardo é emblemático de um problema maior: a mercantilização da medicina. Quando os ganhos financeiros se tornam o principal motivador das decisões médicas, a segurança do paciente é frequentemente comprometida. No caso de Bernardo, o Dr. Augusto Sales tinha um incentivo financeiro claro para realizar o procedimento em seu hospital, com seu equipamento, de forma urgente. Cada uma dessas decisões aumentava seus ganhos. O resultado foi um paciente submetido a riscos desnecessários para maximizar a lucratividade do procedimento.

A prática da “urgencialização” de procedimentos eletivos é particularmente preocupante. Ao contornar os protocolos de segurança normais, os médicos não apenas economizam tempo e burocracia, mas também aumentam seus ganhos. Bernardo pagou o preço final por essa ganância. Sua morte deveria servir como um alerta para toda a comunidade médica sobre os perigos de colocar lucro acima de vida.

Os Achados Clínicos e a Interpretação Inadequada

Os achados clínicos no caso de Bernardo são claros e documentados. O prontuário da UTI registra que Bernardo chegou com secreção sanguinolenta nas vias aéreas, edema significativo e sinais de pneumomediastino. Esses achados são consistentes com trauma durante a intubação ou lesão das vias aéreas. O fato de que o corpo de Bernardo chegou ao IML com enfisema subcutâneo generalizado (ar embaixo da pele por todo o corpo) reforça a gravidade da lesão.

A interpretação inadequada dos exames radiológicos pela equipe da UTI é uma falha crítica. Quando o primeiro raio-x mostrou pneumomediastino, a equipe deveria ter reconhecido imediatamente a gravidade da situação e iniciado um plano de ação agressivo. Quando o segundo raio-x mostrou agravamento, isso deveria ter disparado um alerta máximo. Em vez disso, a equipe parece ter não compreendido totalmente o que estava vendo, levando a atrasos na intervenção.

O Papel do Corporativismo Médico

Os depoimentos revelam frustração com o corporativismo na profissão médica. A Dra. Noemi, que recebeu Bernardo na UTI e claramente reconheceu que algo estava errado, não escalou o problema de forma adequada. Ela deveria ter tocado uma “sirene”, como dizem nos depoimentos, alertando todos sobre a situação crítica. Em vez disso, o corporativismo e a proteção entre colegas falaram mais alto. Essa é uma realidade bem documentada na medicina: profissionais frequentemente relutam em denunciar colegas, mesmo quando há evidências claras de negligência.

A Importância do Consentimento Informado

O caso de Bernardo também destaca a importância crítica do consentimento informado. A família foi enganada sobre o tipo de anestesia que seria utilizado. Essa não foi uma simples omissão; foi uma mentira deliberada. O Dr. Sales sabia que a anestesia geral seria necessária, mas informou à família que seria peridural com sedação. Essa mudança fundamental no procedimento, sem consentimento, é uma violação grave dos direitos do paciente e dos protocolos éticos da medicina.

Se a família tivesse sido informada corretamente sobre a anestesia geral, teria exigido os exames pré-operatórios apropriados. Esses exames poderiam ter identificado qualquer fator de risco e permitido uma avaliação pré-anestésica adequada. A cadeia de eventos que levou à morte de Bernardo começou com essa mentira sobre o tipo de anestesia.

Principais Fatos Que Chocam

— O médico insistiu na urgência do procedimento, afirmando que, se não fosse realizado imediatamente, Bernardo poderia sofrer sequelas graves pelo resto da vida.

— Bernardo realizava todos os atendimentos no Hospital Unimed Prime, uma unidade nova e bem equipada. Questionamos por que o procedimento precisaria ser feito no Hospital Amazônia e fomos informados de que ali haveria melhor estrutura, o que posteriormente se mostrou inverídico.

— Na realidade, o equipamento utilizado no Hospital Amazônia pertencia ao próprio cirurgião, que era sócio do hospital naquele tipo de procedimento. Tratava-se, portanto, de um médico que também atuava como empresário.

— Ele receberia honorários médicos, adicional pela urgência e ainda a taxa referente ao uso do equipamento, tornando o procedimento significativamente mais lucrativo.

— Em depoimento na Delegacia, ele confessou ser o proprietário do equipamento (documento em anexo).

— A família foi informada que esse tipo de prática, conhecido no meio médico como “urgencialização”, era utilizado rotineiramente para esses procedimentos no hospital.

— A dra. Noemi perguntou a Bernardo por que ele estava sendo encaminhado à UTI, e ele respondeu que não sabia. Ela registrou essa informação no prontuário de admissão e, ainda assim, recebeu o paciente e deixou o plantão em seguida (documento será encaminhado).

— Ao dar entrada na UTI, foi realizado o primeiro raio-X, que já demonstrava pneumomediastino, decorrente de lesões nas vias aéreas provocadas durante o procedimento. Com a piora do quadro, foi feito um segundo exame, que evidenciava agravamento significativo do pneumomediastino. Segundo consta, os médicos da UTI não interpretaram corretamente os exames, o que teria contribuído para o desfecho fatal.

— O Hospital Amazônia foi condenado por litigância de má-fé ao tentar ocultar os exames.

— Uma junta médica da Sociedade Paraense de Radiologia confirmou a presença de pneumomediastino em ambos os exames.

— A médica do IML classificou a morte como suspeita ao identificar lacerações nas vias respiratórias e perfuração pulmonar. Segundo relato, ela afirmou esses achados à família no momento da liberação do corpo, informando também ter realizado “mais de mil fotos” que poderiam ser utilizadas em eventual ação judicial.

— Na ocasião, declarou ter feito extensa documentação fotográfica da perícia.

— Embora não fosse perita de carreira, mas médica anestesista contratada como perita pelo IML, ela poderia ter encerrado o caso classificando o óbito como fatalidade. Contudo, reforçou tratar-se de morte suspeita.

— Bernardo chegou ao IML em estado avançado de edema, com inchaço acentuado decorrente de enfisema subcutâneo generalizado.

— Posteriormente, soube-se que a médica Ocilene não tinha conhecimento, naquele momento, de que o médico responsável pelo procedimento era seu amigo pessoal e sócio, também anestesista, Cesar Collyer.

— A empresa responsável pelo serviço funerário cobrou taxa adicional em razão do inchaço corporal causado pelo enfisema subcutâneo, que acometia o corpo inteiro.

— O laudo foi impugnado no inquérito policial, e a impugnação foi acolhida pelo delegado. O Ministério Público do Estado do Pará desconsiderou o laudo por entender que ele contrariava provas materiais, exames radiológicos e registros clínicos que apontavam sangramento nas vias respiratórias.

— Bernardo era vacinado contra a Covid-19, com três doses. Segundo literatura médica amplamente divulgada, pacientes jovens, saudáveis e vacinados apresentam risco significativamente reduzido de evolução para quadros graves.

— A denúncia foi aceita por unanimidade pelo CRM/PA, fato considerado raro no estado.

— Sustenta-se que Bernardo foi vítima da mercantilização da medicina, com a urgencialização do procedimento para viabilizar o uso de equipamento pertencente ao próprio médico, além de falhas graves na assistência prestada.

— Ele foi submetido a um procedimento cirúrgico sem exames prévios adequados, sofreu lesões graves e, após o agravamento do quadro, houve transferência de responsabilidade para a equipe da UTI.

— A família refuta a alegação de que teria se ausentado ou deixado de autorizar a internação em UTI. A mãe aguardava o retorno de Bernardo ao apartamento desde a manhã e foi informada de que não poderia visitá-lo na UTI, apesar de insistir.

— A perita do IML, Ocilene Mota, após classificar inicialmente a morte como suspeita e relatar lacerações nas vias respiratórias e perfuração pulmonar, posteriormente apresentou laudo oficial atribuindo a causa da morte à Covid-19 e declarou não ter realizado registros fotográficos.

— Posteriormente, constatou-se que ela era médica anestesista contratada como perita e amiga pessoal e sócia do anestesista Cesar Collyer.

— O laudo foi impugnado e a impugnação acolhida, por apresentar contradições com os exames realizados na UTI, exames que, segundo consta, o Hospital Amazônia tentou ocultar, além de divergências com registros médicos.

— O Ministério Público do Estado do Pará denunciou o cirurgião torácico Augusto Cezar Sales e o anestesista Cesar Collyer por homicídio, denúncia já recebida pela Justiça.

Pedido Por Justiça e Mudança

O caso de Bernardo Almeida Cavaleiro de Macedo é um retrato doloroso de como a mercantilização da medicina, o conflito de interesses, a negligência e uma cascata de falhas de segurança podem levar a um resultado fatal. A luta de sua família por justiça não é apenas pela memória de seu filho, mas por uma reforma em um sistema que permitiu que tal tragédia acontecesse. A esperança é que a responsabilização criminal e ética dos envolvidos sirva como um poderoso alerta, forçando uma reflexão profunda sobre a ética, a transparência e o compromisso com a vida que devem nortear a prática médica.

Bernardo era um paciente jovem, saudável, vacinado e sem comorbidades. Nenhuma característica de seu perfil justificava os riscos aos quais foi submetido. Sua morte foi evitável. Ela resultou de escolhas deliberadas de médicos que colocaram ganhos financeiros acima de sua segurança. Os fatos são claros: o procedimento foi fraudulentamente classificado como urgente, a anestesia foi mudada sem consentimento, os exames pré-operatórios foram dispensados, os médicos não acompanharam o paciente até a UTI, e uma perita com conflito de interesses tentou encobrir os verdadeiros achados.

A morte de Bernardo não pode ser em vão; deve inspirar mudanças que protejam outros pacientes de sofrer o mesmo destino. A justiça, neste caso, é um passo essencial para restaurar a confiança da sociedade no sistema de saúde e para garantir que a medicina seja praticada com a ética, o cuidado e o respeito pela vida que ela exige. O processo criminal que se inicia agora será crucial para estabelecer um precedente de que negligência médica, conflito de interesses e violação do consentimento informado não serão tolerados. A luta da família de Bernardo é a luta de todos aqueles que dependem de um sistema de saúde ético, seguro e centrado no paciente.

Responsabilidade Médica

O caso de Bernardo Almeida Cavaleiro de Macedo transcende a tragédia pessoal de uma família. Ele representa um ponto de inflexão na discussão sobre responsabilidade médica, segurança do paciente e a necessidade de fiscalização rigorosa dos serviços de saúde em Belém e em todo o Brasil. A denúncia oferecida pelo Ministério Público do Pará não é apenas um ato de acusação; é um reconhecimento de que falhas sistemáticas ocorreram e que essas falhas resultaram em morte.

A segurança do paciente deve ser a prioridade máxima em qualquer instituição de saúde. Isso inclui a necessidade de avaliações pré-operatórias adequadas, consentimento informado genuíno, comunicação clara entre membros da equipe de saúde, e aderência aos protocolos estabelecidos. Quando esses princípios são negligenciados, o resultado pode ser catastrófico, como demonstrado no caso de Bernardo. A responsabilidade médica, tanto legal quanto ética, é um aspecto crucial da confiança pública na profissão médica. Quando médicos agem com negligência ou imprudência, e isso resulta em morte, eles devem ser responsabilizados. Isso não apenas busca justiça para a vítima e sua família, mas também serve como um deterrente para comportamentos semelhantes no futuro.

O Processo Criminal

O processo criminal que se inicia agora será crucial para estabelecer os fatos e determinar a responsabilidade dos denunciados. As testemunhas arroladas, incluindo profissionais de saúde e familiares, fornecerão depoimentos que ajudarão a esclarecer o que aconteceu. Os laudos periciais e documentos médicos serão analisados em detalhe. A justiça, esperamos, prevalecerá, e as responsabilidades serão adequadamente atribuídas. Para Bernardo, essa justiça não o trará de volta, mas pode servir como um tributo à sua memória e como um catalisador para mudanças que protejam outros jovens de sofrer o mesmo destino.

Os procedimentos médicos, especialmente aqueles que envolvem anestesia e cirurgia, sempre carregam riscos. No entanto, esses riscos podem ser minimizados através de protocolos rigorosos, avaliações adequadas, consentimento informado genuíno e comunicação clara. Quando esses elementos são negligenciados, o resultado pode ser devastador. O caso de Bernardo demonstra a importância crítica de manter esses padrões de segurança e ética em todas as circunstâncias.

O Legado de Bernardo e a Luta Contínua

Para a família de Bernardo, a busca por justiça continua. Para a sociedade, o caso serve como um lembrete de que a vigilância constante e a responsabilização são necessárias para manter a integridade e a segurança do sistema de saúde. A morte de Bernardo não pode ser em vão; deve inspirar mudanças que protejam outros jovens de sofrer o mesmo destino. A luta por justiça é também uma luta por um futuro melhor, onde erros médicos e negligências profissionais sejam minimizados e as vidas dos pacientes sejam protegidas com o máximo cuidado e atenção.

O caso de Bernardo também serve como um chamado para que os órgãos reguladores, como o CRM/PA, mantenham vigilância constante sobre a conduta dos profissionais médicos. A unanimidade com que o CRM/PA aceitou a denúncia contra os médicos é um sinal de que a comunidade médica reconhece a gravidade das falhas cometidas. Isso oferece esperança de que o sistema de autorregulação profissional pode funcionar quando há vontade política e reconhecimento da importância da ética médica.

Mais Do Que Uma Tragédia Pessoal

O caso de Bernardo Almeida Cavaleiro de Macedo é mais do que uma história de tragédia pessoal. É um alerta para toda a sociedade e um lembrete de que a confiança que depositamos nos profissionais de saúde deve ser acompanhada de vigilância, de que os protocolos de segurança existem por uma razão, e de que a vida de um paciente deve sempre vir em primeiro lugar, acima de qualquer consideração financeira.

A história de Bernardo deve inspirar mudanças nas instituições de saúde, nas práticas médicas, nos processos de regulação profissional e na forma como a sociedade responsabiliza aqueles que falham em proteger a vida. Deve servir como um exemplo do que pode acontecer quando a ética é comprometida pela ganância, quando a comunicação falha, quando os protocolos são ignorados e quando a arrogância substitui a humildade e o cuidado.

Bernardo merecia viver. Ele merecia receber um atendimento médico seguro, ético e centrado em seu bem-estar. Ele merecia que os médicos que o atendessem colocassem sua vida acima de seus ganhos financeiros. Ele merecia ser informado honestamente sobre os procedimentos aos quais seria submetido. Ele merecia ter seus direitos como paciente respeitados.

A luta da família de Bernardo por justiça é a luta de todos nós. É a luta por um sistema de saúde que funcione com integridade, ética e compromisso genuíno com a vida. É a luta por um futuro em que tragédias como a de Bernardo sejam evitadas através de vigilância constante, responsabilização rigorosa e um compromisso inabalável com os princípios fundamentais da medicina: fazer o bem, não causar dano, e sempre colocar o paciente em primeiro lugar.

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