O Perigo das Redes Sociais

Rede 764: Crueldade e Extremismo

Investigação expõe a rede extremista 764, que explora adolescentes por meio de manipulação psicológica, violência digital, sadismo e coerção em plataformas online

Rede 764 – Em um canto obscuro da internet, longe da supervisão de pais e das proteções convencionais da sociedade, uma estrutura de violência está se metastatizando. Conhecida pelas autoridades como rede 764, esta organização transnacional não comercializa drogas ou armas, mas sim a dor humana.

Seus membros, muitos dos quais são adolescentes, operam em plataformas como Discord e Telegram, caçando ativamente outros jovens, explorando suas inseguranças mais profundas e coagindo-os a atos de automutilação, abuso sexual e crueldade contra animais. Tudo é gravado, compartilhado e celebrado, transformando o sofrimento em uma forma de capital social dentro de sua cultura niilista.

O FBI tem mais de 350 investigações em andamento sobre indivíduos ligados à 764 e suas afiliadas, com dezenas de prisões já efetuadas. Mas prender seus membros é apenas uma parte da batalha. Para compreender verdadeiramente a ameaça representada pela 764, é necessário examinar as mentes por trás dela.

Este não é um extremismo comum, impulsionado por uma ideologia política ou religiosa coesa. É um fenômeno enraizado em uma psicologia perturbadora, onde a falta de empatia se encontra com o desejo de infligir dor. Entenda o perfil psicológico e criminal dos membros da 764, analisando as bases neurocientíficas e psiquiátricas que sustentam seu comportamento e os métodos que usam para perpetuar um ciclo de abuso que se espalha globalmente, com o Brasil figurando como um dos epicentros de sua atividade violenta.

A Arquitetura da Malevolência: A Rede 764

A rede 764 surgiu em 2020, criada por Bradley Cadenhead, um adolescente de 15 anos do Texas. O nome, derivado dos primeiros dígitos de seu código postal, deu uma identidade a um movimento que rapidamente transcendeu sua origem geográfica. O que começou como um grupo singular logo se transformou em uma ideologia descentralizada, uma espécie de “marca” para um tipo específico de extremismo violento niilista (NVE), conforme classificado pelas agências de aplicação da lei. Essa estrutura fragmentada, com subgrupos como a rede 8884, permite que ela opere com agilidade e resiliência, tornando a sua erradicação uma tarefa extraordinariamente complexa.

A ideologia da 764 é um amálgama de filosofias destrutivas. Seus membros abraçam o aceleracionismo, a crença de que a sociedade moderna deve ser destruída para que uma nova ordem possa surgir. No entanto, ao contrário de outros grupos aceleracionistas, seu objetivo não é uma utopia política, mas uma distopia darwiniana baseada na “sobrevivência do mais apto”.

Justin Sher, um advogado da Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça dos EUA, descreveu o objetivo da rede como “causar a queda da sociedade, causar a queda do governo dos EUA”. Para atingir esse fim, eles utilizam uma simbologia que mistura imagens nazistas e satanistas, não necessariamente por uma crença devota em qualquer uma dessas doutrinas, mas pelo seu valor de choque e pela sua associação histórica com a transgressão e a violência.

Essa base ideológica serve como justificativa para o seu método principal: a corrupção da inocência. A rede não busca converter adultos para sua causa, mas sim moldar mentes jovens e impressionáveis. Eles se infiltram em espaços online onde adolescentes vulneráveis se reúnem, como fóruns sobre depressão, transtornos alimentares e automutilação. Lá, eles encontram seus alvos, iniciando um processo metódico de manipulação psicológica que explora as fragilidades inerentes ao cérebro adolescente.

O Manual do Predador: A Psicologia do Aliciamento e da Coerção

O processo de recrutamento e exploração da Rede 764 é um exemplo clínico de aliciamento (grooming) e controle coercitivo. Não é um ataque impulsivo, mas uma campanha calculada que se desenrola em fases distintas, cada uma projetada para quebrar a resistência da vítima e garantir sua conformidade. O primeiro passo é a identificação. Os predadores da Rede 764 são adeptos a identificar sinais de vulnerabilidade. Um adolescente que posta sobre solidão, ansiedade social ou conflitos familiares torna-se um alvo principal. Eles entendem a psicologia do adolescente, a necessidade de pertencimento e validação, e usam esse conhecimento como uma arma.

Uma vez que um alvo é selecionado, o predador inicia a fase de construção de relacionamento. Eles podem se apresentar como um amigo compreensivo, um interesse romântico ou um mentor que entende a dor da vítima. Esta fase é crucial, pois estabelece um vínculo de confiança que será explorado mais tarde.

O predador espelha os interesses da vítima, valida seus sentimentos e oferece um senso de exclusividade e segredo, isolando-a de suas redes de apoio existentes, como família e amigos. Do ponto de vista psicológico, isso cria uma dependência emocional, onde a vítima começa a ver o predador como sua única fonte de conforto e compreensão.

Com a confiança estabelecida, a exploração começa. O predador solicita informações privadas, fotos ou vídeos íntimos. Inicialmente, o pedido pode parecer inofensivo, mas cada ato de conformidade testa os limites da vítima e aprofunda o controle do agressor.

Este material se torna a munição para a fase de coerção. A ameaça de expor os segredos da vítima para sua família, escola ou comunidade online é uma ferramenta potente. Para um adolescente, cuja identidade social e reputação são extremamente importantes, a perspectiva de humilhação pública é aterrorizante. É neste ponto que a dinâmica de poder se inverte completamente, e a vítima se torna um peão no jogo do predador.

A escalada do abuso é gradual e sistemática. O que começa com um pedido de uma foto pode evoluir para uma exigência de automutilação leve, depois para atos mais severos, e finalmente para a coerção para cometer violência contra outros ou contra si mesmo. Cada ato é gravado. Dentro da cultura da Rede 764, “conteúdo é moeda”. Esses vídeos de sofrimento são compartilhados para ganhar status, provar lealdade e recrutar novos membros. O agressor não está apenas satisfazendo um impulso pessoal; ele está participando de uma economia de crueldade, onde sua posição na hierarquia é determinada pela gravidade do abuso que ele pode extrair de suas vítimas.

“Cameron Finnigan se declarou culpado de incitação ao suicídio, posse de um manual de terrorismo e imagens indecentes de uma criança” https://www.bbc.com/portuguese/articles/crkee6zrrppo

O caso de “Jenna”, uma adolescente australiana, ilustra perfeitamente este manual. Durante dois anos, ela foi sistematicamente abusada por membros da Rede 764, uma adolescente australiana, ilustra perfeitamente este manual. Eles a coagiram a se automutilar em vídeo, com exigências de que os cortes fossem “mais profundos, piores”. Quando ela finalmente se recusou a obedecer a uma ordem para matar o gato da família em uma transmissão ao vivo, a rede retaliou usando uma tática conhecida como “swatting”, fazendo uma denúncia falsa à polícia que resultou em uma incursão armada na casa de sua família. A experiência de Jenna demonstra como a manipulação psicológica é apoiada por uma ameaça real e aterrorizante de violência no mundo físico.

A Mente do Agressor

Para entender por que um indivíduo, muitas vezes um adolescente, seria compelido a participar de tal crueldade organizada, é preciso ir além da sociologia do extremismo e entrar nos domínios da psiquiatria e da neurociência. O perfil dos membros da Rede 764 aponta para uma confluência de fatores: a neurobiologia do cérebro adolescente, traços de personalidade associados à “Tríade Obscura” (psicopatia, narcisismo e maquiavelismo) e, em particular, o sadismo.

O cérebro adolescente é um terreno fértil para a radicalização. Durante a adolescência, o córtex pré-frontal, a região responsável pelo julgamento, controle de impulsos e tomada de decisões de longo prazo, ainda está em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o sistema límbico, que governa as emoções e o sistema de recompensa, está altamente ativo.

Isso cria um desequilíbrio que torna os adolescentes mais propensos a buscar emoções fortes, a se envolver em comportamentos de risco e a serem altamente influenciados por seus pares. A Rede 764 explora essa vulnerabilidade neurológica, oferecendo um senso de identidade, pertencimento e excitação que pode ser irresistível para um jovem que se sente alienado ou incompreendido.

No entanto, a vulnerabilidade adolescente por si só não explica a crueldade calculada exibida pelos membros da Rede 764. Muitos dos agressores exibem traços consistentes com a psicopatia, um transtorno de personalidade caracterizado por uma profunda falta de empatia, grandiosidade, impulsividade e um charme superficial usado para manipular os outros. Do ponto de vista neurocientífico, estudos de imagem cerebral em indivíduos com alta pontuação em psicopatia revelam uma atividade reduzida em áreas do cérebro associadas à empatia e ao processamento emocional, como o córtex pré-frontal ventromedial, a amígdala e o córtex cingulado anterior.

Essa “fiação” neurológica diferente significa que eles não processam o sofrimento dos outros da mesma forma que um indivíduo neurotípico. A dor de outra pessoa não provoca uma resposta empática; ela é simplesmente registrada como uma informação neutra, ou, no caso do sadismo, como uma fonte de prazer.

O sadismo é o componente que distingue a Rede 764 de muitos outros grupos extremistas. O sadismo é definido como a obtenção de prazer ou gratificação ao infligir dor, sofrimento ou humilhação a outros. Enquanto um psicopata pode ferir alguém para atingir um objetivo sem sentir remorso, um sádico busca ativamente causar sofrimento pelo prazer que isso proporciona. O caso de Alexis Aldair Chavez, o líder de 19 anos da rede 8884, é um exemplo claro de sadismo psicopático.

https://www.univision.com/local/san-antonio-kwex/alexis-aldair-chavez-764-8884-grupo-extremista-violento-menores-san-antonio-texas

Ele admitiu ter matado o gato de sua família e postado o vídeo para “ganhar o direito” de se juntar ao grupo. Este ato não foi apenas um meio para um fim; foi uma demonstração de sua capacidade de crueldade, um rito de passagem para uma cultura que valoriza a violência. Seus atos subsequentes, como forçar uma jovem a atear fogo ao próprio braço em uma videochamada, confirmam um padrão de comportamento onde a dor do outro é o objetivo principal.

A neurociência do sadismo está começando a ser compreendida. Estudos sugerem que, em indivíduos sádicos, a observação do sofrimento de outra pessoa pode ativar os circuitos de recompensa do cérebro, como o núcleo accumbens, que estão associados ao prazer e à motivação. Em vez de ativar os circuitos de empatia, a dor alheia desencadeia uma onda de dopamina, o mesmo neurotransmissor envolvido no vício em drogas e em outros comportamentos de busca de recompensa.

Isso cria um ciclo de reforço poderoso: o ato de crueldade é recompensado com uma sensação de prazer, o que motiva a busca por mais atos de crueldade. A estrutura da 764, com sua economia de “conteúdo” violento, institucionaliza esse ciclo de reforço, criando um ambiente onde o sadismo não é apenas tolerado, mas incentivado e recompensado com status social.

Além disso, a dinâmica de grupo dentro da 764 amplifica essas tendências individuais. Fenômenos psicológicos como a desindividuação (a perda de autoconsciência e responsabilidade individual em um grupo) e a difusão de responsabilidade (a tendência de sentir menos responsabilidade por uma ação quando outros estão presentes) permitem que os membros se envolvam em comportamentos que eles não considerariam sozinhos. O anonimato da internet exacerba esses efeitos, criando uma tempestade perfeita onde jovens vulneráveis e aqueles com predisposições patológicas podem se transformar em predadores.

O perfil das vítimas também é um componente crucial da equação psicológica. A rede visa deliberadamente jovens que já lutam com problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou transtorno de personalidade borderline. Essas condições tornam os indivíduos mais suscetíveis à manipulação. Por exemplo, alguém com depressão pode ter baixa autoestima e um desejo intenso de validação, tornando-os vulneráveis ao charme inicial de um predador.

Alguém com traços de personalidade borderline pode ter um medo intenso de abandono, o que pode ser explorado para manter o controle coercitivo. A rede, portanto, não cria a vulnerabilidade, mas a explora com uma precisão predatória, transformando a dor pré-existente de uma pessoa em uma arma contra ela mesma.

O Perfil Criminal: Das Sombras Digitais ao Banco dos Réus

Traduzir a crueldade digital da Rede 764 em acusações criminais apresenta um conjunto único de desafios para as autoridades. A natureza descentralizada e transnacional da rede significa que uma vítima em um país pode ser atormentada por agressores em vários outros continentes. A jurisdição se torna um quebra-cabeça legal, e a coleta de evidências requer uma cooperação internacional sem precedentes entre agências de aplicação da lei. Além disso, o uso de plataformas criptografadas e o anonimato relativo da internet permitem que os membros operem com um senso de impunidade.

No entanto, as autoridades estão se adaptando. O FBI e o Departamento de Justiça dos EUA têm liderado os esforços para desmantelar a rede, utilizando uma variedade de estatutos federais para construir seus casos. Uma das ferramentas mais eficazes tem sido a Lei RICO (Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act).

Originalmente projetada para combater a máfia, a Lei RICO permite que os promotores processem indivíduos por pertencerem a uma “empresa” criminosa. Ao classificar a Rede 764 e suas afiliadas como empresas criminosas, o DOJ pode acusar os membros não apenas por seus crimes individuais, mas por sua participação na conspiração mais ampla. A condenação de Alexis Aldair Chavez por acusações de RICO foi um marco, estabelecendo um precedente legal de que essas redes online podem ser tratadas com a mesma seriedade que as organizações criminosas tradicionais.

Além da Lei RICO, os promotores têm utilizado uma série de acusações relacionadas à exploração infantil. A produção, distribuição e posse de material de abuso sexual infantil (CSAM) são crimes federais graves. Como a coerção de vítimas para produzir esse material é uma tática central da Rede 764, essas acusações se tornaram a espinha dorsal de muitos processos. O caso de Chavez, que incluiu acusações de distribuição e posse de pornografia infantil, resultou em uma pena mínima obrigatória de cinco anos de prisão apenas por essa acusação, com a possibilidade de uma sentença muito mais longa.

No entanto, existem lacunas na lei que a Rede 764 explora. Como observou Steve Grocki, chefe da Seção de Exploração Infantil e Obscenidade do DOJ, coagir um menor a se automutilar não é um crime federal claramente definido. Isso força os promotores a serem “criativos”, buscando acusações relacionadas, como cyberstalking ou extorsão, para abordar o comportamento. Em resposta a essa lacuna, legisladores nos EUA propuseram novas leis para criminalizar especificamente a coerção online para a automutilação, reconhecendo que a legislação precisa acompanhar a evolução das táticas dos predadores digitais.

Outro desafio significativo é a idade dos agressores. Muitos dos membros da 764 são menores de idade, o que complica a decisão de processar. O sistema de justiça juvenil é focado na reabilitação, não na punição, e há uma relutância geral em submeter adolescentes a acusações federais graves. No entanto, a gravidade dos crimes cometidos pela 764 está forçando uma reavaliação dessa abordagem. Promotores estão “olhando mais atentamente” para a possibilidade de acusar menores como adultos em casos particularmente hediondos, reconhecendo que a idade do agressor não diminui o trauma infligido à vítima.

O perfilamento criminal dos membros da Rede 764 revela um espectro de participação. No topo da hierarquia estão os líderes e administradores, como Chavez, que exibem traços psicopáticos e sádicos claros e são os principais impulsionadores da violência. Abaixo deles estão os membros ativos, que participam da coerção e produzem conteúdo para ganhar status.

Muitos desses indivíduos podem ter sido vítimas antes de se tornarem agressores, presos em um ciclo de abuso onde a participação na violência é vista como uma forma de sobrevivência ou de recuperar um senso de poder. Na base da pirâmide estão os observadores passivos, que consomem o conteúdo violento, mas não participam diretamente de sua criação. Embora possam não ser legalmente culpáveis da mesma forma, seu consumo alimenta a economia de crueldade que sustenta a rede.

O Alcance Global e a Conexão Brasileira

A Rede 764 não é um fenômeno americano. É uma praga digital que se espalhou globalmente, com casos documentados no Reino Unido, Austrália e em toda a Europa. No entanto, um dos desenvolvimentos mais alarmantes é a proeminência do Brasil no ecossistema da Rede 764. De acordo com Michele Prado, uma pesquisadora brasileira de segurança digital que tem monitorado a rede, o Brasil lidera os índices de incidentes violentos associados ao grupo. Isso sugere que um número significativo de jovens brasileiros está sendo recrutado como vítimas e agressores.

Apesar da gravidade da situação, a resposta institucional no Brasil tem sido lenta. Ao contrário dos EUA e do Reino Unido, onde agências federais emitiram alertas públicos, no Brasil ainda não houve um aviso oficial de alto nível sobre a ameaça representada pela Rede 764. Isso cria uma lacuna perigosa de conscientização, deixando pais, educadores e os próprios jovens despreparados para reconhecer e combater as táticas de aliciamento da rede. Organizações como o Núcleo de Pesquisa em Violência Extrema (NUPVE) do Ministério Público do Rio Grande do Sul estão trabalhando para preencher essa lacuna, mas a escala do problema exige uma resposta nacional coordenada.

As razões para a proeminência do Brasil na Rede 764 são complexas e provavelmente envolvem uma combinação de fatores, incluindo altos níveis de acesso à internet entre os jovens, a prevalência de problemas de saúde mental não tratados e possíveis barreiras linguísticas e culturais que podem tornar a detecção por plataformas de tecnologia globais mais difícil. A necessidade de uma investigação aprofundada sobre a dinâmica específica da 764 no Brasil é urgente.

O Cérebro e a Gênese da Crueldade

Para compreender a capacidade dos membros da Rede 764 de infligir sofrimento sem hesitação, é fundamental examinar os mecanismos neurais que governam a empatia. A empatia não é um sentimento único, mas um processo complexo com componentes distintos: a empatia afetiva, que é a capacidade de sentir o que o outro sente, e a empatia cognitiva, que é a capacidade de entender a perspectiva do outro.

Em indivíduos neurotípicos, ver alguém em perigo ativa uma rede de regiões cerebrais, incluindo a ínsula anterior e o córtex cingulado anterior, que são as mesmas áreas ativadas quando sentimos dor em nosso próprio corpo. Essa ressonância neural é a base da empatia afetiva; nós literalmente sentimos um eco da dor do outro. É esse mecanismo que nos impede de causar dano, pois fazê-lo seria, em um nível neural, infligir dor a nós mesmos.

Em indivíduos com altos traços de psicopatia, essa rede de empatia é notavelmente disfuncional. Estudos de neuroimagem funcional (fMRI) mostram que, quando confrontados com imagens de sofrimento, esses indivíduos não exibem a mesma ativação na ínsula e no córtex cingulado. O alarme neural que sinaliza a dor do outro simplesmente não soa, ou soa muito fracamente. Essa deficiência não é uma escolha moral, mas uma diferença fundamental na arquitetura funcional de seus cérebros.

Eles podem ter uma empatia cognitiva intacta, ou seja, eles podem entender intelectualmente que outra pessoa está sofrendo e por quê. Na verdade, essa empatia cognitiva “fria” é uma ferramenta que eles usam para manipular suas vítimas com mais eficácia. Eles sabem quais botões apertar porque entendem as consequências emocionais para o outro, mas não sentem o peso dessas consequências.

O sadismo adiciona outra camada de complexidade a essa paisagem neural. Se a psicopatia é caracterizada pela ausência de uma resposta empática, o sadismo é caracterizado por uma resposta anômala de prazer. Pesquisas indicam que, em indivíduos sádicos, a observação do sofrimento alheio não apenas falha em ativar os circuitos de empatia, mas, em vez disso, ativa o estriado ventral e outras áreas do sistema de recompensa do cérebro.

A dor do outro é processada como uma recompensa, semelhante a comer uma comida saborosa ou ganhar dinheiro. Essa conexão perversa entre o sofrimento alheio e o prazer pessoal é o motor que impulsiona o comportamento da 764. A busca por “conteúdo” violento não é apenas uma busca por status social dentro do grupo; é uma busca neurobiológica por uma onda de dopamina.

O ambiente online amplifica essas predisposições neurais através do que os psicólogos chamam de “efeito de desinibição online”. O anonimato, a invisibilidade e a comunicação assíncrona da internet reduzem as barreiras sociais e psicológicas que normalmente regulam nosso comportamento. Sem o feedback imediato da linguagem corporal e do tom de voz, e protegidos por um pseudônimo, os indivíduos se sentem menos responsáveis por suas ações.

Para alguém com tendências psicopáticas ou sádicas, a internet é o ambiente perfeito. Ela remove as últimas restrições sociais que poderiam inibir seus impulsos, criando um espaço onde eles podem exercer sua crueldade sem consequências imediatas. A 764 não é apenas um produto da internet; ela é uma manifestação de como a arquitetura da internet pode interagir com as vulnerabilidades e patologias da psicologia humana para criar novas formas de violência.

O Ciclo da Vítima ao Agressor: Trauma, Identificação e a Dinâmica Borderline

Um dos aspectos mais perturbadores da rede Rede 764 é a sua capacidade de transformar vítimas em agressores. Este fenômeno não é exclusivo da Rede 764; é visto em muitos contextos de abuso, como gangues e cultos. No entanto, a estrutura da Rede 764 parece otimizada para facilitar essa transição. O processo pode ser entendido através de uma lente que combina a teoria do trauma e a compreensão de certos transtornos de personalidade, em particular o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).

As vítimas da 764 são submetidas a um trauma psicológico intenso e prolongado. O controle coercitivo, a chantagem e a exposição constante à violência criam um estado de estresse crônico que pode ter efeitos profundos no cérebro e na psicologia de um adolescente. O trauma pode levar a sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), como flashbacks, hipervigilância e dissociação. A dissociação, em particular, é um mecanismo de defesa onde a mente se desconecta da realidade para lidar com uma dor avassaladora. Uma vítima pode começar a se sentir como se o abuso estivesse acontecendo com outra pessoa, criando uma distância emocional que permite a sobrevivência.

Nesse estado de trauma e dissociação, a vítima pode começar a se identificar com o agressor. Este fenômeno, conhecido como “identificação com o agressor”, foi descrito pela primeira vez pela psicanalista Sándor Ferenczi. É um mecanismo de defesa desesperado: se a vítima não pode escapar do agressor, ela pode tentar se tornar como ele para recuperar um senso de controle e agência. Ao adotar os comportamentos e a ideologia do agressor, a vítima passa de uma posição de impotência para uma de poder percebido.

Na Rede 764, essa transição é ativamente incentivada. Os membros mais antigos podem oferecer a uma vítima a chance de “subir de nível” participando do abuso de outra pessoa. Para um jovem que foi sistematicamente humilhado e despojado de seu poder, a oferta de se juntar ao lado dos “fortes” pode ser uma proposta sedutora.

As vulnerabilidades pré-existentes das vítimas desempenham um papel crucial nesse processo. A rede visa deliberadamente jovens com problemas de saúde mental, e há uma sobreposição significativa entre os traços explorados e os sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline. O TPB é caracterizado por instabilidade nos relacionamentos, na autoimagem e nos afetos, além de uma impulsividade acentuada. Indivíduos com TPB muitas vezes experimentam um medo intenso de abandono e um sentimento crônico de vazio.

Um predador da Rede 764 pode explorar o medo do abandono para manter o controle, ameaçando cortar o contato se a vítima não obedecer. Eles podem preencher o sentimento de vazio com uma atenção intensa e um senso de propósito, mesmo que esse propósito seja destrutivo.

A raiva e a agressividade também são características comuns no TPB, muitas vezes como uma reação à dor emocional percebida ou à frustração. Embora a agressividade no TPB seja frequentemente autodirigida (na forma de automutilação), ela também pode ser dirigida aos outros. É concebível que, para uma vítima com traços borderline, o trauma do abuso possa exacerbar a desregulação emocional a ponto de a agressividade ser externalizada.

Ao se tornar um agressor, a vítima pode estar, em um nível inconsciente, projetando sua própria dor e raiva em outra pessoa, em uma tentativa desesperada de expurgar seus próprios demônios.

É crucial enfatizar que isso não absolve o agressor de sua responsabilidade. No entanto, reconhecer a complexidade psicológica do ciclo da vítima ao agressor é essencial para desenvolver estratégias de intervenção eficazes. A abordagem não pode ser puramente punitiva. Ela deve incluir uma compreensão profunda do trauma e oferecer um caminho para a reabilitação que aborde as feridas psicológicas subjacentes que levaram à perpetuação do abuso. Sem essa abordagem terapêutica, o ciclo de violência está fadado a continuar.

O Jogo da Violência: Gamificação, Recompensa e a Economia da Crueldade

A estrutura da Rede 764 pode ser vista como uma forma perversa de “gamificação”. A gamificação é o uso de elementos de design de jogos em contextos não lúdicos para engajar os usuários e motivar o comportamento. A 764 utiliza vários desses elementos para criar um sistema viciante que incentiva a escalada da violência. A noção de “conteúdo como moeda” é central para essa economia gamificada. Os atos de crueldade não são apenas atos isolados; eles são conquistas que podem ser documentadas, compartilhadas e trocadas por status e reconhecimento dentro da comunidade.

Existem “níveis” de participação, com acesso a canais de Discord mais exclusivos ou ao círculo íntimo dos líderes sendo concedido àqueles que provam seu valor através de atos de violência cada vez mais extremos. O caso de Chavez, que teve que matar seu gato para “ganhar o direito” de se juntar ao grupo, é um exemplo claro de uma “missão de iniciação”. Essa estrutura cria uma hierarquia clara e um caminho de progressão, que são motivadores poderosos, especialmente para jovens que podem se sentir sem rumo ou sem poder em suas vidas offline.

Esse sistema de gamificação explora diretamente os circuitos de recompensa do cérebro. Cada ato de violência que é reconhecido e celebrado pelo grupo desencadeia uma liberação de dopamina, reforçando o comportamento. A antecipação da recompensa social (status, admiração dos pares) pode ser tão motivadora quanto a recompensa em si. Isso cria um ciclo de compulsão, onde o membro é constantemente levado a buscar o próximo nível de violência para obter a próxima onda de validação e prazer. A natureza competitiva do grupo, onde os membros podem tentar superar uns aos outros em termos de crueldade, acelera ainda mais essa escalada.

O uso de plataformas como o Discord, com seus sistemas de papéis, canais e hierarquias, fornece a infraestrutura perfeita para essa gamificação. Os administradores podem facilmente criar uma estrutura de níveis, concedendo acesso e privilégios com base na participação. A natureza instantânea da comunicação permite um feedback e reforço imediatos, tornando o ciclo de recompensa ainda mais potente.

A Rede 764, portanto, não é apenas uma comunidade de indivíduos com ideias semelhantes; é um sistema cuidadosamente, embora talvez não conscientemente, projetado para fabricar e escalar a violência através da exploração da psicologia humana e da neurobiologia da recompensa.

Implicações para a Psiquiatria Forense e o Perfilamento Criminal

A ascensão de redes como a 764 apresenta novos desafios para a psiquiatria forense e o perfilamento criminal. O perfilador criminal tradicionalmente se baseia em evidências da cena do crime físico e em padrões de comportamento para construir um perfil do agressor. Com crimes que ocorrem inteiramente no espaço digital, a “cena do crime” é um rastro de dados, e o comportamento é mediado por avatares e pseudônimos. Os perfiladores devem agora se tornar fluentes na linguagem e na cultura de diferentes subculturas da internet, entendendo as nuances da comunicação online e as dinâmicas de poder que governam essas comunidades.

O perfil de um membro da Rede 764 é complexo. Não é um único tipo de personalidade, mas um espectro. Em uma extremidade estão os líderes, os “psicopatas sádicos” que são os motores ideológicos e emocionais do grupo. Eles são os mais perigosos e os mais difíceis de reabilitar. No meio estão os seguidores, os “soldados rasos” que podem ter sido atraídos por uma variedade de razões: vulnerabilidade, desejo de pertencimento, ou uma predisposição latente para a agressão que foi ativada pelo grupo. Muitos deles podem ser vítimas e agressores ao mesmo tempo.

Na outra extremidade estão os participantes periféricos, os “voyeurs” que consomem o conteúdo, mas não participam ativamente. Embora possam parecer menos culpados, seu engajamento passivo é o que dá ao conteúdo seu valor e alimenta a economia da crueldade.

Do ponto de vista da psiquiatria forense, a avaliação desses indivíduos é um desafio. É preciso distinguir entre aqueles com transtornos de personalidade profundamente enraizados e aqueles cuja participação é mais situacional. A avaliação de risco, que tenta prever a probabilidade de reincidência, deve levar em conta não apenas a psicologia do indivíduo, mas também seu ambiente digital.

Remover um jovem do grupo 764 pode não ser suficiente se ele simplesmente encontrar outra comunidade online que satisfaça as mesmas necessidades psicológicas. A intervenção deve, portanto, ser dupla: tratar as patologias individuais e, ao mesmo tempo, construir resiliência contra a atração de ideologias extremistas online.

A questão do livre-arbítrio versus determinismo neurobiológico se torna particularmente espinhosa. Até que ponto um adolescente com um córtex pré-frontal subdesenvolvido e uma predisposição neural para a psicopatia é totalmente responsável por suas ações quando colocado em um ambiente online projetado para explorar precisamente essas vulnerabilidades? O sistema legal é amplamente baseado na premissa do livre-arbítrio, mas a neurociência está revelando cada vez mais como nosso comportamento é moldado por forças biológicas fora de nosso controle consciente.

Isso não significa que os agressores não devam ser responsabilizados, mas sugere que a punição por si só pode ser uma resposta inadequada. Uma abordagem que integre a responsabilização legal com a intervenção terapêutica baseada em evidências neurocientíficas é provavelmente a única maneira de quebrar o ciclo de violência.

Era de Desafios

A rede extremista 764 é um sintoma de uma doença mais profunda na nossa sociedade digital. Ela expõe as falhas em nossas redes de segurança social, a inadequação de nossas estruturas legais e nossa falta de compreensão coletiva sobre o impacto da internet no desenvolvimento psicológico dos jovens. A batalha contra a 764 não pode ser vencida apenas pelo FBI ou pelo Departamento de Justiça. Ela requer um esforço concertado de pais, educadores, profissionais de saúde mental, empresas de tecnologia e legisladores.

Os pais e educadores precisam se tornar digitalmente alfabetizados, entendendo os mundos que seus filhos habitam online e aprendendo a reconhecer os sinais de alerta de aliciamento e radicalização. A comunicação aberta e sem julgamento sobre a vida online é a primeira linha de defesa. Os profissionais de saúde mental precisam ser treinados para lidar com as formas de trauma e patologia específicas da era digital.

As empresas de tecnologia têm a responsabilidade de projetar suas plataformas de uma forma que priorize a segurança do usuário sobre o engajamento, e de investir massivamente em moderação proativa para remover conteúdo violento e desmantelar redes como a 764. E os legisladores devem trabalhar para criar leis que sejam ágeis o suficiente para acompanhar o ritmo da mudança tecnológica, garantindo que as autoridades tenham as ferramentas de que precisam para proteger os cidadãos no espaço digital.

O Brasil, como um dos países mais afetados, tem uma necessidade particularmente urgente de agir. Um alerta público nacional, campanhas de conscientização e o investimento em pesquisa sobre a dinâmica local da Rede 764 são passos cruciais. A colaboração entre a Polícia Federal, o Ministério Público e pesquisadores da sociedade civil é essencial para mapear e desmantelar as células brasileiras da rede.

A história da Rede 764 é um aviso. Ela nos mostra que os monstros não vivem apenas em contos de fadas; eles podem viver em nossos laptops e smartphones, se escondendo atrás de avatares e explorando as vulnerabilidades de nossos filhos. Ignorar essa realidade não é mais uma opção. A compreensão da complexa interação entre psicologia, neurociência e tecnologia que alimenta redes como a 764 é o primeiro passo para construir um futuro digital mais seguro e humano.

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