22 – Helmut Kentler – Por 30 anos entregou crianças órfãs para pedofilos com a bênção de Berlim
Investigação revela como o Experimento Kentler permitiu que meninos fossem entregues a pedófilos com apoio estatal e legitimidade acadêmica na Alemanha
Helmut Kentler – Em uma Berlim ainda dividida pelo muro e efervescente pelas transformações culturais dos anos 60, uma ideia apresentada como progressista e humanitária começava a tomar forma nos corredores do poder. A proposta, vinda de um respeitado psicólogo e professor universitário, parecia oferecer uma solução inovadora para um problema social crônico: o destino de crianças e adolescentes desamparados. O homem por trás da ideia era Helmut Kentler, uma figura carismática e influente nos círculos acadêmicos alemães. Sua solução, que viria a ser conhecida como o “Experimento Kentler”, consistia em entregar a guarda desses jovens vulneráveis a homens pedófilos, sob a premissa de que eles seriam “pais adotivos especialmente amorosos”.
O que se desenrolou a partir de 1969, com o financiamento e a bênção do Senado de Berlim, não foi um avanço na pedagogia social, mas um dos mais longos e perturbadores casos de abuso infantil institucionalizado da história europeia moderna. Por cerca de três décadas, um sistema foi montado para sistematicamente colocar meninos nas mãos de abusadores, tudo sob o disfarce de um estudo científico. A história de Helmut Kentler não é apenas a crônica de um experimento fracassado; é o exame de uma mente que conseguiu manipular o Estado, a academia e a sociedade para executar um projeto criminoso de larga escala.
O Intelectual Carismático:
A Construção da Autoridade de Helmut Kentler
Para entender como o Experimento Kentler foi possível, é fundamental primeiro compreender a figura de seu idealizador. Helmut Kentler (1928-2008) não era uma figura marginal ou um charlatão de reputação duvidosa. Pelo contrário, ele era um membro proeminente do establishment acadêmico da Alemanha Ocidental. Como psicólogo, sexólogo e professor de educação social na prestigiada Universidade de Hannover, Kentler construiu uma carreira sólida, publicando artigos e livros e tornando-se uma voz frequente na mídia sobre temas de sexualidade e educação. Ele ocupou uma posição de liderança no centro de pesquisa educacional de Berlim, o que lhe conferia um selo de aprovação institucional e acesso direto aos formuladores de políticas públicas.
Kentler surfou na onda da revolução sexual que varria a Europa nos anos 60 e 70. Em uma Alemanha Ocidental que buscava se livrar das amarras conservadoras do pós-guerra e do passado nazista, suas ideias sobre a “liberação sexual” eram vistas como vanguardistas. Ele argumentava contra a repressão sexual, defendendo uma abordagem mais aberta e “natural” da sexualidade, inclusive na infância. Nesse contexto de efervescência e ruptura de tabus, suas teorias, que hoje nos parecem evidentemente perigosas, encontraram um público receptivo. Ele se apresentava como um reformador corajoso, disposto a desafiar as convenções burguesas em nome do bem-estar infantil e da liberdade individual.
Essa imagem de intelectual progressista foi a principal ferramenta de Kentler. Ele usava uma linguagem acadêmica e um verniz científico para embalar suas propostas, tornando-as palatáveis para burocratas e políticos. A ideia de que pedófilos poderiam ser pais adotivos ideais foi apresentada não como uma perversão, mas como uma situação de “ganho mútuo”: os homens poderiam canalizar seu “amor” de forma “construtiva” e as crianças receberiam um lar e afeto que lhes faltava.
Essa capacidade de recontextualizar o abuso como cuidado foi o pilar de sua capacidade de manipulação. Ele era mestre em usar o jargão da psicologia e da sociologia para dar um ar de legitimidade a conceitos intrinsecamente abusivos. Termos como “emancipação”, “desenvolvimento livre” e “superação de tabus” eram habilmente empregados para desarmar críticas e criar um consenso em torno de suas propostas. A autoridade que ele construiu não se baseava apenas em suas credenciais, mas em sua habilidade de se posicionar como um guia moral e intelectual em uma era de incertezas.
O Zeitgeist Perigoso:
Como a Revolução Sexual Abriu Portas para o Abuso
O Experimento Kentler não nasceu no vácuo. Ele foi gestado em um ambiente cultural e ideológico específico, o da Alemanha Ocidental dos anos 60 e 70. O movimento estudantil de 1968, com seu slogan “é proibido proibir”, pregava uma ruptura radical com todas as formas de autoridade e tradição. A família nuclear burguesa, a moralidade sexual cristã e as estruturas educacionais tradicionais eram vistas como instrumentos de opressão. Nesse caldeirão de ideias, a “liberação sexual” tornou-se uma bandeira central.
Influenciados por pensadores como Wilhelm Reich e Herbert Marcuse, parte da esquerda radical alemã passou a ver a repressão da sexualidade infantil como a raiz de todos os males sociais. Um artigo publicado na revista Der Spiegel, intitulado “A Revolução Sexual e as Crianças: Como a Esquerda Foi Longe Demais”, detalha como um dos objetivos do movimento de 1968 era a “liberação sexual das crianças”. Para alguns, isso significava a superação de todas as inibições, criando um clima em que a pedofilia poderia ser vista como “progressista”.
A fronteira entre a liberação da criança e a liberação para a criança tornou-se perigosamente turva. A ideia de que as crianças tinham sua própria sexualidade, que deveria ser expressa livremente, foi distorcida para justificar a participação de adultos nessa sexualidade.
Essa ideologia se materializou em projetos como os Kinderläden, os jardins de infância antiautoritários. Nesses espaços, fundados por pais de classe média alta e acadêmicos, a sexualidade infantil era um tema central e obsessivo. Relatos da época, como os documentados no livro “Revolution der Erziehung” (A Revolução na Educação), de 1971, descrevem discussões sobre a masturbação infantil em grupo e a naturalização do contato físico entre adultos e crianças.
A Comuna 2 de Berlim, um experimento de coabitação radical, chegou a documentar “brincadeiras amorosas” entre adultos e as crianças que viviam no local. Foi nesse terreno fértil que as ideias de Helmut Kentler floresceram. Ele não era uma voz isolada; ele era a expressão acadêmica e institucionalizada de uma corrente de pensamento que, em sua busca cega por “libertação”, demoliu as barreiras de proteção mais fundamentais da infância. O que Kentler fez foi dar uma estrutura formal e um selo de aprovação estatal a uma ideologia que já circulava em certos círculos intelectuais, transformando uma fantasia radical em uma política pública devastadora.
O Perfil Psicológico de um Manipulador:
Narcisismo, Ausência de Empatia e Convicção Ideológica
Traçar um perfil psicológico definitivo de Helmut Kentler post-mortem é uma tarefa complexa, mas seu comportamento e o legado de suas ações nos permitem inferir traços de personalidade consistentes com certos transtornos. A análise de sua trajetória sugere uma combinação de narcisismo maligno, ausência de empatia e uma convicção ideológica tão forte que se sobrepunha a qualquer consideração ética ou humana.
O narcisismo intelectual de Kentler é evidente. Ele se via como um visionário, um pioneiro que estava à frente de seu tempo. Sua capacidade de articular suas teorias em uma linguagem pseudocientífica e de obter o apoio de instituições de prestígio alimentava essa autoimagem grandiosa. Para um narcisista, as pessoas ao redor não são vistas como indivíduos com seus próprios sentimentos e direitos, mas como instrumentos para validar suas próprias teorias e aumentar seu status.
As crianças do experimento, sob essa ótica, não eram vítimas, mas meros objetos de estudo, peças em seu tabuleiro para provar sua genialidade e corrigir os “erros” da sociedade. A própria estrutura do “experimento” revela essa mentalidade: as crianças eram as variáveis a serem testadas, e seus traumas, os resultados a serem observados, não as feridas a serem curadas.
Associada ao narcisismo, a ausência de empatia é talvez o traço mais assustador. Kentler manteve contato regular com os “pais adotivos” e as crianças ao longo dos anos. Ele sabia o que estava acontecendo. As investigações da Universidade de Hildesheim confirmaram que ele estava ciente dos abusos. No entanto, em nenhum momento ele interveio para proteger as crianças.
Sua incapacidade de se conectar com o sofrimento delas, de ver o terror e a dor que seu “experimento” causava, é um indicativo de uma profunda falha na capacidade de sentir empatia, uma característica central da psicopatia. Para ele, o sofrimento das crianças era, na melhor das hipóteses, um dano colateral aceitável em nome de um “bem maior” – a validação de sua ideologia. Essa frieza emocional permitiu-lhe observar o desenrolar de tragédias humanas como se fossem dados em uma planilha, desprovido de qualquer senso de responsabilidade moral.
Sua convicção ideológica funcionava como um poderoso mecanismo de racionalização. Kentler não se via como um criminoso, mas como um revolucionário. Ele acreditava genuinamente, ou convenceu a si mesmo a acreditar, que estava libertando as crianças de uma moralidade repressora. Essa fé inabalável em suas próprias ideias permitiu-lhe justificar o injustificável.
Em psiquiatria, esse tipo de sistema de crenças delirante, imune a evidências contrárias, pode ser um sintoma de transtornos de personalidade graves. A ideologia se tornou seu escudo moral, permitindo-lhe cometer atrocidades enquanto mantinha a imagem de um benfeitor. Qualquer evidência que contradissesse suas teorias era descartada como produto da “moralidade burguesa” ou da “repressão”. Ele construiu uma fortaleza ideológica ao redor de si mesmo, tornando-se imune à realidade do sofrimento que causava.
O Cérebro por Trás da Crueldade
Embora não possamos examinar o cérebro de Helmut Kentler, a neurociência nos oferece uma janela para entender os mecanismos neurais que podem estar por trás de comportamentos como o dele. A pesquisa sobre a neurobiologia da pedofilia e de transtornos de personalidade como a psicopatia revela padrões de funcionamento cerebral que podem ajudar a explicar a capacidade de um indivíduo para a crueldade e a manipulação.
Estudos de neuroimagem em indivíduos com transtorno pedofílico sugerem a existência de anormalidades estruturais e funcionais em várias áreas do cérebro. Pesquisas como as publicadas na revista Frontiers in Human Neuroscience apontam para alterações nos lobos frontal e temporal. A “teoria do lobo frontal” sugere que disfunções no córtex orbitofrontal, uma área crucial para o controle de impulsos e o julgamento social, poderiam explicar a incapacidade de inibir comportamentos sexuais desviantes.
Já a “teoria do lobo temporal” relaciona anormalidades em estruturas como a amígdala e o hipocampo com a fixação da preferência sexual e a hipersexualidade. É importante notar que essas descobertas não sugerem um determinismo biológico, mas sim uma predisposição que, interagindo com fatores ambientais e psicológicos, pode levar ao desenvolvimento do transtorno.
Mais relevante para o perfil de Kentler, no entanto, é a neurociência da psicopatia. Estudos com psicopatas mostram consistentemente uma atividade reduzida na amígdala e no córtex pré-frontal ventromedial, áreas do cérebro essenciais para o processamento de emoções, especialmente o medo, e para a empatia. Quando uma pessoa normal vê alguém sofrendo, essas áreas são ativadas, gerando uma resposta empática.
Em psicopatas, essa resposta é fraca ou inexistente. Isso explicaria como Kentler pôde testemunhar as consequências de seu experimento sem sentir remorso ou compaixão. Seu cérebro pode, literalmente, não ter sido equipado para processar o sofrimento alheio da mesma forma que uma pessoa neurotípica. Essa “cegueira emocional” é uma das marcas da psicopatia e permite que o indivíduo trate os outros como meros objetos.
Além disso, o sistema de recompensa do cérebro, que envolve o neurotransmissor dopamina, pode ter desempenhado um papel. Para um narcisista como Kentler, a validação de suas ideias, o poder e a influência sobre os outros funcionam como uma droga. Cada vez que uma autoridade aprovava seu projeto, cada vez que um artigo seu era publicado, seu cérebro provavelmente recebia uma onda de dopamina, reforçando seu comportamento.
A busca por essa recompensa neurológica pode ter se tornado mais importante do que qualquer consideração ética, criando um ciclo vicioso de manipulação e autoengano. A admiração que recebia de seus pares e da mídia funcionava como um reforço positivo constante, solidificando sua crença de que estava no caminho certo, independentemente da devastação que deixava para trás.
O Perfilamento Criminal:
Mais do que um Abusador, um Arquiteto do Crime
Do ponto de vista do perfilamento criminal, Helmut Kentler representa um tipo de criminoso particularmente sofisticado e perigoso. Ele não se encaixa no estereótipo do molestador de crianças impulsivo e socialmente inapto. Pelo contrário, ele era o que se poderia chamar de um facilitador sistemático e um ideólogo do abuso. Seu crime não foi apenas o ato individual, mas a criação e manutenção de uma estrutura organizada que permitiu o abuso em série por décadas.
Como facilitador, Kentler usou sua posição de autoridade para recrutar, selecionar e legitimar os abusadores. Ele os transformou de criminosos em “pais adotivos”, dando-lhes acesso sem precedentes às vítimas e proteção institucional. Ele era o gatekeeper, o guardião que, em vez de proteger, abriu os portões para os predadores. Essa função é análoga à de um chefe de uma organização criminosa, que planeja e gerencia as operações sem necessariamente sujar as próprias mãos. Ele criou a logística do abuso, identificando as vítimas, conectando-as com os abusadores e garantindo que o fluxo de dinheiro e de crianças continuasse ininterrupto.
Como ideólogo, seu papel foi ainda mais nefasto. Ele forneceu a justificativa pseudocientífica que toda a rede de cumplicidade precisava para funcionar. Ele deu aos burocratas do Senado de Berlim, aos acadêmicos de outras instituições e aos próprios abusadores uma narrativa que lhes permitia racionalizar suas ações. Eles não estavam participando de um esquema de abuso infantil; estavam participando de um “experimento progressista”. Essa legitimação ideológica é o que permitiu que o projeto continuasse por tanto tempo, mesmo diante de sinais óbvios de que algo estava terrivelmente errado. Ele ofereceu absolvição moral em troca de cumplicidade.
O perfil de Kentler se assemelha ao de líderes de cultos ou de regimes totalitários, que usam o carisma e uma ideologia abrangente para persuadir seus seguidores a cometer atos imorais. Ele exibia uma total falta de limites éticos, uma capacidade de compartimentalizar e uma habilidade de usar a linguagem para distorcer a realidade. Seu crime mais profundo não foi apenas permitir o abuso, mas redefinir o abuso como um ato de amor e cuidado, uma inversão moral que envenenou as instituições encarregadas de proteger os mais vulneráveis. Ele não apenas quebrou a lei; ele tentou reescrevê-la à sua imagem, criando uma realidade paralela onde seus crimes eram virtudes.
Legado de Dor
Por trinta anos, o sistema de Kentler operou nas sombras, protegido pela reputação de seu criador e pela complacência das instituições. O despertar só começou a acontecer nos anos 2000, e o escândalo só veio à tona publicamente por volta de 2015, quando as primeiras vítimas, como Marco e Sven, tiveram a coragem de falar. As investigações subsequentes, especialmente o relatório devastador da Universidade de Hildesheim, publicado em 2020, finalmente expuseram a extensão da rede de cumplicidade.
O relatório confirmou que o Senado de Berlim não apenas sabia, como financiava o projeto. Ele detalhou a participação de membros de outras instituições acadêmicas, pintando o quadro de uma elite intelectual que se tornou cúmplice, seja por convicção ideológica, seja por negligência covarde. Para as vítimas, a revelação foi uma validação tardia de décadas de sofrimento. Para a sociedade alemã, foi um choque profundo e um acerto de contas com um capítulo vergonhoso de sua história recente. A revelação de que o abuso não foi um acidente, mas uma política de Estado deliberada, abalou a confiança do público nas instituições e na academia.
Helmut Kentler morreu em 2008, impune. O estatuto de prescrição para muitos dos crimes havia expirado, impedindo que ele e muitos de seus cúmplices fossem levados à justiça. As vítimas, além do trauma psicológico indelével, também foram, em grande parte, privadas de compensação financeira. O legado de Kentler é uma ferida aberta. É a história de inúmeras infâncias destruídas, de uma confiança traída no nível mais fundamental e de um sistema que falhou em proteger os mais indefesos. O número exato de vítimas permanece desconhecido, mas cada história que emerge revela a profundidade da depravação que foi permitida em nome da ciência.
As Vítimas: Vozes Silenciadas por Décadas
As verdadeiras vítimas do Experimento Kentler permaneceram invisíveis por décadas. Crianças e adolescentes que já haviam sido abandonados pela sociedade, que viviam nas ruas ou em instituições precárias, foram entregues a homens que viram neles não filhos, mas objetos de gratificação sexual. O impacto psicológico desse abuso é incalculável. Estudos em psicologia do trauma mostram que o abuso sexual infantil, especialmente quando perpetrado por figuras de autoridade ou cuidadores, causa danos profundos e duradouros ao desenvolvimento emocional, cognitivo e social das vítimas.
Marco, uma das poucas vítimas que teve coragem de falar publicamente, descreveu anos de abuso nas mãos de Fritz Henkel, seu “pai adotivo”. Em 2017, ao encontrar uma fotografia de Helmut Kentler em um jornal de Berlim, Marco reconheceu o homem que havia visitado sua casa durante a infância, o homem que sabia o que estava acontecendo e nunca interveio. Essa revelação foi ao mesmo tempo libertadora e devastadora. Libertadora porque finalmente validava suas memórias e seu sofrimento; devastadora porque confirmava que o abuso não foi um acidente, mas parte de um plano deliberado e sancionado pelo Estado.
As vítimas do Experimento Kentler enfrentam desafios únicos. Além do trauma do abuso em si, elas carregam o peso de saber que foram traídas não apenas por um indivíduo, mas por todo um sistema. O Estado, que deveria protegê-las, as entregou aos lobos. A academia, que deveria buscar o conhecimento para o bem da humanidade, usou-as como cobaias em um experimento cruel. Essa traição institucional adiciona uma camada extra de dor e dificulta o processo de cura. Muitas vítimas relatam sentimentos de vergonha, culpa e desconfiança profunda nas instituições e nas figuras de autoridade.
O trauma do abuso sexual infantil não se limita ao período em que ocorre. Pesquisas em neurociência mostram que experiências traumáticas na infância podem alterar o desenvolvimento do cérebro, afetando áreas como o hipocampo (relacionado à memória) e a amígdala (relacionada ao processamento de emoções). Vítimas de abuso têm maior risco de desenvolver transtornos de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e dificuldades em estabelecer relacionamentos saudáveis na vida adulta. O legado do Experimento Kentler, portanto, não são apenas as memórias dolorosas, mas cérebros e vidas permanentemente alterados.
As Investigações: A Lenta Marcha da Justiça
A revelação completa do Experimento Kentler foi um processo longo e doloroso. O primeiro relatório oficial, publicado pela Universidade de Göttingen em 2016, já apontava para a existência de um esquema sistemático de abuso. No entanto, os pesquisadores notaram uma falta de interesse por parte do Senado de Berlim em aprofundar a investigação. Essa resistência institucional não é surpreendente; reconhecer a extensão da cumplicidade do Estado significaria admitir uma falha moral e legal de proporções monumentais.
Foi apenas com o relatório da Universidade de Hildesheim, publicado em 2020, que a verdadeira extensão da rede de cumplicidade veio à tona. Os pesquisadores, liderados por académicos comprometidos com a verdade, vasculharam arquivos, entrevistaram vítimas e testemunhas e montaram um quadro detalhado de como o sistema funcionava. O relatório confirmou que Kentler não agia sozinho. Ele tinha o apoio de membros do Senado de Berlim, de acadêmicos de instituições prestigiadas como o Instituto Max Planck e a Universidade Livre de Berlim, e de uma rede de “pais adotivos” que se beneficiavam do esquema.
O relatório também revelou que o financiamento público era uma parte essencial do sistema. Os “pais adotivos” recebiam subsídios regulares do governo para “cuidar” das crianças. Esse dinheiro não apenas incentivava a participação dos abusadores, mas também dava ao esquema uma aparência de legitimidade. Afinal, se o governo estava pagando, como poderia ser errado? Essa inversão moral, onde o Estado financia o abuso de seus próprios cidadãos mais vulneráveis, é uma das facetas mais chocantes do caso.
A investigação da Universidade de Hannover, por sua vez, focou especificamente no papel de Kentler e em como suas teorias influenciaram políticas públicas. O relatório, conduzido pela Dra. Teresa Nentwig, examinou os escritos de Kentler, suas palestras e sua correspondência, revelando um homem obcecado com suas ideias e disposto a sacrificar o bem-estar de crianças reais para prová-las. A Dra. Nentwig concluiu que Kentler usou sua posição acadêmica de forma antiética e que suas ações constituíram uma violação grave dos princípios fundamentais da pesquisa científica e da ética profissional.
Implicações Éticas e Sociais
O caso de Helmut Kentler levanta questões profundas sobre ética, autoridade e a responsabilidade das instituições. Como foi possível que um projeto tão evidentemente prejudicial tenha recebido aprovação e financiamento? Como tantas pessoas inteligentes e educadas puderam participar ou fazer vista grossa para o abuso sistemático de crianças? As respostas a essas perguntas são complexas, mas algumas lições emergem claramente.
Primeiro, o caso demonstra os perigos da ideologia quando ela se torna um substituto para a empatia e o julgamento moral. Kentler e seus apoiadores estavam tão convencidos de que estavam do lado certo da história, lutando contra a “repressão burguesa”, que perderam de vista a realidade do sofrimento que causavam. A ideologia funcionou como uma lente distorcida, fazendo com que o abuso parecesse libertação. Isso nos lembra que nenhuma ideia, por mais progressista ou revolucionária que pareça, justifica o sacrifício de indivíduos reais, especialmente crianças indefesas.
Segundo, o caso expõe a fragilidade dos sistemas de proteção infantil quando confrontados com autoridade acadêmica e burocrática. Os assistentes sociais e funcionários do bem-estar infantil que implementaram o programa de Kentler provavelmente tinham dúvidas, mas foram silenciados pela autoridade de um professor universitário respeitado e pela aprovação do Senado. Isso destaca a necessidade de sistemas de supervisão independentes e de uma cultura que encoraje o questionamento e a denúncia, mesmo quando as ordens vêm de cima.
Terceiro, o caso ilustra a importância de ouvir as vítimas. Por décadas, as crianças abusadas no Experimento Kentler não tinham voz. Quando finalmente falaram, foram inicialmente ignoradas ou desacreditadas. Foi apenas quando pesquisadores independentes levaram suas histórias a sério que a verdade começou a emergir. Isso nos lembra que a proteção efetiva das crianças requer não apenas políticas e leis, mas uma disposição genuína de ouvir e acreditar naqueles que são mais vulneráveis.
Finalmente, o caso de Kentler é um lembrete sombrio de que o mal não sempre vem com chifres e rabo. Às vezes, ele vem vestido com um jaleco branco, carregando um diploma e falando a linguagem da ciência e do progresso. A vigilância contra o abuso de autoridade, seja ela acadêmica, política ou religiosa, é uma responsabilidade contínua de toda sociedade civilizada.
Morreu Impune
Helmut Kentler morreu impune e sem nunca ter enfrentado as consequências de suas ações. O estatuto de prescrição protegeu não apenas ele, mas muitos de seus cúmplices. Para as vítimas, essa impunidade é uma ferida que nunca cicatriza completamente. Elas foram traídas duas vezes: primeiro quando crianças, entregues a abusadores; e depois como adultos, quando o sistema legal falhou em responsabilizar os culpados.
O legado do Experimento Kentler é um legado de dor, mas também de lições importantes. Ele nos ensina sobre os perigos da ideologia sem limites, sobre a fragilidade das instituições quando confrontadas com autoridade carismática, e sobre a importância de colocar o bem-estar das crianças acima de qualquer teoria ou agenda política. Ele nos lembra que a ciência e a academia, embora sejam forças para o bem, também podem ser corrompidas e usadas para fins nefastos.
A história de Helmut Kentler não é apenas uma história alemã ou uma história do passado. É uma advertência universal e atemporal. Em qualquer lugar onde a autoridade não é questionada, onde a ideologia substitui a compaixão, onde as vozes dos vulneráveis são silenciadas, o potencial para o abuso existe. A única defesa é a vigilância constante, a coragem de questionar e a disposição de colocar a humanidade acima de qualquer sistema de crenças.
Que as vítimas do Experimento Kentler encontrem alguma medida de paz e justiça, ainda que tardia. E que suas histórias sirvam como um farol, iluminando os perigos que espreitam quando permitimos que a ideologia e a autoridade se sobreponham à nossa responsabilidade mais fundamental: proteger aqueles que não podem se proteger.
O caso de Helmut Kentler permanece como uma advertência sobre os perigos da ideologia quando ela se desconecta da humanidade. Mostra como a autoridade acadêmica pode ser usada para perpetrar o mal e como as instituições podem falhar catastroficamente em seu dever de proteção. A história do “Experimento Kentler” é a história de como um homem, possivelmente com uma mente moldada por uma neurologia atípica e uma psicologia distorcida, conseguiu transformar o Estado em seu cúmplice, e o cuidado infantil em uma arquitetura da crueldade.
Referências
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Aviv, Rachel. “The German Experiment That Placed Foster Children with Pedophiles”. The New Yorker, 19 de julho de 2021. https://www.newyorker.com/magazine/2021/07/26/the-german-experiment-that-placed-foster-children-with-pedophiles
Deutsche Welle. “Berlin authorities placed children with pedophiles for 30 years”. 15 de junho de 2020. https://www.dw.com/en/berlin-authorities-placed-children-with-pedophiles-for-30-years/a-53814208
Universidade de Hildesheim. “Independent investigation into Helmut Kentler’s activities in the Berlin child and youth welfare services”. 2020. https://hilpub.uni-hildesheim.de/bitstreams/f1f721b9-44b8-468d-b99b-735f5e151eb8/download
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Tenbergen, G., et al. “The Neurobiology and Psychology of Pedophilia: Recent Advances and Challenges”. Frontiers in Human Neuroscience, 24 de junho de 2015. https://www.frontiersin.org/journals/human-neuroscience/articles/10.3389/fnhum.2015.00344/full



