O Perigo das Redes SociaisEm Destaque

22- Discord e Roblox – A Epidemia De Violência Contra Crianças e Adolescentes

Roblox e Discord estão no centro de uma onda global de violência digital que envolve aliciamento de menores, abuso sexual online, automutilação induzida e crimes cibernéticos sofisticados. Delegados e psicólogos revelam como esses crimes acontecem, quem são os agressores e como proteger crianças e adolescentes

Discord e Roblox – Em março de 2025, uma megaoperação internacional coordenada pela Europol, batizada de “Operação Streaming”, expôs ao mundo uma realidade aterradora que se desenvolve sob a superfície da internet.

A ação desmantelou a “Kidflix”, uma sofisticada e macabra rede de streaming de abuso sexual infantil que operava com a frieza e a lógica de uma empresa de entretenimento. Com mais de 1,8 milhão de usuários em 38 países, a plataforma não era um mero repositório de conteúdo criminoso na dark web, mas um ecossistema complexo de produção, distribuição e consumo de violência, sustentado por tecnologia de ponta e uma estrutura organizacional assustadoramente profissional.

O caso, que culminou na prisão de 79 pessoas e na identificação de mais de 1.300 suspeitos, serve como um prólogo sombrio para uma discussão urgente sobre a segurança de crianças e adolescentes na era digital.

Este não é um fenômeno isolado. A queda da “Kidflix” é a ponta de um iceberg que oculta uma epidemia silenciosa de violência, cujas manifestações se tornam cada vez mais complexas e brutais.

Do planejamento meticuloso de massacres escolares, como o que chocou o Brasil em Suzano, à manipulação psicológica que leva a assassinatos no universo gamer e à proliferação de comunidades de ódio em plataformas como o Discord, a violência juvenil e contra jovens assume novas e perturbadoras formas.

Estes eventos, embora distintos em suas especificidades, estão interligados por um fio condutor comum: a falência dos mecanismos de proteção social, a vulnerabilidade psíquica de uma geração que cresce imersa no ambiente digital e a alarmante omissão de gigantes da tecnologia que lucram com a conectividade, mas se isentam da responsabilidade.

O Direito Aos Fatos, que ouviu os delegados de Polícia Civil Rodrigo Bozzetto, Rodrigo Baptista e Lisandrea Salvariego e a pediatra Ana Carolina Costa, pretende mostrar os pontos entre a criminalidade organizada em escala global e as tragédias individuais que se desenrolam nos quartos de adolescentes. Através da análise de documentos, entrevistas com especialistas e dados de investigações oficiais, buscamos não apenas relatar os fatos, mas também compreender as complexas dinâmicas psicológicas, sociais e tecnológicas que alimentam essa espiral de violência.

O Delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo Rodrigo Correa Baptista afirma que os principais riscos do Discord são: “contato com desconhecidos, conteúdo sem filtro e sensação de ‘clube fechado’”.

O delegado também ressalta que para as crianças e adolescentes, esse ambiente de ‘clube fechado’ facilita a exposição e o aliciamento sexual, discurso de ódio entre outros problemas que colocam a saúde física e mental desses usuários em risco.

“Para crianças e adolescentes, isso significa exposição a aliciamento sexual, discurso de ódio, cyberbullying, desafios perigosos, apostas e conteúdos extremamente violentos ou pornográficos – muitas vezes em servidores que os pais sequer sabem que existem”, ressalta Baptista.

 A delegada Lisandrea Salvariego explica que aliciamento de menores, tráfico de imagens e exploração sexual infantil acontecem em qualquer plataforma ou rede social que têm “moderação pífia”.

“E é o que acontece com o Discord. Lá dentro, nós temos inúmeros, dentro de cada servidor, inúmeros arquivos com conteúdo de pornografia infantil, com tráfico de imagens, como você cita aqui, e até possíveis aliciamentos.”, diz Salvariego.

Já o Diretor da Delegacia de Polícia Regional de Porto Alegre, o delegado Rodrigo Bozzetto, diz que os maiores obstáculos para as investigações são: anonimato aparente, uso de VPNs e proxies, uso de diversas plataformas pelos criminosos e o tempo de resposta das plataformas para tirar o conteúdo do ar.

“Anonimato aparente: o usuário opera com nickname, e muitas vezes não há dadopessoal associado de forma clara; uso de VPNs e proxies: mascaram o IP e dificultam a identificação da origem da conexão; arquitetura distribuída e múltiplas plataformas: o criminoso raramente usa só o Discord; ele transita entre várias redes, o que fragmenta as provas”, esclarece Bozzetto.

“Tempo de resposta de algumas plataformas a pedidos de preservação e fornecimento de dados, especialmente quando há necessidade de cooperação internacional. Tudo isso exige uma combinação de perícia técnica, cooperação com provedores, cruzamento de dados e investigação tradicional”, finaliza.


Discord – As Comunidades do Ódio e a
Nova Geração da Violência Digital

Originalmente concebido como um software de chat por voz e texto para a comunidade gamer, o Discord, com sua estrutura de servidores personalizáveis e sua cultura de privacidade e autonomia do usuário, tornou-se um terreno fértil para a formação de comunidades tóxicas e criminosas. Nesses espaços, isolados do olhar público, jovens, muitos deles adolescentes, se envolvem em práticas de extrema crueldade, que vão da tortura psicológica e extorsão à incitação à automutilação, estupro virtual e planejamento de ataques físicos.

Operações policiais deflagradas em diversos estados do Brasil ao longo de 2024 e 2025 começaram a descortinar a gravidade desse fenômeno. Uma megaoperação realizada em junho de 2025, que abrangeu nove estados, resultou na prisão ou apreensão de 51 pessoas envolvidas em uma rede que praticava estupros virtuais e tortura.

As investigações, conduzidas por delegacias especializadas em crimes cibernéticos, revelam um padrão de comportamento que desafia a polícia, a psicologia e o sistema de justiça, expondo uma nova geração de criminosos digitais que são, ao mesmo tempo, vítimas e algozes de um sistema social falho.

Segundo a delegada Lisandrea Salvariego, o problema do Discord é a falta de moderação e cada internauta cria o que quer sem qualquer moderação.

“O problema do Discord, na verdade, é zero moderação. Isso é o que pega muito para gente nas investigações. Só que nada começa ali no Discord”, explica Salvariego. “O Discord é feito de números, ele é uma plataforma feita de números servidores. Ali, cada um cria o que quer, a hora que quer, sem moderação alguma. Nós já nos deparamos com casos que uma adolescente, nitidamente vítima de extorsão, de sex-extortion, acabou por se cortar muito durante 50 minutos. E nós pedimos para que derrubassem o servidor e preservassem os dados, mas o Discord não considerou nem violento e nem urgente”, conclui a delegada.

O psicólogo investigativo Christian Costa explica que os crimes praticados nesses ambientes não são apenas “brincadeiras de mau gosto” ou atos isolados de adolescentes influenciáveis, durante uma entrevista a jornalista Carla Albuquerque, do canal Investigação Criminal.

O comportamento exibido por muitos desses jovens se aproxima de padrões utilizados por agressores em série, com elementos de sadismo, manipulação, planejamento e estratégias estruturadas para atrair e subjugar vítimas emocionalmente vulneráveis.

O modus operandi é assustadoramente consistente e revela um profundo conhecimento da psicologia adolescente. Os criminosos escolhem intencionalmente meninas, muitas delas com histórico de sofrimento psicológico, baixa autoestima, depressão ou pouca supervisão familiar. Elas são atraídas para servidores privados no Discord, muitas vezes com a promessa de um espaço de acolhimento e amizade.

Uma vez dentro, a dinâmica de abuso começa. As vítimas são coagidas a enviar fotos íntimas, que são então usadas como a principal ferramenta de chantagem. A partir daí, a violência escala em uma espiral de horror: elas são forçadas a realizar atos de automutilação em transmissões ao vivo, a obedecer a comandos degradantes, a participar de sessões de humilhação coletiva e a suportar uma tortura psicológica incessante. Os agressores criam um vínculo perverso no qual a vítima passa a depender emocionalmente do agressor, em um ciclo de medo, vergonha e obediência conhecido como vínculo traumático.

“Eles utilizam táticas de guerrilha psicológica para destruir a autoestima das vítimas e, ao mesmo tempo, estabelecer controle. A vítima é levada a acreditar que a única forma de cessar as ameaças é obedecendo. Em muitos casos, a manipulação evolui para violência sexual, coerção emocional e estímulo a práticas que representam risco real de morte”, explica Christian Costa durante uma entrevista para a jornalista Carla Albuquerque, do canal Investigação Criminal.

O problema é agravado pela arquitetura e pela política das próprias plataformas. A natureza descentralizada do Discord, onde cada servidor é uma pequena comunidade com suas próprias regras e moderação, dificulta o monitoramento em larga escala. Segundo os investigadores e jornalistas que cobrem o tema, denúncias feitas por vítimas e até por autoridades são frequentemente ignoradas ou tratadas com uma lentidão que é fatal.

Empresas como o Discord, TikTok e Telegram, embora possuam as ferramentas técnicas para monitorar e coibir essas práticas, muitas vezes se escondem atrás de argumentos de privacidade do usuário para não intervir de forma proativa em servidores privados. Essa omissão deliberada cria uma atmosfera de impunidade, na qual os jovens agressores se sentem intocáveis e encorajados a testar limites cada vez mais extremos.

Apenas após uma intensa pressão da imprensa e de investigações de alto perfil, as plataformas começaram a tomar medidas mais enérgicas, que ainda são consideradas insuficientes por muitos especialistas.

O perfil desses jovens agressores é complexo. Muitos possuem grande habilidade tecnológica, mas carecem de maturidade emocional e freios morais. Apresentam traços de narcisismo, um ego inflado e uma sensação distorcida de autoridade e poder sobre o outro.

Segundo a pediatra Ana Carolina Costa, cada plataforma expõe as crianças e adolescentes em risco de maneiras diferentes e possui vulnerabilidades específicas. A Dra. Costa explica que “no Instagram e TikTok, o problema principal é a hiperexposição: qualquer criança pode ser encontrada por estranhos”. Sobre o Whatsapp, Ana Carolina lembra dos “grupos secretos” onde ocorrem as “trocas de imagens e aliciamentos.”.

Em relação as plataformas como Discord “oferecem salas privadas de voz e texto, onde predadores criam vínculos e manipulam menores sem supervisão. O risco é invisível, porque ocorre em ambientes ‘aparentemente inofensivos’.”

Dentro de seus grupos, eles criam uma subcultura própria, com símbolos, hierarquias, rituais e uma linguagem que reforça o sentimento de pertencimento e exclusividade. Eles fabricam armas caseiras, planejam agressões físicas e produzem conteúdo de violência como forma de reafirmar poder e status dentro da comunidade.

Durante as operações policiais, foram apreendidos arsenais com armas brancas modificadas para tortura, máscaras associadas a grupos violentos e objetos utilizados para induzir automutilações, evidenciando que a violência não se restringe ao plano digital, mas é um projeto que anseia por se materializar no mundo físico.

Os especialistas também apontam para uma correlação preocupante e direta entre essas comunidades de ódio no Discord e movimentos extremistas que incentivam massacres escolares. A narrativa que romantiza a figura do atirador, como visto no caso de Suzano, é alimentada e celebrada nesses espaços. Jovens que se sentem isolados, rejeitados e incompreendidos no mundo real encontram nessas comunidades um senso de pertencimento e validação, ainda que através do culto à violência, ao racismo, à misoginia e ao ódio.

A psicologia refuta a ideia simplista de que esse comportamento seja apenas uma reação ao bullying; trata-se de escolhas complexas, motivadas por crenças distorcidas, ausência de empatia, falhas na socialização primária e uma profunda crise na internalização de limites morais e éticos.

A resposta do sistema de justiça ainda engatinha para lidar com essa nova modalidade de crime. A dimensão transnacional dos delitos, com agressores e vítimas em diferentes estados e até países, exige uma cooperação integrada entre as polícias e a criação de bancos de dados comportamentais para mapear perfis criminais e identificar padrões.

Enquanto a legislação e as ferramentas de investigação tentam se adaptar, uma geração de jovens amadurece criminalmente antes de amadurecer emocionalmente, em um ciclo vicioso de violência que transforma o sofrimento psicológico em tragédias reais e deixa cicatrizes permanentes tanto nas vítimas quanto nos próprios agressores.

O Diretor da Delegacia de Polícia Regional de Porto Alegre, o delegado Rodrigo Bozzetto, os maiores riscos são três fatores: “facilidade de acesso; comunicação em tempo real com desconhecidos e sensação de anonimato e ‘mundo à parte’”.

Bozzetto ainda lembra que no Discord, “crianças e adolescentes podem entrar em servidores temáticos, muitas vezes sem qualquer moderação, onde circulam conteúdos impróprios, discursos de ódio, desafios perigosos, aliciamento e envio de imagens íntimas.”.

Em relação a responsabilidade familiar, Bozzetto explica que as famílias muitas vezes não têm conhecimento dos ambientes virtuais frequentados pelos filhos. “O problema é que isso ocorre em ambientes que os pais muitas vezes nem sabem que existem, com linguagem própria, gírias e códigos que dificultam a percepção do risco por parte da família”, ressalta o diretor.  


Subcomunidades

Dentro do vasto ecossistema do Discord, formaram-se grupos mais restritos, conhecidos no Brasil pelo termo “panelinhas”. Esses espaços, ou subcomunidades, funcionam como círculos sociais fechados, onde os membros compartilham um alto grau de afinidade e confiança. Em sua essência, tais grupos podem oferecer um forte senso de pertencimento e camaradagem, funcionando como um refúgio contra o isolamento e permitindo a livre expressão entre pares.

Para muitos jovens, encontrar um grupo onde seus interesses e seu senso de humor são compreendidos e aceitos pode ser uma experiência profundamente positiva, ajudando a construir a identidade e a desenvolver habilidades sociais em um ambiente controlado por eles mesmos. A formação desses grupos é um processo orgânico, que reflete a tendência humana de buscar afinidade e criar laços com base em interesses comuns.

A dinâmica desses grupos pode ser comparada à de um condomínio. A plataforma Discord seria o terreno e a infraestrutura geral, enquanto cada servidor é um prédio com suas próprias regras de convivência, estabelecidas por seus administradores.

As subcomunidades fechadas, por sua vez, seriam apartamentos individuais, onde as interações ocorrem de forma privada, longe dos olhos do público e, muitas vezes, da própria administração do servidor. Essa analogia ajuda a ilustrar a dificuldade de monitoramento.

Rodrigo Corrêa aconselha as famílias a prestarem atenção em pontos importantes para saberem se os filhos estão sendo vítimas dessas subcomunidades. Segundo o delegado, “alguns sinais merecerem atenção imediata”. Entre os pontos citados por Corrêa, estão:

  • Mudança brusca de comportamento – criança ou adolescente mais isolado, irritado quando alguém se aproxima do celular ou do computador.
  • Uso intenso de fones de ouvido em chamadas longas, principalmente à noite, com porta trancada.
  • Presença de apps e ícones que os pais não conhecem (incluindo o próprio Discord) e histórico apagado com frequência.
  • Entrada em servidores ou grupos com nomes sexualizados, violentos, que falem de “nudes”, “packs”, “+18”, “VIP”, “exposed” etc.
  • Solicitações atípicas de dinheiro, presentes em jogos, compra de gift cards ou criptomoedas.

“O mais importante é a qualidade da conversa em casa. Pais que se aproximam de forma acolhedora, sem humilhação ou ameaças, aumentam muito a chance de o filho pedir ajuda se algo sair do controle”, finaliza Corrêa.

A questão que se impõe é: até que ponto a administração da plataforma, o “síndico”, pode ser responsabilizada pelas atividades que ocorrem nesses espaços privados? A expectativa de privacidade dentro desses “apartamentos” entra em conflito direto com a necessidade de garantir a segurança de toda a “vizinhança”.

Este é um dilema fundamental que todas as grandes plataformas de comunicação enfrentam, e a busca por um equilíbrio entre esses dois imperativos é uma tarefa contínua e cheia de nuances.

Rodrigo Bozzetto chama a atenção para outro ponto importante que é pouco falado: o uso da internet durante a madrugada: “Uso intenso, principalmente à noite ou de madrugada, com fechamento brusco de tela quando um adulto se aproxima”, é um dos principais fatores que os adultos devem ficar atentos.

Bozzetto também alerta para “presentes virtuais” sem motivo aparente e por fonte desconhecida: “criança/adolescente que passa a receber ‘presentes virtuais’, créditos em jogo, PIX de desconhecidos”.

Em relação a vulnerabilidade, a pediatra Ana Carolina Costa diz que há perfis mais vulneravéis como criança e adolescente com “baixa supervisão parental, histórico de bullying, solidão, dificuldade de socialização, autismo leve (não diagnosticado), TDAH e baixa autoestima são alvos preferenciais. Predadores identificam rapidamente sinais de carência emocional.”.

Dra Costa também alerta para as estratégias usadas por aliciadores. Segundo a pediatra, os aliciadores utilizam técnicas semelhantes a “manipuladores emocionais adultos” como: “logios excessivos, validação, identificação com problemas da criança, oferta de apoio e confidencialidade.”.

Ana Carolina explica que, ao perceberem o isolamento e/ou carência efetiva, eles intensificam o vínculo afetivo com a vítima. “É comum analisarem fotos, postagens e comentários para mapear rotinas, gostos, inseguranças e ausências parentais”, explica a médica.


Atividades Ilícitas

Embora muitas subcomunidades sejam inofensivas e até benéficas para seus membros, uma parcela delas tornou-se notória por abrigar e coordenar atividades criminosas. A privacidade e o anonimato relativo oferecidos pela plataforma foram cooptados por indivíduos mal-intencionados para a prática de uma série de delitos, gerando consequências severas para as vítimas e um grande desafio para as autoridades.

A ausência de uma supervisão constante permitiu que comportamentos predatórios se desenvolvessem longe do escrutínio público, criando um ambiente onde a transgressão das normas sociais e legais se tornou possível.

Um dos crimes mais comuns nesses ambientes é o “doxing”, a prática de obter e divulgar informações privadas de uma pessoa sem seu consentimento. Dados como nome completo, endereço, CPF e fotos pessoais são expostos com o objetivo de intimidar, ameaçar ou humilhar a vítima.

Essa tática é frequentemente utilizada para coagir indivíduos, especialmente menores de idade, a participar de atos contra sua vontade. O doxing não é apenas uma violação de privacidade; é uma arma psicológica que pode causar danos emocionais profundos e colocar a segurança física da vítima em risco.

A ameaça de exposição é uma ferramenta poderosa de controle, explorada por agressores para manter suas vítimas em um estado de medo e submissão.

Relatos e investigações apontam que jovens, em sua maioria entre 11 e 16 anos, são alvos preferenciais. Agressores se aproveitam de uma possível carência afetiva ou da falta de orientação para construir uma relação de falsa confiança.

O processo de aliciamento, conhecido como grooming, muitas vezes começa de forma sutil, com conversas amigáveis e demonstrações de interesse pela vida da vítima. Uma vez estabelecido o vínculo, os agressores solicitam fotos ou vídeos íntimos, que são posteriormente usados como ferramenta de chantagem.

As vítimas são então forçadas a realizar transmissões ao vivo envolvendo automutilação, atos de crueldade contra animais e outras formas de abuso, tudo para o entretenimento de espectadores nesses grupos fechados. A dinâmica de poder que se estabelece é extremamente prejudicial, e a vergonha e o medo impedem que muitas vítimas busquem ajuda.

Outro termo recorrente nessas comunidades é “luz”, uma expressão de origem incerta e com múltiplos significados no contexto brasileiro. Originalmente associada a uma forma de diversão ou zombaria, a palavra passou a ser usada para descrever uma gama de atos problemáticos.

Pode se referir a trotes e brincadeiras de mau gosto, mas também a ataques cibernéticos realizados sem um propósito claro, apenas pelo prazer de causar danos, uma prática às vezes chamada de “lulz” na cultura hacker.

Em suas manifestações mais extremas, o termo foi associado a atos de vandalismo e violência, representando uma distorção completa de qualquer noção de entretenimento. A evolução semântica dessa palavra reflete a degradação moral que pode ocorrer em ambientes online não moderados, onde a busca por estímulos cada vez mais intensos leva à normalização de comportamentos destrutivos.

A gravidade da situação foi exposta em escala internacional quando documentos sigilosos sobre o conflito na Ucrânia foram vazados em um servidor de Discord dedicado ao jogo Minecraft. O incidente, que ocorreu em 2023, demonstrou que a plataforma, independentemente do tema aparente de um servidor, poderia ser utilizada para a disseminação de informações sensíveis e para atividades com implicações geopolíticas.

O fato de informações de inteligência militar de alto nível terem circulado em um ambiente tão inesperado acendeu um alerta global sobre a necessidade de maior controle e sobre a dificuldade de prever onde as próximas ameaças à segurança podem surgir.

Este evento forçou governos e agências de segurança a reavaliar como monitoram as plataformas de comunicação e a reconhecer que nenhum espaço online é imune a ser explorado para fins ilícitos.


A Operação “Adolescente Segura”:
Quando a Polícia Bate à Porta

A “Operação Adolescente Segura”, determinada pela justiça do Rio de Janeiro, mobilizou policiais em seis estados para cumprir mandados de busca e apreensão contra quatro adolescentes ligados a crimes cibernéticos.

Em São Paulo, a equipe do DHPP encontrou a mãe de uma investigada de 14 anos, que, chocada, descobriu que a filha fazia parte de grupos que promoviam desde maus-tratos a animais até estupro virtual. A jovem, que já sofria bullying na escola e fazia tratamento para ansiedade e depressão, buscava aceitação em um ambiente tóxico.

“As mães não falam sobre sexualidade com as filhas; elas não falam que não pode mandar um nude, por exemplo, uma foto íntima, um vídeo íntimo, porque se ela mandar, independentemente de qualquer coisa, da exposição em si, esse vídeo é incontrolável. A gente não consegue mais reter o vídeo”, explica a delegada Lisandrea.  “Porque são inúmeras plataformas, na internet, a informação corre muito rápido. Então, as mães não têm essa conversa aberta, nem com os meninos e nem com as meninas. Então, eles ficam muito perdidos em tudo isso”, conclui a delegada.

Durante a ação, a polícia flagrou uma mensagem da adolescente, que estava no Paraná, pedindo à irmã de 10 anos para apagar provas e formatar o computador. O caso ilustra uma realidade alarmante: jovens vítimas de violência no mundo físico que, ao buscarem refúgio no digital, acabam se envolvendo em dinâmicas criminosas para serem aceitas. “É perceptível que o que elas fazem na internet é para poder chamar atenção, para ser aceito”, explicou uma delegada durante a operação.

Rodrigo Bozzetto, Diretor da Delegacia de Polícia Regional de Porto Alegre, afirma que os servidores piratas e os grupos internacionais dificultam bastante as investigações por conta das leis e procedimentos internacionais vigentes nos países.

Bozzetto destaca dois pontos: o jurisdicional e o operacional: “O jurisdicional quando o servidor está fora do país, aplicam-se leis e procedimentosinternacionais. Isso demanda cartas rogatórias, acordos de cooperação, análise de legislação estrangeira, o que leva tempo e o operacional porque nem todas as empresas têm o mesmo nível de estrutura para responder rapidamente a autoridades estrangeiras. Algumas são muito colaborativas; outras, nem tanto”, pondera o diretor.

“Para crimes envolvendo crianças, cada dia de demora pode significar novas vítimas ou revitimização por recirculação de material. Por isso, a cooperação internacional ágil é crucial”, finaliza.

O delegado Rodrigo Corrêa divide a mesma opinião que Bozzetto a respeito dos servidores piratas e plataformas estrangeiras. Corrêa explica que, enquanto alguns países têm leis rígidas e rápidas, outros são mais lentos e não tratam o tema com a mesma urgência.

“Quando falamos de servidores piratas, proxies, mirrors e grupos espalhados em vários países, a investigação passa a depender de cooperação internacional, diferenças de legislação e de prioridades entre autoridades”, pondera Corrêa. “Alguns países têm leis muito rígidas e respostas rápidas; outros são mais lentos ou não tratam o tema com a mesma urgência”, explica.

Corrêa ainda lembra que os abusadores alternam entre plataformas se “aproveitando das brechas e desigualdade de políticas de moderação” e, “a polícia brasileira, o Ministério Público, SaferNet e organizações internacionais vêm avançando muito em cooperação e troca de inteligência.”.


Discord e Roblox – Qual o Mais Perigoso?

O início para o submundo digital frequentemente começa em plataformas aparentemente inocentes. O Roblox, um universo de jogos com 85 milhões de usuários diários, é apontado como uma das principais portas de entrada. Predadores, muitas vezes adultos se passando por jovens, utilizam o ambiente lúdicos para se aproximar de crianças, oferecendo vantagens em jogos ou simplesmente uma amizade. Uma vez estabelecida a confiança, a conversa migra para o Discord.

Rodrigo Bozzetto diz que nenhuma plataforma nasce para o crime, porém todas podem “ser usadas para o mal”. O delegado ainda pondera que os maiores riscos são, no caso do Roblox o “contato com desconhecidos dentro de jogos infantis, grooming e exposição a conteúdo impróprio”, e no Discord os “servidores temáticos, muitas vezes não moderados, com conversa mais “solta”, inclusive em salas só de adultos.”

Bozzatto também explana sobre a supervisão dos pais em relação aos filhos: “O que é mais nocivo, em última análise, é criança sem supervisão, sem diálogo e com acesso irrestrito a qualquer ambiente digital.”

No Discord, uma plataforma com mais de 200 milhões de usuários, os criminosos criam servidores fechados, conhecidos como “panelas”, onde a ausência de moderação eficaz permite a livre circulação de conteúdo de ódio e a organização de “eventos” criminosos.

A reportagem do “Profissão Reporter” flagrou, ao vivo, um desses eventos onde uma adolescente era instruída por uma voz masculina a se automutilar na frente de dezenas de espectadores. Mesmo com a denúncia em tempo real, a transmissão continuou no ar, evidenciando a lentidão da plataforma em agir.

Lisandrea Salvariego, delegada do Estado de São Paulo, ao ser questionada sobre qual plataforma é mais nociva, se a do Roblox ou o Discord, Salvariego afirma que “uma leva a outra”.

“O Roblox, ele é uma plataforma de jogo, mas ele permite que qualquer um de nós crie um jogo e coloque ali dentro também, e não tem moderação, então qualquer um coloca qualquer coisa”, descreve a delegada. “Mas o Roblox e os jogos online em geral funcionam como captadores ou cooptadores de vítimas. Principalmente meninas”.

Salvariego alega que vítima não recorre as mentiras e nem a falsidade ideológica para utilizar as redes e por isso se tornam “presas fáceis”: “a vítima não mente dados, a vítima fala quem ela é, a idade que ela tem, e ali elas viram presas fáceis para agressores ou para pedófilos.”

PlataformaFunção no Ecossistema do Crime
RobloxPorta de Entrada: Ambiente lódico usado para o primeiro contato e aliciamento de vítimas, geralmente crianças e pré-adolescentes.
DiscordPalco do Crime: Criação de servidores fechados (“panelas”) para a prática de crimes como automutilação, estupro virtual e disseminação de pornografia infantil.

Já o delegado Rodrigo Corrêa relata que ambas as plataformas também têm pontos positivos como “socialização, criatividade, aprendizado”, mas a sua finalidade depende das intenções de quem está usando-a.

“O que eu diria é: Discord oferece mais liberdade para conversa entre desconhecidos, com menos barreiras aparentes. Já o Roblox, por ser um ambiente de jogos com chat embutido e público massivamente infantil, atrai muitos aliciadores justamente porque sabem que encontrarão crianças ali”, explica Corrêa. “Então, a pergunta central não é ‘qual é pior?’, e sim: “meu filho está usando essas plataformas com supervisão, limites de idade, privacidade configurada e diálogo aberto comigo?”, questiona o delegado.


 Os “Justiceiros Digitais” e a Resposta Institucional

Diante da lentidão das plataformas, grupos de “investigadores digitais” têm surgido para identificar e denunciar esses crimes. Um desses grupos, a Organização Antipaneleiro (OAP), liderada por um jovem de 21 anos conhecido como “Mistério”, já identificou mais de 400 suspeitos e colaborou para a prisão de cerca de 250 pessoas.

Eles analisam denúncias anônimas, comparam imagens e encaminham os casos para um policial que integra a equipe. Embora a atuação desses grupos seja crucial para muitas investigações, a Polícia Federal alerta para os riscos.

“Me preocupa muito o surgimento de pessoas que se autodenominam justiceiros do ambiente cibernético”, afirma um representante da PF à reportagem do Profissão Reporter, destacando que esses indivíduos não têm as prerrogativas do Estado e podem colocar a própria integridade em risco.

Ao Direto Aos Fatos, Bozzetto explana que temos um conjunto importante de normas para a utilização das redes sociais. O delegado afirma que a solução não é “criar mais leis” e sim “fazer valer o que á existe”.

O Diretor Regional destaca que é importante “melhorar prazos e mecanismos de cooperação com plataformas e provedores; exigir políticas mais robustas de moderação, denúncia e preservação de dados em casos envolvendo crianças e estimular transparência sobre medidas de segurança e respostas a pedidos de autoridades.”

“Mas, em paralelo, é fundamental investir em estrutura policial especializada e capacitação de peritos”, pondera Bozzetto. “Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, temos hoje um Departamento especializado em crimes cibernéticos, o DERCC, bem como um Departamento especializado em crimes contra crianças e adolescentes”, defende.

Em resposta ao aumento desses crimes, o Ministério da Justiça criou o CyberLab em 2018. O CyberLab é um laboratório que colabora com polícias de todo o país. Desde sua criação em novembro, o núcleo já monitora mais de 600 alvos e salvou 109 vítimas de estupros virtuais, autolesões e suicídios, muitas vezes agindo nas madrugadas, quando os pais estão dormindo.

Lisandrea Salvariego, coordenadora do NOAD (Núcleo de Observação e Análise Digital do Estado de São Paulo) e já salvou 322 vítimas, também acredita que não há necessidade de criar mais leis. “Até agora, houve um grande avanço com a ECA digital. Eu acredito que falta conversa mesmo, falta sintonia entre pais e filhos.”

Rodrigo Corrêa divide a mesma visão de Lisandrea e Bozzeto. O delegado diz que o “Brasil tem um arcabouço robusto: ECA, Marco Civil da Internet, LGPD, legislação específica de combate à pornografia infantil e ao aliciamento. O problema não é ausência total de lei, mas a necessidade de atualização constante para acompanhar novas tecnologias – inteligência artificial, criptografia forte, plataformas descentralizadas”.


No Banco dos Réus: A História de Quem Julga e é Julgado

A reportagem do Profissão Reporter acompanhou a audiência de um jovem de 18 anos, julgado na Vara da Infância e Juventude por atos infracionais cometidos no Discord quando era menor.

Acusado de vender pornografia infantil e instigar a automutilação, ele negou os fatos, alegando não se recordar. Sua mãe não supervisionava seu acesso à internet, especialmente de madrugada. Uma psiquiatra ouvida como testemunha relatou um histórico de agressões paternas, diagnóstico de autismo e evolução para esquizofrenia.

A juíza Vanessa Cavalieri, contudo, determinou sua internação. “Você tanto entende que é errado que você não falou o que você fez […] porque você sabe que é errado”, sentenciou a magistrada, ressaltando que, a partir da maioridade, a consequância para atos semelhantes seria o presídio.


A Voz das Vítimas-Infratoras

O Profissão Repórter também ouviu jovens que ocuparam a dupla posição de vítima e infratora. Um rapaz de 19 anos, internado há quase dois anos no Degase (Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas) por crimes contra crianças, conta como entrou nesse mundo: “Foi ao meio de outras pessoas. Pela internet. Aí as pessoas chegavam, pediam, aí para querer agradar a pessoa, ia lá e procurava para ela”.

Ele relata ter sofrido agressões de outros internos ao chegar na unidade, uma retaliação comum contra acusados desse tipo de crime.

A adolescente de 14 anos apreendida na operação, que era namorada do jovem que ateou fogo no morador de rua, revelou ter sido “gerente de dados” de um servidor com mais de 3 mil membros. Ela era responsável por obter dados de meninas que não queriam mais obedecer, para ameaçá-las.

“A gente pegava os dados da mãe, a gente mandava pra ela e falava assim que a gente ia dar 10 minutos pra ela decidir o que ela quer, senão a gente ia acabar com a vida dela”, contou. Ela mesma era vítima de ameaças do líder do grupo e já havia praticado automutilação. Questionada se a supervisão dos pais teria feito diferença, ela foi enfática: “Teria. E eu seria muito grata hoje em dia”.

Lisandrea Salvariego confirma ao Direto Aos Fatos que muitas vítimas se tornam agressoras depois de um tempo. “Não é rara às vezes que vemos as vítimas se tornarem agressoras. É o sentimento de vingança e de superioridade”, explica a delegada. Salvariego ainda faz um destaque muito importante: “Essas vítimas são nossas futuras vítimas de violência doméstica. Elas não conhecem o amor, o namoro por outra forma que não a violência”.

A pediatra Ana Carolina Costa alerta que o excesso de exposição a telas (uso das redes) e a exposição da própria imagem nas plataformas afetam tanto a percepção corporal quanto o desenvolvimento da sexualidade. Costa explica que “as crianças passam a se enxergar como objeto de validação externa. Meninas precocemente sexualizadas têm maior propensão a se envolver em interações arriscadas”. Em relação aos meninos, Ana Carolina explana que: “meninos quando expostos a conteúdo pornográfico desde cedo, apresentam distorções profundas sobre limites e relações afetivas”.


A Resposta da Plataforma e a Intervenção Policial no Brasil

Diante da crescente pressão pública e da atenção da mídia, que incluiu reportagens de grande audiência em programas como o Fantástico e o Domingo Espetacular, o Discord começou a adotar uma postura mais ativa. A empresa passou a colaborar mais estreitamente com as autoridades policiais de diversos países, incluindo o Brasil, para identificar e punir os responsáveis pelos crimes cometidos em sua plataforma.

Essa cooperação resultou na derrubada de inúmeros servidores considerados suspeitos e na intensificação da vigilância sobre atividades ilícitas. A empresa também investiu em tecnologia para detectar e remover conteúdo abusivo de forma mais proativa, embora a escala da plataforma torne essa uma tarefa hercúlea.

No Brasil, operações policiais foram deflagradas para investigar e prender indivíduos envolvidos nessas redes criminosas. Um dos casos de maior repercussão envolveu a prisão de um homem conhecido pelo codinome “Dexter”, apontado como um dos agressores.

Outro caso notório foi a apreensão de um jovem de 17 anos, identificado como “Star”, que coagia garotas a praticar atos de violência em transmissões ao vivo. Em sua posse, as autoridades encontraram uma grande quantidade de material contendo pornografia infantil e gravações de crimes, evidenciando a extensão das atividades ilegais. A prisão de figuras conhecidas dentro dessas subcomunidades enviou uma mensagem clara de que o anonimato da internet não garante a impunidade.

A intervenção policial, embora necessária, gerou um debate sobre suas consequências. Existe a preocupação de que indivíduos inocentes, que participam de subcomunidades apenas para socialização e para desfrutar de um ambiente com menos restrições de humor e expressão, possam ser indevidamente investigados ou associados a atividades criminosas.

Muitos usuários defendem que nem toda “panelinha” é um espaço para ilegalidades, e que a generalização pode estigmatizar uma grande parcela da base de usuários da plataforma. A linha entre o humor ácido e o discurso de ódio, ou entre a privacidade e o planejamento de atos ilícitos, é tênue, e a aplicação da lei nesse contexto requer um cuidado especial para não reprimir a liberdade de expressão legítima.

A comunidade de usuários do Discord encontra-se dividida, com alguns aplaudindo as medidas de segurança e outros temendo uma era de vigilância excessiva.

Ana Carolina explica que as escolas também não estão preparadas para lidar com abuso digital. A pediatra entende que “falta formação de professores, protocolos claros, psicólogos capacitados e políticas de prevenção”, diz. “Muitas escolas não sabem como agir diante de vazamento de fotos íntimas, cyberbullying ou assédio. A pauta ainda é tratada como “comportamento inadequado”, e não como crime”, lamenta.


O Jogo da Morte – Manipulação e Feminicídio no Universo Gamer

O universo dos eSports, com suas arenas virtuais, competições acirradas e comunidades globais, é frequentemente celebrado como um espaço de meritocracia, entretenimento e superação. No entanto, em 22 de fevereiro de 2021, a comunidade gamer brasileira e internacional foi brutalmente confrontada com a face mais sombria da cultura que a permeia.

Ingrid Oliveira Bueno da Silva, uma jovem e talentosa jogadora profissional de 19 anos, conhecida no cenário de Call of Duty: Mobile como “Sol”, foi cruelmente assassinada a facadas em Pirituba, na Zona Norte de São Paulo. O autor do crime, Guilherme Alves Costa, de 18 anos, conhecido online como “Flashlight”, não apenas confessou o assassinato, mas o transformou em um espetáculo de horror. Ele filmou o corpo da vítima, compartilhou as imagens em grupos de WhatsApp e divulgou um manifesto de 52 páginas que expunha a premeditação, a frieza e a motivação misógina de seu ato.

O caso de Ingrid “Sol” é um retrato devastador de como as dinâmicas de manipulação, o discurso de ódio e a violência de gênero, presentes em toda a sociedade, se infiltram e se potencializam nos ambientes digitais, especialmente em nichos competitivos e majoritariamente masculinos como o dos eSports. Ingrid, uma jogadora em ascensão e integrante da equipe FBI E-Sports, conheceu Guilherme no ambiente online.

Eles se relacionaram por cerca de um mês antes do crime. Segundo as investigações e a análise de especialistas, Guilherme teceu uma teia de manipulação, construindo uma narrativa de sofrimento e vulnerabilidade para atrair a vítima. Ele se apresentava como um jovem com problemas, que lidava com o abandono paterno, dificuldades emocionais e pensamentos suicidas.

Essa persona despertou a empatia de Ingrid, que, movida por um genuíno desejo de ajudar, concordou em visitá-lo em sua casa. Ela acreditou que sua presença e seu apoio poderiam impedir que ele cometesse um ato extremo contra si mesmo ou contra outros. Ingrid foi assassinada porque se importou, porque sua compaixão foi usada como arma contra ela.

Esse padrão de manipulação, conhecido como “vitimização estratégica”, é uma tática comum em relacionamentos abusivos e encontra no ambiente online um campo fértil, onde é mais fácil construir e manter uma persona falsa. Guilherme, no entanto, já exibia sinais de seu verdadeiro caráter em seus espaços virtuais. Ele escrevia abertamente sobre ódio, desprezo pela humanidade e o desejo de construir uma identidade marcada pela crueldade.

Em seu manifesto, um documento intitulado “Meu Ato Admirável”, ele detalhava seu plano, sua visão de mundo distorcida e seu profundo desprezo pelas mulheres, deixando claro que o assassinato de Ingrid era um ato premeditado, motivado por um ódio misógino e um desejo doentio de notoriedade. No texto, ele afirmava que sua “sanidade mental está completamente apta” e que ele queria “praticar um ato que seja lembrado”, revelando uma busca por infâmia que ecoa a motivação dos atiradores de Suzano.

Especialistas que analisaram o caso e o comportamento de Guilherme apontam para traços psicopáticos evidentes: charme superficial, capacidade de sedução, ausência total de empatia, narcisismo grandioso e uma frieza calculista. A psicopatia não se manifesta, necessariamente, através de uma aparência monstruosa ou de um comportamento socialmente disfuncional.

Pelo contrário, muitos indivíduos com traços psicopáticos são mestres na arte da dissimulação, capazes de fingir fragilidade, tristeza e arrependimento para manipular e ganhar a confiança de suas vítimas. No caso de Guilherme, essa máscara de vulnerabilidade foi a isca que atraiu Ingrid para uma armadilha mortal, planejada com antecedência.

Após o crime, a reação de Guilherme foi de um desdém chocante, que confirmou a análise de seu perfil psicológico. Ao ser preso, ele declarou aos policiais que seu único arrependimento era não ter tido a oportunidade de cometer mais crimes. Ele riu, debochou e demonstrou uma total ausência de remorso, um comportamento que deixou claro que seu ato não foi um impulso de raiva ou um crime passional, mas a execução fria de um projeto de violência.

Em agosto de 2022, Guilherme Alves Costa foi condenado a 14 anos de prisão em regime fechado. A sentença, embora represente a resposta do sistema de justiça, foi recebida com críticas por parte da família da vítima e da comunidade, que a consideraram branda diante da brutalidade, da premeditação e do caráter exemplar que o caso exigia.

O assassinato de Ingrid “Sol” abalou a comunidade de eSports e escancarou a vulnerabilidade das mulheres em um ambiente que, apesar dos avanços, ainda é marcado por uma cultura tóxica de machismo e misoginia. O assédio, as ameaças e a desqualificação são experiências comuns para jogadoras profissionais e streamers. O caso de Ingrid foi o ponto extremo de uma pirâmide de violência que começa com comentários hostis no chat e pode terminar em feminicídio.

A tragédia gerou um intenso e necessário debate sobre a responsabilidade das plataformas de jogos, das organizações de eSports e da própria comunidade em combater ativamente o discurso de ódio e criar um ambiente verdadeiramente seguro e inclusivo.

A história de Ingrid é um lembrete trágico de que, por trás dos avatares e dos apelidos, existem pessoas reais, e que a violência verbal e psicológica que é normalizada no ambiente digital pode, a qualquer momento, transbordar para o mundo físico com consequências fatais e irreversíveis.


Os Casos Reais que as Séries Não Mostram

Séries de televisão como “Adolescência”, da Netflix, capturam a atenção de milhões de espectadores ao retratar os dramas, conflitos e descobertas da juventude. As tramas, habilmente construídas, giram em torno de romances, amizades, crises de identidade e os desafios do crescimento em um mundo complexo.

No entanto, enquanto a ficção se concentra em uma versão romantizada e, por vezes, higienizada dessa fase da vida, uma realidade muito mais sombria, violenta e perigosa se desenrola fora das telas, nos mesmos dispositivos onde essas séries são consumidas.

São os casos de abuso online, manipulação psicológica, aliciamento de menores, depressão, automutilação e crimes cibernéticos, uma epidemia invisível que não costuma fazer parte dos roteiros de sucesso, mas que constitui a experiência trágica de um número crescente de jovens no Brasil e no mundo.

A pandemia de COVID-19, com o consequente fechamento de escolas e o isolamento social, funcionou como um catalisador para essa crise, mergulhando crianças e adolescentes em um ambiente digital onipresente. O aumento exponencial do tempo de tela transformou a internet no principal, e por vezes único, espaço de socialização.

Se por um lado a tecnologia foi uma ferramenta essencial para a manutenção de laços afetivos e da continuidade da educação, por outro, ela escancarou as portas de casa para predadores e para dinâmicas de violência que antes encontravam mais barreiras no mundo físico.

Os jovens, já emocionalmente fragilizados pelo contexto de incerteza, medo e solidão, tornaram-se presas fáceis para indivíduos e grupos que se valem do anonimato e da escala do mundo digital para explorar suas vulnerabilidades.

Os relatos de especialistas e as investigações policiais, que fundamentam este capítulo, revelam um padrão de aliciamento que é ao mesmo tempo sutil e devastador.

Os criminosos raramente se apresentam como uma ameaça óbvia. Pelo contrário, eles empregam estratégias sofisticadas de engenharia social, estudando suas vítimas e se adaptando a elas. Criam perfis falsos, usando fotos de outros jovens e adotando a linguagem, os gostos e os interesses de seus alvos para gerar uma conexão inicial e uma falsa sensação de identidade.

A pediatra Ana Carolina Costa acredita que as redes sociais deveriam ser proibidas para menores de 16 anos. Segundo ela, as criança e adolescentes não têm cérebro maduro o suficiente para lidar com exposição, impulsividade, manipulação emocional e abuso digital. O ambiente online hoje é incompatível com o estágio de desenvolvimento do cérebro adolescente.

A jornalista e investigadora especializada em crimes digitais, Carla Albuquerque, relata receber diariamente denúncias de casos em que adolescentes são abordados por quem eles acreditam ser um colega, um novo amigo ou um interesse amoroso. Essa tática, potencializada pelo uso de filtros, deepfakes e ferramentas de inteligência artificial que dificultam a verificação da identidade, cria uma perigosa e ilusória sensação de segurança.

O processo de “captura afetiva” é gradual e metodicamente construído. O agressor investe tempo e esforço para construir uma relação de confiança e intimidade, tornando-se um confidente, alguém que oferece escuta, apoio e validação em um momento de fragilidade da vítima. Apenas quando o vínculo emocional está solidamente estabelecido, a violência começa a se manifestar, de forma insidiosa. Começa com um pedido de fotos íntimas, apresentado como prova de amor ou confiança, e rapidamente escala para a chantagem, a extorsão e o controle.

Para a vítima, que a essa altura já está emocionalmente envolvida e comprometida, torna-se extremamente difícil romper o ciclo. O medo da exposição pública, a vergonha paralisante e a confusão de sentimentos a prendem em uma teia de abuso da qual ela não vê saída.

As consequências psicológicas dessa violência são profundas e duradouras. O cérebro de um adolescente, como aponta a neurociência, ainda está em fase de maturação, especialmente o córtex pré-frontal, área responsável pelo controle de impulsos, pelo planejamento de longo prazo e pela avaliação de riscos.

Isso os torna neurologicamente mais vulneráveis ao impacto do medo, do estresse crônico e da manipulação. Vítimas de abuso online frequentemente desenvolvem quadros severos de depressão, transtornos de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e ideação suicida.

A automutilação, como vista em alguns dos casos investigados nos servidores de Discord, surge como um mecanismo desesperado de alívio para uma dor emocional que não encontra outras vias de expressão. Quando incentivada e performatizada para um manipulador, essa prática se torna ainda mais perigosa, borrando as fronteiras entre o sofrimento autoinfligido e a violência imposta pelo outro, em um ritual macabro de submissão.

Um dos aspectos mais alarmantes e trágicos dessa realidade é a falha na supervisão e no diálogo parental. Muitos pais, por desconhecerem os riscos, por se sentirem tecnologicamente defasados ou por acreditarem em uma noção equivocada de privacidade irrestrita, não acompanham a vida digital de seus filhos.

Acreditam que, por estarem fisicamente dentro de casa, eles estão seguros. No entanto, o perigo entra silenciosamente pelas telas dos celulares, tablets e computadores, diretamente no espaço mais íntimo da família. A psicologia aponta que, embora os adolescentes busquem e necessitem de independência, eles ainda não possuem a maturidade e o repertório de vida para avaliar e gerenciar todos os riscos do ambiente online.

A supervisão parental, portanto, não deve ser vista como uma invasão de privacidade ou um ato de desconfiança, mas como um ato de cuidado, orientação e proteção, que deve ser baseado no diálogo aberto, no estabelecimento de regras claras e no interesse genuíno pela vida digital dos filhos.

Os casos reais, que contrastam tão fortemente com a ficção, mostram adolescentes que não conseguem pedir ajuda por medo e vergonha, pais que não sabem o que está acontecendo debaixo de seus narizes e criminosos que se aproveitam das brechas emocionais e tecnológicas de uma geração que cresce imersa no digital.

A série “Adolescência” pode nos entreter e até gerar reflexões importantes, mas a realidade exige nossa atenção e nossa ação. É responsabilidade de toda a sociedade, e não apenas das famílias, construir um ambiente digital mais seguro. Isso passa pela responsabilização legal e ética das plataformas, pela inclusão da educação digital crítica no currículo escolar e pela criação de políticas públicas eficientes que garantam a proteção integral de crianças e adolescentes, tanto no mundo físico quanto no virtual.


“Kidflix” – A Estrutura Empresarial do Horror

A “Kidflix”, uma alusão sombria à gigante do streaming Netflix, representa um novo e assustador paradigma na criminalidade digital e na exploração sexual infantil. A investigação, que teve início de forma discreta na Baviera, Alemanha, em 2022, desvendou uma operação que ia muito além de um simples fórum de compartilhamento de arquivos na dark web. Tratava-se de uma empresa criminosa plenamente funcional, projetada com a lógica de uma startup de tecnologia para maximizar o engajamento, a monetização e a distribuição de material de abuso sexual infantil (CSAM).

Com um layout profissional, conteúdo meticulosamente categorizado por idade, gênero e tipo de abuso, e um sistema de streaming de vídeos ao vivo e sob demanda, a plataforma oferecia uma experiência de usuário perversamente familiar, imitando a interface e a usabilidade de serviços de entretenimento legítimos para normalizar e facilitar o consumo do horror.

O modelo de negócio era um ecossistema robusto e autossustentável, baseado em uma economia interna que incentivava a participação e o crescimento da rede. Os usuários não eram meros consumidores passivos; eles eram peças ativas na engrenagem do crime. O acesso ao conteúdo era controlado por um sistema de pagamentos via criptomoedas, que garantia o anonimato e dificultava o rastreamento financeiro. Esses pagamentos eram convertidos em “tokens”, a moeda corrente da plataforma. A genialidade macabra do sistema residia na sua capacidade de transformar usuários em colaboradores.

Ao realizar tarefas como fazer upload de novos vídeos, verificar a autenticidade e a qualidade do material de outros, adicionar descrições detalhadas e atribuir categorias (tags), os membros ganhavam tokens. Essa “gamificação” do crime criava um ciclo vicioso: para consumir, era preciso contribuir, o que garantia um fluxo constante de novo material – uma média alarmante de 3,5 novos vídeos por hora – e envolvia toda a comunidade em um pacto de cumplicidade.

A sofisticação tecnológica era notável, com o uso de inteligência artificial para analisar o comportamento dos usuários e recomendar novos conteúdos, personalizando a experiência de cada criminoso e potencializando seu engajamento na plataforma.

Dados da Operação “Streaming” (Kidflix) 
Período de Atividade da Plataformaabril de 2022 a março de 2025
Usuários Registrados1,8 milhão
Países Envolvidos na Operação38
Suspeitos Identificados1.393
Prisões Realizadas79
Crianças Resgatadas/Protegidas39
Vídeos Únicos na Plataforma91.000
Total de Horas de Conteúdo6.288

A infraestrutura que sustentava a “Kidflix” era igualmente complexa, projetada para resistir a tentativas de desativação. Com servidores espelhados em múltiplos países, a rede possuía uma resiliência que exigiu uma cooperação internacional sem precedentes.

A “Operação Streaming”, que se tornou a maior da história da Europol na luta contra a exploração sexual infantil, foi a resposta a esse desafio. Entre os dias 10 e 23 de março de 2025, uma ação conjunta e sincronizada em 38 países conseguiu desativar a infraestrutura central, localizada na Alemanha e na Holanda, e iniciar uma cascata de prisões e apreensões em todo o mundo. A Espanha, com 16 prisões, e o Reino Unido, com pelo menos 30 prisões de 63 usuários identificados, destacaram-se na operação, que ainda está em andamento e promete levar à identificação de milhares de outros usuários.

Catherine De Bolle, diretora executiva da Europol, resumiu a gravidade da situação em uma declaração contundente: “A operação revelou a face mais cruel da exploração infantil. Por trás de cada vídeo compartilhado, há uma criança real sendo violentada. A dor não é digital, ela é física, contínua e devastadora”. Sua fala é um lembrete crucial de que a linguagem técnica do cibercrime – servidores, tokens, IA – não pode ofuscar a realidade humana da tragédia. Cada arquivo compartilhado representa um crime violento e um trauma que se perpetua a cada visualização.

O perfil dos criminosos envolvidos na rede desmantela o estereótipo conveniente do predador como uma figura marginalizada e facilmente identificável. A investigação revelou que muitos dos agressores eram indivíduos perfeitamente integrados à sociedade. Entre os presos estavam pais de família, professores, respeitados técnicos de informática e até mesmo um funcionário de uma empresa de software de segurança para escolas.

Eram pessoas com alta funcionalidade social, descritas por vizinhos e colegas como meticulosas, organizadas e discretas, que mantinham uma fachada de normalidade enquanto, na privacidade de seus lares, participavam de um dos mercados mais sórdidos da criminalidade. Essa dualidade chocante evidencia a falha da sociedade em reconhecer os sinais do abuso e a capacidade dos agressores de compartimentalizar suas vidas, separando a persona pública do monstro privado.

Enquanto a operação focava nos agressores, uma outra frente de atuação, ainda mais urgente, era o resgate das vítimas. A ação conseguiu proteger 39 crianças que estavam em situação de risco imediato, muitas delas sendo abusadas dentro de suas próprias casas por membros da rede. O acompanhamento psicológico dessas vítimas revela a profundidade de um trauma que é agravado pela natureza digital do crime.

Além da violência física e psicológica do abuso em si, essas crianças carregam o fardo de saber que sua dor foi gravada, distribuída e consumida como entretenimento por uma audiência de milhares de desconhecidos.

Essa consciência cria uma ferida narcísica profunda, uma sensação de violação que transcende o corpo e se perpetua no tempo e no espaço digital, tornando o processo de cura ainda mais complexo e doloroso.

O caso Kidflix enviou ondas de choque por todo o mundo, forçando governos e a sociedade civil a confrontar a fragilidade das defesas digitais. Na Alemanha, o escândalo acelerou a reformulação de leis de proteção infantil online. No Reino Unido, protestos exigiram maior responsabilização das empresas de tecnologia. A operação serviu como um alerta brutal sobre a necessidade de uma colaboração contínua e proativa entre governos, polícias e o setor de tecnologia. A Europol já adverte que outras plataformas semelhantes existem e estão sob investigação.

A luta contra o abuso infantil online entrou em uma nova fase, mais tecnológica, mais complexa e mais globalizada, exigindo uma vigilância constante e, acima de tudo, o rompimento do tabu que ainda cerca o tema. O silêncio e a omissão não são mais uma opção; são, em si, uma forma de cumplicidade.


Fim do Silêncio

Os casos explorados nesta reportagem, da arquitetura empresarial da “Kidflix” à violência performática do massacre de Suzano, do feminicídio no universo gamer à tortura psicológica nas comunidades do Discord, pintam um retrato sombrio e complexo da violência na era digital.

Eles não são eventos isolados, mas sintomas de uma crise mais profunda que se manifesta na interseção da tecnologia, da psicologia juvenil e das falhas estruturais da nossa sociedade. Juntos, eles formam um mosaico do horror que se esconde por trás das telas, uma epidemia silenciosa que prospera na invisibilidade, na impunidade e na falta de uma resposta coordenada e eficaz.

A tecnologia, com sua promessa de conexão e conhecimento, tornou-se uma faca de dois gumes. Se por um lado ela ampliou horizontes, por outro, criou novas arenas para a manifestação da crueldade humana. As plataformas digitais, em sua busca incessante por engajamento e lucro, construíram ecossistemas onde o ódio, a manipulação e a exploração encontram terreno fértil.

A omissão e a resistência dessas gigantes da tecnologia em assumir sua responsabilidade na moderação de conteúdo e na colaboração com as autoridades não é uma falha técnica, mas uma escolha moral e empresarial que tem custado vidas e destruído futuros.

Ao mesmo tempo, a vulnerabilidade psíquica de crianças e adolescentes nunca esteve tão exposta. Em uma sociedade que valoriza a imagem em detrimento do vínculo, o isolamento e a solidão tornam-se experiências comuns. A busca por pertencimento, validação e identidade, tão característica da juventude, é explorada por predadores e grupos extremistas que oferecem um senso de comunidade perverso, baseado no ódio e na destruição.

A falência dos laços familiares e comunitários, a ausência de espaços de escuta e acolhimento e a falta de educação emocional nas escolas criam um vácuo que é preenchido pela toxicidade do ambiente online.

Enfrentar essa epidemia exige mais do que operações policiais e processos judiciais. Embora a repressão ao crime seja fundamental, ela é insuficiente para tratar as causas profundas do problema. É preciso uma mobilização coletiva que envolva governos, empresas, educadores, famílias e a sociedade civil. Precisamos de leis mais rígidas que responsabilizem as plataformas, de investimentos maciços em saúde mental para jovens, de uma educação digital crítica que ensine a navegar no mundo online com segurança e discernimento, e de um resgate dos vínculos humanos como principal fator de proteção.

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