4 – Tráfico Humano na Fronteira do Paraguai
Investigação revela como o tráfico humano atua na fronteira entre Brasil e Paraguai, explorando crianças e mulheres em meio à pobreza e à omissão estatal.
Tráfico Humano na Fronteira do Paraguai – A fronteira que separa o Paraguai do Brasil é uma das mais movimentadas e porosas do mundo. Mais do que uma simples linha geográfica, ela é um organismo vivo, onde culturas se encontram, economias se entrelaçam e destinos se cruzam. De um lado, o gigante sul-americano, com sua força econômica e seus próprios e vastos problemas sociais.
Do outro, um país menor, de história marcada por guerras e instabilidade política, que busca seu caminho em meio a desafios estruturais. É neste cenário de contrastes, marcado por um intenso fluxo de mercadorias, pessoas e capitais – legais e ilegais – que floresce uma das mais cruéis violações dos direitos humanos: o tráfico de pessoas.

Em uma entrevista exclusiva e reveladora, Jacob Schaafsma, diretor da ONG Gebed en Zending from the Netherlands e especialista holandês que trocou a segurança da Europa pela linha de frente da batalha contra a exploração infantil no Paraguai, através de seu projeto, abre uma janela para este universo.
A conversa, um diálogo que oscila entre a estupefação da jornalista do Direto Aos Fatos diante da brutalidade dos relatos e a serenidade analítica de quem convive diariamente com o horror, desvenda as múltiplas camadas de um problema complexo, onde a ausência do Estado, a corrupção sistêmica e a profunda desagregação do tecido social formam a tempestade perfeita para a proliferação da exploração.
OBS: A matéria a seguir baseia-se nos testemunhos exclusivos e detalhados de algumas fontes do escalão do sistema de Justiça. Por razões de segurança, suas identidades serão mantidas em absoluto sigilo, mas seus relatos constituem o fio condutor desta investigação sobre o trauma, o poder e o silêncio.
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Tráfico Humano na Fronteira do Paraguai – A Isca Digital e a Fragilidade dos Vínculos
O ponto de partida para muitas das vítimas é o ambiente digital, um espaço onde a linha entre o real e o virtual se torna perigosamente tênue. As redes sociais, que deveriam conectar pessoas e encurtar distâncias, são instrumentalizadas por aliciadores como uma ferramenta de caça.
Jacob descreve um método meticuloso e paciente, que se assemelha a uma operação de inteligência. Os criminosos não agem por impulso; eles primeiro identificam e estudam seus alvos, analisando seus perfis, suas postagens, seus círculos de amizade e, principalmente, suas vulnerabilidades. Uma vez mapeado o alvo, inicia-se a fase de aproximação, onde os aliciadores se infiltram em suas vidas como amigos confidentes, oferecendo uma escuta atenta e um ombro amigo que muitas vezes falta no mundo real.
“Eles se tornam os melhores amigos, sabem de tudo, são muito prestativos e ninguém entende essa pessoa como eles”, relata Jacob.
Essa relação de falsa cumplicidade, construída sobre a manipulação de carências afetivas, é a porta de entrada para a segunda fase do golpe: a proposta enganosa. A promessa de um futuro promissor no Brasil – um emprego bem remunerado, uma oportunidade de estudos, ou mesmo um ensaio fotográfico para uma agência de modelos – surge como a solução mágica para todos os problemas.
Para uma jovem que vive em um ambiente de pobreza, violência doméstica ou simplesmente falta de perspectivas, a oferta é quase irrecusável. A sedução do novo, a possibilidade de escapar de uma realidade opressora, fala mais alto do que qualquer sinal de alerta. É a exploração da esperança em sua forma mais cruel. As vítimas, já emocionalmente dependentes de seus “amigos” virtuais, acabam por aceitar a oferta e cruzar a fronteira, dando um passo em direção a um abismo que elas sequer imaginam existir.
O que torna o quadro ainda mais desolador é que, em muitos casos, a traição não vem de um estranho, mas de dentro do próprio lar. Jacob revela que a participação de familiares no processo de aliciamento é assustadoramente comum. Tios, primos, ou até mesmo pais e mães, coagidos pela miséria ou seduzidos pela promessa de dinheiro fácil, atuam como intermediários, entregando suas próprias crianças aos traficantes.
Essa traição, a mais vil de todas, vinda daqueles que deveriam ser a fonte primária de proteção e afeto, destrói as já frágeis barreiras de defesa da vítima e a lança em um estado de total desamparo. A confiança, um dos pilares fundamentais das relações humanas, é corroída em sua essência, deixando uma cicatriz psicológica profunda e, muitas vezes, permanente. A normalização do abuso em muitas comunidades, como aponta Jacob, contribui para essa dinâmica perversa. Onde a violência e a negligência são parte do cotidiano, a venda de uma criança pode ser vista por alguns como apenas mais uma transação, uma forma desesperada de sobrevivência.
Crianças Invisíveis: A Tragédia dos Não Registrados
Um dos pontos mais alarmantes e que revela a profunda fratura social do Paraguai é o elevado número de crianças sem registro de nascimento. Jacob, com a voz carregada de preocupação, estima que existam atualmente 2.200 crianças oficialmente desaparecidas no país, um número que ele considera alarmante para uma nação de dimensões modestas.
No entanto, a realidade pode ser ainda mais grave, pois esse número não inclui as crianças que nunca existiram aos olhos do Estado. A ausência de um registro oficial de nascimento as torna efetivamente invisíveis, fantasmas sociais que podem ser explorados, abusados e traficados sem que o sistema sequer note sua ausência. Elas não entram nas estatísticas de desaparecidos, dificultando imensamente qualquer tentativa de localização ou resgate.
“Muitas famílias indígenas não registram seus filhos”, explica Jacob. “Então, elas não são contadas como desaparecidas.”
Essa falha estrutural, que Jacob descreve com uma mistura de resignação e indignação, é um reflexo direto da ausência crônica do Estado paraguaio em suas áreas mais sensíveis. Não se trata de uma simples ineficiência burocrática, mas de um abandono institucionalizado.
Nas comunidades mais pobres e remotas, o governo é uma entidade distante, quase mítica. A falta de recursos, um argumento frequentemente utilizado para justificar a inação, é agravada por uma corrupção endêmica que drena os já escassos fundos públicos para os bolsos de poucos. Essa combinação tóxica mina a confiança da população nas instituições, criando um abismo entre os cidadãos e o Estado.

Para uma família que luta pela sobrevivência diária, a ideia de viajar por horas ou dias até um centro urbano para registrar um filho, enfrentando custos, burocracia e, muitas vezes, o descaso de funcionários públicos, parece um luxo inalcançável. O resultado é um exército de crianças que, para todos os efeitos, não existem, vivendo em um limbo jurídico que as torna o alvo perfeito para todo tipo de exploração.
A percepção de que o Paraguai seria um país economicamente mais estável que o Brasil entra em choque com essa dura realidade. Apesar dos avanços em outras áreas, a proteção à infância ainda é extremamente precária. A falta de um protocolo unificado para casos de desaparecimento de crianças agrava o problema, com cada delegacia de polícia tratando a situação de uma maneira diferente, dependendo do oficial de plantão.
A Inércia e a Corrupção: Quando o Estado se Omite
Se a ausência do Estado é sentida na base da pirâmide social, no topo, ela se manifesta de forma ainda mais perversa: através da inércia, do descaso e da corrupção. A entrevista com Jacob revela um quadro desolador da atuação (ou da falta dela) do governo paraguaio no combate ao tráfico humano.
A falta de interesse e a corrupção não parecem ser desvios de conduta, mas sim elementos estruturais do sistema. Em um relato que beira o surreal, Jacob narra uma conversa que teve com um alto representante do governo, uma figura que deveria zelar pela segurança da população, mas que demonstrou uma alienação assustadora em relação ao problema.
“Ele me disse que o tráfico de crianças não é um problema no Paraguai”, conta Jacob, ainda incrédulo. “E depois me ofereceu seus serviços para facilitar a entrada de produtos da Holanda no país.”
A história, contada por Jacob, é mais do que um simples caso de corrupção individual. Ela é um sintoma de uma doença que parece ter se infiltrado em todos os níveis do Estado: a total desconexão com a realidade da população e a priorização de interesses pessoais e financeiros acima da vida humana. A oferta de “ajuda” para desembaraçar importações, feita no mesmo fôlego em que se nega uma tragédia humanitária, revela uma mentalidade predatória, onde o cargo público é visto não como um serviço, mas como um balcão de negócios.
Essa cultura da corrupção e do descaso tem consequências diretas e devastadoras. A falta de um protocolo nacional unificado para o desaparecimento de crianças, por exemplo, é um reflexo direto dessa inércia. Cada delegacia de polícia age de uma forma, cada oficial tem seu próprio método, e o resultado é um caos que beneficia apenas os criminosos. Para uma família que busca desesperadamente por um filho desaparecido, essa falta de padronização é uma forma de tortura, um labirinto burocrático que consome tempo, recursos e esperança.
A ausência de uma resposta estatal efetiva cria um ambiente de impunidade, onde os criminosos agem livremente, cientes de que não serão punidos. A desconfiança da população no governo é generalizada, o que contribui para a perpetuação do ciclo de exploração. Sem o apoio das instituições, as famílias se sentem desamparadas e acabam por não denunciar os casos de desaparecimento, temendo represálias ou simplesmente por não acreditarem que algo será feito.
As Vítimas Silenciosas: Meninos para o Trabalho Forçado e Mulheres para a Exploração Sexual
A engrenagem do tráfico humano opera com uma lógica empresarial fria e pragmática, segmentando seu “mercado” de vítimas com base em gênero, idade e até mesmo etnia. A entrevista com Jacob lança luz sobre essa bifurcação da exploração, um espelho sombrio das desigualdades de gênero que estruturam a sociedade.
De um lado, estão os meninos, cujo valor para os traficantes reside em sua força de trabalho. Eles são as vítimas silenciosas, muitas vezes invisíveis, levados para fazendas no sul do Brasil ou para outras atividades que exigem mão de obra barata e descartável. Do outro lado, estão as meninas e mulheres, cujo valor é medido pela sua capacidade de satisfazer a demanda da indústria do sexo.
Enquanto a exploração sexual feminina, por sua natureza mais visível e chocante, consegue furar a bolha da indiferença e ganhar algum espaço no debate público, o tráfico de meninos para o trabalho análogo à escravidão permanece em uma zona de penumbra, uma violência normalizada pela cultura do trabalho infantil e pela indiferença da sociedade.
Jacob, com honestidade, admite que o tráfico de meninos para o trabalho forçado não é o foco principal de sua investigação, mas reconhece a gravidade e a extensão do problema. Ele menciona ter lido relatórios sobre milhares de crianças encontradas em situações de trabalho ilegal no Brasil, muitas delas de origem paraguaia, trabalhando em condições degradantes em setores como a avicultura.
A naturalização do trabalho infantil na sociedade paraguaia, onde é comum ver meninos de 12 anos nas ruas ou no campo trabalhando para sustentar a família, cria uma perigosa zona cinzenta que dificulta a distinção entre o trabalho infantil, já problemático por si só, e o trabalho análogo à escravidão. Essa cultura, enraizada na pobreza e na falta de oportunidades, contribui para a invisibilidade do problema, tornando esses meninos vítimas silenciosas de um sistema que lhes rouba a infância e o futuro.
Se o destino dos meninos é a exploração de sua força de trabalho, o das meninas e mulheres é a exploração de seus corpos. A indústria do sexo, um mercado global que movimenta bilhões de dólares, é o motor que alimenta o tráfico feminino.
Jacob descreve um caminho sem volta: uma vez que entram na rede de exploração, a grande maioria não consegue mais sair. Elas são aprisionadas em um ciclo de dívidas, violência e dependência psicológica, tendo seus corpos explorados ao máximo em bordéis, casas de prostituição ou na produção de pornografia. A pergunta sobre o que acontece quando elas “não servem mais” paira no ar, carregada de uma angústia palpável. A resposta de Jacob, embora baseada em sua percepção e não em dados concretos, é a mais temida de todas.
“Eu penso que quando o corpo não consegue mais servir aos nossos propósitos, eles vão vender os órgãos”, diz Jacob, em um dos momentos mais sombrios da entrevista.
Essa afirmação, embora não seja baseada em dados concretos, mas em sua percepção da realidade, abre uma janela para um mundo de horror, onde a vida humana é tratada como uma mercadoria descartável. A indústria do sexo, um mercado bilionário, é o principal motor desse tipo de exploração, e a legalização da prostituição em países como a Holanda, terra natal de Jacob, não resolve o problema, apenas o desloca para a clandestinidade.
A Raiz do Problema: A Ausência Paterna e a Desestruturação Familiar
Ao buscar as raízes mais profundas do tráfico humano, Jacob desvia o foco das consequências para as causas, e sua análise traz uma questão sociológica complexa e sensível: a crise da paternidade e a consequente desintegração da estrutura familiar na sociedade paraguaia. Para ele, o problema não começa na fronteira, mas dentro de casa.
A ausência da figura paterna, seja por abandono, divórcio, alcoolismo ou pela multiplicidade de parceiras, é identificada como o epicentro de um terremoto social cujas ondas de choque se propagam por toda a sociedade, criando as condições ideais para a proliferação da exploração. A análise de Jacob é cortante: a ausência do pai cria um vácuo duplo e devastador.

O primeiro é o vácuo da provisão, que empurra as famílias para a pobreza e a miséria, tornando-as presas fáceis para as falsas promessas dos aliciadores. O segundo, e talvez mais grave, é o vácuo da proteção, que deixa crianças e adolescentes expostos ao abuso, à violência e à exploração, muitas vezes dentro do próprio círculo familiar.
“Uma das principais causas é a falta de um pai dentro da família”, afirma Jacob. “O pai tem a função de prover e proteger a família. Como os pais não fazem isso, acontece muita pobreza e abuso.”
Essa desestruturação familiar, segundo a análise de Jacob, funciona como um ecossistema perverso onde o tráfico humano encontra as condições ideais para proliferar. A ausência de um provedor financeiro consistente mergulha as famílias em um estado de vulnerabilidade econômica extrema, onde a oferta de dinheiro, por mais sujo que seja, se torna uma tentação quase irresistível.
A falta de um protetor, por sua vez, abre as portas para o abuso físico e psicológico, muitas vezes perpetrado por pessoas próximas, criando um ambiente de medo e desconfiança que isola a vítima e a torna ainda mais suscetível à manipulação dos aliciadores. A figura do pai, que no imaginário social deveria ser a personificação da força e da segurança, se transforma em um fantasma, uma ausência que assombra e desestabiliza todo o núcleo familiar.
Em muitos casos, como aponta Jacob, essa figura não é apenas ausente, mas ativamente cúmplice, transformando o lar, que deveria ser um refúgio, no primeiro elo da cadeia de exploração.
No entanto, Jacob ressalta que a resolução do problema da paternidade, por si só, não seria suficiente para acabar com o tráfico humano. Existe um mercado consumidor para a exploração de crianças, e enquanto houver demanda, haverá oferta. A luta contra o tráfico, portanto, deve ser travada em duas frentes: o fortalecimento das famílias e o combate à demanda por exploração sexual e trabalho forçado.
O Mercado de Corpos: Entre a Especulação e a Realidade do Tráfico de Órgãos
A conversa mergulha em seu abismo mais profundo quando o tema do tráfico de órgãos é trazido à tona. É o ponto de inflexão onde a exploração da vida dá lugar à industrialização da morte. A simples menção da possibilidade de que seres humanos sejam sistematicamente assassinados para que seus órgãos sejam extraídos e vendidos no mercado negro é suficiente para gelar a espinha e questionar os limites da degradação humana.
Jacob, com a cautela de um especialista que pisa em um terreno minado por especulações e desinformação, admite a escassez de evidências concretas sobre essa prática específica no Paraguai. No entanto, sua recusa em descartar a possibilidade não se baseia em teorias da conspiração, mas em uma lógica de mercado fria e implacável: onde há uma demanda multibilionária, haverá quem se disponha a suprir a oferta, não importa quão imoral ou ilegal seja o método.
Para ilustrar a plausibilidade dessa indústria macabra em um contexto de desordem e vulnerabilidade, ele cita um exemplo chocante que teria vindo à luz em meio ao caos da guerra na Ucrânia.
“Eu acho que a Ucrânia é um bom exemplo para a gente olhar. Trezentos bebês foram encontrados mortos, com seus órgãos faltando”, relata ele, citando informações que circularam sobre o conflito.
Embora o próprio Jacob pondere que este número, por mais chocante que seja, representa apenas uma pequena fração do total de crianças desaparecidas na Ucrânia, o fato em si é um indicativo assustador de que a extração e a venda de órgãos é uma realidade tangível em zonas de conflito e de extrema vulnerabilidade social. A lógica que sustenta essa indústria é a mais perversa e fundamental do capitalismo levado ao extremo: a lei da oferta e da procura.
Enquanto houver uma demanda global por órgãos no mercado negro – um mercado alimentado por listas de espera intermináveis para transplantes, pela falta de doadores e pela ganância de intermediários – haverá quem se disponha a suprir essa demanda, utilizando os meios mais bárbaros para obter a “mercadoria”.
Nesse contexto, o corpo humano deixa de ser o invólucro da vida para se tornar um mero conjunto de peças de reposição, com preços que variam de acordo com a raridade e a urgência. A miséria, o desespero e a guerra criam o ambiente perfeito para que essa indústria macabra prospere, transformando a tragédia humana em oportunidade de negócio.
No contexto do tráfico de mulheres, a venda de órgãos surge como o último estágio da exploração. Após terem seus corpos utilizados para a prostituição e a pornografia, as vítimas, já sem “utilidade” para a rede criminosa, podem ser assassinadas para que seus órgãos sejam vendidos. Essa suspeita, levantada por Jacob, pinta um quadro de desumanização total, onde a vida é reduzida a uma série de componentes comercializáveis.
A Liberalidade Holandesa e Suas Contradições
Em um desvio surpreendente e revelador, a entrevista cruza o Atlântico e aterrissa na Holanda, o país natal de Jacob, expondo as profundas contradições que habitam o coração de uma das nações mais aclamadas por seu progressismo e liberalismo. A mudança de cenário é provocada por uma pergunta, que, movida por uma mistura de curiosidade pessoal e pelo choque de uma informação apresentada no controverso documentário “Guerra Oculta”, questiona a veracidade da existência de um partido político holandês que defenderia abertamente a pedofilia.
A resposta de Jacob, embora não confirme diretamente a existência de tal partido, é ainda mais perturbadora, pois revela que certas ideias que a maioria da sociedade considera abjetas podem encontrar espaço para germinar no solo fértil do liberalismo radical, onde a liberdade individual é por vezes levada a extremos que desafiam os próprios fundamentos da moralidade e do pacto social.
“Nós temos um governo muito liberal”, admite Jacob. Ele cita o exemplo de um ex-primeiro-ministro que, enquanto estudante, conduziu um experimento para legalizar o sexo com animais. “Se essa é a mentalidade de uma pessoa que mais tarde se tornou nosso presidente, isso já diz muito a respeito da mentalidade que acontece aí.”
Essa revelação é um soco no estômago da nossa percepção idealizada da Europa. Ela contrapõe a imagem de uma Holanda progressista, organizada e defensora dos direitos humanos com a existência de correntes de pensamento que não apenas desafiam os limites da moralidade, mas parecem zombar deles.
A menção a um documentário chamado “Nefarious”, que segundo Jacob desmascara a indústria global do sexo, serve para reforçar uma verdade incômoda: a exploração sexual não é um problema exclusivo de países pobres ou em desenvolvimento. Ela é um monstro global, com tentáculos que se estendem pelas ruas de Amsterdã com a mesma facilidade com que se infiltram nas aldeias remotas do Paraguai.
A legalização da prostituição na Holanda, muitas vezes citada como um modelo de pragmatismo e redução de danos, é questionada por Jacob. Para ele, a legalização não elimina o problema, apenas o torna mais visível e, em certo sentido, mais palatável para a sociedade, enquanto empurra as formas mais brutais de exploração – como o tráfico de mulheres que não estão ali por vontade própria – para a clandestinidade, tornando-as ainda mais invisíveis e vulneráveis. A Holanda, com sua fachada de tolerância, se revela um mercado consumidor voraz, e a demanda de seus cidadãos por sexo pago ajuda a alimentar a mesma indústria que escraviza meninas e mulheres a milhares de quilômetros de distância.
Jacob menciona que, no leste europeu, o tráfico é tão disseminado que “cada família está perdendo uma garota”. Essa afirmação, carregada de um peso imenso, dimensiona a tragédia e a transforma em uma estatística socialmente aceita, um “preço a pagar” pela sociedade sexualizada em que vivemos. A existência de diferentes “níveis” de prostituição, desde a pública e legalizada até os “circuitos pretos” e os serviços privados para a elite, demonstra a complexidade e a estratificação desse mercado.
O Panorama Global do Tráfico Humano: Números que Chocam
Para além das informações trazidas por Jacob, os dados de organizações internacionais pintam um quadro ainda mais amplo e alarmante da indústria do tráfico humano. Relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e de outras agências revelam uma crise global, cujas vítimas se contam na casa das dezenas de milhões e cujos lucros alimentam uma vasta economia criminosa.

A Dimensão Global da Exploração: Dados do UNODC
O mais recente Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas do UNODC, publicado em 2024, confirma a tendência de agravamento da situação. O documento revela um aumento de 25% no número de vítimas detectadas globalmente em 2022, em comparação com os níveis pré-pandemia de 2019. As crianças, em particular, estão cada vez mais na mira dos traficantes, representando agora 38% de todas as vítimas detectadas, um aumento de 31% no mesmo período [1].
O relatório destaca uma mudança preocupante nos padrões de exploração. Enquanto a exploração sexual continua a ser a finalidade mais comum para o tráfico de mulheres e meninas (60% dos casos de meninas), o tráfico para trabalho análogo à escravidão cresceu 47% entre 2019 e 2022. Meninos são as principais vítimas desta modalidade (45% dos casos), mas também são cada vez mais forçados a cometer crimes, incluindo fraudes online, uma categoria que saltou de 1% do total de vítimas em 2016 para 8% em 2022 [1].
Crescimento Global do Tráfico Humano (2019-2022)
| Indicador | Variação |
| Vítimas Detectadas | +25% |
| Crianças como Vítimas | +31% |
| Tráfico para Trabalho Escravo | +47% |
| Meninas Vítimas | +38% |
Distribuição de Vítimas por Tipo de Exploração (2022)
| Tipo de Exploração | Meninas | Meninos |
| Exploração Sexual | 60% | 8% |
| Trabalho Análogo à Escravidão | 15% | 45% |
| Criminalidade Forçada | 12% | 30% |
| Mendicância Forçada | 10% | 12% |
| Outros | 3% | 5% |
Evolução da Criminalidade Forçada (2016-2022)
| Ano | % do Total de Vítimas |
| 2016 | 1% |
| 2018 | 3% |
| 2020 | 5% |
| 2022 | 8% |
Fonte: UNODC, Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas 2024 [1]
O Trabalho Infantil como Porta de Entrada
A análise de Jacob sobre a normalização do trabalho infantil no Paraguai como um fator de vulnerabilidade é corroborada pelos dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Embora o número total de crianças em situação de trabalho infantil tenha diminuído nas últimas duas décadas, o progresso tem sido lento e desigual. Em 2024, a OIT e o UNICEF estimavam que 138 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos ainda estavam em situação de trabalho infantil em todo o mundo [2].

Trabalho Infantil Global (2024)
| Categoria | Quantidade |
| Total de Crianças em Trabalho Infantil | 138 milhões |
| Em Trabalhos Perigosos | 54 milhões |
| Percentual em Trabalhos Perigosos | 39% |
Distribuição por Setor (2024)
| Setor | Percentual |
| Agricultura | 61% |
| Serviços | 27% |
| Indústria | 13% |
Distribuição Regional (2024)
| Região | Quantidade | Percentual |
| África Subsaariana | 87 milhões | 63% |
| Ásia e Pacífico | 28 milhões | 20% |
| América Latina e Caribe | 14 milhões | 10% |
| Outros | 9 milhões | 7% |
Este cenário de exploração laboral generalizada cria um ambiente onde a distinção entre trabalho infantil e tráfico para fins de trabalho forçado se torna tênue, facilitando a ação dos traficantes [2].
Paraguai
O testemunho de Jacob sobre a inércia e a corrupção estatal no Paraguai encontra um forte eco nos relatórios de monitoramento internacional. O Relatório sobre Tráfico de Pessoas de 2025, publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, classifica o Paraguai no “Tier 2”, indicando que o governo não cumpre totalmente os padrões mínimos para a eliminação do tráfico, embora esteja a fazer esforços significativos [3].
Investigações e Condenações no Paraguai (2024)
| Métrica | 2024 | 2023 | 2022 |
| Investigações Iniciadas | 139 | 82 | 126 |
| Suspeitos Acusados | 12 | 10 | 2 |
| Condenações | 4 | 4 | – |
| Casos em Julgamento | 19 | 6 | 5 |
Vítimas Identificadas no Paraguai (2024)
| Tipo de Tráfico | Quantidade |
| Tráfico Sexual | 20 |
| Tráfico Laboral | 18 |
| Forma Não Especificada | 66 |
| Total | 104 |
O relatório aponta para uma série de falhas estruturais que dificultam o combate eficaz a este crime. Apesar de ter condenado quatro traficantes em 2024, o governo processou menos suspeitos em comparação com o ano anterior e os recursos destinados ao combate ao tráfico foram considerados insuficientes. A Unidade Anti-Tráfico da Polícia Nacional (PNPTU), por exemplo, operou com financiamento limitado pelo sétimo ano consecutivo, e a recém-criada secretaria anti-tráfico ainda não possuía um mecanismo de financiamento estabelecido por lei [3].
Estrutura de Combate ao Tráfico no Paraguai
| Órgão | Pessoal Especializado | Status |
| PNPTU | 41 oficiais | 7º ano de financiamento limitado |
| ATU (Promotores) | 4 especializados | Sem supervisor especializado |
| Secretaria Anti-Tráfico | – | Sem mecanismo de financiamento |
Uma das críticas mais contundentes do relatório diz respeito à prática do criadazgo, uma forma de servidão doméstica infantil profundamente enraizada na cultura paraguaia. O governo, segundo o relatório, não fez esforços robustos para lidar com as práticas abusivas e as condições de trabalho análogas à escravidão comuns nesta situação, que afeta milhares de crianças, tornando-as extremamente vulneráveis ao tráfico para outros fins [3].
“O governo não fez esforços robustos para abordar as práticas abusivas e as condições de trabalho comuns em situações de criadazgo, uma prática que equivale à servidão doméstica infantil.” – Departamento de Estado dos EUA, 2025 [3]
Além disso, o relatório confirma a falta de abrigos adequados, especialmente para vítimas adultas do sexo masculino, e a triagem inconsistente de grupos vulneráveis em busca de indicadores de tráfico. Em 2024, as autoridades paraguaias identificaram 104 vítimas, números que especialistas acreditam estar muito aquém da realidade [3]. A falta de um banco de dados centralizado para agregar informações entre os diferentes ministérios envolvidos na proteção às vítimas é mais um obstáculo para uma resposta coordenada e eficaz.
A Resposta Institucional Brasileira: Receita Federal e Ações Integradas
Um dos aspectos mais significativos que emergem da entrevista é o reconhecimento de que, apesar dos desafios estruturais enfrentados pelo Paraguai, há movimentos importantes de mobilização institucional no Brasil para enfrentar o tráfico humano. Durante a conversa, um dos representantes da Receita Federal, órgão brasileiro envolvido no combate ao tráfico, destaca que a situação é tão grave que mesmo agências tradicionais, como a Receita Federal, já reconhecem a necessidade de se envolver ativamente nesta luta.
Receita Federal: Para Além da Fiscalização Tributária
A participação da Receita Federal no combate ao tráfico humano representa uma mudança paradigmática na forma como as instituições federais brasileiras encaram este problema. Historicamente, a Receita Federal é conhecida por sua função de arrecadação e fiscalização tributária, mas sua atuação no combate ao tráfico revela uma compreensão mais ampla de sua responsabilidade social e institucional.
De acordo com Daniel Linck, a Receita Federal já iniciou um programa chamado “Aduana Cidadã”, um programa que, dentre outras ações, capacita os seus servidores a identificarem casos suspeitos de tráfico humano na fronteira. Este programa não é meramente teórico, mas prático e orientado para a ação.
Os servidores da Receita Federal que atuam na fiscalização do fluxo de veículos e pessoas na fronteira estão recebendo capacitação para identificar padrões de comportamento, aplicar técnicas de abordagem e conduzir entrevistas qualificadas, com o objetivo de reconhecer possíveis casos e realizar o encaminhamento adequado. Além disso, novos procedimentos estão sendo estruturados em parceria com outros órgãos, assegurando o respeito aos direitos humanos e a efetividade das ações realizadas.
“A situação é tão grave que a Receita Federal já está realizando cursos com os servidores, fazendo um programa de prevenção”, destaca um dos agentes presentes na entrevista, ressaltando a urgência com que a instituição tem abordado o tema.
A importância desta iniciativa não pode ser subestimada. A Receita Federal, através de sua capacidade de monitorar fluxos financeiros, movimentações bancárias e transações comerciais, possui ferramentas únicas para identificar redes criminosas de tráfico, possuindo um potencial ainda maior para expandir suas ações.
“A Receita Federal está se envolvendo com isso porque nós estamos ali na fronteira, nós estamos fiscalizando, nós estamos na linha de frente”, enfatiza Daniel. “Muitas pessoas não sabem, a Receita Federal não apenas está atrás de uma mesa. Mas ela está lá na linha de frente, na fronteira também, fiscalizando. E por isso que é importante que nós tenhamos essa capacitação dos servidores.”
O treinamento abrange desde noções de psicologia e direitos humanos até técnicas para reconhecer indicadores comportamentais e situacionais de abuso, exploração e tráfico. A mudança de perspectiva é o ponto central: o olhar do fiscal, antes treinado para encontrar um celular escondido, agora é treinado para notar uma contradição em uma história, a dinâmica de poder em um casal, o medo em uma criança. A mercadoria continua sendo fiscalizada, mas a pessoa e seu contexto passaram a ter prioridade.
Alinhamento Interinstitucional e o Consulado Paraguaio
Daniel Linck também menciona que existe um alinhamento estratégico entre a Receita Federal e o Consulado do Paraguai, especialmente na região de fronteira. Este alinhamento é essencial, pois a fronteira é o ponto crítico onde o tráfico ocorre.
O Consulado do Paraguai, como representante oficial do país no Brasil, tem a responsabilidade de proteger seus cidadãos, e a cooperação com a Receita Federal amplia significativamente sua capacidade de identificar e proteger vítimas de tráfico que possam estar sendo exploradas no território brasileiro. Esta cooperação também facilita a troca de informações entre os dois países, permitindo que casos de tráfico possam ser investigados de forma coordenada, com agentes brasileiros e paraguaios trabalhando em conjunto para desmantelar as redes criminosas.
Consolidar o Aduana Cidadã como uma aliança interinstitucional foi, talvez, o maior desafio. O programa conseguiu o que parecia impossível: sentar à mesma mesa instituições que, historicamente, atuavam de forma isolada, quando não em competição. A lista de parceiros é um testemunho do poder da articulação: o Poder Judiciário brasileiro e paraguaio, o Ministério Público do Trabalho, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional, o Conselho Tutelar, e um leque de secretarias municipais e estaduais. Superar a desconfiança mútua e a burocracia exigiu diplomacia e persistência.
Os Cinco Pilares do Programa Aduana Cidadã
O programa foi estruturado em cinco projetos distintos, mas sinérgicos, que funcionam como os pilares desta grande construção:
- Turismo em Foco: Educar para legalizar
- Adolescência Legal: Proteger o futuro, quebrando o ciclo da ilegalidade
- Caminhos Protegidos: Combate direto ao tráfico de pessoas
- Turismo e Infraestrutura: Melhorar a experiência do viajante
- Comunica Receita: Diálogo aberto com a sociedade
Turismo em Foco
O projeto Turismo em Foco partiu de um diagnóstico simples: a desinformação é o combustível da ilegalidade. Por décadas, o turista que chegava a Foz do Iguaçu era bombardeado por informações conflitantes. Vendedores paraguaios, no afã de fechar negócio, garantiam que “podia tudo”. Do lado brasileiro, a falta de orientação clara criava um ambiente de insegurança jurídica que beneficiava apenas os infratores.
O resultado era um ciclo de frustração para o turista de boa-fé e um volume enorme de apreensões que poderiam ser evitadas.
“Antigamente os turistas não sabiam o que podiam e o que não podiam comprar no Paraguai, agora eles sabem”, resume Daniel.
A solução foi uma ofensiva de comunicação. A Receita Federal abandonou a postura reativa e passou a atuar proativamente na disseminação de informação. Uma das ações mais visíveis foi a criação de uma exposição permanente na aduana, antes da travessia para o Paraguai. Ali, de forma didática, são exibidos os produtos proibidos e as regras para a cota de isenção.
“O turista para ali, vê, tira suas dúvidas. Na volta, não tem mais problema”, explica.
Mas a estratégia foi além. A Receita Federal firmou parcerias com influenciadores digitais de turismo e compras, que passaram a produzir conteúdo informativo para seus milhões de seguidores. Essa abordagem permitiu furar a bolha da comunicação institucional e falar a língua do público.
O resultado foi uma mudança de comportamento em cascata. O turista, mais bem informado, passou a questionar os vendedores e a recusar ofertas de produtos ilegais. A consequência direta foi uma alteração no perfil do comércio de Ciudad del Este.
“O presidente da Confederação de Comércio nos disse que os comerciantes pararam de importar tanto cigarro eletrônico e começaram a importar mais perfumes”, relata Daniel. A demanda do consumidor educado forçou uma adaptação do lado paraguaio, provando que a informação, quando bem utilizada, é uma ferramenta de regulação de mercado mais eficaz do que muitas barreiras fiscais.
O sucesso do Turismo em Foco demonstra como a educação do consumidor pode transformar comportamentos em ambos os lados da fronteira. Ao educar o turista, a Receita Federal não apenas facilita seu próprio trabalho de fiscalização, mas também induz um comportamento mais consciente, gerando um ambiente de negócios mais saudável para todos e fortalecendo a imagem de Foz do Iguaçu como um destino turístico seguro e organizado.
Adolescência Legal
Se o Turismo em Foco lida com a informação, o Adolescência Legal enfrenta um dos dramas sociais mais profundos da região: a exploração de crianças e adolescentes como “laranjas” no contrabando. A prática, normalizada por anos, consiste em contratar jovens por valores irrisórios para transportar pequenas quantidades de mercadorias, driblando a fiscalização. É a porta de entrada para um ciclo perverso de criminalidade.
“Era extremamente comum”, lamenta Daniel. “O adolescente que começa a fazer isso, o que ele vai fazer quando crescer? Vai continuar fazendo isso. Você tem um círculo vicioso de laranjas.” A progressão é quase inevitável.
Começa com um perfume, depois um celular. Logo, o jovem percebe que transportar drogas ou armas rende muito mais. “E aí, trabalhar sério pra quê?”, questiona Daniel, ecoando o pensamento que se instala na mente desses jovens. O impacto social é devastador. Foz do Iguaçu, um polo turístico, sofre com a falta de mão de obra formal, pois milhares de pessoas preferem a renda incerta, porém imediata, da ilegalidade.
A fala de um professor da rede pública, que relatou à equipe do projeto que “mais da metade dos seus alunos do ensino médio já passaram mercadoria na Ponte”, expõe a dimensão da tragédia. Em muitos casos, são os próprios pais, também inseridos na mesma lógica de sobrevivência, que levam os filhos para a atividade ilegal, perpetuando o ciclo entre gerações. A normalização dessa prática criou uma cultura onde o trabalho formal é visto como algo inferior à renda rápida do contrabando.
O projeto Adolescência Legal atacou o problema em duas frentes. A primeira, em parceria com o Conselho Tutelar, foi a intensificação da fiscalização e da abordagem. A simples presença e a ação coordenada diminuíram drasticamente o número de adolescentes na ponte. A segunda frente, de caráter preventivo, é a mais estratégica. “Em 2026, estaremos nas escolas”, anuncia Daniel. O plano é ambicioso: em parceria com a Secretaria de Educação, levar para a sala de aula um programa de conscientização que mostre os riscos reais da atividade ilegal e, ao mesmo tempo, apresente perspectivas de futuro através da educação e da qualificação profissional.
O projeto também atua no combate à mendicância infantil, identificando e desarticulando redes que trazem crianças do Paraguai para serem exploradas em Foz do Iguaçu. Em uma ação conjunta com a Força Nacional e a Polícia Federal, a fiscalização na entrada de crianças pela ponte foi aprimorada, com protocolos específicos para identificar e intervir nesses casos, garantindo o encaminhamento das crianças para a rede de proteção.
Caminhos Protegidos
O projeto Caminhos Protegidos é a linha de defesa contra o crime mais atroz da fronteira: o tráfico de pessoas. A região da Tríplice Fronteira é um ponto nevrálgico, uma zona de convergência para redes criminosas que exploram a vulnerabilidade de homens, mulheres e crianças. A atuação da Receita Federal é crucial, pois seus agentes são, muitas vezes, a última chance de uma vítima ser identificada antes de desaparecer nas malhas da exploração.
O treinamento dos servidores é a chave. Eles aprendem a ler os sinais não-verbais, a fazer as perguntas certas, a perceber quando uma história não se encaixa. Um caso suspeito identificado durante uma ação de conscientização, como relatado por Daniel, acendeu o alerta para a urgência do projeto. A criação de um fluxo de atendimento, que garante o acolhimento imediato e seguro da vítima e o acionamento rápido da Polícia Federal para a investigação, é o coração do projeto.
O objetivo é ambicioso: “É possível que aqui nos tornemos um modelo de cooperação entre os órgãos para o combate ao tráfico humano”, afirma Daniel. A meta é transformar a fronteira, antes um ponto de risco, em uma barreira de proteção. A estrutura de acolhimento para as vítimas identificadas garante que elas recebam a proteção e o suporte necessários após o resgate. A articulação com a rede de proteção, que inclui desde a Polícia Federal até os serviços de assistência social, saúde e apoio psicológico, é fundamental para o sucesso da operação.
Infraestrutura e Comunicação
Sustentando todas essas ações, os projetos Turismo e Infraestrutura e Comunica Receita garantem a perenidade e a evolução do programa. O primeiro foca na melhoria da experiência física do viajante, com reformas e modernização da estrutura da aduana. Isso inclui desde a melhoria da sinalização e a criação de áreas de descanso até a reforma das instalações utilizadas pelo público, como banheiros e postos de atendimento, com foco em acessibilidade.
O segundo visa institucionalizar o diálogo com a sociedade. A proposta de criar um congresso aduaneiro em Foz do Iguaçu é emblemática.
“Aqui é a principal fronteira terrestre do país. E não tem um congresso aduaneiro aqui.”, critica Daniel. A ideia é criar um espaço permanente para debater a legislação e as práticas aduaneiras, tornando-as mais eficientes e alinhadas com a realidade local. Este fórum permitirá que comerciantes, turistas e a sociedade em geral participem do processo de tomada de decisão, tornando a administração aduaneira mais transparente e participativa.
Um Trabalho Coletivo em Construção
O programa Aduana Cidadã é a prova de que o serviço público pode, e deve, ser um agente de transformação social. Ao ousar olhar para além de suas atribuições formais, a Receita Federal em Foz do Iguaçu não apenas ampliou sua relevância, mas também ofereceu uma resposta inovadora e eficaz para problemas crônicos que afligem a sociedade fronteiriça. A iniciativa demonstra que a repressão, por si só, é insuficiente. É a combinação de inteligência, cooperação, prevenção e, acima de tudo, um olhar humanizado, que produz resultados duradouros.
O comprometimento dos servidores envolvidos, que dedicam tempo e energia muito além de suas obrigações funcionais, é o verdadeiro motor dessa revolução silenciosa. O Aduana Cidadã transforma a fronteira, antes vista como um problema, em um laboratório de soluções. É um modelo que merece ser estudado, replicado e celebrado como um exemplo do melhor que o Estado brasileiro pode produzir: um serviço público que serve, de fato, ao público, protegendo não apenas a economia, mas a própria vida.
Os agentes reconhecem que a ação da Receita Federal como parte de um esforço coletivo envolvendo múltiplas entidades é essencial para a proteção das vítimas e prevenção. Esta postura reflete uma compreensão madura de que o combate ao tráfico humano é um desafio que transcende qualquer órgão individual e requer uma abordagem integrada e multidisciplinar.
Eles também mencionam que existe um grupo de trabalho composto por diversas entidades que estão se mobilizando para enfrentar o problema. Este grupo não apenas compartilha informações, mas também coordena ações, estabelece protocolos comuns e trabalha para fortalecer a resposta institucional ao tráfico humano.
Mudança de Percepção Pública
Um dos pontos mais interessantes levantados pelas agentes é a necessidade de mudar a percepção pública sobre o papel da Receita Federal. Historicamente, a instituição é associada apenas à fiscalização tributária e à arrecadação de impostos. No entanto, sua atuação no combate ao tráfico humano demonstra que a Receita Federal é também um guardião da segurança pública e dos direitos humanos.
Esta mudança de percepção é importante não apenas para a Receita Federal, mas para toda a sociedade. Ela demonstra que instituições tradicionais podem ser repropositadas e mobilizadas para enfrentar novos desafios e que a luta contra o tráfico humano é uma responsabilidade compartilhada por toda a máquina estatal.
Capacitação de Servidores
A decisão da Receita Federal de capacitar seus servidores para identificar casos suspeitos de tráfico humano é uma estratégia de longo prazo que promete resultados significativos. Quando um servidor público, independentemente de sua função específica, está treinado para reconhecer sinais de tráfico, a sociedade ganha um vigilante adicional na luta contra este crime.
Esta capacitação não é apenas teórica, mas prática e orientada para a ação. Os servidores aprendem a reconhecer padrões, a questionar transações suspeitas e a reportar casos para as autoridades competentes. Este tipo de mobilização institucional, quando replicado em diferentes órgãos do Estado, cria uma rede de proteção muito mais robusta e eficaz.
Quando você fala em Receita Federal, a população imagina apenas o fiscal que vem cobrar impostos. Mas a realidade é muito diferente. A Receita Federal possui uma capacidade única de rastrear fluxos financeiros e identificar padrões de comportamento suspeitos que podem estar associados ao tráfico humano. Seus agentes, quando devidamente capacitados, podem se tornar aliados cruciais na luta contra este crime.
A iniciativa de capacitação de servidores da Receita Federal é, portanto, um sinal positivo de que o Estado brasileiro está reconhecendo a gravidade do problema e está disposto a mobilizar seus recursos para enfrentá-lo. Não é uma solução completa, pois o tráfico humano é um problema complexo que requer ação em múltiplas frentes, mas é um passo importante na direção certa.









O Futuro da Cooperação Interinstitucional
Olhando para o futuro, a cooperação entre a Receita Federal, o Consulado do Paraguai e outras entidades federais promete ser um modelo importante para o combate ao tráfico humano. Se bem executada, esta cooperação pode servir como um exemplo para outras regiões do Brasil e até mesmo para outros países enfrentando problemas similares.
A chave para o sucesso será a manutenção do compromisso institucional, a continuidade do financiamento e a disposição de compartilhar informações e coordenar ações. Também será importante que a sociedade civil continue exercendo pressão sobre as instituições para que permaneçam focadas nesta questão.
Daniel e seus colegas representam uma nova geração de servidores públicos que entendem que a luta contra o tráfico humano é uma responsabilidade que transcende as fronteiras tradicionais de suas instituições. Sua disposição em trabalhar de forma colaborativa e integrada é um sinal esperançoso de que o Brasil está se mobilizando para enfrentar um dos crimes mais graves do nosso tempo.
O Que Podemos Fazer
A conversa com Jacob nos arrasta para as profundezas de uma realidade brutal, um universo paralelo que coexiste com o nosso, mas que preferimos ignorar ou simplificar perigosamente. A complexa teia do tráfico humano na fronteira entre o Paraguai e o Brasil se revela, ao longo da conversa, não como um problema isolado, um mero desvio de conduta de alguns indivíduos, mas como o sintoma febril de uma série de patologias sociais crônicas e interconectadas.
É a manifestação visível de uma doença que tem como causas a ausência sistêmica de um Estado que deveria proteger seus cidadãos, a desintegração de uma instituição familiar que deveria ser o primeiro núcleo de afeto e segurança, a pobreza endêmica que corrói a dignidade e aniquila as perspectivas, a corrupção que se alastra como um câncer pelas veias do poder público e, na ponta final desta cadeia de horror, a existência de um mercado consumidor voraz, insaciável e completamente desumanizado, disposto a pagar pela exploração, pelo abuso e até pela morte de outros seres humanos.
As palavras de Jacob ecoam como um alerta. A proteção à infância e a luta contra o tráfico humano não podem ser delegadas apenas a indivíduos ou organizações não governamentais. É necessária uma ação enérgica e coordenada do Estado, com políticas públicas eficazes, fiscalização rigorosa e punição exemplar para os criminosos. É preciso criar uma cultura de proteção, onde a sociedade civil se mobilize e não tolere nenhuma forma de exploração.
O trabalho de pessoas como Jacob, que se dedicam a proteger crianças em situação de vulnerabilidade, é uma luz em meio à escuridão. No entanto, a responsabilidade é de todos. É preciso falar sobre o assunto, denunciar, cobrar as autoridades e, acima de tudo, educar para que as futuras gerações não se tornem vítimas ou algozes nesse ciclo de violência.
A entrevista termina, mas as questões que ela levanta permanecem, nos convidando a uma profunda reflexão sobre o tipo de sociedade que estamos construindo e o futuro que desejamos para nossas crianças.
Referências
[1] UNODC. (2024). Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas 2024. Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Acessado em: https://www.unodc.org/cofrb/pt/noticias/2024/12/relatrio-global-do-unodc-sobre-trfico-de-pessoas_-nmero-de-vtimas-detectadas-aumenta-25–com-mais-crianas-exploradas-e-casos-de-trabalho-anlogo–escravido-em-alta.html [2] OIT & UNICEF. (2025). Apesar dos avanços, o trabalho infantil ainda afeta 138 milhões de crianças no mundo. Organização Internacional do Trabalho. Acessado em: https://www.ilo.org/pt-pt/resource/news/apesar-dos-avancos-o-trabalho-infantil-ainda-afeta-138-milhoes-de-criancas [3] Departamento de Estado dos EUA. (2025). 2025 Trafficking in Persons Report: Paraguay. Acessado em: https://www.state.gov/reports/2025-trafficking-in-persons-report/paraguayTráfico Humano na Fronteira do Paraguai, Tráfico Humano na Fronteira do Paraguai, Tráfico Humano na Fronteira do Paraguai, Tráfico Humano na Fronteira do Paraguai, Tráfico Humano na Fronteira do Paraguai,
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