Em Alta

Violência e Tortura em Berçários de Goiânia

O caso, impulsionado pela determinação de Bruna Araújo Brasil, mãe de uma das vítimas, revela um histórico de abusos que remonta a 2017 e a urgente necessidade de um debate sobre a segurança e a fiscalização de instituições de ensino infantil no Brasil.

Violência e Tortura em Berçários de Goiânia – Em Goiânia, a capital de Goiás, um estado no coração do Brasil, um grito de socorro ecoou para além dos muros de duas instituições que deveriam ser santuários de cuidado e aprendizado. Dezenas de crianças, algumas com apenas quatro meses de vida, teriam sido vítimas de um sistema de violência contínua, que incluía agressões físicas, tortura psicológica e negligência severa.

A coragem de uma mãe, Bruna Araújo Brasil, ao denunciar a agressão sofrida por seu filho de três anos, foi a centelha que incendiou um movimento de pais e ex-funcionários, determinados a trazer à luz uma realidade estarrecedora e a lutar por justiça. Este artigo detalha os fatos deste caso, explorando a cronologia dos abusos, o impacto nas vítimas, as falhas sistêmicas e a mobilização da sociedade em busca de respostas e de mudanças.

Uma Mordida e a Revelação de um Crime

A noite de 10 de fevereiro marcou um ponto de inflexão na vida de Bruna Araújo Brasil e de muitas outras famílias. Ao retornar para casa, encontrou seu filho, Leo, de três anos, em um estado de agitação incomum. O menino, que habitualmente adormecia cedo, a esperava. A razão para a vigília logo se tornou clara.

Horas antes, o pai de Leo, ao buscá-lo na Escola Sonharte, fora confrontado de maneira agressiva pela diretora, Aline Graziela Daher da Silva Felipe. Em voz alta, na presença de outras pessoas e da própria criança, a diretora acusou Leo de ter mordido um colega. A criança, intimidada, escondeu-se atrás do pai.

Mais tarde, em casa, a conversa entre mãe e filho revelou uma camada mais complexa e perturbadora do incidente. “Eu mordi o coleguinha porque ele comeu meu pão”, admitiu o pequeno Leo, antes de acrescentar a frase que desencadearia toda a investigação: “mas a tia Aline me mordeu também”. A revelação, acompanhada da visão de uma marca de mordida de adulto no braço do filho, foi um choque para Bruna. A intuição materna, aliada à evidência física, não deixava margem para dúvidas: algo muito grave estava acontecendo.

Naquele momento, a indignação superou o medo. Bruna documentou o relato do filho em vídeo e, na manhã seguinte, iniciou uma peregrinação em busca de justiça. Seu primeiro destino foi a delegacia, mas sua busca por providências a levaria também ao Ministério Público, à Secretaria de Educação e ao Conselho Tutelar.

A sua determinação em não se calar abriu as portas para que um coro de vozes, antes silenciadas pelo medo, se unisse à sua. Ex-funcionárias e outras mães, ao verem a atitude de Bruna, sentiram-se seguras para compartilhar as suas próprias experiências, revelando que o caso de Leo não era um fato isolado, mas sim a ponta de um iceberg de abusos sistemáticos que, segundo testemunhas, ocorriam desde 2017.

Um Histórico de Crueldade Desde 2017

À medida que a denúncia de Bruna ganhava corpo, um quadro de violência e negligência começou a ser desenhado. Os depoimentos de mais de 30 testemunhas, entre pais e ex-professoras, convergiam para um padrão de comportamento abusivo que se repetia em duas instituições conectadas: a Escola Sonharte e o Berçário e Escola Ciclo de Amor.

As acusações centrais recaem sobre Aline Graziela Daher da Silva Felipe, diretora e proprietária da Escola Sonharte, e se estendem à sua irmã, Evellyn Jamylly Daher, gestora do Berçário e Escola Ciclo de Amor. Uma terceira irmã, Rita, também é mencionada como cúmplice, vigiando as professoras e aplicando castigos como beliscões.

Os relatos, detalhados e consistentes, descrevem uma rotina de terror que desafia a compreensão. As formas de abuso eram variadas e aplicadas a crianças de todas as idades, de bebês de quatro meses a crianças de nove anos, incluindo aquelas com necessidades especiais. A premeditação era uma marca dos atos, com as agressoras desligando as câmeras de segurança em momentos estratégicos para ocultar os crimes.

Formas de Agressão e Tortura Documentadas

Os testemunhos pintam um retrato de sadismo e total desumanidade. As práticas relatadas vão muito além de maus-tratos, configurando verdadeiras sessões de tortura física e psicológica:

  • Violência Física Extrema: As agressões eram parte do cotidiano. Crianças eram alvo de tapas no rosto, puxões de cabelo, beliscões e mordidas. Depoimentos chocantes descrevem bebês sendo jogados no chão, sacudidos violentamente e tendo suas cabeças batidas contra a parede. A prática de forçar uma criança a morder outra também foi relatada.
  • Tortura com Água: O chuveiro da creche, que segundo relatos estava estragado, era usado como instrumento de tortura. As crianças eram queimadas com água fervente ou submetidas a banhos de água gelada como forma de punição, sendo forçadas a permanecer com as roupas molhadas por horas.
  • Castigos e Humilhação: As crianças eram submetidas a castigos cruéis, como serem deixadas de pé sob o sol quente. O abuso psicológico era constante. Aline apelidava as crianças de “chorume” e ria de pais surdos que se comunicavam por língua de sinais, fazendo chacota deles na frente de outras pessoas.
  • Negligência Alimentar e o Castigo da Fome: A alimentação era precária e usada como arma. O cardápio frequentemente consistia em angu de fubá ou bolachas de sal para crianças em período integral. Quando havia carne moída, era em quantidade ínfima. Bolos eram feitos com água para “economizar”. Pior, a comida era negada como forma de punição. Bruna relata que Aline comia o lanche de seu filho e bebia seu leite, deixando-o com fome. Para forçar as crianças a comer, as agressoras tampavam sua respiração até que engolissem.
  • Ocultação Sistemática: A premeditação era evidente. As agressoras desligavam as câmeras de segurança durante os horários de banho, almoço e sono, períodos em que as crianças estavam mais vulneráveis e as agressões eram mais intensas. O ambiente de trabalho era de constante intimidação, com Aline usando o nome do marido, um policial, para ameaçar as funcionárias e garantir seu silêncio.

Violência e Tortura em Berçários de Goiânia – O Impacto do Trauma

A violência sofrida na primeira infância, especialmente em um ambiente que deveria ser de segurança e confiança, deixa marcas que transcendem o corpo. A neurociência e a psicologia do desenvolvimento são unânimes em afirmar que o estresse tóxico, gerado por experiências de abuso e negligência, tem um impacto devastador e duradouro no cérebro em formação.

O cérebro de um bebê ou de uma criança pequena é uma estrutura em rápida expansão, altamente plástica e, por isso mesmo, extremamente vulnerável. A exposição contínua a situações de medo e agressão ativa de forma crônica os sistemas de resposta ao estresse do corpo, como a liberação de cortisol. Em níveis elevados e persistentes, esse hormônio pode danificar a arquitetura cerebral, afetando áreas cruciais para a aprendizagem, a memória e o controle emocional, como o hipocampo e o córtex pré-frontal.

As consequências para o desenvolvimento são múltiplas e podem se manifestar de diferentes formas ao longo da vida. Crianças que vivenciam traumas complexos, como os descritos no caso de Goiânia, apresentam um risco aumentado para o desenvolvimento de:

  • Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): Caracterizado por pesadelos, flashbacks, hipervigilância e comportamentos de evitação.
  • Dificuldades de Aprendizagem e de Atenção: A capacidade de concentração e de aquisição de novas habilidades fica comprometida.
  • Problemas de Regulação Emocional: A criança pode apresentar explosões de raiva, agressividade, ou, no extremo oposto, um estado de apatia e retraimento.
  • Dificuldades de Socialização: A quebra da confiança nos cuidadores primários pode levar a um padrão de apego inseguro, dificultando a construção de relacionamentos saudáveis no futuro.
  • Transtornos de Ansiedade e Depressão: O sentimento de desamparo e a visão de mundo como um lugar perigoso podem predispor a quadros de ansiedade e depressão que podem perdurar até a vida adulta.

Os relatos das mães de Goiânia corroboram o que a ciência descreve. Muitas notaram mudanças significativas no comportamento de seus filhos: medo de ir à escola, terror noturno, agressividade repentina, choro constante e uma tristeza profunda.

São os sinais visíveis de um sofrimento invisível, a manifestação externa de uma ferida interna que precisa ser cuidada com urgência e competência. O acompanhamento psicológico especializado para essas crianças e suas famílias não é um luxo, mas uma necessidade imperativa para mitigar os danos e tentar reconstruir as bases para um desenvolvimento saudável.

A Batalha por Justiça

Com as denúncias formalizadas e as evidências em mãos, incluindo o laudo do corpo de delito de Leo, que confirmou a compatibilidade da lesão com uma mordida de adulto, a luta de Bruna e das outras mães entrou em uma nova fase: a batalha contra a burocracia do sistema de justiça. A frustração com a lentidão das investigações e a sensação de impunidade das acusadas tornaram-se um novo fardo.

“O boletim de ocorrência nem virou inquérito policial ainda”, desabafa Bruna, evidenciando a morosidade do processo. A principal preocupação das famílias é que os crimes, que ocorrem desde 2017, sejam tratados como “casos isolados” de lesão corporal, o que resultaria em penas brandas.

A luta é para que o Ministério Público entenda a situação como um concurso de crimes materiais, incluindo tortura, maus-tratos e cárcere privado, o que poderia levar a uma condenação mais severa e à prisão das responsáveis.

Nesse contexto, a visibilidade se tornou a principal arma. “Quanto mais visível, mais pressão as autoridades sentem”, afirma Bruna. A mobilização social e a exposição do caso na mídia se mostraram ferramentas decisivas.

A pressão da opinião pública fez com que o Ministério Público e a delegacia chamassem Bruna para depor. No entanto, a batalha está longe de ser vencida. As acusadas chegaram a registrar um boletim de ocorrência por calúnia e difamação contra Bruna, em uma clara tentativa de intimidação. “Eu não tenho medo”, retruca a mãe, determinada a continuar.

Este caso exemplifica a importância do controle social sobre as instituições. A vigilância constante da comunidade e a cobrança por transparência e celeridade são fundamentais para garantir que o sistema funcione e que a justiça não se perca nos labirintos da burocracia. A união das mães, transformando a dor individual em uma força coletiva, tem sido o motor que impulsiona o caso, mostrando que a sociedade civil organizada é uma força importante na defesa dos direitos humanos.

Documento Produzido Pela Bruna Araújo

Falha Sistêmica

O horror revelado nos berçários de Goiânia não pode ser atribuído apenas à crueldade de indivíduos. Ele expõe uma falha sistêmica profunda na fiscalização e no controle de qualidade das instituições de educação infantil no Brasil. Como é possível que estabelecimentos onde se praticava a tortura de maneira rotineira permanecessem em funcionamento, recebendo crianças e a confiança de seus pais?

Uma das creches, segundo as denúncias, sequer possuía a regulamentação necessária para funcionar. Isso levanta questões críticas sobre os processos de licenciamento e a supervisão contínua desses serviços. Quem é responsável por fiscalizar? Com que frequência essas fiscalizações ocorrem? Quais são os critérios avaliados?

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 53, assegura o direito da criança ao “respeito, à liberdade e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento”. O Estado tem o dever de garantir que esse direito seja cumprido em todos os espaços, especialmente naqueles que se propõem a cuidar e educar. O caso de Goiânia mostra uma lacuna perigosa entre a lei e a prática.

Além disso, o relato de que denúncias anteriores, feitas por professoras ao Conselho Tutelar, não foram levadas a sério, é particularmente alarmante. O Conselho Tutelar é a porta de entrada do sistema de garantia de direitos, e sua omissão ou ineficácia pode ter consequências trágicas. É preciso investigar a fundo por que os alertas não foram ouvidos e responsabilizar os agentes públicos que possam ter sido negligentes.

Este caso deve servir como um catalisador para uma revisão completa dos mecanismos de fiscalização. É preciso criar protocolos mais rigorosos, com inspeções surpresa, canais de denúncia anônima para funcionários que sejam eficazes e protegidos, e um sistema de credenciamento que avalie não apenas a estrutura física, mas também o projeto pedagógico e a qualificação dos profissionais.

A transparência, com a publicação de relatórios de fiscalização e a criação de um selo de qualidade para as instituições que cumprem os requisitos, poderia ser um caminho para dar mais segurança aos pais.

Prevenção e Educação

Enquanto a justiça não segue seu curso e as torturadoras não são punidas, a sociedade precisa se voltar para a prevenção. A violência contra a criança é um problema complexo, e seu enfrentamento exige uma abordagem integrada, que envolve educação, conscientização e vigilância constante.

Para pais e responsáveis: É crucial manter um canal de diálogo aberto e de confiança com os filhos. As crianças precisam saber que podem contar com seus pais para relatar qualquer coisa que as incomode. Além da conversa, a observação atenta é uma ferramenta poderosa. Mudanças súbitas de comportamento, como as descritas anteriormente, devem ser um sinal de alerta. É importante também conhecer a rotina da creche, os profissionais que cuidam do seu filho e participar ativamente da vida escolar.

Para profissionais da educação: A formação continuada é essencial. Professores e cuidadores precisam ser treinados para identificar os sinais de abuso (físicos, emocionais e comportamentais) e para saber como agir diante de uma suspeita. Devem conhecer os protocolos de denúncia e se sentirem seguros para reportar irregularidades, mesmo que isso signifique denunciar seus superiores.

Para a sociedade em geral: A proteção da criança é uma responsabilidade coletiva. A máxima de que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” se aplica também à sua proteção. Vizinhos, amigos e familiares devem estar atentos. Se você ouvir ou presenciar algo suspeito, não se omita. A denúncia é um ato de cidadania e pode salvar uma vida.

Os canais de denúncia existem e devem ser utilizados. O Disque 100 (Disque Direitos Humanos) é um serviço nacional, gratuito e anônimo, que funciona 24 horas por dia. Além dele, os Conselhos Tutelares e as Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) são os órgãos competentes para receber e investigar as denúncias.

O caso de Goiânia é um doloroso alerta da vulnerabilidade de nossas crianças e da maldade de que alguns seres humanos são capazes. Mas é também uma história sobre a força e a coragem de uma mãe que se recusou a aceitar o inaceitável.

A luta de Bruna Araújo Brasil é a luta por Leo e por todas as outras crianças. É um chamado à ação para que, como sociedade, estejamos à altura da nossa mais importante responsabilidade: garantir um futuro seguro, digno e feliz para as próximas gerações.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo