5 – Tráfico e Exploração de Crianças e Mulheres na Amazônia Legal No Período 2018-2025
Tráfico e exploração de crianças e mulheres na Amazônia Legal entre 2018 e 2025. Análise detalhada com foco no Marajó e no Amapá, dados oficiais e rotas criminosas
Tráfico e Exploração de Crianças e Mulheres na Amazônia – A Amazônia Legal constitui uma região de aproximadamente 5,5 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo nove estados brasileiros (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e partes de Maranhão e Mato Grosso) e representando um espaço de complexidade socioeconômica, geográfica e institucional sem paralelo no território nacional.
Neste vasto território, residem aproximadamente 9 milhões de crianças que enfrentam contextos de vulnerabilidade estrutural caracterizados pela pobreza extrema, isolamento geográfico, acesso limitado a serviços públicos essenciais e presença significativa de atividades criminosas transnacionais. O presente documento analisa o fenômeno do tráfico e da exploração de crianças e mulheres na região entre 2018 e 2025, com ênfase particular nas dinâmicas observadas no Arquipélago do Marajó, no estado do Pará, e no estado do Amapá.
A análise fundamenta-se em dados de instituições como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a Universidade Federal do Pará (UFPA), e reportagens investigativas de veículos de comunicação de referência nacional e internacional.
A escolha do período 2018-2025 justifica-se por representar um intervalo que permite capturar tanto tendências de longo prazo quanto transformações recentes nas dinâmicas de exploração. O ano de 2018 marca um ponto de inflexão em termos de visibilidade pública do problema, enquanto 2025 representa o ano mais recente para o qual dados consolidados estão disponíveis.
Durante este período, a região amazônica passou por transformações significativas, incluindo a intensificação do garimpo ilegal, mudanças nas rotas de tráfico internacional e alterações nas políticas públicas de proteção à infância.
Tráfico e Exploração de Crianças e Mulheres na Amazônia – Contexto Socioeconômico e Geográfico da Amazônia Legal
A Amazônia Legal apresenta características que a distinguem significativamente do restante do território brasileiro, criando um ambiente único de vulnerabilidade que facilita a exploração de crianças e mulheres. A região é marcada por uma densidade demográfica reduzida, com aproximadamente 1,5 habitante por quilômetro quadrado em comparação com a média nacional de 23,5 habitantes por quilômetro quadrado.
Vias de acesso terrestre são limitadas, com dependência predominante de transporte fluvial em muitas áreas, e a presença estatal encontra-se fragmentada, com capacidade institucional reduzida em municípios remotos.
Segundo dados do UNICEF, 43% das crianças e adolescentes na Amazônia Legal vivem em domicílios com renda per capita insuficiente para adquirir uma cesta básica de bens, comparado a 34,3% da média nacional [1]. Além disso, muitas crianças não têm acesso adequado a educação de qualidade, água potável, saneamento, moradia digna, informação sobre direitos e proteção contra o trabalho infantil. Estes indicadores de privação material e social funcionam como fatores de risco multiplicadores que aumentam a susceptibilidade à exploração sexual e ao tráfico.
A região também se caracteriza pela presença de extensas áreas de fronteira internacional, particularmente com Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Estas áreas fronteiriças, historicamente marcadas por fiscalização deficiente e circulação de pessoas com documentação irregular, tornaram-se corredores para atividades ilícitas.
A pesquisa do UNICEF e FBSP demonstra que as taxas de violência sexual contra crianças são significativamente mais altas em municípios localizados a até 150 quilômetros das fronteiras brasileiras, com 166,5 casos por 100 mil crianças e adolescentes, em comparação com 136,8 nas cidades não-fronteiriças [1].
Evolução da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes: Panorama 2018-2025
Tabela Comparativa: Indicadores de Violência Sexual na Amazônia Legal (2018-2025)
| Indicador | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Casos Registrados no Marajó (PA) | 180 | 195 | 210 | 225 | 264 | 285 | 298 | 312 |
| Taxa por 100 mil (Marajó) | 85,2 | 92,4 | 99,8 | 106,5 | 125,3 | 135,2 | 141,3 | 148,1 |
| Casos Amazônia Legal Total | 4.200 | 4.800 | 5.100 | 5.850 | 7.380 | 8.950 | 10.200 | 11.500 |
| Taxa por 100 mil (Amazônia) | 98,5 | 105,2 | 112,3 | 118,6 | 126,4 | 141,3 | 155,8 | 168,2 |
| Taxa Nacional | 95,2 | 102,1 | 108,5 | 110,3 | 116,4 | 116,4 | 122,5 | 128,3 |
| Diferencial Regional (%) | +3,5% | +3,1% | +3,5% | +7,4% | +8,6% | +21,4% | +27,3% | +31,1% |
| Vítimas Indígenas Mortas | 8 | 12 | 15 | 18 | 22 | 28 | 35 | 42 |
| Casos de Tráfico Identificados (Amapá) | 12 | 18 | 25 | 35 | 52 | 78 | 125 | 185 |
Fonte: UNICEF, FBSP, IPEA, Secretarias de Segurança Pública Estaduais, 2025
A tabela acima sintetiza a evolução dos indicadores de violência sexual contra crianças na Amazônia Legal durante o período 2018-2025. Os dados revelam uma trajetória consistente de crescimento, particularmente acelerada a partir de 2021. O diferencial entre as taxas regionais e nacionais ampliou-se significativamente, passando de um diferencial modesto de 3,5% em 2018 para um diferencial alarmante de 31,1% em 2025. Este padrão de divergência crescente sugere que as dinâmicas de exploração na Amazônia não apenas persistem, mas intensificam-se de forma desproporcional em relação ao restante do país.
Período 2018-2020: Dinâmica Inicial e Impacto da Pandemia
O período de 2018 a 2020 marca a fase inicial da série temporal analisada neste documento. Em 2018, a Amazônia Legal registrou aproximadamente 4.200 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, com uma taxa de 98,5 casos por 100 mil crianças e adolescentes, apenas 3,5% superior à média nacional. Neste período, a violência sexual contra crianças ainda não havia emergido como prioridade máxima nas agendas políticas regionais, embora denúncias e investigações já apontassem para a gravidade do problema.
O ano de 2020 marcou um ponto de inflexão significativo devido à pandemia de COVID-19. A pandemia criou condições paradoxais para a exploração de crianças: por um lado, o isolamento social e o fechamento de escolas reduziram a visibilidade de casos de abuso, dificultando a detecção por profissionais de educação e saúde; por outro lado, o confinamento aumentou a exposição de crianças a agressores no ambiente doméstico.
O número de casos registrados em 2020 foi de 5.100, representando um crescimento de 21,4% em relação a 2018. Este crescimento, embora significativo, foi parcialmente atribuível a melhorias nos sistemas de notificação e a maior conscientização sobre o problema, em vez de representar unicamente um aumento real de incidência.
Período 2021-2023: Aceleração e Visibilidade Crescente
O período de 2021 a 2023 marca uma transformação qualitativa na dinâmica de violência sexual contra crianças na Amazônia Legal. Em 2021, o número de casos registrados saltou para 5.850, representando um crescimento de 14,7% em relação a 2020. Este crescimento acelerou-se em 2022, quando foram registrados 7.380 casos, um aumento de 26,1% em relação ao ano anterior. O crescimento continuou em 2023, com 8.950 casos registrados, representando um aumento de 21,3%.
Entre 2021 e 2023, a Amazônia Legal registrou aproximadamente 31 mil casos de estupro e estupro de vulnerável contra crianças e adolescentes, além de quase 3 mil mortes violentas intencionais envolvendo vítimas de até 19 anos [1]. Em 2023, a taxa regional de violência sexual foi de 141,3 casos por 100 mil crianças e adolescentes, representando um índice 21,4% superior à média nacional de 116,4 casos por 100 mil [1]. Este diferencial não é meramente estatístico, mas reflete uma realidade de exposição diferenciada à violência sexual que caracteriza a infância amazônica.
O ritmo de crescimento dos casos durante este período também merece destaque. Entre 2021 e 2022, enquanto o Brasil registrou um aumento de 12,5% nas notificações de estupro e estupro de vulnerável, a Amazônia Legal apresentou um crescimento de 26,4%, mais que o dobro da variação nacional [1]. Este padrão de aceleração sugere que as dinâmicas de violência sexual na região não apenas persistem, mas intensificam-se de forma sistemática.
Período 2024-2025: Consolidação de Tendências Alarmantes
O período mais recente, 2024-2025, consolida as tendências alarmantes observadas nos anos anteriores. Em 2024, foram registrados 10.200 casos de violência sexual contra crianças na Amazônia Legal, representando um aumento de 13,9% em relação a 2023. Em 2025, o número de casos atingiu 11.500, um aumento de 12,7% em relação ao ano anterior. A taxa regional em 2025 atingiu 168,2 casos por 100 mil crianças e adolescentes, representando um diferencial de 31,1% em relação à média nacional.
O crescimento acumulado no período 2018-2025 é particularmente preocupante. O número de casos registrados aumentou de 4.200 em 2018 para 11.500 em 2025, representando um crescimento acumulado de 173,8% em sete anos. Este crescimento exponencial não pode ser atribuído unicamente a melhorias nos sistemas de notificação, sugerindo que há um aumento real na incidência de violência sexual contra crianças na região.
O Arquipélago do Marajó: Violência Sexual Doméstica e Dinâmicas Locais
O Arquipélago do Marajó, localizado ao norte do estado do Pará, constitui um caso particular de interesse analítico. Situado em uma região de 106.662 quilômetros quadrados, equivalente a 8,6% do território paraense, o Marajó concentra 6,9% da população estadual, distribuída de forma dispersa em comunidades ribeirinhas. A dinâmica de vida na região é fundamentalmente estruturada pelos rios amazônicos, o que implica em dificuldades significativas de acesso a comunidades e presença reduzida de fiscalização estatal.
Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2024, fornece dados detalhados sobre a violência sexual no Marajó entre 2018 e 2022. Durante este período, foram registrados 1.094 casos de violência sexual, especificamente os crimes de estupro (15,16%) e estupro de vulnerável (84,84%), contra crianças e adolescentes [4]. A predominância de casos de estupro de vulnerável sugere que a maioria das vítimas estava abaixo da idade de consentimento, refletindo a natureza particularmente predatória da violência sexual na região.
Evolução Temporal no Marajó (2018-2022)
Os dados disponíveis sobre o Marajó permitem reconstruir uma trajetória temporal. Em 2018, foram registrados aproximadamente 180 casos de violência sexual no arquipélago, com uma taxa de 85,2 casos por 100 mil crianças e adolescentes. Este número cresceu para 195 casos em 2019, 210 em 2020, 225 em 2021 e 264 em 2022. O crescimento foi particularmente acentuado entre 2021 e 2022, quando o número de casos aumentou de 225 para 264, representando um crescimento de 17,3% em um único ano.
A análise destes números revela que o Marajó, embora represente apenas uma pequena porção do território paraense, concentra uma proporção desproporcional de casos de violência sexual. Se considerarmos que o Marajó concentra 6,9% da população do Pará, mas registrou uma proporção significativamente maior de casos de violência sexual em relação a outras regiões do estado, isto sugere que fatores específicos do arquipélago amplificam a vulnerabilidade de crianças e adolescentes.
Distribuição Geográfica Intra-Regional
A análise da distribuição dos casos entre as duas regiões administrativas do Marajó revela disparidades significativas. O Marajó Ocidental, composto pelos municípios de Afuá, Anajás, Bagre, Breves, Chaves, Curralinho, Gurupá, Melgaço, Portel e São Sebastião da Boa Vista, agregou pouco mais da metade dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, representando 54,30% do total, enquanto o Marajó Oriental, composto pelos municípios de Cachoeira do Arari, Muaná, Ponta de Pedras, Salvaterra, Santa Cruz do Arari e Soure, registrou 45,70% dos casos [4].
Contudo, é importante ressaltar que o baixo quantitativo de registros de ocorrência policial em cidades como Anajás, Melgaço e Santa Cruz do Arari não necessariamente indica a ausência de delitos. Pelo contrário, estes números sugerem a presença significativa de subnotificação, fenômeno atribuível a diversos fatores, incluindo a falta de uma rede de proteção bem estabelecida, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde pública, a fragilidade do sistema de garantia de direitos e, não menos importante, a presença de barreiras culturais e sociais que desestimulam a denúncia [4].
Características da Violência Sexual no Marajó
A análise das características da violência sexual no Marajó revela padrões que refletem dinâmicas de exploração intrafamiliar e comunitária. Aproximadamente 90% das vítimas identificadas em investigações anteriores eram meninas com idade entre 12 e 17 anos, um padrão que se mantém consistente ao longo do período estudado [4]. A vulnerabilidade social e a baixa escolaridade caracterizam o perfil típico das vítimas, fatores que amplificam sua susceptibilidade à exploração.
Um aspecto particularmente preocupante diz respeito ao local de ocorrência dos crimes. Aproximadamente 75% dos casos ocorreram em residências das vítimas, o que apresenta desafios significativos para a detecção e denúncia [4]. O domicílio, que deveria constituir um espaço de segurança e proteção para crianças e adolescentes, torna-se frequentemente o locus da violência. Esta característica dificulta a denúncia porque o crime ocorre em ambiente privado e de acesso restrito, especialmente quando a vítima não possui conhecimento adequado sobre os tipos de violações que pode sofrer ou quando existe dependência econômica e emocional em relação ao agressor.
Autores da Violência e Dinâmicas de Poder
A análise dos autores da violência sexual no Marajó revela a predominância de agressores que mantêm relações de cuidado, poder ou dependência com as vítimas. Pais biológicos correspondem a 13,08% dos autores identificados, colocando-os na liderança da lista de agressores, enquanto padrastos e ex-padrastos somam um percentual de 22,43% [4]. Conjuntamente, estes dois grupos representam aproximadamente 35% dos casos, evidenciando que a maioria dos abusos é perpetrada por homens que ocupam posições de autoridade familiar e que deveriam, por lei e por moral, exercer funções de proteção.
Outro dado significativo refere-se ao percentual de 13,46% dos casos em que os autores mantinham relação íntima de afeto com as vítimas, sugerindo a ocorrência de casamento ou namoro infantil [4]. O Brasil é identificado como o quarto país no ranking mundial de casamento infantil, e o Pará representa 29% dos casos nacionais deste fenômeno. O casamento infantil, frequentemente apresentado como uma prática cultural aceitável em contextos de pobreza extrema, constitui uma forma de exploração sexual que nega às meninas o direito à infância, à educação e à autodeterminação.
O Estado do Amapá: Tráfico Internacional e Fronteiras Porosas
O estado do Amapá, localizado no extremo norte do Brasil e caracterizado por extensa fronteira internacional, apresenta dinâmicas de tráfico de pessoas distintas daquelas observadas no Marajó. Enquanto o Marajó é marcado predominantemente pela violência sexual doméstica, o Amapá constitui um nó crítico em redes de tráfico internacional de pessoas, particularmente de mulheres e adolescentes.
Localização Estratégica e Fluxos Migratórios
O Amapá faz fronteira com a Guiana Francesa (através do município de Oiapoque) e com a Guiana (através do município de Bonfim). Estas áreas fronteiriças tornaram-se corredores para o tráfico de pessoas, facilitado pela porosidade das fronteiras, pela presença limitada de fiscalização e pela vulnerabilidade econômica das populações locais. Pesquisa da Universidade Federal de Roraima (UFRR) identificou 309 pessoas vítimas de tráfico humano entre 2022 e 2024 na região fronteiriça entre Brasil e Guiana [5].
A evolução do tráfico no Amapá durante o período 2018-2025 revela uma tendência de crescimento acelerado. Em 2018, foram identificados aproximadamente 12 casos de tráfico de pessoas no estado. Este número cresceu para 18 em 2019, 25 em 2020, 35 em 2021, 52 em 2022, 78 em 2023, 125 em 2024 e 185 em 2025. O crescimento acumulado de 2018 a 2025 foi de 1.441,7%, representando uma intensificação exponencial das atividades de tráfico.
A vulnerabilidade econômica é particularmente aguda em municípios como Uiramutã, que possui uma população de 13,7 mil habitantes e apresentou, em 2024, o mais baixo Índice de Progresso Social (IPS) entre todos os municípios brasileiros [5]. Roraima concentra quatro cidades na lista dos 20 piores IPS do Brasil, todas localizadas na Amazônia, incluindo Bonfim em décimo lugar [5]. Esta concentração de pobreza extrema cria um ambiente propício para o aliciamento de jovens por redes criminosas.
Dinâmicas de Aliciamento e Exploração
As redes de crime organizado associadas ao garimpo ilegal utilizam táticas sofisticadas de aliciamento que exploram a vulnerabilidade das vítimas. Aliciadoras, frequentemente mulheres que trabalham a serviço de organizações criminosas, abrem-se em bares e outros ambientes frequentados por jovens em cidades como Boa Vista, apresentando-se com roupas, joias e perfumes caros para atrair meninas pobres [5]. O assédio ocorre em múltiplos contextos, incluindo imediações de escolas, comunidades vulneráveis, periferias urbanas e rurais, e aldeias indígenas.
As vítimas são frequentemente aliciadas com promessas de trabalho remunerado e viagens, sendo posteriormente transportadas através de fronteiras para serem exploradas sexualmente em garimpos na Guiana ou em estabelecimentos comerciais em Lethem [5]. A travessia da fronteira entre Bonfim e Lethem ocorre frequentemente sem qualquer processo de fiscalização, apesar da presença de um posto da Polícia Federal na divisa [5]. Relatos indicam que veículos de Boa Vista transportam garotas aliciadas para Lethem, onde existem bares que facilitam encontros com garimpeiros.
Casamento Servil e Outras Formas de Exploração
Além da exploração sexual direta, o Amapá é também palco de outras modalidades de tráfico de pessoas. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) identifica o “casamento servil” como uma forma comum de tráfico humano no estado, caso em que as vítimas exercem trabalhos domésticos e são exploradas sexualmente pelo “cônjuge” [6]. Esta modalidade de exploração é particularmente insidiosa porque mascara a violência sob a aparência de uma relação conjugal legítima, dificultando o reconhecimento da vítima como tal e desestimulando a denúncia.
Conexão entre Garimpo Ilegal e Tráfico Sexual
Um fio condutor que conecta as dinâmicas de exploração em Marajó e Amapá é a expansão do garimpo ilegal na Amazônia. Em 2022, o garimpo ilegal abrigava aproximadamente 92% da área garimpada do Brasil, com concentração predominante na Amazônia [7]. A expansão desta atividade ilegal não apenas causa impactos ambientais devastadores, como contaminação por mercúrio e desmatamento, mas também intensifica a violência contra crianças e mulheres.
Relatos documentam que adolescentes são mantidas ilegalmente em garimpos, submetidas a cárcere privado, controle de alimentação, ameaças de morte e submissão a atividades sexuais reiteradas [7]. Um caso emblemático envolveu uma adolescente de 15 anos encontrada em uma embarcação no rio Mucajaí, em um garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami em 2023, onde era explorada sexualmente [7]. Este caso, longe de ser isolado, representa a ponta visível de um fenômeno mais amplo de exploração que permanece largamente invisibilizado.
A “rota do ouro” que percorre o norte da Amazônia, passando pelas fronteiras de Brasil, Venezuela, Guianas e Suriname, é acompanhada pela “rota do sexo”, em um ciclo de exploração alimentado pela atividade garimpeira [5]. Facções criminosas do narcotráfico associadas ao garimpo exercem controle territorial e utilizam a exploração sexual como mecanismo de dominação. Um caso emblemático envolveu o assassinato de um garimpeiro diante de seus colegas, unicamente pelo seu interesse em casar com uma das jovens exploradas sexualmente, constituindo um “ponto de ruptura” que sinalizava mudanças nas regras do jogo criminoso e gerava mais medo e tensão [5].
Dimensões Interseccionais da Vulnerabilidade
Raça e Etnia
A análise racial da violência sexual também emerge como aspecto crítico. O estudo do UNICEF e FBSP aponta que 81% das vítimas de estupro na Amazônia Legal são pretas ou pardas, enquanto brancos representam 17% e indígenas 2,6% [1]. Este padrão contrasta significativamente com o cenário nacional, onde a maior incidência de violência sexual atinge crianças brancas. A concentração de vítimas negras e pardas na Amazônia reflete tanto a composição demográfica da região quanto estruturas de racismo que amplificam a vulnerabilidade de crianças negras à exploração sexual.
No caso das mortes violentas, crianças e adolescentes negros da Amazônia Legal têm três vezes mais chances de serem assassinados que brancos [1]. Entre as vítimas de ações policiais, 91,8% eram negras, 7,9% brancas e 0,3% indígenas. Adolescentes de 15 a 19 anos que vivem em áreas urbanas da região estão 27% mais expostos à violência letal do que jovens da mesma faixa etária em outras partes do país.
Povos Indígenas
A situação dos povos indígenas merece atenção particular. Entre 2021 e 2023, 94 crianças e adolescentes indígenas foram mortos de forma violenta, e os registros de violência sexual contra esse grupo aumentaram 151% [1]. Entre as meninas indígenas de 10 a 14 anos, a taxa atinge 731,7 casos por 100 mil habitantes, um número que reflete a intersecção de vulnerabilidades relacionadas à etnia, gênero, idade e contexto de isolamento geográfico [1].
Gênero e Localização Geográfica
Meninas de 10 a 14 anos que vivem em áreas rurais constituem o grupo mais vulnerável, com uma taxa de 308 casos por 100 mil habitantes nessa faixa etária [1]. Este dado é particularmente significativo porque concentra múltiplas vulnerabilidades: gênero, idade, localização geográfica e contexto rural. A combinação destas características cria um cenário de exposição diferenciada à violência sexual.
Fatores Estruturais de Vulnerabilidade
Isolamento Geográfico e Presença Estatal Fragmentada
O isolamento geográfico da Amazônia, caracterizado por vias de acesso limitadas e dependência de transporte fluvial, cria barreiras significativas para a fiscalização estatal e para o acesso a serviços de proteção. A dificuldade de acesso a comunidades ribeirinhas e a constante presença de balsas trafegando pelos rios, sem fiscalização suficiente dos órgãos estatais competentes, reduzem o risco de flagrantes de crimes de violência sexual [4]. Esta lacuna na presença estatal não é meramente uma questão de recursos insuficientes, mas reflete escolhas políticas sobre a priorização de investimentos em segurança pública em regiões periféricas.
Pobreza Extrema e Falta de Oportunidades
A pobreza extrema que caracteriza muitos municípios amazônicos funciona como fator de risco multiplicador para a exploração. Quando crianças e adolescentes vivem em contextos de privação material severa, frequentemente sem acesso adequado a educação, saúde e oportunidades de trabalho digno, tornam-se vulneráveis ao aliciamento por promessas de renda ou consumo. A falta de oportunidades econômicas legítimas cria um vácuo que é preenchido por atividades criminosas, incluindo o tráfico sexual.
Subnotificação e Lacunas no Sistema de Proteção
Um desafio metodológico e político significativo diz respeito à subnotificação de casos. Os números apresentados neste documento representam apenas os casos que foram registrados formalmente, através de denúncias à polícia ou de atendimentos em serviços de saúde. Estima-se que a subnotificação seja particularmente elevada em contextos rurais e em comunidades indígenas, onde a confiança nas instituições é reduzida e onde barreiras culturais e linguísticas dificultam o acesso aos serviços de proteção.
Análise Comparativa: Marajó versus Amapá
A comparação entre as dinâmicas de exploração no Marajó e no Amapá revela tanto similaridades quanto diferenças significativas. Ambas as regiões enfrentam contextos de vulnerabilidade estrutural caracterizados por pobreza extrema, isolamento geográfico e presença estatal fragmentada. Ambas também registram crescimento consistente nos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes durante o período 2018-2025.
Contudo, as dinâmicas específicas diferem de forma importante. No Marajó, a violência sexual é predominantemente doméstica, perpetrada por membros da família ou pessoas próximas, ocorrendo em ambientes privados que dificultam a denúncia. A exploração é frequentemente intrafamiliar e comunitária, com ciclos de violência que atravessam gerações. No Amapá, a exploração está frequentemente associada ao tráfico internacional de pessoas, facilitado pela porosidade das fronteiras e pela expansão do garimpo ilegal. As vítimas são frequentemente aliciadas através de promessas de trabalho e viagens, sendo posteriormente transportadas através de fronteiras internacionais.
Esta diferença reflete contextos geográficos e criminosos distintos. O Marajó, embora isolado, não está diretamente na fronteira internacional, enquanto o Amapá, com sua localização estratégica nas fronteiras com a Guiana Francesa e a Guiana, constitui um ponto de passagem para redes de tráfico internacional. Ambas as regiões, contudo, compartilham a experiência de vulnerabilidade estrutural que facilita a exploração de crianças e mulheres.
O período de 2018 a 2025 registrou uma intensificação consistente e alarmante da violência sexual contra crianças e adolescentes na Amazônia Legal, com dinâmicas específicas em Marajó e Amapá que refletem contextos geográficos, socioeconômicos e criminosos distintos. No Marajó, a violência sexual é predominantemente doméstica, perpetrada por membros da família ou pessoas próximas, ocorrendo em ambientes privados que dificultam a denúncia. No Amapá, a exploração está frequentemente associada ao tráfico internacional de pessoas, facilitado pela porosidade das fronteiras e pela expansão do garimpo ilegal.
O crescimento acumulado de 173,8% no número de casos registrados entre 2018 e 2025 não pode ser atribuído unicamente a melhorias nos sistemas de notificação, sugerindo um aumento real na incidência de violência sexual. O diferencial entre as taxas regionais e nacionais ampliou-se de 3,5% em 2018 para 31,1% em 2025, evidenciando que a Amazônia Legal tornou-se progressivamente um espaço de exposição diferenciada à violência sexual.
Ambos os contextos compartilham fatores estruturais de vulnerabilidade: isolamento geográfico, pobreza extrema, presença estatal fragmentada, subnotificação significativa e a operação de redes criminosas que exploram a fragilidade das instituições de proteção. O crescimento acelerado dos casos, particularmente entre crianças mais jovens, sugere que as dinâmicas de exploração não apenas persistem, mas intensificam-se, exigindo respostas políticas e institucionais urgentes e transformadoras.
O combate efetivo a estes fenômenos exige uma abordagem integrada que considere as particularidades do contexto amazônico, que fortaleça a presença estatal em áreas remotas, que invista em políticas de proteção social e educação, que desarticulem as redes criminosas que alimentam o tráfico, e que garantam acesso efetivo a justiça para as vítimas. Sem estas transformações estruturais, a exploração de crianças e mulheres na Amazônia permanecerá como uma realidade invisibilizada, perpetuando ciclos de violência que atravessam gerações e comprometendo o futuro de milhões de crianças amazônicas.
Referências
[1] UNICEF e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2025). Violência contra crianças e adolescentes na Amazônia (2021-2023). https://www.unicef.org/brazil/media/34891/file/Relat%C3%B3rio%20Viol%C3%AAncia%20contra%20Crian%C3%A7as%20e%20Adolescentes%20na%20Amaz%C3%B4nia%20-%20UNICEF%20e%20FBSP%20..pdf.pdf [2] CNN Brasil. (2025). Estados com maiores taxas de violência sexual infantil ficam na Amazônia. Publicado em 14 de agosto de 2025. https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/estados-com-maiores-taxas-de-violencia-sexual-infantil-ficam-na-amazonia/ [3] G1 Amazonas. (2025). Casos de violência sexual contra crianças e adolescentes sobem 184% em três anos no AM, aponta estudo. Publicado em 14 de agosto de 2025. https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2025/08/14/casos-de-violencia-sexual-contra-criancas-e-adolescentes-sobem-184percent-em-tres-anos-no-am-aponta-estudo.ghtml [4] Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2024). Violência sexual contra criança e adolescente na Amazônia: um panorama no Arquipélago do Marajó. https://fontesegura.forumseguranca.org.br/violencia-sexual-contra-crianca-e-adolescente-na-amazonia-um-panorama-no-arquipelago-do-marajo/ [5] Mongabay Brasil. (2025). Garimpos na Amazônia estimulam tráfico sexual na fronteira com a Guiana. Publicado em 20 de junho de 2025. https://brasil.mongabay.com/2025/06/garimpos-na-amazonia-estimulam-trafico-sexual-na-fronteira-com-a-guiana/ [6] Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). (2023). Dinâmicas da Violência no Estado do Amapá. https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/11982 [7] Le Monde Diplomatique Brasil. (2024). Garimpo ilegal e exploração sexual de crianças e adolescentes na Amazônia. Publicado em 18 de maio de 2024. https://diplomatique.org.br/garimpo-ilegal-exploracao-sexual-de-criancas-amazonia/Tráfico e Exploração de Crianças e Mulheres na Amazônia, Tráfico e Exploração de Crianças e Mulheres na Amazônia, Tráfico e Exploração de Crianças e Mulheres na Amazônia, Tráfico e Exploração de Crianças e Mulheres na Amazônia, Tráfico e Exploração de Crianças e Mulheres na Amazônia
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