CrimesEm Destaque

30 – O Silêncio Que Grita – Vítimas de Abuso Sexual e a Revitimização

Uma investigação sobre vítimas de abuso sexual infantil, cultura do silêncio, trauma, revitimização e a falha das políticas públicas no Norte do Brasil

Vítimas de Abuso Sexual e a Revitimização – Em um relato doloroso, uma ativista e figura pública, cuja identidade será preservada a seu pedido, abre as portas de sua história. A conversa conta a história de uma vida marcada por adversidades extremas, violência e abandono, mas também por uma extraordinária capacidade de se reerguer e transformar a dor em propósito.

A história de Jéssica [nome fictício], está intrinsecamente ligada à realidade de inúmeras crianças e mulheres na vasta e complexa região amazônica, serve como um chamado à ação, um testemunho da resiliência do espírito humano e um retrato cru de um Brasil que muitos preferem ignorar.

Esta reportagem vai além da superfície dos fatos. Investigaremos as raízes da violência que ela descreve, explorando conceitos como a “circulação de crianças” e o trabalho infantil doméstico, práticas normalizadas na Amazônia que escondem graves violações de direitos humanos.

O artigo também conta com o apoio e esclarecimentos do doutor Alan Nogueira, psicólogo, psiconeurologista e pesquisador e de um agente de polícia local que prefere se manter no anonimato.


As Vítimas da Violência – Vítimas de Abuso Sexual e a Revitimização

Aos 20 anos, em uma manhã que deveria ser como qualquer outra em uma grande metrópole brasileira, um evento traumático redefiniu o curso da vida de Jéssica. Enquanto realizava sua caminhada matinal, um ritual de autocuidado e paz, foi vítima de um abuso sexual.

A reação imediata, como ela mesma descreve com uma honestidade cortante, foi a de se culpar, um fardo pesado e injusto que muitas mulheres que passam por situações semelhantes carregam em silêncio. Ela relata que se sentiu suja e que a culpa era sua, questionando o que fazia na rua às 5h30 da manhã. Essa autoculpabilização, um veneno que corrói a alma, manifestou-se de forma física, direcionada às suas próprias pernas, que, em sua percepção, falharam em salvá-la. Ela conta que correu de seu agressor, mas por não saber correr, cansou e foi alcançada.

Mas Jéssica não tinha 20 anos quando começou a conhecer a violência. Já era mãe de três filhos, tendo engravidado aos 13, 15 e 17 anos. Ela não tinha, naquela época, a consciência que tem hoje sobre o que havia acontecido com ela, afirmando que era uma jovem vulnerável e não sabia.

Um dos aspectos mais cruéis do abuso sexual infantil é a culpa que muitas vítimas carregam. Mesmo crianças muito pequenas podem desenvolver a sensação de que são responsáveis pelo que aconteceu. Essa culpa, segundo o Dr. Alan Nogueira, tem origem na dificuldade da criança em compreender a dinâmica do abuso.

Na segunda infância, a criança já consegue perceber alguns movimentos e situações, mas ainda não tem maturidade suficiente para entender o significado e a gravidade do que está acontecendo. Ela sabe que algo está errado, mas não consegue nomear ou processar essa percepção. Quando cresce, essa confusão se transforma em culpa.

“Porque essa criança, ali na segunda infância, já consegue perceber alguns movimentos, mas ela não entende ainda o significado, a narrativa, o ato daquilo. Que um adulto está manipulando, que um adulto está chantageando, que um adulto está coagindo ou violentando, sexual ou psicologicamente. Então, ela sabe o que está acontecendo, entre aspas, mas não entende.”

É fundamental que as vítimas de abuso compreendam que elas não são responsáveis pelo que aconteceu. A responsabilidade é exclusivamente do agressor. O que a vítima precisa fazer, na vida adulta, é se responsabilizar pelo seu próprio cuidado e pela sua cura, mas nunca pela violência que sofreu.

No dia seguinte ao abuso que aconteceu aos 20 anos, em um ato de desafio e determinação, ela tomou uma decisão que mudaria sua vida para sempre. Em vez de se esconder, de se deixar consumir pela vergonha e pelo medo, calçou um par de tênis e voltou para a rua.

Era um domingo. Começou a correr. A corrida, naquele momento, não era um esporte, mas um exorcismo. Ela confessa que ia para o meio da rua para enfrentar seus próprios demônios e que era quando chorava sem que ninguém visse. A rua, palco de seu trauma, tornou-se também o palco de sua libertação. O que começou como um treinamento para autodefesa, um juramento silencioso de que ninguém nunca mais a tocaria daquela forma, evoluiu para algo muito maior, uma verdadeira metamorfose.

Em apenas dois meses, sua dedicação e sua presença constante nas ruas chamaram a atenção. Uma mulher, intrigada com sua rotina, a convidou para participar de uma competição. A jovem, ainda incerta de seu potencial, aceitou. Para sua surpresa, conquistou o sétimo lugar entre os dez premiados.

O seu desempenho notável, fruto de uma disciplina forjada na dor, não passou despercebido. Um técnico a viu no pódio e a convidou para um teste em um prestigioso clube de futebol. Ela foi aprovada e, assim, iniciou uma carreira como atleta profissional.

As mesmas pernas que um dia culpou por sua vulnerabilidade se tornaram a fonte de sua força, de suas conquistas e de sua independência. Ela afirma ter ressignificado a dor do abuso e que, como atleta, conquistou todos os seus prêmios e que foram suas pernas que pagaram todos os seus estudos. Ela se define pela força de suas pernas, aquelas que antes não sabiam correr.

Segundo o psicólogo, o abuso sexual infantil deixa marcas profundas na vida da vítima, que podem se manifestar de diferentes formas ao longo da vida. O estresse pós-traumático, a depressão, a ansiedade, a esquizofrenia e outros transtornos psiquiátricos são comuns em vítimas de abuso.

Além dos transtornos psiquiátricos, o abuso também pode levar a comportamentos regressivos, como fazer xixi na cama, chupar o dedo e se isolar socialmente. Esses comportamentos, que são normais em crianças pequenas, tornam-se um sinal de alerta quando persistem por muito tempo ou quando aparecem em crianças mais velhas.

“Já conheci pessoas em atendimento clínico, atendi pessoas de 60, 70 anos que foram abusadas e que nunca tinham conseguido falar para ninguém, justamente porque sempre foram ensinadas a silenciar mulheres, até mesmo homens”, explica Allan.

“E isso pode gerar, sim, um impacto tão forte que essa pessoa fica se sentindo desonesta consigo mesma. Isso causa uma perturbação psicológica, uma ruminação psicológica muito alta, de uma sensação de não estar vivendo, de que não viveu o que gostaria de fato, por conta de tantas dores, tantos sofrimentos que foram ali encarregados por outra pessoa, pelo comportamento disfuncional de outra pessoa, pelo comportamento doentio de outra pessoa”, diz o psicólogo.  

Na vida adulta, o trauma do abuso pode ressurgir em forma de depressão, ansiedade, pânico, dificuldade de estabelecer vínculos afetivos e transtornos sexuais. Muitas vítimas de abuso relatam sentir uma sensação de desonestidade consigo mesmas, como se não estivessem vivendo a vida que gostariam de viver.


As Raízes da Violência: A “Adoção Amazônica” e a Servidão Invisível

A história de Jéssica, no entanto, não começa no asfalto da cidade grande. Suas raízes estão fincadas em um solo muito mais complexo e doloroso: o da Amazônia profunda, onde foi mãe aos 13, 15 e 17 anos. Ela se descreve como uma “vulnerável que não sabia”, resumindo a condição de invisibilidade e desproteção que marcou sua infância e adolescência. Ela descreve um ambiente onde a violência era normalizada e o silêncio, uma regra de sobrevivência.

Um dos aspectos mais chocantes de sua juventude foi a tentativa de um casamento forçado para esconder uma gravidez, fruto de um abuso que ela só compreenderia como tal anos mais tarde.

Queriam casá-la à força com uma pessoa que ela nem conhecia e que não era o pai do bebê. Como se recusou, foi ameaçada de ter sua filha entregue na maternidade assim que nascesse. A violência não era apenas física, mas também psicológica, minando sua identidade e seu direito mais básico: o de ser mãe.

Após o nascimento da filha, foi proibida de demonstrar afeto, uma crueldade que deixa marcas indeléveis. Ela conta que não podia dar amor à filha, pois se o fizesse, era chamada de “vagabunda”. Quando a bebê chorava e lhe pediam para cantar, ela não sabia. Então, arrancavam a criança de sua mão e batiam em seu rosto até sangrar a boca, par que aprendesse a cantar.

Aquilo criou um bloqueio. Ela não conseguia cantar. O trauma se manifestava em sua incapacidade de expressar amor através da música. Aos 14 anos, decidiu fugir. Mas a família escondeu sua filha. Ela foi embora sem a menina, para viver como moradora de rua em uma grande cidade.

Anos depois, voltou e buscou sua filha, levando-a para morar consigo. Mas o relacionamento entre as duas, até hoje, é afetado por aquele início traumático. Ela sente que o relacionamento é “congelado”, como se quisesse se aproximar da filha, mas não conseguisse.

Essa dinâmica familiar disfuncional estava inserida em um contexto social mais amplo, o da chamada “circulação de crianças” ou “adoção amazônica”. Como aponta a pesquisadora Maria Angelica Motta-Maués em seu artigo “Uma mãe leva a outra(?): práticas informais (mas nem tanto) de ‘circulação de crianças’ na Amazônia”, essa prática, embora muitas vezes vista como um ato de solidariedade, pode esconder graves violações de direitos.

A entrevistada foi criada por uma família que praticava esse costume. Sua mãe de criação, após perder um filho que nasceu morto, passou a acolher outras crianças. O marido dela saiu e voltou com uma criança no colo, que ela batizou com o nome de Aparecida. Jéssica acredita que, talvez por algum dano emocional ou psicológico, sua mãe de criação passou a pegar filhos dos outros para criar.

Mas esse acolhimento, no relato da entrevistada, mascarava uma realidade de exploração. Ela explica que, nas décadas de 60, 70 e 80, era comum na Amazônia que famílias pegassem crianças para criar como filhos, mas que, na realidade, muitas acabavam servindo como empregadas e sendo abusadas.

O artigo de Camila Lourinho Bouth e Sandra Suely Moreira Lurine Guimarães, “O COSTUME DA EXPLORAÇÃO: TRABALHO INFANTIL DOMÉSTICO ESCRAVO NA AMAZÔNIA, ENTRE CONTINUIDADES HISTÓRICAS.”, aprofunda essa análise, conectando a circulação de crianças à servidão doméstica. As autoras argumentam que essa prática “desencadeia forma culturalmente tolerada de trabalho escravo doméstico, interseccionando relações de gênero, classe e raça no contexto Amazônico”. A história da entrevistada é um exemplo vivo dessa tese.

O seu pai de criação era um abusador. Embora não a tenha tocado, abusava de sua própria filha biológica, que tinha uma deficiência física. Ela nasceu com a úvula partida e não falava muito bem. A mãe, por sua vez, impôs o silêncio. A ativista conta que sua irmã de criação ficou cega e louca, sendo internada mais de 10 vezes em manicômios.

A dor, segundo ela, é muito grande para essas crianças, e ela viu sua irmã enlouquecer. As marcas são profundas e atrapalham a vida da pessoa, que descobre que não vale a pena, que não foi amada nem protegida. E se não foi protegida, não merece proteção, perpetuando o ciclo do abandono. É como se ninguém a escutasse, e por isso, ela desiste de gritar.

Houve uma ruptura entre Jéssica e sua mãe de criação depois que ela fugiu de casa. A mãe tentou sequestrar sua filha, mas não conseguiu. Foi então que a filha mais velha da mãe de criação, aquela que havia sido abusada pelo pai, se jogou no chão em posição fetal e revelou o que o pai havia feito com ela.

Foi nesse momento que a ativista entendeu que seu pai de criação era um abusador sexual que violentava as próprias filhas.


O Grito das Crianças do Norte: Uma Missão de Vida

Foi a imagem de uma criança desaparecida que reabriu as feridas do passado da ativista e a impulsionou para a ação. A foto da menina, um símbolo da vulnerabilidade de tantas outras, funcionou como um espelho e um catalisador.

Ela conta que, ao ver a foto, voltou a viver toda a dor e a lembrar de tudo. E foi nesse momento que percebeu que precisava fazer alguma coisa. Ela diz que todas as noites escuta o grito daquela menina querendo voltar para casa.

Ela explica que, na região, muitas crianças são assassinadas quando ameaçam revelar a identidade de seus abusadores. Segundo ela, esse é o destino de muitas crianças que sabem quem é o abusador e pensam em contar para alguém. Por isso, por tradição, todas se calam. O medo, a vergonha e a falta de proteção impõem o silêncio.

O agente de polícia conta que, quando trabalhou na região de Oiapoque, Amapá, viu uma criança de 11 anos grávida de um garimpeiro.

De acordo com o agente, a família foi denunciada quando a criança já estava com 5 meses de gestação e, depois de 15 dias da denúncia ficou sabendo, através de um conselheiro tutelar que a criança pediu para voltar para o seu abusador.

“Tia, deixa eu ir lá com ele, lá ele me dá comida, lá ele me dá as coisas ele cuida de mim”, revela o agente.

O agente também conta a história de uma menina de 8 anos abusada pelo padrasto e outra de dois anos, estuprada pelo vizinho na ausência da mãe que deixou a bebê sozinha em casa.

Essas histórias são corriqueiras na região e o silêncio impera e causa mais vítimas cada hora que passa.

A própria maneira de se vestir de Jéssica, sempre coberta, é um reflexo desse trauma, um comportamento que ela observa em muitas outras vítimas. Ela questiona se já repararam como ela se veste, sempre tão coberta.

Muitos pensam que ela pertence a um determinado grupo religioso por causa de suas roupas, mas ela não pertence. É o mesmo comportamento das meninas abusadas que passam a andar com casacos grandes para não serem olhadas. Ela observa que a maior parte das crianças vítimas de abuso sexual começa a se cobrir completamente.

Em sua atuação, a ativista se depara constantemente com a negação, a conivência e a negligência. Jéssica relata um caso emblemático em que salvou uma menina que era abusada pelo namorado da avó, com o conhecimento da própria avó e dos pais da criança.

Ela chegou na escola e viu a menina com roupas que cobriam todo o corpo, identificando o padrão de uma vítima de abuso. Ela abraçou a menina e disse em seu ouvido que Deus a tinha ouvido e a enviado para salvá-la. A menina começou a chorar e perguntou se Deus a amava, pois rezava todas as noites pedindo para ser salva.

A menina contou que era abusada há quase três anos pelo namorado da avó, e que a avó sabia. Quando chamaram a avó para ir ao Conselho Tutelar, descobriram que a irmãzinha da menina também era abusada pelo mesmo homem. O pai das meninas disse que sabia, mas que quem ia fazer justiça era Deus. A mãe disse que não era para ele ter falado que eles sabiam, para acobertar por conta do escândalo na igreja. A família preferia proteger a imagem do abusador a fazer um escândalo.

A ativista ficou furiosa. Ela conta que gritou com a mãe, esquecendo sua posição de destaque, e a chamou de “o próprio diabo”. Quando foram para a delegacia, os três – a avó, a mãe e o padrasto – disseram que não sabiam. A criança, então, foi chamada de mentirosa. A equipe da ativista conseguiu tirar as crianças da guarda da família e levá-las para a casa de uma tia. Elas não separaram as duas crianças, pois, segundo Jéssica, isso poderia gerar mais traumas e medo de denunciar no futuro.

Ela também conta o caso de uma mulher em um estado do Norte que ofereceu a própria filha de sete anos para um pesquisador por R$ 50 reais. A mãe teria dito que o preço aumentaria quando a menina menstruasse. A mulher levava a criança na casa para ser abusada, e o dinheiro era para comprar comida.

Essa cultura do acobertamento, segundo a entrevistada, é alimentada pela vulnerabilidade social e econômica da região. A falta de desenvolvimento, de educação de qualidade e de infraestrutura cria um ambiente propício para a exploração. Ela descreve a situação como uma “vida selvagem, onde todos se devoram”, onde as pessoas são vulneráveis e foram abandonadas à própria sorte.

Os próprios órgãos de proteção, como os Conselhos Tutelares, sofrem com a falta de recursos básicos, como carros e combustível, o que impede uma atuação eficaz. Ela questiona como os conselheiros podem fazer uma busca ou uma visita sem os meios necessários.

Ela relata que essa é a realidade em toda a região Norte. Para ela, a proteção à criança é usada por muitos políticos apenas como discurso eleitoreiro, sem ações concretas. Ela desafia as pessoas a perguntarem a esses políticos quantos conselhos tutelares eles visitaram ou se já foram à casa de uma vítima. Ela mesma afirma não ter vídeos seus em casas de vítimas, pois seu objetivo é proteger a criança, e não expô-la.


A Perpetuação dos Ciclos de Violência

A ativista observa que muitas vítimas de abuso perpetuam o ciclo de violência de formas variadas. Ela conta a história de uma amiga muito próxima, também de origem indígena, que foi vítima de abuso sexual pelo tio e pelos primos.

A vítima se casou com uma mulher, mas um dia foi surpreendida ao descobrir que a companheira estava grávida de um homem. A ativista conta que e a aconselhou, dizendo que a companheira havia seguido o ciclo da vida, enquanto a vítima estava perpetuando o abusador em sua vida.

Ela explica que o homem que toda mulher sonha em ter é um protetor, alguém que cuide dela. E o homem que sua amiga conheceu foi quem a abusou sexualmente. Foram vários: o tio e os primos. Então, ela perpetuou os abusadores em sua vida e foi sentir prazer com uma mulher.

Ela também aborda a controversa questão de crianças que se identificam como transgênero. Para ela, quando uma criança passa por uma questão identitária da sexualidade, é porque essa criança já foi abusada.

Ela questiona se, ao permitir a transição de gênero, não se está apenas mutilando o corpo da criança com hormônios em vez de tratar a dor do abuso. Ela acredita que, nesses casos, o abuso continua presente e latente na cabeça da criança.

Jéssica também critica a frase “toda forma de amor é válida”, que considera de uma “violência ímpar”, pois, segundo ela, se toda forma de amor é válida, então seria válida com crianças, o que deixa as crianças confusas.

Ela acredita que, quando se ensina uma criança a aceitar todos os toques, ela começa a aceitar que tudo é normal. E quando se hipersexualiza as crianças, ativa-se um gatilho para que achem que tudo é normal.

A ativista faz uma análise sobre o comportamento dos abusadores sexuais, afirmando que alguns também foram abusados e perpetuam o ciclo porque o consideram normal. A forma como o abusador age é o que os diferencia: uns podem matar, outros podem variar.


A Família como Prova de Resiliência

Apesar de um início de vida marcado pela fome, pela violência e pela incerteza, a entrevistada conseguiu construir uma família sólida e bem-sucedida, um testemunho de sua força e de sua capacidade de quebrar ciclos destrutivos.

Seus três filhos, criados em meio a muitas dificuldades e privações, são hoje profissionais realizados, a prova viva de que a pobreza não determina o caráter. A filha mais velha tem hoje 37 anos e é biomédica e esteticista. O do meio tem 34 anos e é biomédico com mestrado em um país europeu, onde mora. A caçula tem 31 anos, é formada em Relações Internacionais e está concluindo o curso de Medicina.

Ela revela que os filhos passaram muita fome quando crianças. Jéssica, para aplacar a fome dos filhos, os instruía a fazer amizade com a tia da cozinha na escola, pois não tinha comida em casa. Eles almoçavam na escola e voltavam para casa alimentados.

O filho do meio, em uma demonstração precoce de responsabilidade e amor, aos 12 anos, começou a trabalhar como animador de festas para ajudar em casa. Ele se vestia de palhaço e animava festas todo final de semana para ganhar dinheiro. Com o que ganhava, comprava milho para fazer pipoca, que se tornou o alimento da família nos finais de semana. E assim, foram sobrevivendo.

A vida só melhorou mesmo depois que ela ingressou em um emprego público. Antes disso, seus filhos sonhavam em ter as coisas que as outras crianças tinham. Ela nunca lhes dizia que não era possível. Criou o que chama de “caderno de sonhos”, onde eles anotavam tudo o que desejavam. Ela prometia que, quando crescessem e ela tivesse um emprego, daria a eles tudo o que estava escrito ali.


Os Sinais do Abuso e a Necessidade de Vigilância

A ativista identifica padrões de comportamento em crianças abusadas que são cruciais para a identificação e proteção. Ela menciona as automutilações, a introspecção e a vestimenta, com a criança passando a usar roupas compridas e inadequadas.

Jéssica conhece uma menina com autismo que foi alvo de um predador online. A Polícia Federal apreendeu o telefone da criança, que a mãe havia dado para ela brincar, e descobriu que um homem havia entrado em contato e começado a assediar a criança. O comportamento da menina, segundo a ativista, já era o de uma criança sexualmente ativa.

Ela também menciona um caso recente em que um colega a procurou para relatar que havia conhecido uma moça que estava indo denunciar um homem que abusou da filha dela pela segunda vez. A família do homem alegava que ele era esquizofrênico. A ativista respondeu que, se ele é esquizofrênico, é um perigo para a sociedade e precisa ser preso. Ela considera que a esquizofrenia, nesse caso, é uma desculpa para manter o ciclo do abuso e justificar a violência sexual.


A Natureza do Abuso: Para Além das Marcas Físicas

Quando se fala em abuso sexual infantil, a imagem que frequentemente vem à mente é a de uma criança com marcas físicas, hematomas que evidenciam a violência sofrida. No entanto, a realidade é muito mais complexa e, por vezes, sutil. O Dr. Alan Nogueira, neuropsicólogo, explica que o abuso vai muito além da agressão física. Ele pode ser psicológico, estrutural, familiar e até mesmo social.

“Por muitas vezes, o abuso sexual não é considerado abuso. Porque as pessoas imaginam que elas precisam ter, muitas vezes, marcas, provas para poder caracterizar o abuso. Então elas pensam muitas vezes que é somente o abuso sexual, o corpo com algum hematoma, o corpo com alguma marca ou alguma outra questão física. Mas o abuso sexual também pode ser psicológico, pode ser estrutural, pode ser familiar, pode ser também emocional de tantas formas, ou até mesmo social.”

Essa visão ampliada do abuso é fundamental para que a sociedade possa identificar e combater o problema de forma mais eficaz. A negligência, a sexualização precoce e a exposição a conteúdos inadequados nas redes sociais são exemplos de como o abuso pode se manifestar de maneiras não tão óbvias. A forma como a criança é tratada na família, na escola e na comunidade pode, em si, configurar uma forma de abuso.


O Silêncio da Vítima: Um Grito Mudo por Socorro

Um dos maiores desafios no combate ao abuso sexual infantil é o silêncio das vítimas. Muitas crianças demoram anos, ou até mesmo a vida inteira, para revelar o que aconteceu. O Dr. Alan Nogueira explica que existem diversos fatores que contribuem para esse silêncio, desde a dificuldade da criança em compreender que está sendo abusada até a manipulação exercida pelo agressor.

Quando o abusador é uma figura de autoridade, como um pai, um tio, um professor ou um líder religioso, a situação se torna ainda mais delicada. A criança, por confiar e respeitar essa pessoa, pode não entender que o que está acontecendo é errado. O abusador, por sua vez, muitas vezes caracteriza a violência como uma “brincadeira”, distorcendo a realidade da criança e manipulando-a emocionalmente.

Fatores neurobiológicos também desempenham um papel importante no silêncio da vítima. Em crianças que estão na puberdade, por exemplo, o cérebro pode interpretar os estímulos do abuso de forma confusa, gerando uma resposta biológica que pode ser interpretada como prazer. Isso não significa que a criança esteja consentindo com o abuso, mas sim que o seu cérebro, em desenvolvimento, está sendo enganado.


O Papel da Família: Entre a Dúvida e a Culpa

A família, que deveria ser o principal porto seguro da criança, muitas vezes se torna mais uma barreira para a revelação do abuso. Mães, avós e outros responsáveis podem duvidar da palavra da criança, ou até mesmo culpá-la pelo que aconteceu. Essa reação, segundo o Dr. Alan Nogueira, pode ter raízes culturais e históricas.

“Camila, possivelmente uma questão cultural, social, histórica do nosso país, que foi colonizado, então foi muitas vezes ali sucateado e não validado. As crianças aí parecem ter um papel de não valorização. A gente acaba não valorizando o que essa criança está dizendo.”

A falta de validação da palavra da criança, somada à manipulação exercida pelo abusador, que muitas vezes chantageia a família, cria um ambiente de silêncio e cumplicidade. A mãe ou a avó, por medo de perder o suporte financeiro ou a estrutura familiar, pode acabar se calando, tornando-se, também, uma vítima da violência psicológica do agressor.


Sinais de Abuso: A Linguagem Não-Verbal do Sofrimento

Quando a criança não consegue verbalizar o abuso, o seu sofrimento se manifesta de outras formas. O Dr. Alan Nogueira aponta alguns dos sinais mais frequentes que podem ser observados no consultório:

  • Desenhos: A criança pode representar o abuso em seus desenhos, de forma simbólica ou explícita.
  • Brincadeiras: A encenação do abuso em brincadeiras pode ser um sinal de que algo está errado.
  • Choro e raiva excessivos: A criança pode apresentar mudanças bruscas de humor, com crises de choro ou de raiva sem motivo aparente.
  • Oposição e medo: A criança pode se tornar opositora a tudo o que é falado e apresentar medos excessivos.
  • Alegria excessiva: Em alguns casos, a criança pode apresentar uma alegria excessiva, como forma de mascarar o sofrimento.

É importante ressaltar que esses sinais, isoladamente, não são suficientes para diagnosticar o abuso. No entanto, quando eles aparecem de forma recorrente e associados a outros comportamentos atípicos, é fundamental que os pais e responsáveis busquem ajuda profissional.


O Sistema de Justiça: A Longa Espera por Reparação

A demora na investigação e no julgamento dos casos de abuso sexual infantil é um dos maiores entraves para a punição dos agressores e para a reparação das vítimas. Essa espera, que pode durar meses ou anos, provoca um grande sofrimento emocional na criança, que se vê obrigada a reviver o trauma a cada novo depoimento.

A revitimização, que ocorre quando a criança é exposta a múltiplos relatos em diferentes órgãos (delegacia, IML, conselho tutelar, etc.), é extremamente prejudicial. O Dr. Alan Nogueira explica que a criança, cansada e desanimada, pode não conseguir manter a mesma versão dos fatos em todos os depoimentos, o que pode ser interpretado como uma contradição e prejudicar a investigação.

“Porque essa criança vai precisar falar várias vezes uma versão do que lhe aconteceu e, muitas vezes, ela não vai conseguir fazer isso. Ela está tão cansada, ela está tão depressiva, desanimada, revoltada, sentida, preterida, silenciada, que como ela vai conseguir falar a mesma versão para todo mundo? É humanamente impossível.”

A falta de preparo de alguns profissionais que atuam no sistema de justiça também contribui para a revitimização. A ausência de uma escuta atenta e de uma análise clínica especializada pode levar a erros de avaliação e a decisões que agravam o trauma da criança.


As Consequências Psicológicas do Abuso

O abuso sexual infantil deixa marcas profundas na vida da vítima, que podem se manifestar de diferentes formas ao longo da vida. O estresse pós-traumático, a depressão, a ansiedade, a esquizofrenia e outros transtornos psiquiátricos são comuns em vítimas de abuso.

Além dos transtornos psiquiátricos, o abuso também pode levar a comportamentos regressivos, como fazer xixi na cama, chupar o dedo e se isolar socialmente. Esses comportamentos, que são normais em crianças pequenas, tornam-se um sinal de alerta quando persistem por muito tempo ou quando aparecem em crianças mais velhas.

Na vida adulta, o trauma do abuso pode ressurgir em forma de depressão, ansiedade, pânico, dificuldade de estabelecer vínculos afetivos e transtornos sexuais. Muitas vítimas de abuso relatam sentir uma sensação de desonestidade consigo mesmas, como se não estivessem vivendo a vida que gostariam de viver.


A Cura Pela Fala: A Importância da Terapia

A psicoterapia é fundamental para ajudar a vítima de abuso a processar o trauma e a reconstruir a sua vida. Existem diversas abordagens terapêuticas que podem ser utilizadas, como a terapia cognitivo-comportamental, a ludoterapia e a psicoterapia psicodinâmica. A escolha da abordagem mais adequada dependerá do contexto de cada criança e de sua família.

Em alguns casos, a intervenção medicamentosa pode ser necessária para tratar os sintomas de ansiedade, depressão e outros transtornos psiquiátricos. No entanto, é importante ressaltar que a medicação, por si só, não é suficiente para curar o trauma. Ela deve ser utilizada como um complemento à psicoterapia.


Prevenção e Apoio

O combate ao abuso sexual infantil é um compromisso de toda a sociedade. É preciso criar políticas públicas de assistência à saúde, investir na formação de profissionais e promover campanhas de conscientização. A escola, a família e a comunidade têm um papel fundamental na prevenção do abuso e no apoio às vítimas.

O Dr. Alan Nogueira defende a criação de núcleos de apoio às vítimas de violência, com equipes multiprofissionais especializadas. Esses núcleos teriam como objetivo oferecer um atendimento integrado à criança e à sua família, desde o momento da denúncia até o final do processo terapêutico.

É preciso, acima de tudo, que a sociedade aprenda a ouvir as crianças, a validar a sua palavra e a protegê-las de todas as formas de violência. O silêncio que hoje encobre o abuso sexual infantil precisa ser rompido, para que as vítimas possam, finalmente, encontrar a paz e a justiça que merecem.

A Amnésia Traumática: Quando o Cérebro Protege e Aprisiona

Um dos fenômenos mais intrigantes relacionados ao abuso sexual infantil é a amnésia traumática. Muitas vítimas desenvolvem sintomas dissociativos e só conseguem acessar as memórias do abuso na adolescência ou na vida adulta. O Dr. Alan Nogueira explica que esse mecanismo é uma forma de proteção do cérebro diante de um sofrimento insuportável.

Quando a criança passa por um trauma tão intenso, o cérebro pode não conseguir processar a experiência de forma adequada. Como mecanismo de defesa, ele cria fantasias, distorce a realidade e, em alguns casos, bloqueia completamente as memórias do abuso. Essa estratégia permite que a criança continue vivendo, mas ao custo de carregar um sofrimento silencioso que, mais cedo ou mais tarde, se manifestará.

“Porque essa criança, diante dos estudos, diante também da experiência clínica, passa ali por um sofrimento tão intenso que o cérebro acaba atrofiando, inflamando tanto que não consegue, naquela situação, naquela condição, naquele momento, compreender. Então, o que o cérebro faz? Fantasia. Fantasia muito. Ideias, sentimentos e emoções.”

Com o amadurecimento do cérebro e a exposição a novos estímulos ambientais, físicos, sociais e psicológicos, as memórias reprimidas podem começar a emergir. Esse processo, embora necessário para a cura, pode ser extremamente doloroso. A vítima pode experimentar flashbacks, pesadelos, crises de ansiedade e outros sintomas do estresse pós-traumático.

A inflamação cerebral causada pelo trauma não é apenas uma metáfora. Estudos mostram que o estresse crônico pode levar a alterações neuroquímicas significativas, com redução dos níveis de serotonina e dopamina e aumento dos hormônios do estresse. Essas alterações podem ter consequências duradouras na saúde mental e física da vítima.


A Culpa da Vítima: Um Peso Insuportável

Um dos aspectos mais cruéis do abuso sexual infantil é a culpa que muitas vítimas carregam. Mesmo crianças muito pequenas podem desenvolver a sensação de que são responsáveis pelo que aconteceu. Essa culpa, segundo o Dr. Alan Nogueira, tem origem na dificuldade da criança em compreender a dinâmica do abuso.

Na segunda infância, a criança já consegue perceber alguns movimentos e situações, mas ainda não tem maturidade suficiente para entender o significado e a gravidade do que está acontecendo. Ela sabe que algo está errado, mas não consegue nomear ou processar essa percepção. Quando cresce, essa confusão se transforma em culpa.

“Porque essa criança, ali na segunda infância, já consegue perceber alguns movimentos, mas ela não entende ainda o significado, a narrativa, o ato daquilo. Que um adulto está manipulando, que um adulto está chantageando, que um adulto está coagindo ou violentando, sexual ou psicologicamente. Então, ela sabe o que está acontecendo, entre aspas, mas não entende.”

É fundamental que as vítimas de abuso compreendam que elas não são responsáveis pelo que aconteceu. A responsabilidade é exclusivamente do agressor. O que a vítima precisa fazer, na vida adulta, é se responsabilizar pelo seu próprio cuidado e pela sua cura, mas nunca pela violência que sofreu.


A Negligência Institucional: Quando a Escola Falha em Proteger

A escola é um dos ambientes onde a criança passa a maior parte do seu tempo. Por isso, os profissionais da educação têm um papel fundamental na identificação e no combate ao abuso sexual infantil. No entanto, muitas vezes, a escola percebe os sinais de abuso, mas não age. Essa omissão pode configurar negligência institucional.

O Dr. Alan Nogueira reconhece que as escolas enfrentam desafios significativos, como a falta de profissionais e a sobrecarga de trabalho. No entanto, ele defende que qualquer pessoa que trabalhe na escola, seja professor, coordenador ou diretor, tem a obrigação de agir quando percebe que algo não está certo.

“Eu acredito que pode sim, na minha visão como profissional sim, porque a gente precisa desse momento. Gene. Visualizar. Gene. perceber, mas claro, diante uma escola lotada, diante de poucos profissionais, é muito difícil. Porém, se tiver um corpo que possa auxiliar é necessário.”

Quando a escola não age, a criança pode crescer com sentimentos de culpa, estresse e ansiedade ainda mais intensos. Ela pode interpretar a omissão da escola como uma confirmação de que o que está acontecendo é normal, ou de que ela não merece ser protegida.


O Abuso Intrafamiliar: A Traição da Confiança

Quando o agressor é alguém da família ou do convívio próximo, o impacto emocional do abuso é ainda mais devastador. A criança, que deveria encontrar segurança e proteção em casa, se vê traída por aqueles que mais ama. Essa traição da confiança pode ter consequências profundas no desenvolvimento emocional e social da criança.

O Dr. Alan Nogueira explica que, nesses casos, a criança pode reagir de diferentes formas. Algumas se calam, por medo ou por vergonha. Outras desenvolvem uma grande revolta contra a família e contra as pessoas que deveriam protegê-las. Em ambos os casos, o sofrimento é imenso.

“Com certeza existe. Se essa figura é representativa para essa criança, para essa pessoa em sofrimento de abuso. Ela vai com certeza ou silenciar ou totalmente ali também pode ter uma grande revolta contra essa família, contra as pessoas que estão ali responsáveis por ela.”

A manipulação e a chantagem exercidas pelo agressor tornam a situação ainda mais complexa. A criança pode ser levada a acreditar que o abuso é uma forma de amor, ou que ela será responsável pela destruição da família se revelar o segredo. Essa distorção da realidade pode levar a criança a sofrer em silêncio por muitos anos.


A Somatização do Trauma: Quando o Corpo Fala

O trauma do abuso sexual infantil não se manifesta apenas na mente. Muitas vítimas desenvolvem sintomas físicos, em um processo conhecido como somatização. Dores crônicas, fibromialgia, problemas gastrointestinais, doenças de pele e outras condições médicas podem ter origem no sofrimento psicológico não tratado.

O Dr. Alan Nogueira relata que já atendeu pessoas de 60 e 70 anos que foram abusadas na infância e que nunca conseguiram falar sobre o assunto. Essas pessoas carregam um sofrimento silencioso que se manifesta em forma de doenças físicas e psicológicas.

“Muito. Já conheci pessoas em atendimento clínico, atendi pessoas de 60, 70 anos que foram abusadas e que nunca tinham conseguido falar para ninguém, justamente porque sempre foram ensinadas a silenciar mulheres, até mesmo homens. E isso pode gerar, sim, um impacto tão forte que essa pessoa fica se sentindo desonesta consigo mesma.”

A somatização é uma forma do corpo expressar o que a mente não consegue processar. É um grito de socorro que, muitas vezes, não é ouvido. Por isso, é fundamental que os profissionais de saúde estejam atentos aos sinais de trauma psicológico em pacientes com queixas físicas sem causa aparente.


A Intervenção Medicamentosa

Embora a psicoterapia seja o tratamento de primeira linha para vítimas de abuso sexual infantil, em alguns casos a intervenção medicamentosa se torna necessária. O Dr. Alan Nogueira explica que a medicação pode ser indicada quando há um rompimento com a realidade, insônia grave, sentimentos intensos de inutilidade e incapacidade, ou quando o sofrimento cerebral é muito alto.

Os transtornos mais comuns que podem requerer tratamento medicamentoso incluem ansiedade crônica, depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e transtorno de personalidade borderline. É importante ressaltar que a medicação deve ser prescrita por um psiquiatra e acompanhada de perto, pois cada caso é único e requer uma abordagem individualizada.

“Com certeza a intervenção medicamentosa pode ser necessária. E os casos muitas vezes são de ansiedade crônica, de depressão, de bipolaridade, de esquizofrenia, de borderline, enfim, N possibilidades e necessidades terapêuticas que vão sendo ali colocadas para que se tenha esse amparo.”

A medicação, no entanto, não deve ser vista como uma solução definitiva. Ela é uma ferramenta que pode ajudar a estabilizar o paciente e permitir que ele se beneficie da psicoterapia. O objetivo final é que a vítima consiga processar o trauma e desenvolver estratégias de enfrentamento saudáveis.


O Papel da Família na Cura: Apoio Incondicional

A família tem um papel central no processo de cura da vítima de abuso sexual infantil. No entanto, para que esse papel seja desempenhado de forma adequada, é preciso que a família compreenda a gravidade da situação e esteja disposta a oferecer apoio incondicional à criança.

O Dr. Alan Nogueira enfatiza que a família precisa ser a principal rede de apoio da criança. Isso significa ouvir a criança com atenção e respeito, acreditar na sua palavra e não culpá-la pelo que aconteceu. Infelizmente, nem todas as famílias conseguem oferecer esse tipo de apoio.

“A família, com certeza, precisa ser rede de apoio principal. Não tem como. Às vezes, não é, infelizmente, porque nem todo mundo tem, claro, a possibilidade de ter uma família de cuidado que tenha cuidado. Mas é necessário que a gente eduque também, a gente mesmo e as famílias, a sociedade, as comunidades, sobre essa necessidade de não confrontar apenas essa criança, de não falar que ela está mentindo.”

Quando a família tenta abafar o caso ou retira a denúncia, o impacto psicológico na vítima é devastador. A criança pode se sentir desvalorizada, descartada e culpada. Esses sentimentos podem acompanhá-la por toda a vida, dificultando a sua recuperação.


Comportamentos Regressivos: Sinais de Alerta

Comportamentos regressivos, como fazer xixi na cama, chupar o dedo e se isolar socialmente, são comuns em crianças que sofreram abuso sexual. No entanto, é importante saber diferenciar esses comportamentos de manifestações normais do desenvolvimento infantil.

O Dr. Alan Nogueira explica que toda criança passa por fases de regressão, especialmente em momentos de estresse ou mudança. No entanto, quando esses comportamentos são frequentes e persistentes, eles podem ser um sinal de que algo está errado.

“Toda criança com certeza passa pela primeira infância, pela segunda infância. Mas esse comportamento de regressão vai ser continuado, ele vai ser frequente. A criança que tem ali um comportamento natural, típico, neurotípico. Ela está dentro do esperado para essa fase que ela está.”

É fundamental que os pais e responsáveis estejam atentos a esses sinais e busquem ajuda profissional quando necessário. A identificação precoce do abuso pode fazer uma grande diferença na recuperação da criança.


A Inflamação Cerebral: O Impacto Físico do Trauma

O Dr. Alan Nogueira utiliza uma metáfora interessante para explicar o impacto do trauma no cérebro: assim como o estômago e o intestino inflamam quando ingerimos alimentos inadequados, o cérebro também inflama quando é exposto a estímulos traumáticos.

Essa inflamação cerebral não é apenas uma figura de linguagem. Ela se manifesta em alterações neuroquímicas reais, com redução dos níveis de neurotransmissores como serotonina e dopamina, e aumento dos hormônios do estresse. Essas alterações podem levar a sintomas como dor de cabeça, fadiga, dificuldade de concentração e instabilidade emocional.

“Sim, Camila, com certeza pode inflamar, assim como qualquer, por exemplo, alimentação que a gente come que não está muito boa, não é verdade? O estômago, o intestino inflamam, o cérebro também inflama, dependendo dos estímulos que são ali colocados na nossa mente.”

A inflamação cerebral causada pelo trauma pode ter consequências duradouras na saúde mental e física da vítima. Por isso, é fundamental que o tratamento do abuso sexual infantil inclua não apenas a psicoterapia, mas também o cuidado com a saúde física e o bem-estar geral da criança.


A Justiça e a Sociedade

O combate ao abuso sexual infantil não é responsabilidade apenas do sistema de justiça. Toda a sociedade precisa se mobilizar para proteger as crianças e garantir que os agressores sejam punidos. Isso inclui a criação de políticas públicas eficazes, a formação de profissionais especializados e a promoção de campanhas de conscientização.

O Dr. Alan Nogueira defende que o abuso sexual infantil é uma questão de saúde pública. Por isso, é preciso investir em políticas de assistência à saúde, com a criação de núcleos de apoio especializados e a formação de equipes multiprofissionais.

“Sim, com certeza, eu acredito que não só da justiça, mas de toda a sociedade e essas comunidades que precisam ter esse conhecimento. Precisam ter políticas de assistência à saúde pública, porque isso é uma questão de saúde pública.”

Além disso, é fundamental que o sistema educacional seja reformado para promover uma cultura de respeito e igualdade. O condicionamento social que ensina meninos a se sentirem superiores às meninas, e meninas a se calarem, precisa ser combatido desde cedo.


A Punição e o Tratamento

A punição dos agressores é fundamental para garantir a justiça e proteger outras crianças. No entanto, o Dr. Alan Nogueira defende que a punição deve ser acompanhada de tratamento. Muitos agressores têm comportamentos disfuncionais que precisam ser tratados para que eles não voltem a cometer o mesmo crime.

“É preciso punir devidamente, é preciso punir com consciência, com necessidades, com tratamento. Porque senão a gente fica sem a possibilidade de melhoria de um povo, de toda uma sociedade mesmo.”

Essa abordagem, que combina punição e tratamento, é mais eficaz na prevenção de novos casos de abuso. Ela reconhece que o abuso sexual infantil é um problema complexo, que requer soluções igualmente complexas.


A Falta de Recursos

Um dos maiores desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil é a falta de recursos. Faltam profissionais especializados, políticas públicas eficazes, assistência à saúde e engajamento da sociedade. Essa carência de recursos deixa muitas crianças desprotegidas e sem acesso ao tratamento de que precisam.

O Dr. Alan Nogueira lamenta essa situação e defende que é preciso escolher a criança como prioridade. Isso significa investir em políticas públicas que garantam a proteção e o bem-estar das crianças, desde a prevenção do abuso até o tratamento das vítimas.

“Eu acredito que faltam profissionais, faltam políticas públicas, falta assistência, falta saúde coletiva, faltam realmente especializações, falta realmente também esse engajamento de todo um povo, de toda uma sociedade, de toda política, nesse sistema único de saúde, nesse sistema que necessita de amparo, de escolha, necessita escolher a criança.”


Transtornos Psiquiátricos: As Marcas Invisíveis do Abuso

As vítimas de abuso sexual infantil têm maior risco de desenvolver transtornos psiquiátricos ao longo da vida. O estresse pós-traumático, a depressão, a ansiedade e a esquizofrenia são alguns dos transtornos mais comuns. Esses transtornos podem ter um impacto significativo na qualidade de vida da vítima, afetando suas relações sociais, seu desempenho profissional e sua saúde física.

O Dr. Alan Nogueira explica que esses transtornos são causados pela perda de neurotransmissores decorrente do sofrimento intenso vivenciado pela criança. Quando o abuso não é reconhecido pela família ou pelo judiciário, o sofrimento é ainda maior, pois a vítima se sente desvalidada e desprotegida.

“Com certeza, o estresse pós-traumático, a depressão, a ansiedade maior, a esquizofrenia, porque essa criança perde muitos neurotransmissores pelo sofrimento desencadeado por esse comportamento dos abusadores ou das abusadoras diante de tantos cenários, mesmo das dificuldades que cada uma possui naquele momento.”

É fundamental que as vítimas de abuso tenham acesso a tratamento psiquiátrico e psicológico adequado. Sem esse tratamento, muitas delas acabam se tornando pacientes psiquiátricos crônicos, com uma qualidade de vida muito reduzida.


Abordagens Terapêuticas

Existem diversas abordagens terapêuticas que podem ser utilizadas no tratamento de vítimas de abuso sexual infantil. O EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), a terapia cognitivo-comportamental, a ludoterapia e a psicoterapia psicodinâmica são algumas das opções disponíveis.

A escolha da abordagem mais adequada depende de vários fatores, incluindo a idade da criança, o contexto familiar, a gravidade do trauma e as preferências da vítima. Algumas crianças podem se beneficiar mais de uma abordagem lúdica, enquanto outras podem precisar de uma terapia mais focal e estruturada.

O Dr. Alan Nogueira enfatiza que não existe uma abordagem única que funcione para todos os casos. É preciso avaliar cada situação individualmente e adaptar o tratamento às necessidades específicas de cada criança.

“Todas as abordagens nesse sentido podem ajudar a promover essa estimulação. Essa compreensão. Muitas vezes algumas crianças precisam de uma abordagem um pouco mais focal, por conta do contexto familiar, por conta do contexto de saúde mesmo, neurológica e saúde física também.”


Núcleos de Apoio

Uma das principais propostas do Dr. Alan Nogueira para melhorar o atendimento às vítimas de abuso sexual infantil é a criação de núcleos de apoio especializados. Esses núcleos teriam equipes multiprofissionais, incluindo psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, médicos e advogados, e ofereceriam um atendimento integrado à criança e à sua família.

A ideia é que a criança não precise mais peregrinar por diferentes órgãos, repetindo a sua história várias vezes. Em vez disso, ela seria atendida em um único local, onde todos os profissionais trabalhariam de forma coordenada para garantir a sua proteção e recuperação.

“Com certeza que a gente tivesse núcleos de apoio a esse sofrimento, as violências não só da criança, mas de uma família também. Então se a gente identifica como que a gente pode cuidar daquilo ali dentro de um núcleo, dentro de um centro organizado, multiprofissional para esse tipo de questão.”

Essa proposta tem o potencial de reduzir significativamente a revitimização e melhorar os resultados do tratamento. No entanto, para que ela seja implementada, é preciso vontade política e investimento em recursos humanos e materiais.


Campanhas de Prevenção

Além da criação de núcleos de apoio, o Dr. Alan Nogueira defende a realização de campanhas de prevenção ao longo de todo o ano, e não apenas em datas específicas. Essas campanhas deveriam ser realizadas nas escolas, nas igrejas, nas comunidades e em todos os espaços onde as crianças estão presentes.

O objetivo dessas campanhas é conscientizar a população sobre o abuso sexual infantil, ensinar as crianças a reconhecer situações de risco e encorajar as vítimas a denunciar. A educação é uma ferramenta essencial na prevenção do abuso.

“E também, principalmente, as nossas campanhas de prevenção, as nossas campanhas voltadas a cada movimento, não só uma vez no ano, mas pelo menos quatro vezes no ano, aí em bimestres, por exemplo, para que a gente consiga agregar mais valores, para que a gente consiga conscientizar mais pessoas.”

A prevenção do abuso sexual infantil é um trabalho de longo prazo, que requer o envolvimento de toda a sociedade. Somente com educação, conscientização e políticas públicas eficazes será possível proteger as crianças e garantir que elas cresçam em um ambiente seguro e saudável.


Um Futuro Sem Silêncio

O abuso sexual infantil é uma realidade que não pode mais ser ignorada. As consequências desse crime são devastadoras e podem acompanhar a vítima por toda a vida. No entanto, com o apoio adequado, é possível que as vítimas se recuperem e reconstruam suas vidas.

A entrevista com o Dr. Alan Nogueira mostra que o combate ao abuso sexual infantil requer uma abordagem abrangente, que envolva a família, a escola, o sistema de justiça e toda a sociedade. É preciso ouvir as crianças, acreditar na sua palavra e oferecer-lhes o apoio de que precisam.

É preciso, acima de tudo, romper o silêncio que encobre o abuso. Somente quando o silêncio for quebrado, as vítimas poderão encontrar a justiça e a paz que merecem. E somente quando a sociedade assumir a sua responsabilidade na proteção das crianças, será possível construir um futuro em que o abuso sexual infantil seja apenas uma triste memória do passado.

A luta contra o abuso sexual infantil é uma luta de todos. Cada um de nós tem um papel a desempenhar, seja como pai, mãe, professor, profissional de saúde ou simplesmente como cidadão. Juntos, podemos criar um mundo mais seguro para as nossas crianças, onde elas possam crescer livres de violência e de medo.


A Violência Sexual Infantil na Amazônia

A realidade descrita pela ativista não é um caso isolado. Dados sobre violência sexual infantil na região Norte do Brasil são alarmantes, embora frequentemente subnotificados devido à cultura do silêncio e à falta de infraestrutura para denúncias. A Amazônia, com sua vastidão geográfica e suas comunidades isoladas, apresenta desafios únicos para a proteção de crianças e adolescentes.

A vulnerabilidade econômica é um dos principais fatores que contribuem para a perpetuação desses ciclos de violência. Famílias em situação de extrema pobreza, sem acesso a educação de qualidade, saúde e oportunidades de trabalho digno, tornam-se alvos fáceis para redes de exploração. A prática da “circulação de crianças”, como documentado por pesquisadores, embora possa ter origem em tradições de solidariedade comunitária, frequentemente se transforma em uma porta de entrada para o trabalho infantil e o abuso sexual.

A falta de presença efetiva do Estado na região agrava ainda mais a situação. Conselhos Tutelares sem recursos, delegacias distantes, ausência de profissionais especializados em atendimento a vítimas de violência sexual e a precariedade do sistema de justiça criam um ambiente de impunidade. Os abusadores sabem que as chances de serem denunciados e punidos são mínimas, o que os encoraja a continuar com suas práticas.

Além disso, há um componente cultural que não pode ser ignorado. Em muitas comunidades, especialmente as mais isoladas, ainda persiste a ideia de que crianças são propriedade das famílias e que o que acontece dentro de casa não deve ser questionado. Essa mentalidade, combinada com a normalização da violência e com crenças religiosas que pregam o perdão e o silêncio, cria barreiras quase intransponíveis para que as vítimas busquem ajuda.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo