23 – Quando as Ideológias Masculinistas e Os Paneleiros Se Cruzam
Uma investigação revela como redpills, incels e a ideologia blackpill impulsionam misoginia, radicalização masculina e ameaças reais à segurança das mulheres
Ideológias Masculinistas – Em um cenário digital onde mais de 5,5 bilhões de pessoas estão conectadas, novas formas de interação e comunidade surgem a cada instante. Contudo, nem todas essas comunidades são benignas. Nos cantos menos iluminados da internet, um ecossistema de ódio, ressentimento e misoginia, conhecido como “machosfera”, tem crescido de forma alarmante.
Dentro dele, movimentos como os redpills e os incels utilizam uma retórica de vitimização masculina para promover o desprezo e a violência contra as mulheres. Alimentados por uma filosofia de desesperança que culmina no niilismo da “pílula preta”, esses grupos deixaram de ser um fenômeno de nicho para se tornar uma ameaça real à segurança e aos direitos das mulheres, com consequências que transbordam do mundo virtual para o físico.
A delegada de Polícia Lisandrea Salvariego, na linha de frente do combate a crimes cibernéticos, relata uma realidade alarmante: “Esses meninos estão muito, muito contrariados que uma mulher os investiga. Já fui ameaçada inúmeras vezes, inclusive minha família”. conta a delegada. “E, a última agora é que eles mandam as vítimas se cortarem com meu nome. Matam gatos e me dedicam. Me marcam no insta.”

A entrevista feita com a Delegada de Polícia Lisandrea Salvariego contêm relatos contundentes que não são um extrato de um roteiro de ficção, mas um reflexo direto do impacto de ideologias de ódio que se propagam em comunidades online, especificamente aquelas associadas ao movimento conhecido como “redpill”.
A entrevista com a delegada Lisandrea Salvariego revela como esses conceitos abstratos se materializam em crimes concretos. Segundo ela, a porta de entrada para muitos jovens, incluindo crianças e adolescentes, são os algoritmos de redes sociais como TikTok e Instagram.
“Adolescentes e até crianças adentram esse universo de maneira sutil”, explica. “Vídeos de redes sociais nas quais o algoritmo facilmente identifica o interesse e os induz a ‘influenciadores’ que seguem essa cultura.”
Uma vez capturados por esse funil de conteúdo, os jovens são expostos a uma “narrativa de ‘homem forte’, ‘masculinidade narcisista’, dentre tantas outras que eles sequer sabem ao certo o que significa, mas aquilo lhes dá poder, dá pertencimento”. Esse sentimento de pertencimento é um fator crucial. Em um mundo onde muitos jovens se sentem isolados ou incompreendidos, esses grupos oferecem uma comunidade e uma identidade, ainda que baseada no ódio.
A delegada aponta que o discurso misógino é um elemento quase onipresente nos crimes online que investiga.
“A misoginia está em praticamente todos os crimes cometidos on-line mas, como eu disse antes, os adolescentes infratores ou os autores desses crimes sequer sabem o que dizem, apenas sabem que aquilo lhes dá guarida, dado o engajamento, e se assim se comportarem terão pertencimento em servidores e grupos, por exemplo.”
A ideologia redpill fornece a justificativa para atos de violência e abuso. Na prática, isso se traduz em crimes como a sextorsão, onde a divulgação de fotos ou vídeos íntimos é usada para chantagear a vítima. As frases usadas pelos agressores ecoam diretamente os dogmas da machosfera:
“‘Você como toda mulher é puta’; ‘você não conseguirá nada porque ninguém acreditará em uma mulher puta'”, relata a delegada.
Essa retórica desumaniza a vítima, transformando-a em um objeto sobre o qual o agressor pode exercer controle. A objetificação atinge seu ápice em práticas como o “sistema de plaquinhas” e o “cutblood”, onde as vítimas são forçadas a se marcar ou a segurar cartazes com o nome do agressor ou do grupo.
“Ali o agressor deixa muito claro que a criança ou adolescente pertence a ele (objetificação)”, afirma a autoridade policial. Esse ato de marcar a vítima é uma demonstração de posse e poder, um dos pilares da ideologia que prega a submissão feminina.
Conversa Com a Delegada Lisandrea Salvariego
O Direto Aos Fatos conversou com a delegada Lisandra para entender como os discursos da “machosfera” como é conhecido, impacta diretamente na vida e na segurança das crianças e adolescentes do sexo feminino.
Delegada, quais são os elementos centrais do discurso redpill que mais têm aparecido em investigações de abusos contra mulheres e crianças?
Primeiro ponto: adolescentes e até crianças adentram esse universo de maneira sutil (vídeos de redes sociais nas quais o algoritmo facilmente identifica o interesse e os induz a “influenciadores” que seguem essa cultura. Assim, a partir de discursos de ódio amplamente divulgados em todas as redes e plataformas digitais eles são expostos à narrativa de “homem forte”, “masculinidade narcisista”, dentre tantas outras que eles sequer sabem ao certo o que significa mas aquilo lhes dá poder, dá pertencimento.
Nós encontramos esse discurso logo no inicio da sextorsão vivenciada pela vítima que divulgou a foto ou vídeo intimo no web namoro. Frases como ” você como toda mulher é puta”; “você não conseguirá nada porque ninguém acreditará em uma mulher puta”. O ápice dessa cultura é o sistema de plaquinhas, “cutblood”, no qual ali o agressor deixa muito claro que a criança ou adolescente pertence a ele (objetificação).
Há um crescimento real de crimes motivados por ideologias misóginas? Como a polícia tem identificado a influência desse discurso na prática criminosa?
A misoginia está em praticamente todos os crimes cometidos on-line mas, como eu disse antes, os adolescentes infratores ou os autores desses crimes sequer sabem o que dizem, apenas sabem que aquilo lhes dá guarida, dado o engajamento, e se assim se comportarem terão pertencimento em servidores e grupos, por exemplo.
Na sua experiência, de que forma o redpill legitima comportamentos violentos, como controle coercitivo, abuso sexual e objetificação infantil?
Eles legitimam a própria conduta como forma de pertencimento e também para subir hierarquicamente nos servidores ou “panelas”
Como a senhora vê a omissão do Congresso frente a esses grupos de discursos de ódio?
Não vejo omissão com relação às tipificações penais, por exemplo. Avançamos muito no que tange à legislação. O problema é que muitos desconhecem a proporção que isso está tomando. No inicio das nossas investigações, por exemplo, só havia 5 ou 6 servidores que nos demandavam atenção. Hoje são dezenas
O que a senhora achou da minissérie Adolescência, da Netflix? Reflete a nossa realidade?
A minissérie teve uma papel extraordinário no quesito alertar para o problema, vivemos isso desde 2019/2020 mas a minissérie fez com que a imprensa e sociedade olhassem para o problema. Sim, há muitos pontos em comum com as questões que enfrentamos por aqui.
Delegada, muitos adolescentes têm entrado nesse universo em fóruns, Discord, Instagram e TikTok. O quão grave é a adesão de jovens a essa subcultura misógina?
O grande problema é que eles não apenas ficam no campo teórico. Eles praticam crimes, vitimam outras crianças e adolescentes.
Delegada, a senhora acredita que essa ideologia contribui para a normalização do estupro de vulneráveis e para a erotização de meninas?
Sim, sem dúvida alguma. Quando eu submeto a mulher (criança e adolescente) a rituais de humilhação, automutilação e o tempo todo profiro discurso de ódio, essa influência é muito presente sim.
Delegada, quais alertas os pais precisam ter para identificar que seus filhos estão sendo seduzidos por esse discurso? Quais os primeiros sinais?
Os primeiros sinais são: isolamento e mudança brusca de comportamento. Alteração de discurso e uso de novas palavras.
Cadê os pais desses meninos?
Famílias desestruturadas e desconectadas
Eles usam símbolos nazistas?
Tem de tudo. Satanista, niilista. Eles nem sabem o que são
Redpill: A Pílula Vermelha – O Despertar para uma Falsa Realidade
O ponto de partida para muitos homens que ingressam na machosfera é a “pílula vermelha” ou “red pill”. O termo, popularizado pelo filme Matrix de 1999, representa a escolha de abandonar uma ilusão confortável para encarar uma suposta verdade dura e inconveniente. No contexto masculinista, “tomar a pílula vermelha” significa “acordar” para uma realidade onde os homens seriam as verdadeiras vítimas de uma sociedade que favorece as mulheres, especialmente sob a influência do feminismo.
Segundo essa ideologia, as mulheres são, por natureza, manipuladoras, interesseiras e controladoras. O feminismo, visto como o principal inimigo, teria concedido a elas um poder desproporcional, subvertendo uma ordem natural e prejudicando os homens. Bruna Camilo de Souza Lima e Silva, doutora em ciências sociais e pesquisadora do fenômeno, explica que a verdade que eles alegam difundir é a de que “as mulheres são aproveitadoras, controladoras e manipuladoras” .
Essa visão de mundo é disseminada por meio de uma vasta rede de influenciadores digitais, “coaches de masculinidade”, fóruns e canais no YouTube, que oferecem aos homens um bode expiatório para suas frustrações pessoais, profissionais e amorosas.
O discurso red pill prega um retorno a uma masculinidade hegemônica, na qual o homem não deve demonstrar emoções, deve ser o provedor e o dominante na relação. Em contrapartida, a mulher ideal é submissa, bela segundo padrões específicos (geralmente brancos e magros) e dedicada a satisfazer as vontades masculinas. Qualquer mulher que desvie desse padrão é rotulada pejorativamente como “feminista” ou de forma ainda mais degradante, sendo considerada indigna de respeito. Essa ideologia funciona como uma porta de entrada, um primeiro passo que, embora se apresente como autoajuda, na verdade prepara o terreno para uma radicalização ainda mais profunda.
| Princípio Central | Descrição Detalhada |
| Crítica ao Feminismo | O feminismo é visto não como um movimento por igualdade, mas como uma ideologia que promove a supremacia feminina e a opressão masculina. Alega-se que o feminismo destruiu os papéis de gênero tradicionais, prejudicando a estrutura familiar e a sociedade. |
| Determinismo Biológico | Acredita-se que homens e mulheres possuem naturezas biológicas e psicológicas fundamentalmente diferentes e imutáveis. As mulheres seriam guiadas pela “hipergamia”, a tendência de buscar parceiros de status social e econômico superior, enquanto os homens seriam naturalmente polígamos e dominantes. |
| A Teoria do Valor Sexual de Mercado (VSM) | Homens e mulheres são avaliados em um “mercado” de relacionamentos. O valor de uma mulher estaria primariamente ligado à sua juventude e aparência física, atingindo o pico no início da vida adulta e decaindo rapidamente. O valor de um homem, por outro lado, estaria ligado a status, recursos e confiança, podendo aumentar com a idade. |
| Classificação Masculina (Alfa/Beta) | Os homens são categorizados em uma hierarquia. Os “alfas” seriam os homens dominantes, desejados pelas mulheres, enquanto os “betas” seriam os provedores, explorados por elas. O objetivo dos seguidores da redpill é adotar características “alfa” para ter sucesso nos relacionamentos. |
Essa ideologia se manifesta em diferentes vertentes, como os Incels (celibatários involuntários), que culpam as mulheres por sua incapacidade de estabelecer relações afetivo-sexuais, e os MGTOW (Men Going Their Own Way, ou Homens Seguindo Seu Próprio Caminho), que pregam o afastamento total das mulheres e da sociedade, que consideram irremediavelmente corrompida pelo feminismo.
A Sedução da Simplificação
A atração pelo discurso red pill reside em sua capacidade de oferecer respostas simples para problemas complexos. Para homens que se sentem perdidos, ansiosos ou fracassados diante das complexidades dos relacionamentos modernos e das pressões sociais, a pílula vermelha oferece uma narrativa de vitimização que os isenta de responsabilidade pessoal. A culpa por seus insucessos não é atribuída a suas próprias atitudes ou falta de habilidades sociais, mas a um sistema social supostamente corrompido pelo feminismo e à natureza inerentemente falha das mulheres.
Os “coaches de masculinidade” capitalizam essa insegurança, vendendo cursos e mentorias que prometem ensinar os “segredos” para se tornar um “macho alfa” e dominar o “mercado sexual”. Eles utilizam um jargão específico para criar um senso de comunidade e conhecimento exclusivo. Termos como “hipergamia” (a suposta tendência feminina de buscar parceiros de status social e econômico superior), “valor de mercado sexual” (uma classificação hierárquica de atratividade) e a distinção entre machos “alfa” (dominantes) e “beta” (submissos) são empregados para construir uma pseudociência dos relacionamentos. Essa estrutura oferece uma sensação de controle e previsibilidade em um mundo que parece caótico, tornando a ideologia particularmente sedutora para homens jovens e inseguros.
A internet foi fundamental na disseminação e estruturação dos redpills como movimento. Por meio de plataformas como YouTube, Instagram, TikTok e fóruns especializados, esses influenciadores disseminam um ressentimento sobre como os movimentos feministas têm incidido na autonomia das mulheres e nos questionamentos de determinadas relações e masculinidades hegemônicas.
Havia homens que já tinham o mesmo ressentimento, mas não conseguiam identificá-lo ou nomeá-lo. Por meio da internet, eles encontraram pares que validam e reforçam suas crenças, criando câmaras de eco onde o ódio se normaliza e se intensifica.
O Backlash Conservador
Para especialistas, o movimento red pill representa uma tentativa de backlash, ou seja, retaliação contra os avanços das mulheres. Loreley Garcia Gomes, doutora em sociologia e líder do grupo Pandora – Estudos de Gênero e Sexualidades da Universidade Federal da Paraíba, afirma que “é algo frequente no século XXI: quanto mais as mulheres ganham espaço, mais se tenta desfazê-las em todas as instâncias”. É uma estrutura patriarcal que não quer mudar, mas está sendo forçada a isso pelas conquistas femininas das últimas décadas.
Isabela Candeloro Campoi, doutora em história e coordenadora do grupo de pesquisa de gênero, trabalho e políticas públicas da Universidade Estadual do Paraná, não tem dúvidas de que se trata de um movimento misógino que se incomoda com as conquistas das mulheres, principalmente no âmbito de costumes e comportamento.
A liberdade sexual e a autonomia em relação aos seus corpos proporcionaram às mulheres mais consciência e, consequentemente, lhes deram condições de identificar relações tóxicas e de não se permitirem manter relacionamentos abusivos, antes normalizados. Isso levou ao questionamento dos papéis tradicionais de gênero e das convenções sociais historicamente estabelecidas, o que gera profundo desconforto em setores conservadores da sociedade.
O Abismo Incel: Do Ressentimento à Celebração da Violência
Quando as estratégias de autoaperfeiçoamento propostas pelo universo redpill falham em garantir o sucesso romântico e sexual, muitos homens mergulham em um estágio mais avançado de radicalização: a comunidade “incel”. O termo, uma abreviação de involuntary celibates (celibatários involuntários), foi ironicamente criado nos anos 1990 por uma mulher canadense chamada Alana, que buscava um espaço online para compartilhar sua solidão e dificuldades em experimentar uma vida sexual e amorosa. Seu objetivo era se conectar com outros internautas solitários, mas nos anos consecutivos, a ideia acabaria apropriada por homens frustrados na internet e se tornaria o embrião de um movimento incel internacional.
A própria Alana expressou profundo arrependimento pela criação do termo. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian em 2018, ela comparou sua situação à de uma cientista que descobriu a fissão nuclear e depois viu sua descoberta sendo usada como arma de guerra. Essa analogia ilustra perfeitamente como um conceito originalmente criado para apoio mútuo foi distorcido em uma ideologia de ódio e violência.
Os incels acreditam que seu fracasso em ter relações sexuais e afetivas não se deve a fatores comportamentais, mas a uma inferioridade genética imutável. Eles se veem como vítimas de uma “loteria genética” que perderam. Essa crença é sustentada por um jargão próprio e uma visão de mundo determinista. Os homens sexualmente bem-sucedidos são chamados de “Chads”, arquétipos musculosos e populares, enquanto as mulheres atraentes e desejadas são as “Stacys”, vistas como superficiais e inatingíveis.
No cerne da ideologia incel está a “regra 80/20”, uma pseudoteoria segundo a qual 80% das mulheres desejam apenas os 20% de homens mais atraentes (os Chads), deixando os 80% restantes (os incels) em uma situação de celibato forçado. Para eles, a mulher não é apenas manipuladora, como no discurso red pill, mas a causa direta de seu sofrimento.
O ressentimento se transforma em ódio explícito, e a comunidade funciona como uma câmara de eco que valida e amplifica esses sentimentos. Como admitiu um jovem britânico envolvido com os fóruns, identificado como “Liam”: “Você pensa em algo pequeno… e aí você vê outras pessoas pensando em coisas muito mais radicais. Então você acha que as coisas pequenas são aceitáveis”.
A Câmara de Eco do Ódio
Os fóruns incel são espaços de radicalização intensa. Neles, a solidão e a depressão, problemas de saúde mental genuínos que afetam muitos membros, são distorcidos e canalizados para a misoginia. Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de Swansea, no Reino Unido, revelam que incels tendem a sofrer de depressão severa, ansiedade, pensamentos suicidas e solidão, além de acumularem diagnósticos ou sintomas de autismo em maior frequência. No entanto, em vez de oferecerem suporte saudável, esses fóruns promovem um viés de confirmação que alimenta crenças tóxicas. Qualquer experiência negativa com mulheres é generalizada como prova da crueldade feminina, e qualquer tentativa de autoaperfeiçoamento é ridicularizada como inútil diante do determinismo genético.
Essa dinâmica cria uma identidade coletiva baseada no sofrimento compartilhado e na culpabilização de um inimigo comum: a mulher. A frustração sexual é elevada a uma forma de opressão social, e os incels se veem como uma minoria perseguida. Essa mentalidade de cerco justifica o ódio e, em seus estágios mais extremos, a violência como uma forma legítima de retaliação.
A cientista política Bruna Camilo, que monitorou interações entre usuários incel do Brasil no Telegram entre 2021 e 2022 para uma pesquisa na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, explica que “estes são grupos organizados, que entendem que a mulher é o grande problema da sociedade. Na medida que os direitos das mulheres avançam, o movimento sente a masculinidade fragilizada e busca resgatá-la como ela era tempos atrás”.
A Distribuição Global do Fenômeno
O fenômeno incel não se restringe a um único país ou cultura. Em 2021, um relatório produzido para a União Europeia revelou que a nacionalidade mais comum no maior fórum incel anglófono era a Alemanha. Os incels alemães demonstravam sentimentos de inferioridade em relação a homens brancos e loiros. Por sua vez, homens brancos na Suécia se sentiam menos atraentes. Já na França, os usuários se ressentiam dos direitos conquistados pelas mulheres, acreditando que o país se tornara hiperfeminista e destruíra os direitos dos homens.
O relatório conclui que “à medida que esses espaços cresceram, os incels desenvolveram sua própria ideologia e valores, canonizaram seus heróis e identificaram seus vilões”. Essa estrutura ideológica compartilhada, apesar das variações culturais, demonstra a natureza global e interconectada do movimento.
A Pílula Preta e o Niilismo: O Estágio Final da Desesperança
A progressão ideológica dentro da machosfera atinge seu ápice com a “pílula preta” (black pill), que representa a internalização de uma forma extrema de niilismo. Se a pílula vermelha oferece uma esperança, ainda que baseada em controle e manipulação, a pílula preta a aniquila por completo. Ela representa a crença de que a situação é permanentemente desesperadora e que nada pode ser feito para mudá-la.
O termo “blackpill” foi popularizado no blog de direitos masculinos Omega Virgin Revolt, onde foi usado pela primeira vez por um comentarista chamado Paragon em 2011. Desde então, tornou-se a expressão mais radical da ideologia incel, representando um niilismo direcionado especificamente contra as mulheres e a sociedade.
Para os “blackpilled”, o mercado sexual é governado exclusivamente pela genética. Aparência física é tudo, e nenhuma quantidade de esforço, dinheiro ou desenvolvimento pessoal pode alterar o destino de um homem considerado geneticamente inferior. Essa visão fatalista torna o movimento incel particularmente perigoso, transformando-o em um que a Anti-Defamation League (ADL) descreve como tendo “características de um culto da morte”.
Diante dessa desesperança absoluta, os seguidores da pílula preta enxergam poucas saídas. As opções se resumem a “LDAR” (Lie Down and Rot, ou “deitar e apodrecer”), o suicídio, ou a violência extrema. A violência, nesse contexto, é não apenas justificada, mas celebrada. Atos de terrorismo misógino são vistos como uma forma de retaliação contra um mundo injusto. O termo “Going ER” se tornou uma gíria para cometer um massacre, em referência a Elliot Rodger, que em 2014 matou seis pessoas perto do campus da Universidade da Califórnia em Santa Barbara e é venerado como um santo e herói pela comunidade. Nos fóruns, ele é chamado de “Saint Elliot” ou “The Supreme Gentleman”, títulos que demonstram a glorificação da violência.
O niilismo da pílula preta, portanto, não é uma reflexão filosófica passiva, mas um motor ativo para a violência, direcionado especificamente contra as mulheres e a sociedade em geral. Enquanto Rodger não se referiu explicitamente como “blackpilled”, ele exibiu a característica fundamental da pílula preta: a crença de que tentar mudar o status quo era fútil e que os únicos resultados possíveis eram a autodestruição ou a violência em massa.
| Característica | Pílula Vermelha (Red Pill) | Pílula Preta (Black Pill) |
| Visão de Mundo | O mundo é secretamente controlado por uma agenda feminista que prejudica os homens. | O mundo é um sistema brutal e imutável baseado puramente em determinismo genético. |
| Causa do Problema | O feminismo e a natureza “hipergâmica” e manipuladora das mulheres. | A genética desfavorável do indivíduo, que o torna indesejável para as mulheres. |
| Solução Proposta | Tornar-se um “macho alfa” através de autoaperfeiçoamento, manipulação e controle. | Nenhuma. A situação é permanente. As únicas “saídas” são a desistência, o suicídio ou a violência. |
| Relação com as Mulheres | De controle e manipulação. As mulheres são vistas como objetos a serem conquistados ou gerenciados. | De ódio profundo e desumanização. As mulheres são a causa de todo o sofrimento e alvos de vingança. |
| Nível de Esperança | Otimismo cínico. Acredita-se que é possível “vencer o jogo” se as regras forem aprendidas. | Niilismo absoluto. Não há esperança de mudança ou melhoria. |
| Risco de Violência | Moderado. Violência psicológica e manipulação são comuns, mas violência física é menos frequente. | Alto. Celebração da violência em massa e do suicídio como formas legítimas de resposta. |
As Consequências Reais: Da Violência Digital ao Terrorismo
Os discursos de ódio da machosfera não permanecem confinados aos fóruns online. Eles têm consequências reais e devastadoras, que se manifestam de múltiplas formas, afetando diretamente a vida e a segurança de meninas e mulheres.
Violência Digital e Psicológica
A forma mais imediata de agressão é a violência digital. Mulheres que expressam opiniões, especialmente as feministas, tornam-se alvos de campanhas de assédio coordenadas, que incluem ameaças de estupro e morte, doxing (divulgação não autorizada de informações privadas) e difamação. Esse ambiente tóxico força muitas mulheres à autocensura e causa danos psicológicos severos, como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. A misoginia online, como aponta a ONU Mulheres, está “invadindo pátios escolares, ambientes de trabalho e relações íntimas”, normalizando o abuso e criando um clima de medo.
O abuso digital não se limita a ameaças diretas. Ele inclui também o assédio sistemático, a perseguição online, a criação de perfis falsos para difamar mulheres, a manipulação de imagens para fins de humilhação e a coordenação de ataques em massa contra mulheres que ousam ocupar espaços públicos digitais. Essas táticas têm o objetivo de silenciar, intimidar e expulsar as mulheres dos espaços online, reforçando a ideia de que a internet é um território masculino.
Violência Física e Extremismo
A retórica niilista e desumanizante da pílula preta tem inspirado diretamente atos de terrorismo misógino. O ataque de Elliot Rodger em 2014 foi apenas o começo de uma série de ataques violentos associados à ideologia incel. Em 2018, Alek Minassian atropelou um grupo de pedestres com uma van em Toronto, no Canadá, matando 10 pessoas. Antes do ataque, ele postou no Facebook: “a rebelião Incel já começou”. Em 2021, no Reino Unido, Jake Davison, um participante ativo de fóruns incel, matou cinco pessoas na cidade de Plymouth antes de cometer suicídio, no que foi considerado o pior ataque a tiros visto na última década no país.
Esses homens não são vistos como criminosos por suas comunidades, mas como mártires de uma causa, o que incentiva novos atos de violência. Nos fóruns incel, é comum encontrar mensagens que glorificam esses ataques e incentivam outros a seguir o mesmo caminho. Quando alguém menciona pensamentos suicidas, essa pessoa frequentemente é incitada por outros no grupo a cometer atos de violência antes de tirar a própria vida.
Um exemplo real de mensagem encontrada em um fórum incel diz: “NÃO seja egoísta. Vá a uma escola primária e mate algumas crianças antes de cometer suicídio. Por favor!?!”. Mensagens como essa não são incomuns na comunidade incel.
A cultura extremista incel promove abertamente o estupro e a agressão, misturando sua ideologia misógina com outras formas de ódio, como racismo e homofobia. A ONU Mulheres alerta que a popularidade da linguagem extremista na machosfera tem “vínculos crescentes com a radicalização e ideologias extremistas”, representando uma séria ameaça à segurança global.
Retrocesso Social e Cultural
Talvez o impacto mais insidioso e de longo prazo seja o retrocesso social. A machosfera está conseguindo influenciar uma nova geração de homens. Pesquisas indicam que homens mais jovens hoje são mais propensos a sustentar ideias retrógradas sobre papéis de gênero do que gerações mais velhas, indicando uma reação conservadora que ameaça décadas de progresso pela igualdade. A Geração Z, a mais exposta a essa retórica sexista online, corre o risco de internalizar essas visões tóxicas, o que perpetua o ciclo de desigualdade e violência.
Um estudo da ONU Mulheres e da Unstereotype Alliance revelou que homens mais jovens mostraram-se mais propensos do que os mais velhos a sustentar visões estereotipadas sobre os papéis de gênero. Isso representa uma inversão preocupante da tendência histórica de que cada geração seria mais progressista que a anterior. A expansão da machosfera coincide com um conservadorismo crescente entre jovens homens, que passam a ver os esforços pela igualdade de gênero como formas de discriminação contra os homens.
Esses movimentos minam o conceito de consentimento, promovem a desconfiança entre os gêneros e normalizam comportamentos abusivos em relacionamentos. Ao apresentar a igualdade de gênero como um jogo de soma zero onde os homens perdem, eles não apenas prejudicam as mulheres, mas também os próprios homens, aprisionando-os em ideais de masculinidade rígidos e nocivos que estão associados a maiores taxas de depressão, suicídio e comportamentos de risco.
Os Impactos Também Atingem os Homens
A misoginia e a desigualdade de gênero também são prejudiciais para os homens, não apenas para as mulheres. Segundo dados globais da Equimundo, homens com atitudes rígidas sobre gênero são mais propensos a comportamentos nocivos, como uso abusivo de substâncias e comportamentos de risco. Também têm maiores índices de depressão e pensamentos suicidas.
Os estereótipos sobre homens na machosfera formam um ciclo vicioso. Quando meninos e homens não são incentivados a falar sobre emoções ou dificuldades, acabam recorrendo a essas comunidades online para buscar conselhos sobre relacionamentos, paternidade, ansiedade e saúde sexual. A pesquisa da Fundação Movember revelou que jovens homens que interagem ativamente com influenciadores da masculinidade relataram níveis mais altos de desvalorização pessoal e nervosismo, tinham maior tendência a usar suplementos para performance e a treinar mesmo lesionados, eram menos propensos a priorizar a saúde mental e valorizavam mais a riqueza e a popularidade entre amigos homens.
Ideológias Masculinistas – O Ecossistema da Machosfera
Embora esta reportagem tenha focado principalmente nos redpills, incels e na pílula preta, é importante entender que esses movimentos fazem parte de um ecossistema maior de comunidades masculinistas que compartilham uma base ideológica comum de misoginia e oposição ao feminismo.
Ativistas dos Direitos dos Homens (MRAs)
Os Men’s Rights Activists (MRAs) utilizam uma linguagem mais acadêmica para afirmar que o feminismo e os direitos das mulheres, como o voto, a educação e os cargos de liderança, prejudicam os homens. Eles alegam que a sociedade é “ginocêntrica”, ou seja, dominada por interesses femininos, e que os homens são as verdadeiras vítimas da desigualdade de gênero.
Pick Up Artists (PUAs)
Os Pick Up Artists ensinam técnicas para coagir mulheres a fazer sexo, ridicularizando o conceito de consentimento sexual. Eles tratam as interações românticas como um jogo a ser vencido através de manipulação psicológica e táticas de pressão.
Movimento MGTOW
O movimento Men Going Their Own Way (Homens Seguindo Seu Próprio Caminho) sustenta que a sociedade está contra os homens e que a melhor opção é evitar mulheres e até a própria sociedade. Embora se apresentem como um movimento de independência masculina, na prática promovem o ressentimento e o isolamento.
| Movimento | Foco Principal | Estratégia | Nível de Radicalização |
| Red Pill | Autoaperfeiçoamento masculino e controle sobre mulheres | Tornar-se “alfa” através de manipulação e domínio | Moderado |
| Incels | Frustração sexual e vitimização | Comunidade de ressentimento e culpabilização das mulheres | Alto |
| Black Pill | Determinismo genético e niilismo | Desistência ou violência extrema | Extremo |
| MRAs | “Direitos dos homens” e oposição ao feminismo | Linguagem acadêmica e ativismo político | Moderado |
| PUAs | Conquista sexual através de coerção | Técnicas de manipulação e pressão | Moderado |
| MGTOW | Separatismo masculino | Evitar mulheres e sociedade | Moderado a Alto |
Por Que Jovens Homens São Atraídos?
Compreender por que jovens homens são atraídos para esses movimentos é fundamental para desenvolver estratégias eficazes de prevenção. O conteúdo extremo da machosfera atrai especialmente jovens que se sentem isolados. De acordo com o relatório “State of American Men 2023” do grupo de pesquisa Equimundo, parceiro da ONU Mulheres, dois terços dos jovens homens dizem que “ninguém realmente me conhece”.
É natural buscar comunidade nos espaços digitais. Muitas pessoas constroem sua identidade, cultivam interesses e encontram afinidades online. Jovens homens muitas vezes descobrem influenciadores da machosfera ao procurar dicas sobre boa forma, namoro ou criptomoedas. Na pesquisa da Fundação Movember, muitos afirmaram que o conteúdo era “motivador” ou “divertido”.
Os autoproclamados coaches de estilo de vida da machosfera conquistam os jovens alegando ensinar responsabilidade pessoal. No entanto, ironicamente, em vez de incentivar a autoexploração necessária para enfrentar os verdadeiros desafios masculinos, eles sugerem que os homens são vítimas de uma “misandria”, ou seja, preconceito contra os homens.
O relatório do Secretário-Geral da ONU aponta que a expansão da machosfera coincide com um conservadorismo crescente entre jovens homens, que passam a ver os esforços pela igualdade de gênero como formas de discriminação contra os homens. Em um estudo da ONU Mulheres e da Unstereotype Alliance, homens mais jovens mostraram-se mais propensos do que os mais velhos a sustentar visões estereotipadas sobre os papéis de gênero.
A Normalização da Violência e a Erotização Infantil
Questionada se essa ideologia contribui para a normalização do estupro de vulneráveis e para a erotização de meninas, a resposta da delegada é categórica: “Sim, sem dúvida alguma. Quando eu submeto a mulher (criança e adolescente) a rituais de humilhação, automutilação e o tempo todo profiro discurso de ódio, essa influência é muito presente sim.”
A lógica é perversa: ao submeter a vítima a rituais de humilhação e automutilação, e ao bombardeá-la constantemente com discursos de ódio, a violência se torna o padrão de interação. A resistência da vítima é quebrada, e o abuso é apresentado como uma consequência natural e inevitável da suposta inferioridade feminina.
O processo de aliciamento e abuso frequentemente segue um padrão identificável:
- Identificação e Aliciamento: O agressor identifica uma vítima vulnerável em redes sociais ou jogos online. A interação inicial pode ser amigável, criando um falso senso de segurança no que se convencionou chamar de “web namoro”.
– - Obtenção de Material Íntimo: Uma vez estabelecida a confiança, o agressor convence a vítima a enviar fotos ou vídeos de natureza íntima.
– - Ameaça e Chantagem (Sextorsão): De posse do material, o agressor muda de comportamento e passa a ameaçar a vítima, exigindo mais imagens, dinheiro ou a realização de atos humilhantes sob a ameaça de divulgar o conteúdo para amigos e familiares.
– - Escalada do Abuso: O controle se intensifica. O agressor pode exigir que a vítima se isole, controle suas redes sociais e a submeta a rituais de violência física e psicológica, como a automutilação, consolidando seu domínio.
Este ciclo é alimentado diretamente pela ideologia redpill, que legitima o controle coercitivo e a objetificação como direitos masculinos. Os agressores, muitas vezes adolescentes, “sequer sabem o que dizem, apenas sabem que aquilo lhes dá guarida, dado o engajamento, e se assim se comportarem terão pertencimento em servidores e grupos”, pontua a delegada.
A violência se torna uma moeda de troca para ganhar status e reconhecimento dentro da comunidade misógina. “Eles legitimam a própria conduta como forma de pertencimento e também para subir hierarquicamente nos servidores ou ‘panelas'”, completa.
O Papel das Plataformas Digitais e a Resposta Legislativa
O crescimento exponencial desses grupos de ódio não seria possível sem a arquitetura das modernas plataformas digitais. Os algoritmos, projetados para maximizar o engajamento, acabam por recompensar conteúdos provocativos e extremistas. Como aponta um artigo da Deutsche Welle, “os algoritmos usados pelo YouTube e TikTok recompensam conteúdos provocativos, incluindo retórica antifeminista. Muitos influenciadores red pill exploram deliberadamente esse sistema, combinando dicas de autoaperfeiçoamento com mensagens misóginas, o que lhes permite ampliar o alcance entre o público jovem”.
Isso cria um ciclo vicioso: quanto mais extremista o conteúdo, maior o engajamento e, consequentemente, maior sua disseminação. A delegada observa que o problema está em constante expansão.
“No início das nossas investigações, por exemplo, só havia 5 ou 6 servidores que nos demandavam atenção. Hoje são dezenas.” Essa proliferação torna o trabalho de monitoramento e investigação extremamente complexo.
Avanços Legislativos no Brasil
No que tange à legislação, a delegada acredita que houve avanços significativos. “Não vejo omissão com relação às tipificações penais, por exemplo. Avançamos muito no que tange à legislação.” Nos últimos anos, o Brasil tem aprimorado seu arcabouço jurídico para lidar com crimes digitais e violência de gênero. Algumas das principais legislações incluem:
| Legislação | Descrição e Penas |
| Lei nº 14.132/2021 – Crime de Perseguição (Stalking) | Trata-se da perseguição sistemática, originada tanto no contexto online quanto no digital, especialmente quando há obsessão e vigilância constante sobre a vítima, com impactos diretos em sua saúde mental, sofrimento psicológico ou restrição da liberdade da vítima. A pena para o crime é de 6 meses a 2 anos, e a multa pode aumentar se a vítima for menor de idade. |
| Lei Carolina Dieckmann (Lei nº 12.737/2012) | Foi o primeiro grande avanço legal contra crimes cometidos digitalmente e criminaliza a invasão de computadores, celulares e outros aparelhos, com ou sem violação de senhas, com o objetivo de obter, alterar ou destruir dados sem autorização do titular. A detenção é de 3 meses a 1 ano e multa, podendo se agravar caso haja comercialização ou transmissão dos dados obtidos ilegalmente. |
| Lei nº 14.155/2021 – Estelionato e Fraude Eletrônica | Essa lei alterou o Código Penal para agravar penas em casos de fraudes eletrônicas, como golpes de phishing, clonagem de WhatsApp ou fraudes bancárias via aplicativos de mensagens. Pena: 4 a 8 anos de reclusão + multa, se houver uso de dispositivos eletrônicos. |
| Lei nº 13.718/2018 – Importunação Sexual e Divulgação de Cena de Estupro | Tipifica a importunação sexual como crime e criminaliza a divulgação não autorizada de imagens de nudez ou ato sexual (pornografia de vingança). Pena: 1 a 5 anos de reclusão para importunação sexual, e 1 a 5 anos de reclusão para divulgação de cena de estupro ou de sexo. |
| Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) | Considerada a “Constituição da Internet brasileira”, o Marco Civil estabelece direitos e deveres no uso da rede, como a liberdade de expressão e a privacidade dos usuários. O dispositivo também traz responsabilidade aos provedores do espaço virtual, criando obrigações de manter logs de acesso por períodos determinados e remoção de conteúdos ofensivos ou ilícitos mediante ordem judicial (com exceção de pornografia de vingança). |
Além dessas leis específicas, o Código Penal brasileiro já prevê crimes que, embora tenham sido pensados para o mundo físico, são plenamente aplicáveis ao universo digital. Isso se aplica a situações de calúnia, injúria e difamação (arts. 138 a 140), ameaça (art. 147) e incitação ao crime e apologia à violência (arts. 286 e 287). Penas para crimes que envolvam agressões verbais, insultos públicos, propagação de discursos de ódio e humilhação virtual podem ultrapassar os cinco anos de detenção e multas proporcionais à gravidade da situação
Sinais de Alerta para Pais e Educadores
Como, então, identificar se um jovem está sendo seduzido por esse discurso de ódio? A delegada aponta para mudanças comportamentais claras. Os primeiros sinais são o isolamento e a mudança brusca de comportamento. O adolescente pode se afastar de amigos e familiares, passando cada vez mais tempo trancado no quarto, imerso no ambiente digital.
Outro indicador importante é a alteração no discurso e o uso de novas palavras. O jovem pode começar a usar jargões da manosfera (como “alfa”, “beta”, “hipergamia”, “mulher de baixo valor”) e a expressar opiniões misóginas que antes não possuía. A hostilidade direcionada a figuras femininas da família, como a mãe ou irmãs, também pode ser um sinal de alerta.
À pergunta “Cadê os pais desses meninos?”, a resposta da delegada é direta: “Famílias desestruturadas e desconectadas”. A falta de diálogo e de supervisão parental cria um vácuo que é preenchido por influenciadores e comunidades online. É imperativo que os pais estejam presentes, conversem com seus filhos sobre suas vidas online e monitorem os conteúdos que eles consomem.
Estratégias de Prevenção e Intervenção
| Ação | Descrição |
| Diálogo Aberto | Criar um ambiente seguro para que os jovens possam falar sobre suas experiências online, medos e frustrações sem julgamento. |
| Educação Midiática | Ensinar os jovens a identificar notícias falsas, discursos de ódio e manipulação online. Promover o pensamento crítico sobre os conteúdos consumidos. |
| Monitoramento Ativo | Acompanhar as redes sociais e os jogos dos filhos, conhecendo os ambientes que eles frequentam e as pessoas com quem interagem. |
| Estabelecer Limites | Definir regras claras sobre o tempo de uso de telas e os tipos de conteúdo permitidos. |
| Buscar Ajuda Profissional | Ao identificar sinais de adesão a ideologias extremistas, não hesitar em procurar psicólogos, terapeutas ou conselheiros especializados. |
| Educação sobre Consentimento e Respeito | Conversar sobre relacionamentos saudáveis, consentimento, respeito mútuo e igualdade de gênero desde cedo. |
O Fenômeno Global e a Adaptação Cultural
A ideologia red pill tornou-se um fenômeno global, adaptando-se a diferentes contextos culturais e sociais. No Brasil, o influenciador Thiago Schutz, conhecido como “calvo do Campari”, conquistou centenas de milhares de seguidores aconselhando homens a “se darem valor” e se relacionar apenas com mulheres abaixo dos 30 e sem filhos, por exemplo.
Ele se tornou ainda mais conhecido após ter sido denunciado por fazer ameaças de morte contra uma atriz que publicou vídeos de humor satirizando frases ditas pelo coach.
Pesquisadores apontam para questões estruturais que podem ter contribuído para sua ascensão. Desde 2010, os debates sobre igualdade de gênero no Brasil se tornaram cada vez mais politizados e foram excluídos das escolas, ficando a cargo de influenciadores explorar o tema, muitas vezes associando conteúdos red pill a valores morais tradicionais.
No Oriente Médio, os incels muçulmanos conhecidos como “mincels” também debatem papéis de gênero nas redes. O movimento red pill também provou ser diversificado e regionalmente adaptável. A pesquisadora Vildan Aytekin, da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, tem acompanhado os incels muçulmanos. Nas sociedades muçulmanas, as hierarquias de atratividade influenciadas pelo Ocidente são substituídas por conceitos de “espiritualidade e masculinidade”.
A feminilidade é idealizada, não para criar igualdade, mas para legitimar papéis tradicionais com base religiosa. “As causas de muitas das frustrações expressas na esfera incel são atribuídas aqui a um estilo de vida ocidental ‘equivocado’, fortemente influenciado pelo hedonismo e pelo niilismo”, disse Aytekin.
Um estudo de 2022 publicado por Sahar Ghumkhor e Hizer Mir na revista ReOrient também descreve como surgiu uma machosfera muçulmana. Entre os exemplos estão figuras como o pregador online Daniel Haqiqatjou e o autor Nabeel Aziz, que flertam com termos como “Sharia branca”. Eles combinam narrativas antifeministas com argumentos religiosos, uma mistura de subculturas ocidentais e correntes tradicionalistas do Islã.
A Diversidade de Símbolos e Ideologias
Quando questionada sobre o uso de símbolos nazistas por esses grupos, a delegada responde: “tem de tudo. Satanista, niilista. Eles nem sabem o que são.” Essa mistura eclética de símbolos e ideologias revela a natureza caótica e oportunista desses movimentos. Os jovens adotam símbolos e discursos que lhes conferem uma sensação de poder e transgressão, muitas vezes sem compreender plenamente seu significado histórico ou filosófico.
Essa apropriação indiscriminada de símbolos extremistas serve a múltiplos propósitos. Primeiro, funciona como um mecanismo de choque, provocando reações e atraindo atenção. Segundo, cria uma identidade de grupo, diferenciando os membros da comunidade do restante da sociedade. Terceiro, sinaliza uma rejeição total das normas sociais estabelecidas, posicionando o grupo como uma contracultura radical.
No entanto, essa aparente diversidade ideológica não deve obscurecer o núcleo comum desses movimentos: a misoginia e a crença na supremacia masculina. Sejam eles satanistas, niilistas ou nazistas, o fio condutor é sempre o ódio às mulheres e a busca pelo controle e dominação.
A Resposta das Autoridades e os Desafios da Investigação
A delegada entrevistada está na linha de frente do combate a esses crimes, como explicado acima, e seu relato revela os desafios e os riscos enfrentados pelas autoridades. “Esses meninos estão muito muito contrariados que uma mulher os investiga. Já fui ameaçada inúmeras vezes, inclusive minha família. E, a última agora é que eles mandam as vítimas se cortarem com meu nome. Matam gatos e me dedicam. Me marcam no insta.”
Essas ameaças não são meras bravatas. Elas representam uma tentativa deliberada de intimidar e silenciar a investigação. O fato de que a investigadora é uma mulher adiciona uma camada extra de ódio e ressentimento, desafiando diretamente a visão de mundo desses grupos, que pregam a inferioridade feminina. A violência direcionada à delegada e à sua família é uma extensão da mesma lógica que vitimiza mulheres e crianças nos crimes que ela investiga.
As autoridades brasileiras têm adotado estratégias inovadoras para combater esses crimes. Policiais e promotores de diferentes regiões do Brasil estão se infiltrando em comunidades online para combater crimes brutais contra menores de idade. Essas operações de inteligência são complexas e arriscadas, exigindo conhecimento técnico, compreensão da cultura digital e coragem para enfrentar ameaças constantes.
No entanto, a escala do problema é assustadora. Como a delegada observa, o número de servidores e grupos que demandam atenção cresceu exponencialmente.
“No início das nossas investigações, por exemplo, só havia 5 ou 6 servidores que nos demandavam atenção. Hoje são dezenas.” Esse crescimento reflete não apenas a popularização da ideologia redpill, mas também a facilidade com que novos grupos podem ser criados e disseminados nas plataformas digitais.
O Desafio da Conscientização
No entanto, o desafio não é apenas legal, mas também de conscientização. “O problema é que muitos desconhecem a proporção que isso está tomando”, lamenta a delegada. A minissérie Adolescência, da Netflix, segundo ela, teve um “papel extraordinário no quesito alertar para o problema”, fazendo com que a imprensa e a sociedade finalmente olhassem para uma realidade que as autoridades enfrentam desde 2019/2020. “Sim, há muitos pontos em comum com as questões que enfrentamos por aqui”, afirma.
O Papel das Plataformas Digitais
As plataformas digitais precisam assumir maior responsabilidade na moderação de conteúdo e na reforma de seus algoritmos. Os algoritmos atuais, projetados para maximizar o engajamento, acabam por promover conteúdos extremistas. É necessário desenvolver algoritmos que priorizem a qualidade e a veracidade da informação, em vez de simplesmente recompensar o que gera mais cliques e compartilhamentos.
Além disso, as plataformas devem investir em equipes de moderação capazes de identificar e remover rapidamente conteúdos que incitem à violência, ao ódio ou à exploração de menores. A cooperação com as autoridades também é essencial, fornecendo informações que auxiliem nas investigações de crimes cibernéticos.
O Papel das Famílias
Como enfatizado pela delegada, famílias desestruturadas e desconectadas são um fator de risco para a adesão de jovens a ideologias extremistas. Os pais precisam estar presentes na vida digital de seus filhos, não como vigilantes autoritários, mas como guias e interlocutores. O diálogo aberto, o estabelecimento de limites claros e o monitoramento ativo são estratégias essenciais.
É importante que os pais não subestimem o impacto do ambiente online. A internet não é um espaço separado da “vida real”; ela é uma extensão da vida dos jovens, onde eles formam identidades, constroem relacionamentos e são expostos a influências que podem ser tanto positivas quanto negativas.
O Que Pode Ser Feito?
Diante da gravidade e da complexidade do problema, especialistas e organizações internacionais têm proposto uma série de abordagens para combater a radicalização na machosfera.
Abordagem de Saúde Mental
Ao invés de abordagens focadas exclusivamente em violência e terrorismo, especialistas argumentam que a melhor resposta ao fenômeno incel passa pela saúde mental. Andrew Thomas, coautor de uma pesquisa com 151 incels na Universidade de Swansea, afirma que “nossas descobertas destacam a importância do apoio personalizado à saúde mental dos incels, pois eles parecem ter erros de pensamento específicos sobre os relacionamentos sexuais que podem afetar seus relacionamentos interpessoais”. Para o pesquisador, terapias especializadas podem “interromper o viés de confirmação que alimenta crenças tóxicas” dos incels.
Criação de Espaços Alternativos
Os autores do relatório para a União Europeia recomendam o desenho de programas que possam alcançar os incels na internet e a criação de espaços alternativos voltados ao público masculino. O relatório explica que “de muitas maneiras, a comunidade incel funciona como um grupo de apoio emocional online” e que “faltam espaços alternativos online para que homens e meninos se envolvam em discussões sobre relacionamentos sexuais, namoro, rejeição e vergonha”.
Educação Midiática e Alfabetização Digital
É fundamental investir em educação midiática para jovens, ensinando-os a identificar conteúdo extremista, a reconhecer técnicas de manipulação e a desenvolver pensamento crítico sobre as mensagens que consomem online. Escolas e famílias precisam estar atentas aos sinais de radicalização e criar ambientes onde jovens se sintam confortáveis para discutir suas dúvidas e inseguranças.
Responsabilização das Plataformas Digitais
As plataformas de redes sociais têm uma responsabilidade crucial no combate à disseminação de conteúdo de ódio. Os algoritmos que recomendam conteúdo progressivamente mais extremo precisam ser reformulados. As empresas precisam investir em moderação eficaz e em mecanismos que interrompam a radicalização, em vez de alimentá-la em nome do engajamento.
Promoção de Masculinidades Saudáveis
É necessário promover discussões abertas e saudáveis sobre masculinidade, criando modelos alternativos que não se baseiem em dominação, controle emocional e violência. Homens precisam de espaços seguros para discutir suas vulnerabilidades, medos e dificuldades sem serem ridicularizados ou empurrados para ideologias extremistas.
Como Lidar?
Redpills, incels e a filosofia niilista da pílula preta não são apenas grupos isolados de homens frustrados. Eles compõem um ecossistema interconectado e em expansão que funciona como uma verdadeira fábrica de ódio, com a misoginia como matéria-prima e a violência como produto final. A progressão da pílula vermelha para a preta revela um caminho de radicalização que transforma o ressentimento pessoal em uma ideologia de extermínio, com as mulheres como alvo principal.
As consequências dessa radicalização já são visíveis e trágicas, desde o assédio online que silencia e traumatiza mulheres até os ataques terroristas que ceifam vidas. O desafio de combater a machosfera é complexo e exige uma resposta de toda a sociedade. É preciso investir em educação midiática para jovens, promover discussões abertas e saudáveis sobre masculinidade, pressionar as plataformas digitais a combaterem a disseminação de conteúdo de ódio e, acima de tudo, reafirmar continuamente o compromisso com a igualdade de gênero como um valor fundamental e inegociável.
Ignorar essa ameaça crescente não é uma opção, pois o custo desse silêncio é pago com a segurança, a liberdade e a vida das mulheres. A luta contra a machosfera é, em última análise, uma luta pela dignidade humana, pela igualdade e por uma sociedade onde todas as pessoas, independentemente de gênero, possam viver livres de violência e opressão.
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